sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O que é, o que é?



Tá fácil, hem? Resposta e receita na segunda-feira. Bom fim de semana!

Orelha-de-pau fresquinha. Vai encarar?

O tempo estava molhado. Aí veio um solzinho e plim. A árvore, que sempre esteve ali no meu caminho com lenho velho e úmido, de repente decidiu ouvir os segredos do mundo. Botou pra fora duas orelhas de criança, com cartilagem ainda mole, chamando para uma boa mordida. Levei as duas para casa e recorri à minha amiga chinesa, Song (Raquel), ex-sócia otorrino do Marcos, excelente cozinheira e que mora hoje nos Estados Unidos. O que recomenda que faça com elas? algo simples que eu possa preparar com o que tenho aqui em casa. A resposta veio rápido, com três sugestões:
1 - Prato frio. Aferventar a orelha de pau por 30 seg a 1 min e esfriar em água gelada. Gengibre, de preferência fresco, em tiras bem finas. Misturar a orelha com gengibre, óleo de gergelim, molho de ostra e pronto.
2 - Sautee. Carne bovina ou de porco cortada em tiras bem finas e temperadas com um pouco de shoyu, hondashi, sakê e maisena. Na panela, fritar gegibre em tiras, colocar a carne e quando a carne estiver quase pronta, colacar a orelha e misturar um pouco. Colocar um pouco de água se ficar muito seca.
3 - Sopa azeda e apimentada. A base da sopa pode ser de frango ou de porco. Colocar na sopa tofu, broto de bambu, cenoura, orelha de pau e frango ou porco. Tudo em tiras. Engrossar a sopa com maisena e temperar com vinagre preto e molho de pimenta oriental. (esta sopa deve ser parecida com esta que já publiquei aqui)
Bem, resolvi fazer a carne de porco interpretando as orientações dela. Fui advinhando as quantidades e o hondashi, usei em pó. A foto não faz juz à delícia que ficou. Com aquele gosto que nos remete mesmo a restaurantes chineses - pelo menos os que conhecemos por aqui. A orelha-de-pau é meio insípida e inodora, mas colabora incrivelmente com a textura do prato. Receita lá embaixo.
Este fungo chamado orelha-de-pau ou orelha-de-judas (Auricularia auricula-judae) pertence à família das Auriculariáceas e seu corpo frutífero se desenvolve na forma de orelha, algo translúcida, de cor violácea, marrom ou bordô. Diferente de outros cogumelos, não tem pés ou, quando tem, são minúsculos, modificados. A parte de fora tem uma lanugem que lhe dá um aspecto aveludado. Só quando bem jovem é macio, elástico e gelatinoso, com textura de cartilagem. Aos poucos vai ressecando e endurecendo. Neste caso, há necessidade de reidratação com água morna para usar na cozinha. Em lojas de produtos orientais é fácil encontrar estes fungos já cortados em tiras secas. São gostosos, sempre tenho em casa, porque duram um tempão e vão bem em sopas. Mas estes frescos são incomparáveis.

Segundo meu guia de ajuda na identificação de cogumelos "El Gran Libro de las Setas", livro italiano traduzido para o espanhol, seu consumo é medíocre, mas se pode consumi-lo cru em salada e se usa muito na cozinha oriental. Sobre outro cogumelo espontâneo, ou cogumelo de eucalipto, já publiquei AQUI e o identifiquei graças a este guia. Agora, a receita para quem encontrar orelhas-de-pau frescas dando sopa por aí:



Carne de porco com orelha-de-pau
350 g de carne de porco cortada em tirinhas (usei bistecas desossadas, bem finas)
1 colher (sopa) de molho de soja
1 colher (sopa) de saquê
1 colher (sopa) de amido de milho - maisena
1 colher (chá) de hondashi em pó
3 colheres (sopa) de óleo
1 colher (sopa) de gengibre cortado em tirinhas bem finas
2 orelhas-de-pau cortadas em tirinhas
3 colheres (sopa) de água quente
2 colheres (sopa) de cebolinha verde ou nirá (opcional - ela não mandou, mas achei que cairia bem - usei nirá do meu quintal)
Tempere a carne com o molho de soja, o saquê, o amido de milho e o hondashi. Misture bem e reserve. Numa frigideira aqueça o óleo e doure nele o gengibre. Junte a carne e refogue até que esteja dourada de todos os lados. Junte a orelha-de-pau e a água quente e deixe ferver por 1 minuto. Acrescente a cebolinha verde ou nirá, se for usar, misture bem, desligue o fogo e nhac.
Rende: 4 porções

