sexta-feira, 16 de março de 2012

Uauá. Parte 5: as panelas de barro

Coisa difícil é eu ir para lugar que tenha boa argila e tradição em panelas de barro e não voltar com a mala pesada. Além de frutas, grãos, artesanatos, doces e invariavelmente alguma muda de planta engarrafada, sempre há espaço para umas panelas ou vasinhos esculpidos cuidadosamente. 

Conforme a região, as peças ganham desenhos muito típicos, com grafismos particulares do lugar e isto me tira um pouco do prumo do juízo, por não ter mais onde guardar estas peças.  Mas, na medida do possível, vou usando no dia-a-dia. 
E também porque os preços são sempre tão convidativos. Em Uauá, comprei algumas peças de dois produtores diferentes. O caldeirãozinho da foto, por exemplo, paguei só R$ 4,00! Sem torno, erguidas do barro bruto ou construídas em rolinhos, brunidas com seixos ou outros improvisos, avermelhadas com tauá ou decoradas com caulim, são sempre únicas - e por isto, irresistíveis. 


Da mesma terra sai o barro para a panela e o alimento cultivado que vai dentro dela, com união batizada pelo fogo.   Saber lidar com estas coisas, plantar,  fazer panelas e cozinhar, é a verdadeira síntese da auto-suficiência. Eu já aprendi um pouco das três coisas, só falta praticar. 


Não é incomum você andar pelos povoados de Uauá e ver panelas de barro descansando ao sol depois de ter dado duro sobre as chamas de lenha de algaroba para a feitura do feijão macio do almoço, do feijão de corda, da carne de bode.  


Nas várias conversas sobre o umbu, ouvimos sempre a referência ao aribé, um tacho grande de barro, com cerca de 70 centímetros de diâmetro. Segundo Joana, era utensílio indispensável no enxoval da moça que ia se casar. Nele era feito, entre outras coisas, farinha de milho torrado. Seu Waldemar conta que ia catar umbu no mato pra chupar, mas também trazia um tanto pra casa porque a mãe enchia um aribé com a fruta para comer no almoço com feijão.  E o feijão é sempre cozido em caldeirões de barro, que panela de pressão é perigosa, pode estourar, sem falar que o feijão cozido assim, lentamente, fica muito melhor, pega o gostinho do barro e da fumaça. Hum..., com umbu, laranja, melancia ou farinha, Nhac!  (ainda vou falar do umbu e da Coopercuc, mas só na semana que vem).

Na casa da Jussara

Feijão na casa da Joana

Secando na casa do Isaias e da Edite

Arroz integral, na casa da Joana

Feijão de caldo na casa da Terezinha

Arroz vermelho com abóbora na panela de Uauá, na casa da Neide (eu)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Pão de forma de abóbora com mandioca. Ou quinta sem trigo 47

Como disse ontem, agora por aqui tudo leva abóbora e por isto aproveitei para fazer este pão, que a rigor não poderia ser chamado assim, mas por uma semelhança estilística, pela resistência suficiente para abrigar um recheio e pela possibilidade de iludir crianças e adultos que não podem comer trigo, vamos chamá-lo de pão. E não é só pra quem não pode comer trigo, pois acho gostoso o bastante para agradar qualquer pessoa que queira dar uma folga ao trigo e uma função nova para a mandioca - a de espessante. 


A massa é praticamente a mesma do bolo doce que já dei aqui, que foi nascendo a partir da torta de massa de mandioca que já dei acolá.  Descobri um equilíbrio entre abóbora, mandioca, ovos, gordura e farinha de mandioca que não mudo nunca. A abóbora pode ser substituída por cenoura - já dei também a receita deste bolo aqui. O que mudei agora foi o formato e o sabor, que virou salgado. Se não quiser fazer em forma de pão,  esta massa pode ser usada ainda para preparar aqueles bolos salgados chamados de torta de liquidificador. 




Pão de forma abóbora com mandioca 
5 ovos
1/2 xícara de azeite 
180 g de mandioca crua, sem casca, picada (cerca de 1 e 1/4 de xícara)
180 g de abóbora madura com casca, crua, picada (cerca de 1 e 1/2 xícara)
3 colheres (chá) de açúcar
1 colher (chá) de sal - sempre rasas as colheres
1 xícara de farinha de mandioca branca e fina (como mostro na foto dos ingredientes)
1 colher (sopa) de fermento em pó
1 pitada de sementes de salsinha ou endro ou erva-doce ou alcaravia - opcional, para semear por cima 
Coloque no liquidificador os ovos e o óleo. Com o aparelho ligado vá juntando os legumes picados. Bata tudo até ficar um creme liso. Passe para uma tigela e junte os demais ingredientes. Misture bem até a massa ficar bem homogênea. Unte com óleo ou manteiga uma forma de bolo inglês (com cerca de 20 centímetros de comprimento). Polvilhe com farinha de mandioca. Despeje a massa, semeie as sementes e leve ao forno médio pré-aquecido. Deixe assar por cerca de 40 minutos ou até ficar com a superfície dourada e soltando das beiradas da forma. Espere esfriar para fatiar. 
Rende: cerca de 20 fatias

