quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Caju refogado

Na Ilha do Marajó, os cajus abundam nesta época
Não se trata de recomendar a "carne de caju" como substituto da proteína animal, afinal nutricionalmente falando uma coisa não tem nada que ver com a outra.

Não é dizer também que preparado com sal o caju seja melhor que consumido in natura. O que acontece é que quando é época de caju, cajueiros velhos dão muito fruto. Nem sempre compensa vender, nem sempre tem tanto bicho para comê-lo e ninguém dá conta de chupar tanta fruta ou tomar tanto suco.

Sobra, então, tentar aproveitá-lo de todas as formas. Neste sentido, a "carne de caju" é uma ótima opção. Basta cortar o fruto em fatias ou cubos e espremer bem no espremedor de batatas, restando assim só as fibras temperadas com o adocicado e perfume do fruto que combinam bem com temperos comuns na nossa cozinha: sal, alho, cebola, tomate, pimentão, pimenta, coentro, limão, leite de coco etc. (o suco espremido, você bebe, é claro). Basta fazer um bom refogado, juntar os pedacinhos de caju e deixar cozinhar um pouco, com água ou leite de coco. No final, umas folhas de coentro, umas gotas de limão e vai quentinho pra mesa pra comer com arroz. Mais um alimento proteico - um ovo, um pedaço de carne etc, uma salada de folhas e já está!

Na Ilha do Marajó, improvisei um tipo de moqueca com a carne de caju - não é nenhuma novidade, acho até que já publiquei alguma receita por aqui. Mas é só pra dizer que você pode aproveitar os pedacinhos de caju espremidos em vários pratos com molho. Se fizer um molho de moqueca, vai lembrar peixe. Se fizer um molho de estrogonofe, vai lembrar carne. Se fizer um curry, vai lembrar frango.

Cajuzinho amarelo, no Marajó

A foto está horrível, mas o sabor esteve bom - usei folhas de cipó de alho
 do Marajó picadas finamente com a pimenta.  E pimenta-de-cheiro, coentro,
 leite de coco. 


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

No Marajó com ópera

Na praia o Pesqueiro, a areia atingiu a copa do ajuru e pudemos colher do chão
as pequenas cerejas amazônicas. 
Estive semana passada na Ilha do Marajó, na mesma fazenda São Jerônimo, para onde sempre vou - são dos pais da amiga Kátia. Ela, que é do teatro, e seu parceiro Caio, que é da música, foram os organizadores do Banquete Ópera Festival. Era pra ser três dias de banquete com ópera. Teve coro, orquestra, cantores líricos, palcos no mangue e na floresta amazônica, tudo muito emocionante. O espetáculo foi mantido apesar de não terem apoio nem venderem ingressos. A parte do banquete é que ficou faltando. O chef convidado desistiu um dia antes porque não havia como atender às suas exigências. Com isto, todos, incluindo a chef Mara Salles e o chef espanhol Andoni Luis Aduriz, entraram na dança da cozinha ao menos para alimentar os que ali estavam. Ainda assim, Dona Jerônima conseguiu fazer pato no tucupi, arroz de jambu, frito do vaqueiro, moqueca de pirarucu, caldo de turu, sopa de caranguejo etc.

Na tarde da ópera no manguezal todo mundo se emocionou com o som e o cenário  - veja fotos e vídeos aí no lado, no meu Instagram.  Até o Zeca Camargo estava lá e marejou os olhos. No dia seguinte, passou no Jornal Nacional e os de casa se aboletaram na sala da casa de tábua, que é onde a TV pegava. Todos sentados em cadeira, na rede, na cama ou no chão. Nesta noite, Andoni e sua mulher Garbiñe se sentaram no chão sentindo-se como se fossem da família.  Com tanta coisa que deu errado, o chef espanhol não se abalou e disse que até se divertiu e descansou, já que o celular não pegava e ele se sentiu num raro momento de paz sem assédios.

E assim, mais ou menos, foi. Fique com algumas fotos - além de outras que já publiquei no Instagram.

Chef Andoni e sua mulher Garbiñe

Passeando de barco depois do festival 

Cena comum nas estradas do Marajó  - capim para o gado

A vizinha Juliana Gago também foi e trabalhou 

Cena comum no Pesqueiro, vila de pescadores

Praia particular e deserta na fazenda São Jerônimo

Praia do Pesqueiro 

Chef Andoni e o pessoal todo vendo o Jornal Nacional que
mostrou o festival 

Meus vizinhos Bruno e Maria também foram para ajudar 

Casario na vila do Pesqueiro 

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Beijus de massa de mandioca. Coluna do Paladar, edição 05/11/2015

Descasque a mandioca, rale, esprema numa pano e use a massa 
Acabo de voltar do Marajó, por isto não postei a coluna ontem. Mas aqui está, como está também no blog do caderno Paladar.  