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Cavolo Nero no Parque da Água Branca


Este, no mercado de Florença

E aqui, na feira de produtos orgânicos no Parque da Água Branca
Não pude trazer tudo da Toscana para fazer uma autêntica minestra e quando cheguei aqui senti muita falta do cavolo nero, esta couve enrugada deliciosa, ligeiramente adocicada com um fundo amargo e muito sabor crucífero. Mas felizmente, já indo embora o friozinho, consegui encontrá-la na feira do Parque da Água Branca, neste final de semana. Não me lembro o número da banca, mas quando entrar, vire à esquerda e deve ser a segunda ou terceira barraca. Segundo o vendedor, sementes podem ser compradas na Sakama - por lá foi batizada como Couve Crespa di Toscana.
Como também não tenho mais a mistura para minestra vendida em saquinhos em várias bancas do mercado de Florença, apelei para minha própria combinação, cuja fórmula aí embaixo pode ser útil para outros. É muito prático já comprar vários tipos de grãos e deixar tudo misturado num único vidro. Isto para quem é fanático por minestras como eu.




Para compor a mistura para minestra: junte: 500 g de cevada em grãos, 500 g de trigo em grãos, 200 g de ervilha rosa, 200 g de ervilha verde, 200 g de feijão mungo, 200 g de feijão azuki ou feijão-arroz ou feijão preto e 200 g de feijão fradinho com ou sem pele (todos comprados no Mercado da Lapa). Misture tudo e guarde num vidro. Com 200 g se faz sopa para seis.

A receita da minestra está aqui - é só usar couve-negra no lugar da folha de repolho e nhac.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Carpaccio de polvo


A minha versão, com pimentón de La Vera

A receita que inspirou, da revista La Cucina Italiana, com vinagrete e julienne de salsão e cenoura (foto da página da revista)

O que comi em Salvador, com vinagrete de rúcula
Na última noite que passei em Salvador, teve jantar de despedida na casa de Aninha e Sérgio, cunhada e irmão de minha amiga Silvia. Nada de acarajés e abarás, mas comida dos Coni, coisa de família italiana, no macarrão com molho de gorgonzola, na entrada de carpaccio de polvo e muito vinho bom. Estava tudo tão gostoso, feito com tanto capricho e deferência, que não pudemos sair de lá sem ao menos lavar toda a louça como gesto de agradecimento.
O carpaccio foi comprado pronto e Aninha estava louca pra saber como era feito. Lembrei a ela que tinha em casa uma velha revista com a receita e prometi fazer e postar aqui. E, como se vê, não tem segredo nenhum. Ontem fui ao Mercado da Lapa e os polvos estavam fresquinhos, recém-chegados. Aproveitei para comprar dois com cerca de 1,8 kg cada e deixei um dos "salames" congelado. Depois conto se ele se comportou bem. Segui mais ou menos a receita da revista La Cucina Italiana, de julho de 1997, p. 47 e deu certo. Servi com pimentón de la Vera, mas ficaria bom também com vinagrete de rúcula, como fez Aninha. Lá vai a receita interpretada (apenas diminuí o tempo de cozimento, que considerei excessivo e usei uma esteirinha de bambu para facilitar a modelagem). E, imagino, o gengibre e o limão não são fundamentais.
Carpaccio di Polpo
1 polvo de 1,8 kg (peso inteiro, com cabeça e vísceras)
1 cenoura descascada e fatiada
1 talo de salsão fatiado
2 folhas de louro
Sal a gosto
1/2 colher (chá) de gengibre ralado
1 colher (chá) de suco de limão
Para servir: julienne de salsão e cenoura, azeite, vinagre, sal (ou vinagrete de rúcula, como fez Ana, ou pimentón de la Vera (páprica defumada) e azeite, como fiz eu)
Lave o polvo, deixando as ventosas nos tentáculos bem limpas. A cabeça pode ser cozida junto e depois separada, picada e usada no arroz, assim como o caldo. Numa panela de pressão, coloque um litro de água, a cenoura, o salsão, o louro e cerca de 1 colher (chá) de sal. Deixe ferver. Mergulhe o polvo ao poucos, segurando pela cabeça. Feche a panela, espere a válvula chiar, abaixe o fogo e deixe cozinhar por 15 minutos. Espere acabar a pressão, tire o polvo (o caldo coado pode ser usado para fazer arroz) e deixe amornar. Ele deve estar bem macio e gelatinoso. Separe a cabeça e use somente os tentáculos, que devem ser separados na base. Tempere-os com gengibre e suco de limão. Sobre uma esteira de bambu coloque um pedaço de filme plástico e vá juntando os tentáculos, 4 para um lado, 4 para outro, para formar um cilindro uniforme. Embrulhe com o filme plástico, prendendo as pontas. Enrole a esteira sobre ele, apertando bem, para que mantenha a forma. Guarde na geladeira de um dia para outro ou por pelo menos 6 horas, para que fique bem firme. Na hora se servir, desembrulhe, corte em fatias finas, disponha sobre um prato e espalhe por cima algum tempero e/ou ornamento.
Rende: um "salame" de 450 g, para 6 porções