quarta-feira, 14 de março de 2012

Pão de abóbora de Piracaia

Abóboras de Piracaia

Abóboras, milho de pipoca, almeirão, vagens orelha-de-padre, tomatinhos
e até sorgo do Senegal. Em se plantando, tudo dá!
 
Desde aquela primeira abóbora que colhemos em Piracaia, que encontramos ao acaso, alimento primeiro daquela terra, muitas abóboras já vieram. Não ficamos uma semana sem elas. Tem pão,  polenta, bolos, antepastos, curau, spatzle etc. Ela é cozida no arroz, com quiabo, na carne-seca, na sopa, recheada, comida com leite e açúcar. E o melhor, ninguém enjoa. Melhor ainda é que faço de tudo com ela, menos doce - se gostasse, estaria perdida.  Fora a abóbora maior que vem do pé já existente ou de sementes dela, todas as outras são raças de Fartura. 


Só agora vi que já tinha aqui um pão muito parecido com o que dou agora, mas fiz com as referências que já tenho impregnadas, sempre com algumas modificações adaptadas ao que tenho por perto. Levei ao piquenique de domingo para comer com pasta de amendoins.  


Pão de abóbora com crosta de amêndoas 


1 envelope de fermento biológico seco (10 g)
1 1/2 xícara de água morna 
1 colher (sopa) de sal 
3 colheres (sopa) de açúcar 
500 g de abóbora madura cozida, fria, sem a casca - cerca de 2 xícaras da polpa amassada 
1 ovo 
Farinha de trigo até dar o ponto - cerca de 1 quilo (pode variar conforme a umidade da abóbora)
4 colheres (sopa) de azeite 
100 g de amêndoas picadas (ou amendoins com ou sem pele, picados)

Numa tigela, misture o fermento com um pouco da água. Deixe dissolver até formar um creme. Junte o restante da água, o açúcar e o sal e misture bem. Adicione a abóbora em purê, o ovo e o azeite e misture bem. Se quiser, passe esta mistura pelo liquidificador para ficar bem lisa. Vá juntando farinha de trigo aos poucos. Quando ficar difícil de mexer, passe a massa para uma superfície de trabalho enfarinhada e comece a trabalhar com as mãos, juntando farinha à medida que amassa, até formar uma massa homogênea, lisa, modelável, que se solte das mãos. A massa deve ser colocada novamente na tigela, coberta com plástico ou um pano. Espere crescer até dobrar de volume (caso não tenha experiência com pães, faça uma bolinha com a massa e deixe num copo com água em temperatura ambiente – quando ela subir à superfície, a massa certamente estará no ponto). Divida a massa em três ou quatro e molde os pães compridos ou redondos.  Umedeça os pães com água e role-os sobre as amêndoas picadas reservadas (ou amendoins).  Coloque-os numa assadeira grande, untada e polvilhada, deixando espaço entre eles. Deixe crescer novamente por cerca de meia hora ou até os pães dobrarem de volume. Faça cortes com lâmina afiada, leve ao forno preaquecido bem quente (280 ºC) e deixe assar por 10 minutos. Abaixe o fogo para 230 ºC e deixe assar por cerca de 50 minutos. Os pães devem ficar bem dourados. Se preferir, polvilhe os pães com farinha e coloque as amêndoas na massa.  Sirva com pasta de amendoins. 

Rende: 3 a 4 pães  

terça-feira, 13 de março de 2012

Uauá. Parte 5: A água


Venha cá, Neide, eu vou lhe mostrar o lugar mais lindo que você nunca viu, o lugar que você vai guardar no seu coração, que você vai querer voltar toda vida aqui, que é o lugar mais lindo de lindo do mundo, que você vai dizer pra todos seus amigos, que você nunca na vida vai esquecer, calma, calma, que está chegando, você vai ter uma surpresa, que você vai ficar emocionada de ver, que vai contar pro seu pai e pra sua mãe que viu um lugar mágico de maravilhoso.  E assim Joaninha, filha de Nenê, irmã de Pietro, sobrinha de Jussara, neta de Joana, foi saltitando com pezinhos descalços se arriscando nos espinhos de xique-xique e cabeça-de-frade, me conduzindo pelas mãos, emendando uma palavra na outra sem vírgulas mas com ritmo, fantasiando frases adultas. Pietro, mais tímido, seguia atrás, em silêncio, correndo pra compensar os passos curtos. 


