
Tá fácil, hem? Resposta e receita na segunda-feira. Bom fim de semana!
O tempo estava molhado. Aí veio um solzinho e plim. A árvore, que sempre esteve ali no meu caminho com lenho velho e úmido, de repente decidiu ouvir os segredos do mundo. Botou pra fora duas orelhas de criança, com cartilagem ainda mole, chamando para uma boa mordida. Levei as duas para casa e recorri à minha amiga chinesa, Song (Raquel), ex-sócia otorrino do Marcos, excelente cozinheira e que mora hoje nos Estados Unidos. O que recomenda que faça com elas? algo simples que eu possa preparar com o que tenho aqui em casa. A resposta veio rápido, com três sugestões:
Segundo meu guia de ajuda na identificação de cogumelos "El Gran Libro de las Setas", livro italiano traduzido para o espanhol, seu consumo é medíocre, mas se pode consumi-lo cru em salada e se usa muito na cozinha oriental. Sobre outro cogumelo espontâneo, ou cogumelo de eucalipto, já publiquei AQUI e o identifiquei graças a este guia. Agora, a receita para quem encontrar orelhas-de-pau frescas dando sopa por aí:
Carne de porco com orelha-de-pau 350 g de carne de porco cortada em tirinhas (usei bistecas desossadas, bem finas)
Não pude trazer tudo da Toscana para fazer uma autêntica minestra e quando cheguei aqui senti muita falta do cavolo nero, esta couve enrugada deliciosa, ligeiramente adocicada com um fundo amargo e muito sabor crucífero. Mas felizmente, já indo embora o friozinho, consegui encontrá-la na feira do Parque da Água Branca, neste final de semana. Não me lembro o número da banca, mas quando entrar, vire à esquerda e deve ser a segunda ou terceira barraca. Segundo o vendedor, sementes podem ser compradas na Sakama - por lá foi batizada como Couve Crespa di Toscana. Como também não tenho mais a mistura para minestra vendida em saquinhos em várias bancas do mercado de Florença, apelei para minha própria combinação, cuja fórmula aí embaixo pode ser útil para outros. É muito prático já comprar vários tipos de grãos e deixar tudo misturado num único vidro. Isto para quem é fanático por minestras como eu.


Carpaccio di Polpo
1 polvo de 1,8 kg (peso inteiro, com cabeça e vísceras)








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No ano passado, eles estavam menos apressados. Era novembro e ainda esperavam. Agora, bastaram uns dias fora de casa para voltar e encontrar a comida em reboliço, a casa verde, quase invadida pela floresta que emerge da umidade profunda das polpas. Um na despensa, aquele na cesta de frutas, outro na fruteira... Todos ao mesmo tempo, do brotinho tímido ao galho trepador em gavinhas que partia estiolado da fruteira à janela. Batata, araruta, mangarito, batata-doce, cará-moela, taro, inhame, gengibre, chuchu e até cebola clamam por um enterro digno.


Ontem deu certo de colher jabuticaba na casa da Chus, leitora e vizinha de bairro que se apresentou e me ofereceu gentilmente parte de sua produção. Não me fiz de rogada e de manhã passei lá com o Marcos. Além do desejo de pretinhas, é sempre um prazer poder conhecer quem nos acompanha de longe estando ao mesmo tempo tão perto. A verdade é que quem colheu foi o Sérgio, mas ficamos dando apoio. O charmoso e pequeno quintal é tomado pela árvore que já habitou outros terrenos. Antes, a casa era de um pedreiro que há cerca de 40 anos transplantou ali a jabuticabeira de sabe-se quantos anos de idade, e que seria sacrificada para dar lugar a um prédio nas imediações da Faria Lima (acho que é mais ou menos isto). E ali ficou. A proprietária que veio depois dele chegou a cogitar dar um fim na fruteira para abrir espaço para manobra dele, sempre ele, o carro. Sorte que em seguida chegaram Chus e Sérgio que protegem mais a jabuticabeira que a própria casa. Ela diz que tem sido assediada por construtoras de prédios, mas só sai dali se oferecerem o dobro do que vale a casa e mais uma boa quantia só para poder transportar a árvore, com todos os recursos e técnicas necessários para não machucá-la, para replantá-la numa praça, por exemplo. E a árvore produz tanto, da base da raíz à ponta dos galhos, que dá gosto ver como as frutas se espremem para caber todas coladas ao tronco. Algumas perdem até a elegância da esfericidade, mas a doçura, jamais.