A velha e boa revista La Cucina Italina, de julho de 1997

Natureza indomável

"Tudo se finge, primeiro; germina autêntico é depois." in Tutameia, de João Guimarães Rosa











No ano passado, eles estavam menos apressados. Era novembro e ainda esperavam. Agora, bastaram uns dias fora de casa para voltar e encontrar a comida em reboliço, a casa verde, quase invadida pela floresta que emerge da umidade profunda das polpas. Um na despensa, aquele na cesta de frutas, outro na fruteira... Todos ao mesmo tempo, do brotinho tímido ao galho trepador em gavinhas que partia estiolado da fruteira à janela. Batata, araruta, mangarito, batata-doce, cará-moela, taro, inhame, gengibre, chuchu e até cebola clamam por um enterro digno.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Carne de Porco com Marmelos e Gerânio de Cheiro


Não, a receita não é minha. Foi feita pela Manuela, do Tertulia de Sabores, e está postado lá. Vale a pena dar uma espiada, parece deliciosa, pois eu mesma não descobri receitas salgadas para usar meu gerânio de cheiro e ele está entrando na primavera cheio de folhinhas jovens. Já falei dele AQUI.

Tatuí tem música, pitanga, araruta no quintal e até Frutas do Cerrado

Prata, amigo da casa, não deixou escapar nem as pitangas do alto
No domingo fomos a Tatuí, cidade da música, do conservatório e dos parentes do nosso amigo Jotagê. Era aniversário de 18 anos do Felipe, filho dele e da Magali e rolou um churrasco pra lá de bom, com música de viola e muita cantoria (família de músicos). O dia estava bonito e deu para comer pitanga direto do pé, como sobremesa. No amplo quintal dos fundos, Dona Dora, mãe do Jota plantou umas ararutas, que trouxe de longe pra mostrar para os filhos e parentes a cultura esquecida que povoa suas lembranças de menina, quando comia mingau e bolo de araruta. Mas tem lembrança também dos dedos arranhados no ralador. Vi os pezinhos por acaso junto a outros matos. Desconfiei, perguntei e ela se espantou de encontrar alguém que conhecesse a planta. Na volta, vimos uma sorveteria Frutas do Cerrado. Paramos e nos fartamos, já que não conheço ainda a loja da Vila Mariana. Segundo a vendedora, ali o preço (massa - R$ 3,50 e picolé - R$ 2,00) é a metade do cobrado em São Paulo. Então, aproveitei para trazer um isopor cheio de potinhos de sorvete de creme nos sabores pequi, buriti, mamacadela, mutamba, graviola, cajamanga, araticum, mangaba e gabiroba. Não provei todos ainda, mas até agora não me decepcionei com nenhum. São deliciosos, trazem o gosto da fruta sem retoques.
Os pezinhos de araruta ainda brotando

Sorvetes Frutos do Cerrado - em Tatuí

Ainda as jabuticabas ou vinagre com jabuticaba



As jabuticabas do post anterior continuam rendendo. Adoro fazer geleias, mas o consumo aqui em casa não alavanca a saída e a geladeira vai se entupindo. Ultimamente, porém, tenho dado um jeito no problema - usar no molho da salada. Outro dia vi na casa de alguém um um vinagre de framboesa francês que nada mais era que o vinagre misturado com geléia e algum aditivo mais. Então, ontem separei 1 xícara daquela geléia antes que esfriasse e misturei com 1,5 xícara de vinagre de vinho tinto. Se a geleia já estiver gelatinizada, é só derreter em banho-maria e misturar o vinagre. Guarde na geladeira e na hora de fazer o molho para salada, basta juntar 1,5 colher (sopa) de azeite para cada colher deste vinagre. Um pouco de sal e pimenta, uma chacoalhada num vidro com tampa para emulsionar e nhac.
Vai bem com salada de folhas amargas ou qualquer outra salada de folhas. Deve ficar bom ainda numa marinada para peito de pato ou carne de angola. Puro palpite. Vou fazer também com geleia de amora. De pitanga, de uvaia...
Um tanto da jabuticaba já está lá no álcool de cereais onde deve ficar por 2 semanas, quando então receberá os últimos retoques para que se transforme num delicioso licor.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Jabuticaba de quintal ou geleia de jabuticaba