Viu, eu não tinha razão? Miúda, atravessou a cerca de arame farpado como uma cabritinha, seguida pelo irmão, pra me mostrar de perto.  Confesso que tive que disfarçar meu ar de decepção quando vi uma pocinha rasa quase barrenta e esverdeada no fundo de um poço de pedra - um pequeno açude.  Mas disfarcei bem, a tempo de perceber a importância daquela pequena poça de água que ainda resiste sob o sol forte e a estiagem de meses. Imaginei a beleza daquela visão na época das chuvas. É esta água, que sobe por força de motor até a caixa d´água, que abastece a água encanada da casa destinada para banhos e limpeza e que tem cheiro de lodo. Para beber e cozinhar, a água limpa, clara e inodora,  vem da cisterna, que recolhe água no período das chuvas. 


Há por lá também quem tenha dom de encontrar cacimbas (poço, como conheço). Algumas pessoas, usando hastes de arame, galhos ou cipós, segurados em duas mãos,  tem sensibilidade para detectar onde tem água no subsolo. Segundo Joana, tem gente que descobre não só o ponto, mas sabe a qualidade, a profundidade e a vasão. Há quem não distingua água de minério, há quem não saiba a vasão nem a profundidade e há aqueles que não distinguem água salobra de água boa. Então, os que acertam sempre são excessivamente requisitados para um trabalho que não se costuma cobrar. Mas a perfuração de cacimbas também custa caro e os pontos não são encontrados em todas as propriedades. Veja um vídeo sobre hidroestesia aqui


Um grande açude no caminho para Bendengó - BA

As cisternas são fundamentais
Eliane, que trabalha de doméstica aqui em casa, sempre me contava da seca da caatinga que viveu na sua infância, dos baldes na cabeça para ter um pouco de água destes poços que ficavam a até 3 quilômetros de sua casa, das várias viagens que tinha que fazer. Quando, desta vez, lhe mostrei as fotos, ela contou mais, que naquela época ninguém tinha cisternas e que esta água verde era usada também para beber e cozinhar. Para limpar minimamente esta água, colocavam cal e deixavam até o outro dia. Até que o pai descobriu que a cal fazia mal e então começaram a usar a cinza do fogão. Só que o cheiro continuava e, para cozinhar, às vezes usavam esta água in natura deixando o arroz com coloração esverdeada.  Quando nem arroz havia, comiam maxixe com farinha e bucho seco frito que chegava a trincar nos dentes de tão duro. 





Nas nossas andanças por Uauá, notei que a água limpa de beber é guardada com zelo em lugar de destaque da casa. Os filtros recebem toalhinhas e capas de crochê ou pano bordado denotando a reverência. As canecas usadas para servir, areadas como prata, dão destaque ao líquido precioso. 


Para que nunca nos esqueçamos de que água é vida, é bom de vez em quando ler e/ou assistir ao Deus e o diabo na terra do Sol,  O Quinze, Guerra de Canudos, Vidas Secas. 






Ontem começou uma série sobre o assunto, na Record. Veja a lá o lugar por onde andei. A primeira parte do vídeo está aqui. Segue hoje à noite no Jornal da Record. 


Já falei da água no Senegal - veja lá, a problemática é parecida. 


segunda-feira, 12 de março de 2012

Uauá. Parte 5: Dieta da Joana na caatinga


Quer me ver morrer triste é dizer que enveneneram todos os quiabos do mundo, me disse Joana.  Mas por que a tristeza, Joana? Os quiabos não foram envenenados, não - alguns, sim, com agrotóxicos, mas não estes seus plantados aqui. A pois, respondeu ela, é como se fosse porque de todo jeito não posso comer. Como assim, Joana?  E ela me contou. 

Só então liguei os dois fatos que havia observado anteriormente.  Joana pedia pra alguém que ia ao mercado aproveitar para ver se tinha feijão mulatinho. Não, não tem. Outro ia e voltava, não, não tem feijão mulatinho, nem sabem que feijão é este.  Na hora estava ocupada com outra coisa e isto chegou de forma subliminar, mas ficou registrado:  feijão mulatinho pra lá, feijão mulatinho pra cá. Em outro momento, Joana foi à feira, fui com ela,  dizendo que iria comprar suas maçãs – olhei a caixa, vinham do Sul, de tão longe. Na banca, ficavam bem ao lado de lindas goiabas, tão cheirosas.  Seriguelas, maracujá-da-caatinga, melancias. Mas ela comprou maçãs e não pagou barato.  Sou muito palpiteira e curiosa, mas não perguntei o porque das "suas" maçãs. 