Em compensação, pude participar de todo o congresso, desde segunda-feira - em alguns momentos tive que optar entre a sala principal e as mesas paralelas, que às vezes eram mais interessantes e propiciaram debates mais acalorados. Saí do congresso muito bem impressionada com as experiências apresentadas por colegas nutricionistas e profissionais de várias áreas. E também com as iniciativas públicas, que sem dúvida representam um avanço na questão do incentivo do consumo de frutas e hortaliças, além de promover um modelo mais sustentável para a produção destes alimentos, para que sejam bons, limpos e justos. Estavam lá, uma hora reunidos na mesma mesa, vários representantes do Governo Federal brasileiro, como o secretário nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Crispim Moreira, do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Sávio Mendonça, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; Patrícia Chaves Gentil, do Ministério da Saúde; Luiz Carlos Balcewicz, do Ministério do Meio Ambiente; Arnoldo Anacleto de Campos, do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Eliene Ferreira de Sousa do Ministério da Educação. Sobre o que cada um falou, melhor ver aqui. Para mim foi um alento conhecer melhor alguns projetos ministeriais como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa de Orgânicos ou o Selo de Identificação da participação da agricultura familiar e ainda saber que agora crianças de escolas da rede pública poderão de fato se alimentar melhor, pelo menos enquanto estiverem na escola, com uma parte da alimentação composta por produtos da agricultura familiar (fato já amplamente notificado na imprensa e sobre o qual falo mais logo adiante). Além dos representantes do governo, Embrapa, Anvisa e outras organizações, estavam lá instituições privadas com suas experiências e sugestões de como fazer para aumentar o consumo de frutas e hortaliças que, no Brasil, todo mundo sabe, está muito abaixo do que seria o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (400 g por dia). É claro que se acaba discordando aqui e ali, ouvindo relatos que assombram, vendo pessoas que decepcionam, mas foi importante ver diferentes posições, como por exemplo sobre marketing de alimentos; saber que por trás da campanha milionária para se comer maçãs, alegando saudabilidade (estas produzidas extensivamente pelo agronegócio, que são colhidas em maio e abril e mantidas refrigeradas durante o ano todo), está a intenção de desovar o excesso de frutas; que quase metade do que é comercializado no Brasil é comandada por apenas três redes de supermercados; que ainda há algumas pessoas que condenam os alimentos orgânicos; lembrar que muita gente morre contaminada por agrotóxicos; que no Brasil ainda há muita fome e desnutrição; que tem gente que não tá nem aí, mas que também há muita gente que está - atuante, participativa, bem intencionada, competente. Ufa.



Quando chegamos, a colheita já estava a todo vapor. Este foi um fim de semana bom para colher frutas. A leitora Chus me convidou para colher jabuticabas na casa dela, que também fica aqui na Lapa, mas não deu, vai ter que ficar para a próxima semana. A vizinha Veronika chamou para colher nêsperas na praça em frente à casa da Fátima e do Claudio e aproveitamos o passeio da Dendê para darmos uma passadinha. Ricardo e Claudio já estavam com a escada, um lá em cima, outro segurando. Veronika em baixo já enchia a caixa e as crianças catavam pitangas que, como já era previsto, pesaram nas pitangueiras da cidade. Já o homem que passava pela rua se animou e colheu umas amoras para consumo próprio. 




O menino Renato, o encontrei de manhãzinha, coisa de seis e meia, sete horas, com o nascer do Sol. Ele estava levando o passarinho papa-capim na gaiola pra passear. E me mostrou o capim com sementinhas que tinha acabado de enfiar na gaiola. E o bichinho comia. Cantei baixinho pra ele: passarinho cantou de dentro de uma gaiola, cantaria melhor se fosse do lado de fora. Ele riu acanhado. Disse que não, não, assim estava melhor, protegidinho. Disse que conversava com o passarinho, que ele gostava de estar assim. Toda manhã o levava para passear. Primeiro, deixou em frente à igreja para pegar um solzinho. Cinco minutos depois carregou a gaiola pelo campo e a pendurou numa porteira. Sentou de longe, sob uma amendoeira, e ficou olhando ora o horizonte, ora o passarinho que cantava feliz. Perguntei antes se ele não preferia ter cachorros, se não gostava. Ele disse que teve um bonitinho, mas morreu atropelado. Porque não arrumou outro? perguntei. Eu arrumei, mas também morreu atropelado. E um gato? .. Ah, depois que os cachorros morreram, arrumei um gato, porque gosto de animaizinhos. Mas este morreu também. Só que matato, a paulada mesmo. Só porque ele comeu o passarinho do vizinho...