Ontem deu certo de colher jabuticaba na casa da Chus, leitora e vizinha de bairro que se apresentou e me ofereceu gentilmente parte de sua produção. Não me fiz de rogada e de manhã passei lá com o Marcos. Além do desejo de pretinhas, é sempre um prazer poder conhecer quem nos acompanha de longe estando ao mesmo tempo tão perto. A verdade é que quem colheu foi o Sérgio, mas ficamos dando apoio.
O charmoso e pequeno quintal é tomado pela árvore que já habitou outros terrenos. Antes, a casa era de um pedreiro que há cerca de 40 anos transplantou ali a jabuticabeira de sabe-se quantos anos de idade, e que seria sacrificada para dar lugar a um prédio nas imediações da Faria Lima (acho que é mais ou menos isto). E ali ficou. A proprietária que veio depois dele chegou a cogitar dar um fim na fruteira para abrir espaço para manobra dele, sempre ele, o carro.
Sorte que em seguida chegaram Chus e Sérgio que protegem mais a jabuticabeira que a própria casa. Ela diz que tem sido assediada por construtoras de prédios, mas só sai dali se oferecerem o dobro do que vale a casa e mais uma boa quantia só para poder transportar a árvore, com todos os recursos e técnicas necessários para não machucá-la, para replantá-la numa praça, por exemplo. E a árvore produz tanto, da base da raíz à ponta dos galhos, que dá gosto ver como as frutas se espremem para caber todas coladas ao tronco. Algumas perdem até a elegância da esfericidade, mas a doçura, jamais.


Trouxe uns quatro quilos. Chupei um tanto, fiz geleia com dois quilos e o resto vou fazer licor e secar algumas cascas para o chá e refresco. Achei que já tivesse postado a geleia aqui, mas não. Sempre fiz meio a olho, mas desta vez medi tudo e lá vai:
Geleia de jabuticaba
2 quilos de jabuticabas bem maduras, inteiras e bem lavadas
1 litro de água
600 g de açúcar (usei cristal, orgânico)
Coloque as jabuticabas numa panela grande e amasse com as mãos para que parte delas se quebrem. Cubra com a água e leve ao fogo. Quando ferver, abaixe o fogo e cozinhe por cerca de meia hora ou até que todas estejam estouradas e macias. Passe por peneira grossa, pressionando um pouco. Passe por peneira fina, coloque numa panela grande, junte o açúcar e leve ao fogo alto. Quando ferver, abaixe o fogo, vá tirando a espuma que se forma enquanto cozinha por cerca de 1 hora ou até formar um xarope que dê ponto de geléia (há várias formas de identificar o ponto, entre elas, colocar meia colher de chá de geleia num pires gelado e inclinar o pires - a geleia não deverá escorrer). Enquanto faz o teste, desligue o fogo. Coloque ainda quente em vidro esterilizados (aferventados e secos ao forno) também ainda quentes. Feche bem e conserve na geladeira. Para guardar fora da geladeira por mais tempo, pasteurize (vidros tampados, cobertos com água fervente e aferventados por 10 minutos).
Rende: 1 litro de geleia

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Incentivo ao consumo de frutas e hortaliças