Estávamos em sua casa, na fazenda, quando  veio esta estória do quiabo e da consulta à nutricionista que consultou na cidade grande mais próxima, a 180 km dali, ainda caatinga. Pedi para ver os exames, com várias taxas alteradas,  e a recomendação nutricional. E aí sim entendi  a determinação de Joana apesar da inconformidade com as proibições.  Por que, meu Padim Cícero, por que não posso comer quiabo? E lá estava o papel, quatro páginas de dieta e orientações, com a resposta.  Mas se fosse só isto...  Ah, e por que tem que ser feijão mulatinho?  E também não encontrei atum sem ser com óleo. Comprei atum ao óleo mesmo, completou Joana. Tá difícil de seguir esta dieta, mas estou tentando, só não sei até quando. 

A dieta já começava recomendando leite de soja com manga no café da manhã e seguia com tudo aquilo que costumamos ver nas dietas de 1500 e 1800 calorias nas revista que pregam corpo perfeito:  linhaça, queijo branco, pão integral,  margarina light, filé de peixe ou peito de frango grelhado,  2 colheres  de alface, suco com adoçante, arroz integral, feijão mulatinho  ou grão de bico, lentilha e feijão branco.  No jantar, sanduíche de atum.  De sobremesa, uma fatia de laranja ou (tem sempre opções) gotas de limão.

No complemento, alimentos proibidos, a serem evitados, e os recomendados. Muito mais proibições, claro.  A começar pelos "causadores de gases por conterem muito enxofre, como quiabo, repolho, couve-flor, espinafre, ovo cozido, parmesão".  Você tem problemas com gases quando come quiabos, Joana? Eu não, e você, Neide? Mas se não pode repolho, como é que tem repolho refogado na dieta do almoço, Neide? Sei não, Joana, sei não!

Não pode ou recomenda-se não comer uma porção de coisa, até frutas ácidas como o umbu e o maracujá e ainda: vinagre, café, chá, nada. No final uma explicação que fica faltando para quem não entende o que são frutas ácidas, começando com um termo novo: “algumas vezes nos perguntamos o que são frutas cítricas. As frutas cítricas (citrinos) são as que pertencem ao gênero Citrus. Estas frutas são consideradas frutas ácidas, veja a lista com algumas delas: abacaxi, caju, tangerina, jabuticaba, laranja, limão, romã, nespera, ameixa, cidra, lima, marmelo, acerola.”   Para quem não sabe, o gênero Citrus engloba as frutas de gomos como a laranja, limão, cidras, mexericas etc. As outras frutas citadas,  de gêneros diversos, podem ser ácidas, mas não Citrus.  Mas por que não posso comer umbu, maracujá da caatinga, se é o que tem por aqui?, queria saber Joana.  E além disso não entendi nada desta coisa de fruta ácida e fruta cítrica. Se quem escreveu não sabe diferenciar frutas ácidas das frutas cítricas, Joana vai saber?  E por que? Vem cá que eu te explico, Joana.  Mas pode comer, sim.

A lista proíbe as frutas ácidas, mas recomenda alimentos ricos em fibras, como granola, aveia, barra de cereais!  Bode pode não, melhor preferir salmão, robalo, merluza e bacalhau.  Não fala nada do queijo de leite de cabra, não, mas é melhor preferir minas frescal, ricota e queijo cottage, isto está lá. 

Joana, a nutricionista quis ouvir o que você come cotidianamente ou tem ao seu dispor aqui na caatinga, a forma como você cozinha, as frutas que tem na sua feira ou os legumes que você encontra nesta época de seca?  Quis não.  Pediu para você voltar para lhe dar uma dieta de acordo com os seus gostos, corrigindo seus erros, adaptada ao seu ambiente? Pediu não. Explicou a importância da quantidade dos carboidratos consumidos para o controle da glicemia? Não. Explicou o que estava no papel ou só tirou a papelada pronta da gaveta e lhe entregou?  Tirou da gaveta. Ah, tá! 

Joana adora comer um docinho, uma raspa de manuê da panela, compota de umbu e só um cafezinho bem doce pela manhã, mas adora também feijão de corda e feijão de caldo comum  -  nem sabe que raio é este de mulatinho), quiabo, abóbora, repolho, salada, arroz integral, umbu, maracujá-da-caatinga, melancia, peixe cozido, laranja. Come pouca carne vermelha, em vez de pão come cuscuz e inhame no café da manhã, não liga pra queijo ou pra leite, não bebe álcool nem refrigerante,  não fuma e sedentarismo passa bem longe da sua casa na caatinga. Está com peso dentro da média e taxas um pouco mais altas que o recomendado - de colesterol, triglicérides e glicemia. 