Poderia dizer que estou simplesmente falando da mandioca  tratada como for – ralada, cozida, frita, amassada. Ou que seja especificamente da mandioca ralada, como raladas podem ser cenouras, abóboras e beterrabas. Mas não,  estou apertando ainda mais o tipiti porque o que o que fica ali é um ingrediente incrível, único, cheio de manhas e usado em todos os países onde a mandioca é nativa ou para onde foi levada.  Trata-se da mandioca não só ralada, mas também espremida, vulgarmente conhecida como massa de mandioca. E não é de qualquer mandioca, mas daquela mansa, conhecida como aipim ou macaxeira, com baixos níveis de glicosídeos cianogênicos que são fartos na mandioca brava. 

Na última coluna, falei da fécula, goma, polvilho ou tapioca, que é o amido usado para fazer beijus de tapioca extraído do líquido escorrido da mandioca ralada e espremida.  É justamente deste resíduo que ficou retido  no pano, no saco, no tipiti, ou em qualquer outro suporte usado para espremer a raiz ralada, que quero falar.


Para quem não sabe o que é tipiti, basta agora dizer que é  um utensílio indígena em formato cilíndrico feito com talas de miriti trançadas de tal forma engenhosa que funciona como uma prensa quando ele puxado para baixo. Tradicionalmente feito com palhas vegetais, hoje já é encontrado em plástico preto,  totalmente desprovido de graça.  Cestos achatados de fibras vegetais ou sacos de aniagem também são usados como o mesmo fim nas casas de farinha, porém são empilhados e prensados lentamente.   A massa prensada na maioria das vezes é usada para fazer farinha – é só peneirar para desfazer os torrões e assar, sem parar de mexer.  Mas uma parte geralmente tem destino doméstico ou é usada na própria casa de farinha para fazer beijus. Nas  casas, engrossa mingau, faz sopa, bolos e cuscuz, só pra ficarmos nos estilos mais comuns.

Entre os índios, porém, o grande uso da massa de mandioca é nos beijus e, para se aprofundar neles,  recomendo a leitura do livro “Comidas Tradicionais Indígenas do Alto Rio Negro”, organizado por Luiza Garnelo e Gildo Barreto Baré e publicado pela Fiocruz.  São apresentados ali vários tipos de beijus feitos com este ingrediente.  Os preparos são minuciosos, com técnicas complexas e misturas calculadas para o resultado que se quer. 

Não tem esta de dizer que mandioca é um ingrediente vulgar e pobre, como relatavam os escritores viajantes que primeiro a descreveram.  É, sim, nossa raiz comum e mais desconhecida.  Desconhecemos o léxico, os processos e suas infinitas possibilidades na cozinha, mesmo com o grande legado indígena que infelizmente não atingiu a todos.  

Voltando aos beijus do livro, entre as variações, a massa pode ser misturada com a goma fresca,  com goma já assada e com a massa puba  ou mandioca mole, como se diz, que é aquela deixada por vários dias na água para fermentar e amolecer.  Temperam-se os beijus com castanhas, formigas, caroço de umari e com as ideias que vão nascendo em nós à medida que avançamos na leitura. Os beijus podem ser ainda assados mais finos ou grossos, embrulhados em folha de sororoca ou de bananeira, cozidos no forno de farinha ou depois secos ao sol.  São beijuxicas, beijus secos, beijus molhados, marapatás, beijus lisos, beijus crespos, marapatás, curadás e tantos outros de norte a sul, com nomes locais a cada variação de formato, técnica ou tempero.   

Em Santa Catarina,  a massa é usada para fazer bijajica, um tipo de cuscuz doce que leva amendoim, açúcar mascavo e cravo,  e também um cuscuz com massa, açúcar e fubá que depois de cozido é fatiado e assado para ficar crocante como um biscoito – e que continua se chamando cuscuz.

Não vou dizer que é ingrediente simples de se ter em casa porque ninguém tem mais disposição,  tempo ou espaço para ficar ralando mandioca. Se bem que é um bom exercício para firmar o muque e definir o abdômen, que hoje todo mundo quer.  Mas os equipamentos modernos também podem ajudar a trazermos para perto a sabedoria ancestral no trato da raiz.



Para  quem tem um processador de alimentos, é só ralar e espremer num pano.  Se você tem por perto um feirante que venda mandioca descascada ou a massa pronta, tanto melhor.  

Já indiquei o baiano Manuel  (Tel. 11 – 94661-5219) para tanta gente, que ele agora vende a massa até para quem vem de outra cidade buscar em sua casa, onde tem ralador elétrico e prensa.  Na feira, vende pacotes de meio quilo, cujo rótulo é a recomendação de uma receita de bolo com coco - infalível, diga-se.  Do beiju, ele não sabia. Além dele, já vi por aí vendedores ambulantes empurrando carriolas de construção cheias de mandioca e a tal da massa. Um conforto comprá-la assim, pois ela pode durar dias na geladeira – mesmo que fermente um pouco, tudo bem, é da natureza da mandioca, que parece ficar ainda melhor.  E o bom é que congela super bem,  caso se queira guardar por mais tempo.

Nunca vi por aqui o produto industrializado, mas bem que poderia ter. No Vietnam, nas Filipinas e em alguns outros países onde a mandioca está presente, a massa pode ser encontrada nos supermercados facilmente. Com ela é feita uma infinidade de doces e salgados, muitos deles tradicionalmente preparados com arroz glutinoso e adaptados para o uso da mandioca. Pichi-pichi, puto e suman são alguns doces filipinos feitos com a massa, só para citar os que já provei e que são feitos com ingredientes que também temos aqui.   

Desde que não seja lavada com água, a massa é um produto rico em amido e fibras e quando é aquecida os grânulos gelatinizam e se aderem uns aos outros formando um bloco unido.  Diferente da goma, que só tem o amido, na massa as fibras ajudam a manter uma textura mais granulosa, macia e elástica nos beijus, que ainda ganham uma superfície crocante.   

Depois que você consegue fazer seus beijus tradicionais, só com a massa -  e sal, se quiser -, começa a ter vontade de experimentar grudar ali outros ingredientes:  sementes, castanhas ou amendoim triturados, folhas picadas e legumes ralados e espremidos.  Foi o que fiz para ter os beijus coloridos.  Faça um branco e depois invente os seus.



Beijus de massa de mandioca

Rale finamente e esprema num pano 1 quilo de mandioca descascada. Descarte o líquido. Esmigalhe o que ficou no pano e passe por uma peneira grossa de fritura para a massa ficar bem soltinha.  Ou compre esta massa já ralada e espremida se encontrar quem venda assim.
Tempere a massa com 1 colher (chá) de sal e peneire sobre uma frigideira sem untar, fazendo uma camada de 1 centímetro, mais ou menos. Leve ao fogo baixo e deixe cozinhar por cerca de 3 minutos. Vire e cozinhe do outro lado. Se quiser, pode tampar a frigideira para o beiju cozinhar por igual e ficar mais flexível.  Uma omeleteira também serve.
Para variar o sabor , junte amendoim torrado e triturado ou castanhas picadas na proporção de mais ou menos 1 xícara para 500 g de massa.

Para os beijus coloridos,  divida a massa em 4 partes.  Junte 2 colheres (sopa) de beterraba ralada e espremida para o beiju vermelho; a mesma quantidade de cenoura ralada e espremida para o laranja; 2 colheres (sopa) de coco ralado para o branco e 4 colheres (sopa) de ora-pro-nobis finamente picado para o verde. 

Em todos os casos, passe por peneira grossa deixando cair diretamente sobre a frigideira  para que os beijus fiquem mais fofos.






sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Açúcar mascavo clarinho

Resolvi fazer meu próprio açúcar porque os mascavos que andei comprando não eram muito confiáveis. Muito escuro, pra começar. E isto significa quase sempre muita impureza ou caldo oxidado. E quando reformava meu kefir de água com ele, percebia que os grânulos não ficavam muito felizes. Só quando encontrei um bom orgânico, bem claro, aí sim os grânulos de kefir reagiram, cresceram, fermentaram.

Como não encontro açúcar mascavo orgânico facilmente, achei mais fácil comprar caldo de cana na feira perto de casa, numa banca com cana bem limpa e triturada na hora. Claro, é o açúcar mais caro do mundo - com 1 litro de caldo a 10 reais consigo fazer só 150 g de açúcar. Mas valem o dinheiro e o trabalho. Uso exclusivamente para o kefir que depois vira espumantes, então é importante que seja um bom açúcar.

Só quando a gente faz e vai tirando a espuma escura é que percebe como ainda restam impurezas no caldo. É clado que numa produção grande ninguém vai ficar tirando espuminha e o resultado é este açúcar escuro que a gente conhece.

Então, se você quiser ter um açúcar com o puro sabor da cana, compre um caldo e antes que escureça faça assim:

Leve o caldo ao fogo 

Deixe ferver e vá tirando a espuma que se forma na superfície

Quando formar uma calda grossa, que pingada na água fria
 vire uma bala macia, está bom pra apagar o fogo 

Comece a mexer com colher de pau até esfriar 

E açucarar. Vá mexendo para soltar da panela e soltar os grânulos

Por fim, passe por peneira para que fique soltinho e guarde em vidro. Depois me conte.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Beijus de abóbora - ou de cenoura. Quinta sem trigo.

De abóbora com temperos
Desde que comecei a fazer estes beijus com massa de mandioca - conforme mostrei aqui -, que é a mandioca ralada e espremida, já fiz algumas variações. Sempre com amendoim, castanhas, algo assim. Nunca tinha pensado em incorporar outro legume, mas na sexta precisei usar suco de cenoura para hidratar polvilho e fazer beiju de tapioca colorido e sobrou o resíduo, já que coei a cenoura batida no pano. Para não desperdiçar, juntei o resíduo à massa de mandioca  - mais ou menos umas 4 colheres (sopa) de resíduo para meio quilo de mandioca espremida. Misturei bem, temperei com sal e cozinhei na omeleteira sem untar. De um lado, em fogo baixo, uns 5 minutos. Mais uns 3, do outro lado. Para colocar a massa na frigideira sem amassar, usei uma peneira de malha bem larga como aquelas de fritadeiras - só para que a massa fique mais fofinha. O amido presente na mandioca é o suficiente para gelatinizar e grudar tudo.

A textura (esta, de cenoura)

Pensando nesta capacidade de grudar tudo, fiz outra com um pedaço da grande abóbora. Como a massa de mandioca (que eu compro do Manuel, na feira - mas você pode fazer em casa ralando e espremendo a mandioca num pano) já estava meio ressecada, ralei a abóbora e não espremi (lembrando que a cenoura, esta sim, estava espremida). Misturei 60 g desta abóbora ralada finamente com meio quilo da massa, que é o que vem na embalagem que compro na feira. Temperei com sal, pimenta dedo-de-moça picada, salsinha, cebolinha, ora-pro-nobis picada e só. Cozinhei do mesmo jeito. Quem comeu, aprovou!

A vantagem é que você pode ter esta massa de mandioca na geladeira e fazer beijus rapidamente incrementando-o com o que tem por  perto. É gostoso, tem textura macia, algo gelatinosa e pode entrar na dieta de crianças e adultos alérgicos a ovos, leite e trigo.

De cenoura 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A grande abóbora. Compota com cal

A grande abóbora, aquela que virou pão depois de ter saído da Chapada Diamantina e participado de uma exposição em Brasília para terminar aqui em casa, foi generosa comigo, pois parece ter se multiplicado. Tantos preparos fiz com ela. Ainda não mostrei seus pedaços assados, o bolinho de arroz, o mingau, o beiju...   E veja nos posts anteriores o spatzle e o macarrão. A compota é repeteco de uma receita que já dei aqui. Lógico, fiz uma quantidade menor, mas a receita é a mesma. Desta vez não acrescentei especiária nenhuma, mas poderia ter juntado cravo, cardamomo, anis estrelado. Colo aqui a receita que já está lá atrás. 

Doce de abóbora em calda (foto lá em cima)

600 g de abóbora madura picada em cubinhos de 1,5 centímetro
1 colher (sopa) de cal virgem 

2 xícaras de açúcar
1 xícara de água
1 pedaço de raspa de limão
1 anis estrelado
Sementes de 3 vagens de cardamomo
1 pedaço de canela
5 cravinhos

Numa tigela de vidro, deixe a abóbora de molho por 1 hora em dois litros de água com a cal virgem dentro de uma trouxinha. Escorra, jogue a trouxinha fora e enxágüe bem a abóbora.
Numa panela coloque os ingredientes restantes e leve para ferver junto com a abóbora. Quando formar uma calda rala e os cubinhos estiverem macios (crocantes por fora, macios por dentro), está pronto. É só esperar esfriar, tirar as especiarias, se preferir, e servir puro ou com um tantinho de creme.

Rende: 6 porções 


Nota: a cal virgem é produto da calcinação das rochas e é responsável por deixar a superfície dos cubos crocantes, enquanto o interior fica macio - pode ser comprada em casa de festas. 

terça-feira, 20 de outubro de 2015

A grande abóbora - spätzle





grande abóbora ainda não acabou. O spätzle fiz usando um pequeno pedaço dela que cozinhei no vapor para fazer o pão.  Já dei inúmeras receitas aqui destes minhoques coloridos, incluindo o de abóbora. Desta fiz fiz com cebola queimada. E está aqui só pra registrar o tanto de coisa que tenho feito com uma única metade de abóbora. 


Spätzle de abóbora com cebola queimada 

1/2 xícara de abóbora madura cozida e amassada 
1 ovo
Água
1/2 colher (chá) de sal 
1/2 colher (chá) de pimenta-do-reino triturada bem grosso
160 g de farinha de trigo (cerca de 1 e 1/4 de xícara + 1 colher (sopa)) 
1 cebola bem dourada em 2 colheres (sopa) de manteiga
Folhas de manjericão  
Numa xícara com 240 ml coloque a abóbora bem amassada, já fria. Coloque por cima o ovo e complete o volume com água. Bata no liquidificador até a mistura ficar cremosa. Passe para uma tigela, misture o sal e a pimenta-do-reino e mexa bem. Acrescente a farinha e bata bem até resultar numa massa firme e elástica. Passe pelo instrumento de fazer spätzle. Ou apoie uma tábua com a massa na borda da panela e vá cortando tirinhas com uma faca ou espátula, deixando cair direto sobre a água. Quando as cobrinhas boiarem como nhoque, tire com uma escumadeira e vá ajeitando numa travessa que deve ser mantida aquecida. Passe para a frigideira onde já está a manteiga com a cebola dourada, chacoalhe para incorporar tudo e pronto. 

Rende: 2 a 3 porções

A quem possa interessar: Um instrumento de spatzle improvisado.  



segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Macarrão de abóbora


Ainda a grande abóbora.

No sábado, ela virou macarrão. Misturei 500 g dela cozida com 4 ovos e bati com o mixer. Temperei com 2 colheres (chá) de sal e fui juntando farinha de trigo (quase 1 quilo), até formar uma massa firme. Dá pra fazer isto, em duas vezes, no processador. Fiz algumas bolas, embrulhei em saco plástico e deixei descansar só pelo tempo de forrar a mesa e montar a maquina de macarrão. Fui abrindo e enfarinhando até afinar, cortei em talharins e fui deixando-os pendurados até terminar tudo. Como pode ver na foto, não vamos deixar de fazer macarrão em casa por falta de varalzinho próprio. É só virar as cadeiras de ponta cabeça, sobre a mesa e aí está um bom jeito de secar macarrão.

Assim que terminei a água já estava fervento e fui cozinhando aos poucos em bastante água.  Cerca de 2 ou 3 minutos bastam.

Para o molho, usei um molho branco pronto, com ervas, da Rotisseria Mesa3, da minha amiga amiga Ana Soares. Incrementei com lascas de abóbora, folhas de manjericão e um pedaço de gorgonzola picado. Fervi, juntei ao macarrão e nhac! Com filha, marido, genro, cachorra. Todo mundo gostou.

E nhac! 
 



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A trajetória da grande abóbora até virar pão

Como já disse nos posts anteriores, estive neste último final de semana envolvida com a exposição Cru, no Centro Cultural Banco do Brasil. Estava ajudando Neka Menna Barreto que, junto com os artistas Jorge Menna Barreto e Fernando Limberger, montou uma grande mesa de biodiversidade chamada Banquete pré-Brasil. 

Acabaram de chegar da feira
Eu carregando, Baru cheirando - ainda em Lençóis, Chapada
Diamantina
Quando estive na Chapada Diamantina em agosto fiquei fascinada com a variedade de abóboras e resolvi comprar algumas para a exposição. Acho que paguei 16 reais por ela, que devia ter uns 7 quilos ou mais. Foi uma dificuldade fazer estas abóboras chegarem intactas até Brasília, mas a maioria resistiu ao transporte. Antes disso, tivemos que arrumar carregador da feira até a casa da minha amiga Silvia Lopes, arrumar lugar na casa dela, pesquisar o meio de transporte mais barato etc. Ainda a deixei com a incumbência de embalar, continuar a pesquisa de meios mais baratos de viagem e arrumar carreto para levá-las até a transportadora. Os amigos Alcino e Yasmim, de Lençóis,  também ajudaram nesta empreitada. Já em Brasília precisaríamos ter alguém para buscar na rodoviária - e isto foi providenciado pela produtora Fábia. Estava receosa de não encontrar todas as abóboras, mas especialmente com medo de perder a maior de todas - esta que aparece na foto acima, junto com as melancias, ainda na feira. Em Brasília me disseram que se chama "abóbora-jacaré" por causa da casca.  Para minha alegria, esta resistiu. Perdemos umas duas apenas, as da casca verde.

Fernando Limberger concebeu uma linda mesa - na verdade, um tablado - com todas as espécies nativas que encontramos com a ajuda de muita gente do Brasil todo. A exposição, que teve intervenções da Neka, com feitio de paçoca em pilões, ralação de mandioca, preparo de beijus, salada de frutas, mingau etc, durou apenas um dia e no final quem quis levou pra casa o que conseguiu carregar da  grande mesa. 

Acabei de partir, lá em Brasília - uma semente já germinava!
Esta metade ficou dando sopa e eu a trouxe comigo
A grande abóbora, tirei logo de cena e parti ao meio para ao menos compartilhar as. Muita gente levou. Porém uma metade da grande abóbora foi ficando, ficando... Quando eu já estava indo embora, na ausência de manifestações de querência, a carreguei comigo. Não havia saco que a abrigasse. Então, apenas cobri com um pano e coloquei na mala emborcada nas roupas - danem-se as roupas, pensei. Chegando, a dificuldade foi acomodá-la na geladeira. Mas deu tudo certo. 

Pães para os vizinhos

No outro dia, virou spätzle, purê, assada (depois eu mostro). E ontem, virou pão. Aliás, já tinha feito uns pães com ela assim que cheguei, mas errei a regulagem do forno e eles não cresceram muito. Ficaram gostosos e nutritivos, no entanto,  e já perguntei para os vizinhos quem quer - levantaram as mãos, mesmo sabendo que estão meio errados. 

E estes também já têm destino
Ah, sim, a receita do pão:  Fiz como aqueles de abóbora que já mostrei aqui, porém uma dica a ser observada no caso dos pães com abóboras é que você deve sempre fixar a quantidade de farinha e ir completando com água aos poucos, pois dependendo da umidade do seu levain e do próprio legume, talvez nem precise de água. Neste caso, não usei. Veja o modo de fazer lá nos outros pães, pois só mudei um pouco as proporções. Aqui está: 

300 g de levain, 700 g de purê de abóbora, 700 g de farinha de trigo orgânica, 17 g de sal




quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Aprendendo a fazer a massa para o beiju de tapioca. Coluna do Paladar, edição de 15 de outubro de 2015

Fui pra Brasília, voltei e cá estou novamente. Logo posto fotos da exposição Cru no CCBB com a Neka Mena Barreto e seu banquete pré-Brasil.  Por enquanto, fique com a coluna de hoje do Paladar. O texto está lá no blog do caderno e também aqui.

Peço desculpas a quem não aguenta mais me ouvir falar de tapiocas e ainda mais com flores, mas o assunto era novo para muitos leitores do jornal e quis mostrar especialmente como preparar a massa, já que muita gente só conhece o produto vendido pronto. Já falei no blog várias vezes sobre o assunto e já ensinei a fazer em vários posts. Mas vamos pensar que o leitor do jornal não é leitor do blog.  E voltar às flores foi porque é uma coisa boba e fácil de fazer mas fotos e textos meus repercutiram no instagram, vazaram pro facebook e perderam a autoria. De tal forma, que daqui a pouco vão me acusar de plágio. Apareceu até no blog da Bela Gil (inicialmente sem autoria, mas depois foi corrigido)! Então, já que tanta gente gostou, mostrei brevemente também para os leitores do jornal.


Beijus de tapioca

Acho que nunca, na história da mandioca, um produto seu foi tão popular e ao mesmo tempo tão desconhecido,  como é o caso da tapioca e o beiju feito com ela.

Beiju é nosso pão chato indígena feito à base de mandioca e que muda de nome conforme o componente usado. Pode ser feito com a mandioca ralada e espremida ou massa de mandioca; a mandioca mole ou puba – que é amolecida na água; a mistura de mandioca dura e mole; ou de tapioca que é o amido puro conhecido sob outros nomes, como goma, fécula ou polvilho.  Os nomes de beijus variam ainda de acordo com a espessura, com a dimensão, com o uso de folhas para invólucro ou adições como a de castanhas. Os tipos são muitos e é até perdoável que não conheçamos todos.

Já os beijus de tapioca, reduzidos simplesmente para tapioca ou tapioquinha, são a sensação do momento porque espalhou-se a notícia de que ajudam a emagrecer. Além disso, a mandioca e seus produtos não têm glúten, todo mundo sabe. A proteína presente no trigo, na aveia, no centeio e na cevada não pode entrar na dieta de pessoas que têm doença celíaca, e vem sendo evitada por possíveis alérgicos, intolerantes ou prevenidos – existe a teoria de que façam mal a qualquer pessoa. 

Mas há uns poucos que comem porque sempre gostaram, porque faz parte da tradição ou querem prestigiar o alimento nacional frente ao reinado do trigo – cerca da metade do cereal que consumimos precisa ser importado.  Estou neste grupo.

Quando descobrirem que a tapioca sozinha não faz emagrecer nem é ela a solução para todos os males, a massa pronta para os beijus de tapioca, que surgiu na rabeira da moda, poderá desaparecer também. Ou ficará para suprir a demanda dos que foram cooptados pelo bom hábito. 

Antes, porém, faço a minha parte para que o costume se mantenha e consolide e que aqueles que aprenderam a amar a iguaria, e espero que sejam muitos, não se sintam desamparados. E, melhor, que se sintam independentes e prendados para fazer o próprio beiju. Não digo fazer a partir da raiz, que também é fácil e é o que fazem brasileiros na Europa quando só têm em mãos a mandioca africana.  Agora, fazer um simples beiju de tapioca a partir do prosaico polvilho de mandioca vendido em qualquer supermercado, de norte a sul, todo mundo pode aprender. 

É triste saber que gerações mais jovens de famílias que detinham a tradição não sabem mais fazer um simples beiju a partir da fécula. Recentemente dei oficinas para merendeiras em algumas cidades do sertão da Bahia e estava me sentindo meio ousada ao incluir beijus entre os preparos. A ideia não era ensinar o padre nosso pro vigário, queria apenas mostrar como fazer beijus coloridos e mais nutritivos com sucos de cenoura, couve, beterraba ou capim santo. Para minha surpresa, quase nenhuma delas sabia como fazer brancos beijus e, entre as poucas que sabiam, a maioria usava a goma já úmida industrializada sem saber como era o preparo daquela massa mágica.

Não há nada de hermético no preparo da goma comprada – a não ser pelo conservante adicionado e não declarado na maioria delas. É só o polvilho reidratado e sal. Mesmo aquelas vendidas como frescas no Mercado Ver o Peso, em Belém, são feitas à base do polvilho que vem do Paraná – pelo menos foi o que me disseram vários dos vendedores a quem perguntei. Pode até ser que haja por ali goma realmente fresca e, neste caso, o sabor do beiju é especial já que mantém notas de manipueira – o caldo da mandioca. Mas, molhar polvilho a gente pode fazer em casa facilmente.

Primeiro, é bom esclarecer que quando esprememos a mandioca e recolhemos a manipueira, este líquido é leitoso, cheio de amido.  Quando deixado em repouso, fica transparente porque o amido se assenta no fundo do recipiente. Esta é a tapioca, que tem exatamente este significado, o que fica sedimentado. O torrão de amido deve perder o excesso de umidade antes de ser passado por peneira e virar beiju.  Neste caso, de goma fresca.

Este mesmo amido pode ser seco para ser estocado e aí vem a comodidade de termos dele para comprá-lo no mercado. Desidratado, vira um pó fino como talco e por isto se chama também polvilho. Polvilhos artesanais podem ficar mais empedrados, mas basta triturar ou passar por peneira para que todos fiquem iguais independente do nome goma, polvilho ou fécula. Com isto, já podemos distinguir uma farinha de tapioca – feita com a fécula, independente do formato - de uma farinha de mandioca, feita com toda a massa.

E agora, é só comprar polvilho doce (o azedo é fermentado, bom para pães de queijo e biscoito, não para uma boa tapioca) e preparar seus beijus. Você pode hidratar o polvilho instantaneamente misturando 500 g dele com cerca de 350 ml de água. No entanto, é mais difícil de acertar o ponto. O jeito mais seguro, impossível de errar desde que você tenha como se programar, é colocar numa tigela 500 g de polvilho, temperar com 2 colheres (chá) de sal e cobrir 1 litro de água. Na verdade, não importa a quantidade de água, você deve deixar ultrapassar o polvilho com folga. Use uma colher para desfazer possíveis grumos. Deixe em repouso por cerca de 5 horas ou até o líquido por cima ficar bem transparente. Jogue esta água fora com movimento rápido e certeiro, sem deixar escorrer o polvilho sedimentado. Coloque sobre ele um pano limpo e seco e espere uma hora aproximadamente para absorver o excesso de umidade.  Se ficar muito molhado, troque de pano. Estará no ponto quando a goma perder o brilho. Se estiver com pressa, desfaça os torrões e espalhe-os sobre uma toalha de algodão. Rapidamente chegará ao ponto.

Agora é só esfarelar a goma ou peneirar. Prove o sal e corrija se achar que merece mais. Embale em vasilhas que tampe bem e guarde na geladeira para usar em até uma semana. Ou coloque em sacos e congele.

Em vez de água, use suco de cenoura ou de beterraba: faça um suco no liquidificador usando o legume e água, para ficar bem forte; coe em pano e use. Para suco verde, use couve,  que pode ser aromatizada com capim santo.

Na hora de fazer a tapioca, é só aquecer uma frigideira de ferro, de alumínio ou antiaderente,  sem untar, e peneirar a goma úmida diretamente sobre o fundo, fazendo uma camada fina. Deixe em fogo alto até a parte de cima coagular – cerca de 30 segundos.  Vire e cozinhe do outro lado por uns 15 segundos. Enquanto vai fazendo, deixe a vasilha de goma sempre tampada. E as tapiocas já feitas devem ser guardadas entre dois pratos fundos para que não endureçam e continuem quentinhas e flexíveis até a hora de servir com recheios doces ou salgados.

Tapioca com flores e recheio de coco com araruta e macassá

Separe uma frigideira pequena e espalhe no fundo dela pétalas de flores comestíveis (rosa, tagete, camélia, malvavisco, cosmus etc). Peneire a goma úmida diretamente sobre a flores fazendo uma camada fina, sem mexer com colher. Assim que coagulou por cima, vire e deixe mais alguns segundos.  Mantenha os beijus feitos protegidas enquanto faz os outros.


Faça o recheio, misturando 1 xícara de leite com 2 colheres (sopa) rasas de polvilho de araruta, 3 colheres (sopa) de açúcar, 1 pitada de sal e um galho de macassá – leve ao fogo, mexendo sempre, até engrossar. Junte meia xícara de coco fresco ralado, misture bem e desligue o fogo. Espere esfriar, tire o macassá e use para rechear os beijus.  

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Pão de mandioca com beterraba

Só para deixar registrada a fórmula que fiz de olho e deu muito certo. Já fiz aqui um pão de beterraba, aliás, dois.
O modo de fazer não é diferente de tantos outros que já fiz, como este de abóbora, por exemplo.  Com a diferença que assei em duas panelas de barro com tampa de ferro, que acrescentei mandioca na massa porque tinha sobrando na geladeira e que juntei um pouco de  uva passa porque achei que ficaria bonito com o vermelho.  Então, como estou na correria por aqui (vou amanhã pra Brasília), deixo ao menos a fórmula para quiser testar usando aquelas técnicas do link acima. O legal de usar mandioca é que o pão fica bem macio - e a gente usa menos trigo.



Pão de mandioca com beterraba 

350 g de levain
500 ml de água
400 g de purê de mandioca (mandioca cozida e processada com um pouco do líquido de cozimento)
22 g de sal
1 kg de farinha de trigo
2 xícaras de beterraba ralada e espremida
1 xícara de uvas passas demolhadas por meia hora e escorridas

Faça a massa normalmente com o purê de mandioca e só no final acrescente a beterraba e as passas. Se quiser, separe a massa ao meio e junte a beterraba em só uma das partes. Misture-as quando colocar pra crescer - coloque uma sobre a outra e vá dobrando a cada vinte minutos. Umas três dobradas. Antes que comece a crescer, divida em duas bolas, modele, deixe crescer em cestinhas e quando a massa estiver crescida asse nas panelas pré-aquecidas. Veja os links que vai entender melhor.




quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Neka Mena Barreto, em Brasília neste final de semana

Neka colhendo taboas em Goiânia (acho que ela nem sabe que tirei esta foto)
Neka Mena Barreto me convidou há alguns meses para assessorá-la na montagem de uma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, que fará parte do projeto CRU - Comida, Transformação e Arte. O evento traz um olhar para a comida pelo viés da arte e será apresentado neste final de semana.

A proposta de Neka Menna Barreto e dos artistas Fernando Limberger e Jorge Menna Barreto é apresentar um "Banquete pré-Brasil" e para tal saímos por aí em busca de espécies perdidas, esquecidas, negligenciadas. Mais, eu não conto. Só depois. Por enquanto, se você está em Brasília, fica o convite para ir ao museu na segunda-feira, dia 12, e lá estaremos.

Saiba mais sobre este projeto, no site do CCBB.  

Local: Pavilhão de Vidro e Área Externa
Horário: 10h às 20h
Entrada Franca