Voltei cheia de coisas pra ler. Milagrosamente, não trouxe um só alimento na mala.
Em Brasília, fiz uma apresentação no V Congresso de incentivo ao consumo de frutas e hortaliças para promoção da saúde. Nada demais, apenas falei timidamente um pouco sobre as iniciativas discretas e não-explícitas do blog nesta direção. O Convite veio do Dejoel Lima, da Embrapa, por recomendação da Maria Imaculada, mulher dele e leitora do Come-se. Tive o prazer de conhecer os dois, que conseguiram me deixar mais à vontade, embora falar em público ainda seja um trauma. E, por isto, decidi que neste ano não falo mais. Preciso ficar um pouco em casa, reestabelecer as rotinas. Espero conseguir.
Em compensação, pude participar de todo o congresso, desde segunda-feira - em alguns momentos tive que optar entre a sala principal e as mesas paralelas, que às vezes eram mais interessantes e propiciaram debates mais acalorados. Saí do congresso muito bem impressionada com as experiências apresentadas por colegas nutricionistas e profissionais de várias áreas. E também com as iniciativas públicas, que sem dúvida representam um avanço na questão do incentivo do consumo de frutas e hortaliças, além de promover um modelo mais sustentável para a produção destes alimentos, para que sejam bons, limpos e justos. Estavam lá, uma hora reunidos na mesma mesa, vários representantes do Governo Federal brasileiro, como o secretário nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Crispim Moreira, do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Sávio Mendonça, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; Patrícia Chaves Gentil, do Ministério da Saúde; Luiz Carlos Balcewicz, do Ministério do Meio Ambiente; Arnoldo Anacleto de Campos, do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Eliene Ferreira de Sousa do Ministério da Educação. Sobre o que cada um falou, melhor ver aqui.
Para mim foi um alento conhecer melhor alguns projetos ministeriais como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa de Orgânicos ou o Selo de Identificação da participação da agricultura familiar e ainda saber que agora crianças de escolas da rede pública poderão de fato se alimentar melhor, pelo menos enquanto estiverem na escola, com uma parte da alimentação composta por produtos da agricultura familiar (fato já amplamente notificado na imprensa e sobre o qual falo mais logo adiante).
Além dos representantes do governo, Embrapa, Anvisa e outras organizações, estavam lá instituições privadas com suas experiências e sugestões de como fazer para aumentar o consumo de frutas e hortaliças que, no Brasil, todo mundo sabe, está muito abaixo do que seria o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (400 g por dia).
É claro que se acaba discordando aqui e ali, ouvindo relatos que assombram, vendo pessoas que decepcionam, mas foi importante ver diferentes posições, como por exemplo sobre marketing de alimentos; saber que por trás da campanha milionária para se comer maçãs, alegando saudabilidade (estas produzidas extensivamente pelo agronegócio, que são colhidas em maio e abril e mantidas refrigeradas durante o ano todo), está a intenção de desovar o excesso de frutas; que quase metade do que é comercializado no Brasil é comandada por apenas três redes de supermercados; que ainda há algumas pessoas que condenam os alimentos orgânicos; lembrar que muita gente morre contaminada por agrotóxicos; que no Brasil ainda há muita fome e desnutrição; que tem gente que não tá nem aí, mas que também há muita gente que está - atuante, participativa, bem intencionada, competente. Ufa.




Esta é uma batata-doce de cor laranja resgatada pela Emprapa (na feira orgânica de Porto Alegre, havia umas assim, assadas), cheia de betacaroteno e que faz uma farinha gostosa, boa para fazer docinhos, bolos, mingaus, enriquecer pães etc. Como faz parte do hábito alimentar brasileiro, pode ser útil na merenda escolar, para combater a hipovitaminose A. E ainda pode substituir parte do trigo em várias preparações, diminuindo a dependência de importância do cereal. A agricultores que quiserem plantar, basta entrar em contato com a Embrapa-Hortaliças.

domingo, 20 de setembro de 2009

É tempo de nêsperas e outras frutas, é hora de ir pra Brasília. Volto logo.

Quando chegamos, a colheita já estava a todo vapor. Este foi um fim de semana bom para colher frutas. A leitora Chus me convidou para colher jabuticabas na casa dela, que também fica aqui na Lapa, mas não deu, vai ter que ficar para a próxima semana. A vizinha Veronika chamou para colher nêsperas na praça em frente à casa da Fátima e do Claudio e aproveitamos o passeio da Dendê para darmos uma passadinha. Ricardo e Claudio já estavam com a escada, um lá em cima, outro segurando. Veronika em baixo já enchia a caixa e as crianças catavam pitangas que, como já era previsto, pesaram nas pitangueiras da cidade. Já o homem que passava pela rua se animou e colheu umas amoras para consumo próprio.
E por falar em frutas, vou ficar fora esta próxima semana porque vou, a convite da Embrapa, para o 5º Congresso Pan-Americano de Incentivo ao Consumo de Frutas e Hortaliças, onde vou participar como palestrante de uma mesa sobre Iniciativas ao consumo de frutas e hortaliças: perspectivas multidimensionais. E aproveito para acompanhar o congresso, que deve ter muita coisa interessante.