É tão difícil resolver?  Ou nutrição agora é isto, um tanto-faz, um descaso pela Joana, uma escada pra lugar nenhum, e não me contaram? Felizmente isto não é regra, a julgar pelo que vejo nos nutricionistas leitores do Come-se. Mas fica o recado: conheça quem é a Joana que você atende, saiba onde ela vive, limpe bem os pés antes de entrar em sua casa, e ouça o que  ela tem a lhe ensinar. 



sexta-feira, 9 de março de 2012

Uauá. Parte 4: As plantas e as gentes na terra do sol

Joana colhe alecrim do campo na estrada para varrer e perfumar a casa 
Num lugar onde pouco chove, nada é mais verdadeiro que o dito de Joana: a vida é passageira como a chuva. Por isto ela diz não guardar mágoa. Motivos teria, mas diz que lutará até ficar velha de bastão para que o bem coletivo se sobreponha aos interesses pessoais, que nem são tão pessoais assim, afinal foi uma das pioneiras no trabalho com umbu como produto e ajudou a fundar a cooperativa quando ninguém acreditava na empreitada. Era chamada de louca, diziam que não ia dar em nada. Na hora se ofendeu, mas não desanimou, lutadora que é.  Ao contrário, seguiu agregando gente. Suas comadres moram longe longe, mas quando se vêem é como se fossem vizinhas de grito. Aliás, era no grito que ela chamava o compadre que morava longe da fazenda quando precisava de ajuda com as crianças. Ficar viúva aos 28 anos com quatro filhos e morando no Caititu, depois do rio da Zefona, naquela aridez toda, não era pra qualquer fracota. Mas, fazendo manuê e lidando com umbu, criou dignamente os filhos e ainda botou todos na faculdade.  

Joana fica na fazenda a poucos quilômetros de Caratacá, um povoado de Uauá,  mas estava na cidade para o festival do umbu. No sábado,  ficou no show até tarde da noite, mas estava ansiosa para colocar o milho de molho para o manuê de domingo. Cinco quilos de milho que no dia seguinte são escorridos e triturados para virar manuê, um bolo assado em forno de lenha que não leva nada além de milho e açúcar. Quando chegamos na fazenda, ainda bem cedo, o manuê já estava a caminho. 

No dia em que passou novamente pela cidade,  a ânsia era pra voltar pra roça a ver se o boreguinho que tinha acabado de nascer estava bem. E precisava dar comida ao cachorro e regar as plantas que não se viram sozinhas, como a pequena brilhantina que cultiva porque cura cólica mas também por ser graciosa, parecendo uma miniatura de umbuzeiro - com a pouca água de que dispõe na cisterna e o pequeno açude já com água bem próxima do barro,  fala das três ou quatro plantas ornamentais quase com culpa.  

Eu aproveitei cada minuto de sua companhia, mas foi pouco. No carro, ela ia me mostrando a paisagem e contando estórias. Jussara e Marquinhos também sabem muito e tinham paciência quando pedia para parar o carro, pegar folhinhas, anotar no caderno. Mas Joana tem aquela sabedoria que a gente da caatinga e de outros sertões do Brasil ganha com as circunstância da vida. 

A paisagem da caatinga tem uma beleza estética pouco comparável a tudo que já vi e o céu é de um azul tão extravagante, só descontinuado pelas nuvens de branco neve que iludem o olhos grudando a galhos secos, que é fácil se distrair e esquecer o verde. Mesmo sem poder ocultá-lo ou chapar em branco como o céu de Glauber Rocha no Deus e Diabo na Terra do Sol, gravado naquela caatinga, tentei me concentrar na flora. 

Este é o pau-de-rato ou catingueira, diz ela, que joga fora as folhas na seca extrema, para evitar perder água. Assim que caem umas gotas de chuva, as folhinhas verde claras brotam para colorir a caatinga e logo vêm também as flores que deixam tudo amarelo e ainda servem de comida para os animais.  Mas não se iluda com a seca verde, antes das flores, continua. Às vezes a água é tão pouquinha, que verdeja as catingueiras mas não chega a produzir alimento para os animais. Ao contrário, às vezes até mata os matinhos que já havia porque não chega a molhar o chão - apenas umedece o que está quente, que acaba apodrecendo. E esta água não é suficiente para fazer germinar as sementes destas ervas que levam até 8 dias pra despontar, se tiver água constante. Foi mais ou menos isto que Joana e Jussara me contaram. 

Cactos da caatinga
Anda descalça não, menina! Joana diz pra neta Joaninha. Pergunto o porque, já que também gosto de andar na terra. Pode, não, responde. O bode fura com as pontas o xique-xique, a cabeça-de-frade e o mandacaru-de-facho pra comer o miolo. Não é bobo, come só o miolo. Os espinhos caem no chão, vão pro seu pé e saem rasgando, me assustou. 

E como tem espinho!  Tá vendo este espinho da favela? Tem um leitinho venenoso aí dentro. Se encosta nela, é uma coceira danada, alertou. De longe, a faveleira se destaca entre a vegetação seca com suas folhas escuras, formato de azevinho, mas os espinhos na frente e no verso das folhas fazem medo. Tem bicho que gosta de faveleira, diz Joana. Ah, mas é lagarta. Come tudo as folhas dela, ficam peladinhas. E quando estão nuas em galhos,  as lagartonas aparecem, quase um palmo de tamanho, listrada, bonitas, mas também assustadoras. Sorte que tem o  pai-de-lagarta de predador. Se escapam, viram umas borboletas lindas, listradas, vermelhas, arco-iris. 

Pergunto se não tem gado, não tem porco, pois só bode eu vi. Ah, pois, começa Joana, ninguém por aqui quer criar mais gado, não. Morrem todos os bichinhos, de fome e de sede. E porco ninguém quer também, dá muito problema com os vizinhos, eles invadem as propriedades, comem a comida dos bichos dos outros, a raiz da favela, e também impistia a criação, que dá um toca, emagrece, morre. Dá o verme do porco nos bichos, que secam, torram, morrem.

Bode é que é bicho danado bom pra caatinga. Come de tudo, adora umbu, as folhas do umbu e qualquer coisa verde. Na seca ele também sofre, mas Deus é sábio que colocou na caatinga plantas que são a refrigela dos bichos na seca, diz Joana. A gente corta e dá pros bichos ou eles pegam sozinhos,  palma, juazeiro, quixabeira, mandacaru de boi, palmatória que a gente sapeca, e tantas outras. 

No caminho para a fazenda, atravessamos o rio Zefona (nome da avó) ou Cariacá, que agora é apenas uma vala por onde passa carro. E quando chove? pergunto. Que chuva, mulher? responde Marquinhos. Ué, uma hora chove. Ah, quando chove é só esperar do lado de lá ou do lado de cá. Em oito dias passa. Mas não teria que ter uma ponte?  Teria, né...  

Pau-de-rato, faveleira, flor de maracujá-da-caatinga, macambira, cansanção,
mussambê,  pinhão bravo, joá, pega-pinto, caroá
Jussara quando criança pegava a mesma trilha de hoje de Caititu para o povoado de Caratacá para ir a escola e no caminho ia comendo mocó de macambira, o broto de uma bromélia com muitos espinhos que eu tive o privilégio de conhecer quando enrosquei o pé numa moita. Um espinho pra cá e outro de encontro formando pares de garras - você solta a pele de um, o outro gruda. Dona Joana conta que na guerra de Canudos, a turma do Conselheiro atraia para os maciços de macambira  a tropa de soldados, que ali ficavam enganchados. Infelizmente, estas armas naturais logo se mostraram frágeis frente ao poderio de fogo do exército. Provei o mocó  de macambira pelas mãos do Isaias. Adocicado e crocante como um palmito novo, é uma delícia.  

Para, para o carro, deixa eu mostrar a caroá pra Neide, exige Joana. Aqui, ó, é com as fibras dela que se faz o bogó de carregar umbu. A flor salmão e gorda foi pro caderno, mas as folhas da bromélia são compridas e só vieram comigo nas fotos. O bogó é um saco trançado para carregar qualquer coisa. 

E la não para de ensinar. Isto aí que cê tá tirando foto é a malva branca, é bom pra garganta, a raiz é pra inflamação, pra banho. Na garganta, a gente até sente a carne se unir, diz Joana como grata pela dádiva.  Ali é o papu, este lagarto. Tem gente que leva o apelido de papu-do-rabo-toco, quando é assim meio atarrancado.  Viche, não chega perto do pega-pinto, este ai de flor maravilha, que ele tem uma pecinha que gruda em tudo. Os pintinhos ficam todos cobertos quando passam perto.  Neide, cheira aqui o velame! Olha que perfume!  A gente bota na carne do bode pra transportar. E o bode também come e a carne fica muito boa, não apodrece.  

Em outra viagem, Joana para para colher alecrim-da-caatinga diferente do alecrim-do-reino, bem cheiroso, bom para banhos, perfumar a casa e varrer o terreiro. Aproveita pra me mostrar o mussambê e o cansanção - não queira levar uma surra de cansanção, que coça, arde, queima. 