Deixei a Veronika limpando as nêsperas para fazer geleia. Não pude ajuda-la. Mas, comer, quem sabe...
As crianças colhem pitangas



E o homem cata amoras
Até sexta-feira, então, ou a qualquer momento, se for possível. Enquanto isto, veja fotos lindas do Revelando São Paulo feitas pela Inês Correa, AQUI e AQUI.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Uma pausa para Mombaça




Uma das poucas referências sobre o arraial de São Francisco de Mombaça (BA) que se encontra na rede está associada à sua cria mais ilustre, o cineasta Coni Campos - reproduzo o texto tirado daqui.
Fernando Coni Campos nasceu na Vila de São Francisco de Mombaça (BA), em 15 de abril de 1933, e faleceu no Rio de Janeiro, na véspera de natal de 1988. Trabalhou, no fim da década de 1950, no escritório do arquiteto Lúcio Costa, e no começo da década seguinte com o designer Aloísio Magalhães. Dirigiu os filmes “Morte em três tempos” (1963); “Viagem ao fim do mundo” (1967 – com trilha sonora de Caetano Veloso); “Ladrões de cinema” (1977); e “O mágico e o delegado” (1983). Os filmes de Fernando Coni Campos são uma ponte entre o Cinema Novo e o Cinema Marginal (ou Udigrudi) e são mais que isso. Suas idéias não se restringem à película. Como se vê neste livro, Coni Campos escreveu e debateu – como seus filmes, não precisou se inscrever em movimentos para ser parte de seu tempo. Não é apenas por trazer questões ainda pendentes que vale a pena rever sua produção, mas sobretudo pela criatividade que fez sua produção ser tão marcante – esta, com certeza, é plenamente atual. É o caso, então, de rever – e de reler. Daniel Caetano

Pequena mostra dos ladrilhos hidráulicos na casa dos Coni. Um tipo em cada cômodo - impossível não fotografar
Bem, foi na casa onde nasceu o cineasta que estive durante um dia e uma noite da minha corrida viagem à Bahia. Ali nasceu também Solange, mãe da Silvinha e irmã do Coni Campos. Fundado pelos avós da Silvia, que eram comerciantes de fumo, o vilarejo, hoje com cerca de 800 habitantes e pertencente à Conceição de Almeida, conserva seu casario do começo do século passado (parte dele ainda pertencente aos Coni), sua capela, o campinho de futebol e nome da família espalhado nas placas de rua e praça. As casas grudadas na frente se abrem para os fundos em amplos horizontes verdes, com páteos e jardins. Na frente um enorme quadrado verde que faz lembrar Arraial D´ajuda ou Trancoso pré-turismo predatório. Ali não tem praia por isto não tem pousadas. Mas tem meninos jogando futebol no fim de tarde, como num quadro de Teruz, como lembrou meu amigo Filipe Miguez. E tem menino levando passarinho papa-capim para pegar os primeiros raios de sol. E tem horizonte a perder de vista nos 360 graus. E tem conversinha na calçada a qualquer hora do dia. E na casa onde fiquei, uma mesa enorme, que já conhecia de fama, de tanto a Silvinha falar das merendas fartas da casa da vovó Belita.
O menino Renato, o encontrei de manhãzinha, coisa de seis e meia, sete horas, com o nascer do Sol. Ele estava levando o passarinho papa-capim na gaiola pra passear. E me mostrou o capim com sementinhas que tinha acabado de enfiar na gaiola. E o bichinho comia. Cantei baixinho pra ele: passarinho cantou de dentro de uma gaiola, cantaria melhor se fosse do lado de fora. Ele riu acanhado. Disse que não, não, assim estava melhor, protegidinho. Disse que conversava com o passarinho, que ele gostava de estar assim. Toda manhã o levava para passear. Primeiro, deixou em frente à igreja para pegar um solzinho. Cinco minutos depois carregou a gaiola pelo campo e a pendurou numa porteira. Sentou de longe, sob uma amendoeira, e ficou olhando ora o horizonte, ora o passarinho que cantava feliz. Perguntei antes se ele não preferia ter cachorros, se não gostava. Ele disse que teve um bonitinho, mas morreu atropelado. Porque não arrumou outro? perguntei. Eu arrumei, mas também morreu atropelado. E um gato? .. Ah, depois que os cachorros morreram, arrumei um gato, porque gosto de animaizinhos. Mas este morreu também. Só que matato, a paulada mesmo. Só porque ele comeu o passarinho do vizinho...