E o pinhão bravo , que tem por todo canto, é medicinal como quase todas as plantas de lá e Joana dizia que tinha que ter moderação pois também é perigoso, mas tem uma outra utilidade que me fez trazer muda e ficar com vontade de virar artista. A seiva misturada com carvão faz uma tinta preta que não desbota por até cem anos - na torra de madeira do telhado da casa de Joana está escrito com a tinta natural sem fixador a não ser a seiva: "assentou esta linha em 1918"! 

Algaroba na calçada de Uauá
Logo no primeiro dia do festival me chamou a atenção a uniformidade da árvores nas calçadas de Uauá. Todas algarobas, disse Joana, não nasce nada em volta. Um prefeito plantou, mas a planta não é daqui, é exótica, se espalhou, pode acabar com as plantas da caatinga, gente que não pensa antes de fazer as coisas, completou. Pelo menos aproveitam a lenha para o fogão, que ela agora podem cortar. 

Além do umbu, tem outras frutas que Joana, Jussara e Joaninha, vão me contando, me mostrando, me ensinando a comer, nem sempre ao vivo. O fruto do xique-xique é rosa choque, chique, docinho em fios. Tem as bolinhas pretas e doces da quixabeira, tem o juá, a frutinha da cabeça-de-frade e um monte de frutas de cactos. 

Agora, a caatinga de Joana não é só isto de conhecer plantas. Ela nem sabe que tanto sabe. Também reza, faz e declama poesia, compõe e canta músicas, improvisa, inventa palavras e frases cheias de ritmo e graça. Mas, não sabe porque,  se embaralha com a palavra árvore e isto a deixava encabulada, achando que iriam caçoar dela. No poema sobre umbu que compôs com o irmão e que ganhou o concurso do festival, teria que ler em três momento o trecho "a árvore" e o problema era o artigo que a fazia perder a cadência. Carol e eu a convencemos de que poderia pular a palavra porque ela era a própria árvore do poema - de umbu, de felicidade, de resistência e sabedoria. 

As folhas do meu caderno dedico à Joana Maria de Souza.


quinta-feira, 8 de março de 2012

Uauá. Parte 3: Caratacá


As pessoas por lá falam rápido e eu não conseguia reproduzir Caratacá. Saía taracacá, caracacá, tacaracá, menos caratacá. Mas quando Dona Joana me explicou a origem do nome deste povoado pacato de Uauá, não errei mais. Não sei se é verdade ou só uma regrinha mnemônica que funcionou, mas Dona Joana jura que aconteceu. No passado distante, alguns índios em passagem por uma trilha iam em fila dispersa. Uns bem mais à frente, outros lá atrás, provavelmente os que ficam de conversê. Os da frente param assustados ao ver um corpo sem cabeça. Tá certo que com reza brava tem gente que se invulta, mas invulta por inteiro. Então gritaram para os últimos: achamos um corpo. Ao que os de trás responderam: a cara tá cá, a cara tá cá! E assim nasceu o nome do povoado. A história era esta, mas fico imaginando que talvez tenham fincado uma cruz ou fizeram uma capela no lugar ao redor do qual nasceu o povoado, não sei, não apurei. Mas o nome ficou e eu não mais me esqueci: Caratacá. Que é isto: uma igreja e atrás dela um quadrado onde meninos jogam bola, alguns bancos convidativos nas margens e casas em volta com fachadas de um tempo de construtores artistas, umas diferentes das outras, lindas. Cadeiras nas calçadas, crianças na janela e mulheres que fazem bicos e bordados. E tem Dona Joana, mãe da Jussara, que vende seu manuê de milho da roça, assado no fogão de lenha, na porta do bar onde se vendem também bujões de gás e cerveja, esquina com a rodovia. Oposto à igreja, o cemitério intrigante. Como adoro a Bahia! Este lugar me fez lembrar de Mombaça. Pena que o moço que quebrou a clavícula ficou quatro dias sem médico, sem transporte. Disso também não esqueço.  





Uauá. Parte 2: O almoço do Ministro

Pirão de leite, bode com legumes, frango com molho de umbu 
Chegamos em Uauá à noite e no dia seguinte teríamos a abertura do IV Festival do Umbu, que visa a valorizar a sociobiodiversidade da caatinga e divulgar os produtos da agricultura familiar e seus produtores.  Tem um vídeo do Festival aqui (em algum momento eu apareço sentada, de verde) 


Além de representantes dos apoiadores do evento, Sebrae, Irpaa, Seagri, Sedes, Ebda etc, a presença mais esperada era, sem dúvida, a do ministro do MDA (ministério de desenvolvimento agrário), Afonso Florence. Ele chegaria para o almoço e faria a abertura do festival. 


Jussara, gerente comercial da Coopercuc e líder do convívio do Slow Food de Uauá,  me pediu para dar uma mão para a Sonia, que tem um restaurante de comida local, especialmente para fazer o frango com molho de umbu que eu tinha inventado e  que seria servido no almoço para o ministro, junto de outras delícias da cozinheira. Sorte que cheguei e parte da receita, o frango temperado e refogado, já estava pronto. Foi só fazer o molho com o que tinha e juntar na panela e, graças ao tempero prévio da Sonia e ao frescor do umbu usado, ficou muito bom, embora faltassem outros ingredientes como o quiabo e a pimenta. 

Carol fazendo a sobremesa do ministro: lampeão-e-maria bonita
Sonia, sua filha e a ajudante Andrea estavam todas preocupadas, afinal era o almoço do ministro - e para mais cinquenta convidados. Até a Carol Leone, que estava comigo, largou a câmera e ajudou a fazer uma das sobremesas - queijo de cabra com doce de umbu, que batizei de lampeão-e-maria bonita, como um romeu-e-julieta do sertão. 


Salada de umbu com cebola, tomate, pimentão e molho de umbu
Às duas horas tinha que estar tudo preparado, mas antes disso a comida estava pronta, sem atropelos, de modo a sobrar tempo para o nervosismo da espera.  Só faltava a carne de bode na brasa que Sonia decidiu assar minutos antes das duas, para que estivesse bem macia na hora do ministro. De resto, provei de tudo fresquinho, com tempero delicioso da Sonia. Feijão-de-corda, arroz, pirão de leite, bode com legumes, escondidinho de mandioca com carne de bode, panqueca com cúrcuma recheada com carne de bode, salada de legumes e salada com umbu verde, tomate e cebola que inventei de última hora, com molho agridoce de umbu. De sobremesa, além do doce com queijo,  musse de umbu com compota.

Para o escondidinho do ministro, Sonia tritura a mandioca cozida
com bastão feito com rolo de macarrão

Antes das duas fomos pra casa de Jussara trocar de roupa, tirar o avental e dar uma ajeitada no visual, afinal éramos também convidadas. Chegamos na hora exata ao restaurante e nada de ministro. A cozinha já arrumada, limpíssima, e nada de ministro. Lá perto das três, alguém liga dizendo que ele vem vindo. Todo mundo corre pra cozinha, liga os fogos pra esquentar o bode, o frango, o arroz, o feijão. Liga o forno para as panquecas, o escondidinho e o bode na brasa que já está ficando ressecado. Espera, espera e nada de ministro. Alguém liga dizendo que ele está um pouco atrasado mas que está vindo. Melhor esperar antes de esquentar tudo de novo. 



Limonada para o ministro. Uma limoneide comum com folhas de umbu
maceradas junto com rodelas de limão, açúcar e gelo 
Agora é sério, ele já está na cidade, ouvimos rojões, buzinas de carreata. Mas também, eram quase quatro horas. Vamos esquentar de novo. Espera, espera. Ligam de novo, melhor desligar os fogos. Ele chegou, mas resolveu fazer a abertura do evento antes do almoço. E abertura significa discursos de outros parceiros. Neste intervalo, tivemos tempo de rearrumar as mesas, que enfeitamos com galhos de umbu trazidos da casa de Sonia. E ainda aproveitei o ócio para criar um drinque sem álcool usando as folhas ácidas da fruta, para bebericar com as mãos nos queixo. 


Alguém liga. O ministro terminou de falar, agora é sério. Esquenta o almoço. O antes cremoso escondidinho já parecia mais firme e precisou ser cortado em quadradinhos. O bode assado, bem passado, até que ficou bem bom. O frango, já desmanchando, pegou bem o gosto do umbu e também não foi tão prejudicado. No mais, estava tudo quentinho e cheiroso ainda, embora um tanto ressequido ou cozido demais. Todo mundo sabe, tempero melhor que a fome não há, mas a alegria de quem cozinha é sempre servir sua comida em seu melhor tempo e ponto, que não foi o caso 


Mais uma meia hora para começarem a chegar e isto já eram quase seis. Antes disso, o derradeiro telefonema. O ministro foi embora.  Sonia, que esperou pacientemente, não disfarçou a tristeza junto ao cansaço.  Rapidamente o burburinho tomou conta do salão, todo mundo elogiou a comida farta e quem quis comeu sua parte e a do ministro. O fato logo virou piada quase como o banheiro do papa, mas quem perdeu foi ele. Coisa feia, Seu Ministro!


O que o senhor perdeu: