segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Framboesa negra. Resposta à charada

Resposta da charada do último post: framboesa da montanha ou framboesa preta ou framboesa do Himalaia. Alguns leitores acertaram e a Thaís deu até o nome científico, Rubus niveus

Na viagem a São José dos Pinhais, no Paraná, no começo do ano, visitei uma amiga de minha mãe que vive perto da cidade em um sítio  onde produz com o marido de tudo um pouco,  mas depois falo do lugar. Primeiro vou falar desta framboesa que veio de lá, que tem este encanto de desenho e um sabor espetacular, bem doce e um pouco ácida.  É rica em antocianinas como as uvas tintas e o vinho. 

Estas são de Santo Antonio dos Pinhais
Kvas 
Este tipo de framboesa já apareceu aqui no blog no ano passado. Lembra quando ganhei um punhado do casal Alex e Laura, de Santo Antonio do Pinhal, São Paulo? Pois com elas fiz Kvas e kefir. O nome das duas cidades de onde vieram já diz muito sobre seu habitat preferido no Brasil. Não falo dos santos, mas dos pinhais, típicos de climas frios. A planta se adaptou bem nas terras altas da Serra da Mantiqueira e, agora sei,  nos bosques próximos a Curitiba.  Aliás, seu nome em inglês é hill raspberry, framboesa das colinas. Nativa do Himalaia, é considerada planta invasora e indesejável em vários países. No Parque Nacional de Galápagos, touceiras desta planta espinhenta tomam conta da paisagem em vários pontos, sendo motivo de estudos para dar fim à espécie, cujas sementes podem sobreviver no solo durante muitos anos e os amontoados se tornam barreiras intransponíveis. Mesmo sabendo disso tudo, trouxe muda da planta para cultivar em Piracaia, afinal uma praga a mais, outra a menos, quando estou rodeada de braquiárias e eucaliptos, não mudará muito, se cultivada com controle. Some-se a isto que os frutos são comestíveis (o ato de comer exerce um grande poder populacional, certo?) e não pretendo deixar nenhum maduro pra trás. Vou fazer geleias e refrescos, congelar para bater com iogurte, fazer bolos, cucas, muffins etc. Não vejo a hora de chegar a safra. Só mais para o fim do ano. 

A planta

Para saber a diferença entre amora, amora-preta e framboesa, uma dica: amora mora na árvore, pode ter outras cores,  e pertence à família das moráceas (a mesma da jaca e da fruta-pão), também conhecida em inglês como mulberry, nome científico: Morus nigra. Já a amora negra ou blackberry é sempre negra, pertence à mesma família das rosas, a das Rosáceas e pertence ao gênero Rubus (várias espécies), plantas com muito espinhos. É aquela que tenho no meu quintal. Para diferenciar a amora-preta da também espinhenta framboesa (Rubus várias espécies), basta observar que as framboesas são Rubus do centro oco - quando colhidas elas perdem o pedúnculo que fica agarrado à planta, deixando o fruto oco. Esta espécie que mostrei, Rubus niveus, apresenta a superfície coberta por uma fina camada de cera, que a faz mais graciosa ainda. 

Rosca de nata com geleia de framboesa, da amiga da minha mãe


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O que é, o que é?

Sei que muito leitor do Come-se conhece, por isto, por favor responda, se é o seu caso. Mas também sei que a maioria dos brasileiros não sabe o que é, o que justifica minha pergunta - para que eu lhe responda na segunda feira. Bom final de semana e até lá!  

Casa da Videira em Curitiba

Leite e queijos de leite de cabra

No último domingo, ainda em Curitiba, fui visitar o projeto Casa da Videira, que já citei aqui.  Na fazenda há cabras, coelhos, galinhas, minhocas, porquinhos da índia além de tomates, bertalhas, almeirões, ora-pro-nobis, framboesas, uvas, maçãs, phisalis e muito, muito mais. Se pensa que estou falando de uma propriedade de hectares tocada por gente da roça, engana-se. É uma fazenda experimental urbana de fundo de quintal de 300 metros quadrados, no meio de um quarteirão de bairro classe média, tocada por profissionais graduados em diversas áreas e preocupados com o modo moderno de viver, com o destino de nosso lixo, com o desperdício de alimento e tantas outras questões ambientais.  Excedentes de comida viram alimento para os bichos, que produzem compostos para os canteiros de verduras e minhocas para galinhas, tudo pra virar mais comida, que alimenta homens e bichos, bichos que alimentam o homem, e assim vai-se fechando o ciclo, sem lixo, porque comida não é lixo, é dádiva.  Claudio Oliver e sua mulher Kátia me receberam em sua casa em pleno dia de Reis, razão pela qual estavam assando e decorando uma rosca coberta com frutas, que cheirava na esquina. A casa onde moram fica num condomínio fechado, mas fomos visitar a Casa da Videira que fica em frente e tem portão adornado por uma parreira. Ali, numa casa de madeira cor de laranja com janelas brancas, mesmas cores da minha,  vive Eduardo com sua mulher e bebê. Sua tese de mestrado é sobre a própria experiência e ele adora mexer com as plantas, encontrar espécies esquecidas e selecionar variedades apropriadas àquele microclima, como foi o caso de um tipo de bertalha que se deu bem por ali. Oliver cuida dos bichos, que inclui ir buscar hortaliças desperdiçadas nos mercados, com a kombi do projeto, e ordenhar todas as manhãs as cabras. Aliás, nada ali cheira a galinheiro ou a chiqueiro. Predomina o perfume fresco de horta molhada, mas os bichos são cuidados com tanto zelo que não cheiram a nada. E zelo significa tecnologia como é o caso do uso da borra de café no chão junto com serragem, que elimina todo o possível mau cheiro e infestação de insetos.   A primeira prova foi já na cozinha de Claudio que me ofereceu leite e queijo de cabra feito por ele. Poderia jurar que ele estava me enganando, pois não havia o mínimo resquício daquele aroma característico de leite de cabra, de que eu sempre gostei - segundo ele, a peculiaridade vem das más condições de higiene. Os ovos também tem perfume suave, em nada lembrando aquele cheiro forte de ovo de granja. Pena que foi rápida a visita, mas gratificante, pois além do fato de ter conhecido tudo isto, voltei com sementes, sabão feito com óleo reciclado feito pelo Eduardo e sabonete de leite de cabra feito pelo Claudio.  Fique aqui com os links de reportagens e vídeos para conhecer mais o projeto. E depois, fotos que fiz no local.

Reportagem no caderno Paladar.



Bertalha super bem adaptada
As cabras 
Queijo de leite de cabra 
Eduardo mostrando os coelhos
Galinhas comendo compostos cheios de minhoca
Canteiro adubado com composto do minhocário
Claudio conferindo planilha de ordenha
Pão com queijo de leite de cabra derretido

Porquinhos da índia são os cortadores de grama
Sabão feito com óleo usado

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Colheita de verão: uvas

Estas foram colhidas aqui em São Paulo, no quintal da minha casa no bairro da Lapa. Estavam embrulhadas em saquinhos de voal e por isto cresceram compactadas no limite do pano,  limpas, perfumadas, enceradas, doces como mel. Foram comidas, chupadas, sugadas, polpa, casca e sementes crocantes bem mastigadinhas. As últimas da safra. As próximas, só no final do ano. As primeiras, o dobro destas, viraram aquela cuca de uvas que comi com café, nhac! 


Colheita de verão: moranga

As outras são de barro, de terra, modeladas, cozidas. Só a moranga cor de abóbora nasceu lá em Piracaia, sem ser semeada, no meio da compostagem do lixo orgânico. Cortada em gomos e temperada com ervas,  foi assada. 

Manga verde. Torta de manga verde. Coluna do Paladar de hoje


Está lá no caderno Paladar, do jornal O Estado de São Paulo de hoje, 10 de janeiro de 2013. E também no blog: http://blogs.estadao.com.br/paladar/da-manga-rosa-quero-a-verde com lindas fotos do Felipe Rau.  Colo aqui a versão integral, com a lembrança do chutney e a versão da cuca,  já que temos cá espaço à vontade, com fotos minhas, à vontade também.  Aí vai: 


Comecei colhendo as mangas na praça perto de casa. Estas fotos: Flora Rigo
MANGA VERDE

Se eu lhe pedisse para descrever uma manga, o que você diria? Doce, suculenta, perfumada?  Talvez  se lembrasse dos fiapos no dente e o formado ovado, redondo, de coração, ou ainda a cor rosa vermelho-pêssego e o detalhe daquela manga espada massageada e depois furada para sair o sumo, que às vezes escorre em fio pelo antebraço.  E certamente destacaria a doçura e o perfume das frutas às vezes comidas antes por sabiás e maritacas.  Claro, você pensou em uma manga madura.  Afinal é assim que elas nos chegam, no seu melhor ponto para se comer ao natural.  Mas a fruta à que me refiro aqui é aquela verde,  que não tem nada disso, nem doçura nem suculência, e ainda assim é uma manga – no estágio que poucos a conhecem.  Tratá-las como iguais, verdes e maduras,  é como esperar um comportamento coeso de homens feitos e bebês. Então,  focaremos nas diferenças.

Como as frutas asiáticas, caso da banana, jaca e manga, e mesmo outras exóticas americanas como o abacate e o mamão, desembarcaram aqui sem manual de instrução,  inventamos de comê-las apenas doces, que é mais fácil - basta esperar que caiam de maduras.  Mas se vamos às origens, encontramos preparos frescos ou conservas, doces com as maduras e salgados com as verdes, ou as duas formas para uma mesma fase da fruta, sem falar nas polpas sem sal nem açúcar embaladas em lata, esticando  as possibilidades de aproveitamento de toda a safra.

O fato é que manga verde é um excelente legume ou simplesmente uma fruta ácida como o limão ou tamarindo e a acidez na cozinha todo mundo sabe o valor que tem.  É mais versátil que banana ou jaca imaturas que necessariamente precisam ser cozidas,  e tem sabor refrescante, livre de travos e amargores e doçura quase apagada.  Basta, portanto, sal ou açúcar para definir seu destino e ressaltar suas características de paladar.  Ela tem aroma fresco muito característico, floral e resinoso,  dado por substâncias aromáticas, como mircenos, limonenos, ocimenos e pinenos, entre outras dezenas identificadas. 

Desde que as primeiras mangueiras indianas chegaram ao Brasil, há pouco mais de trezentos anos,  o desperdiço nos pomares é absurdo. Tão bem adaptadas, tão prolíferas, para sorte nossa.   Mas, também, quem dá conta de comer tanta manga madura em tão pouco tempo? Nem mesmo os periquitos. E se começássemos a fazer como asiáticos e comê-las assim que ficam rechonchudas mas ainda verdes?  Aposto que não teria tanto dono de carro em Belém reclamando das frutas espatifadas de maduras no parabrisa.  Do mesmo modo, se comêssemos jacas verdes, que são ótimos legumes incluindo as sementes, não seria necessário sacrificar tantas jaqueiras produtivas de nossas florestas, como vem acontecendo.  Pois, colher e comer frutas imaturas exerceria um certo controle populacional.  

E, assim, permita-me esta dose de ingenuidade, teríamos menos fome Brasil afora e mais variedade de sabores nos nossos pratos. Sem falar que manga verde não tem custo.

Está certo que não vamos encontrá-la nos supermercados ou hortifrutis, então, para a maioria dos leitores, talvez seja um luxo. Mas para muitos brasileiros que estão na zona rural ou perto de praças com mangueiras, é fruto fácil. Já percebeu quanta mangueira apinhada de frutos de vez há nesta época do ano, nas ruas e quintais de São Paulo?

E quando digo frutos de vez não quero dizer mangas da vez, como as sem fibras Haden, Tommy Atkins, Keitt, ou Palmer. Muitas mangueiras rústicas e até mangabeiras nativas já foram substituídas pelo cultivo destas variedades de manga mais interessantes do ponto de vista comercial. Elas frutificam o ano inteiro graças a artimanhas como o estresse hídrico: uma forma é interromper a água das plantas irrigadas para bloquear o crescimento vegetativo e induzir a floração e outra é simular o mesmo feito a partir da aplicação agrotóxico sufocante para as raízes e danoso para o meio ambiente, o paclobutrazol (PBZ). Por isto, encontramos estas mangas, maduras ou quase, o ano todo. Mas verdes, nunca. Nem delas nem das rosas, espadas, bourbons, coquinhos e dezenas de outras variedades espalhadas pelo país.

Quando verdes, todas elas tem sabor parecido, mais vitamina C e mais amido, que se transforma em açúcar à medida que amadurecem. Daí serem mais densas, menos fibrosas, ideais para preparos salgados, mas também adequadas para doces pastosos, como purês e recheio de tortas. O único inconveniente, a acidez, pode ser um ponto a seu favor. Tanto, que há até um tempero indiano feito à base de manga verde seca. É o Amchur, usado justamente para acidificar curries e outros pratos agridoces.

A polpa ácida traz ainda, a não ser pela doçura,  certa semelhança com as maçãs verdes, especialmente quando ambas estão cozidas. Se temperada com açúcar e canela, então, a polpa chega a enganar. Isto logo foi percebido pela mãe de um amigo, de Holambra, cidade do interior paulista fundada por holandeses.  Acostumada às deliciosas tortas de maçã que comia na terra natal,  não se apertou quando teve que lidar com a falta dos ingredientes a que estava acostumada, fosse pela inexistência deles ou pela dificuldade financeira que afligiu os primeiros imigrantes. Não teve dúvidas, cozinhou mangas verdes sem casca, tirou a polpa, temperou com açúcar e canela e usou no lugar das maçãs. Assim que ouvi esta história, corri para experimentar, seguindo as lembranças do filho Flores e a receita clássica de torta de maçã que dona Flora Welle usava de modelo para a adaptação que não registrou em vida. A mesma polpa cozida era usada ainda por ela para passar no pão duro, como manteiga, para amaciá-lo e alimentar a criançada. Fica muito boa. Lembra torta de maçã, mas também se passa por uma com recheio cremoso de limão. Bastaria um merengue dourado por cima.

Bem, poderia me extender muito falando das possibilidades da manga verde, mas vou mostrar apenas como fazer um arroz bem condimentado, em que a manga ralada tem o papel de uvas passas,  e como servir manga verde apenas polvilhada de sal e pimenta vermelha que pode ser comida com iogurte, ambos de inspiração indiana, além da torta e do refresco feitos com a polpa cozida.

Para fazer suco cru, não há receita. Basta bater a polpa crua com gelo, água e açúcar e coar – fica como uma limonada. Procure ainda no google por chutney cru de manga crua, unripe mango curry, green mango curry ou combinações similares. Inspire-se ainda mais vendo os pratos no google imagens e depois me conte.  


Este chytney é da Shakuntala. Ela vende e por isto não dá receita
Agora, se você quer provar outras delícias com manga verde feitas por uma indiana,  é só escrever para a minha vizinha Shakuntala, que disputa comigo as mangas da praça, e ver o que ela tem na dispensa. Ela vende chutneys e conservas deliciosas: shakuntala@ig.com.br


Torta de manga verde

Massa
200 g de farinha de trigo
100 g de açúcar
100 g de manteiga gelada em cubinhos
1 ovo pequeno

Recheio
2 xícaras de polpa de manga verde cozida
½ xícara de açúcar
1 colher (chá) de canela
Açúcar e canela para polvilhar
Ovo batido para pincelar

Faça a massa misturando todos os ingredientes só até conseguir formar uma bola homogênea. Não sove. Guarde na geladeira enquanto prepara o recheio.
Recheio: cozinhe mangas bem verdes  (cerca de 10 médias) descascadas e cobertas com água, por cerca de meia hora ou até que fiquem bem macias. Raspe a polpa com colher para livrá-la do caroço e das eventuais fibras. Reserve 2 xícaras desse purê para fazer o recheio (se sobrar, use para refresco).  Se tiver muita fibra, passe pelo passador de legumes. Junte o açúcar e a canela e misture. Forre com a massa uma forma para torta com 23 centímetros de diâmetro, untada e enfarinhada. Reserve ao menos 1/5 de massa para fazer o acabamento. Coloque o recheio, polvilhe um pouco de açúcar e canela  e, por cima, coloque tiras, abertas com rolo em superfície enfarinhada, fazendo um xadrez. Finalize com rolinho de massa o contorno da torta. Pincele com ovo batido, leve ao forno médio e deixe assar por cerca de 40 minutos ou até dourar. Deixe esfriar e guarde na geladeira por um dia antes de servir.

Rende: 8 porções

Cuca de manga verde: é só usar aquela mesma receita de cuca de uva e substituir as frutas - no caso, usei mangas verdes descascadas e cortadas em cubinhos como se fossem maçãs. Juntei canela à farofa. 



Já fiz também com folhas de curry, fritas depois do cominho
Arroz de manga verde

2 colheres (sopa) de óleo
1 colher (chá) de grãos de mostarda marrom
2 colheres (chá) de grãos de cominho
¼ de xícara de amendoins inteiros
¼ de xícara de castanhas de caju
2 pimentas dedo-de-moça verdes e 2 vermelhas picadas na transversal, sem sementes
4 colheres (sopa) de cebolinha picada
1 xícara de manga verde ralada grosso
2 xícaras de arroz cozido
Sal a gosto
Folhas de coentro a gosto

Numa frigideira tipo wok aqueça o óleo e junte os grãos de mostarda. Quando começarem a pipocar, junte os grãos de cominho, o amendoim e as castanhas. Deixe dourar.  Acrescente as pimentas, a cebolinha e a manga. Mexa devagar durante 1 minuto ou até a manga murchar. Polvilhe com sal e junte o arroz cozido. Misture com cuidado. Prove e corrija o sal, se necessário. Espalhe folhas de coentro e sirva com uma colherada de iogurte por cima.

Rende: 6 porções

Refresco: cozinhe as mangas verdes descascadas cobertas com água até ficarem macias. Tire a polpa dos caroços raspando com colher. Bata no liquidificador 1 xícara de polpa e 1 xícara de açúcar e guarde na geladeira. Na hora de fazer o refresco, basta colocar no copo umas três colheres de polpa e misturar com água e gelo. Se quiser, tempere com pitadas de açafrão, noz moscada, cardamomo e sal.

Manga com pimenta: Descasque e corte a manga verde em pedaços, sem destacá-los, e polvilhe com mistura de pimenta e sal. Para não ficar muito ardida a cobertura, combine a pimenta seca,  como calabresa moída, merken ou baniwa, com páprica doce, para dar cor sem muita picância. Coma com iogurte.




Chutney de manga cru: já publiquei aqui, mas quis trazê-la de volta porque é uma receita surpreendente. Só pra reforçar, então.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Abóbora-cogumelo

Quando viu, Eliana profetizou:  o mundo pra terminar tá próximo!, meu avô já dizia, você vai ver minha filha quando for chegando o fim do mundo as coisas vão começar a ficar estranhas, gente como nariz de inhame, moranga com cara de abóbora de pescoço, é o sinal. Já meu pai Toninho, cético como eu,  olhou para a aberração e imaginou a engenharia: esta abóbora cogumelo de hiroshima, isto é coisa de japonês, minha filha, polinização cruzada artificial com as mãos do homem que entende destes segredos da natureza, em estufa fechada para impedir polinização por insetos. Mais pragmática que os dois, só quis saber se funcionava na panela. Parti, escavei para tirar as poucas sementes murchas e cozinhei no vapor. Queria rechear. Comi com sal, uma só colher de café.  Um lado mais denso, outro fino. Sem sabor e aguada um lado, ruim, densa e amarga o outro. E dei o veredito: melhor deixar para enfeite e curiosidade. Encontrei-a numa venda no caminho entre Guaratuba e Curitiba, no Paraná.



terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Cogumelos duvidosos e plantas comestíveis nas ruas de Curitiba

Embora tenha andado pelo campo e pela praia em Curitiba e arredores, foi andando pelo asfalto, com uma velha amiga, Magna, debaixo de sol quente depois de um dia nublado, que encontrei estes dois agrupamentos de cogumelos. O bom de andar a pé é que o caminho pode ser tão interessante quanto o destino. Às vezes, mais. 









Agora, espécies seguramente comestíveis que cruzaram nosso caminho pelas calçadas: feijão lab lab ou orelha-de-padre roxa, caruru-do-reino ou bertalha coração e caqui amasiado com maracujá em pleno passeio público. 




As três fotos: Caruru-do-reino ou bertalha coração com suas batatinhas

Feijão lab-lab ou orelha-de-padre roxa 

Caqui e maracujá 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Cogumelos de Piracaia. Comem-se?

Este, solitário, com perfume de shiimeji, queria muito que fosse comestível
Neste final de ano, a diversão nos dias de estiagem, em Piracaia, além de ir à represa ou à cachoeira, foi recolher cogumelos, observá-los, fotografá-los e tentar imaginá-los comestíveis pelo perfume e pela carne, não aptos ao consumo pela insignificância material ou mortais pelo aspecto. Todos lindos, sempre lindos. Mas continuo não arriscando. Alguém aí sabe o nome desses? Não consegui identificar nos guias - talvez apenas o Lycoperdon perlatum, que deu vontade de morder. 

Somem-se a estes, outros cogumelos brasileiros já postados aqui, ali e acolá. E tem aqueles cogumelos da Catalunha








Estes formavam um amontoado no tronco de uma árvore pelada que olhava para a água. São carnudos com perfume de Pleurotus.  Alguém sabe o nome?

Este se parece com uma margarida, com pétalas translúcidas e miolo amarelo. Minha amiga Carol disse que eu poderia procurar no Google imagens como cogumelo-hóstia que certamente encontraria, pois era o que lembrava se desfazendo na frente de nossos olhos com um ventinho de nada. Se for comestível, está naquela categoria "sem interesse gastronômico". 

Estes são  parecidos com os
Coprinus disseminatus, que nasceram no meu quintal, sobre um tronco podre. Neste caso, estavam sobre a terra úmida que certamente cobria algum pedaço de madeira ou folhas podres.  Minúsculos, são outros que para mim não fazem diferença ser ou não comestíveis, pois desapareceriam na panela. Aliás, outro dia minha amiga indiana viu os cogumelos Coprinus do quintal, que frutificaram novamente neste verão, e me contou que já preparou deles para a família e que todos passaram muito mal. Ou seja, pelo menos aqueles não se comem. 









Todos estes outros são muito pequenos, leves, pouco carnudos, que para mim tanto faz ser ou não comestíveis, já que não despertam nenhum interesse gastronômico. De qualquer forma, espero sempre encontrá-los pelo meu caminho pois são graciosos e alegram o cenário. 



Agora, estes sim, eu faria o maior gosto que fossem comestíveis. É quase certo que sejam da família Licoperdácea, e se forem os verdadeiros Lycoperdon perlatum, são comestíveis quando jovens. Encontrei dois grupos em locais diferentes, com uma abundância incrível de elementos. Uns mais jovens, carnudos, branquinhos por dentro e por fora, e muito cheirosos, como cogumelos-de-paris; e outros já maiores, com a superfície pipocada um pouco mais escura e interior mais amarelo e esponjoso.

Abrindo os maiores, pensei que talvez possam ser da mesma espécie de um encontrado maduro por lá, em forma de uma bola poeirenta que identifiquei como Scleroderma ctrinum, mas que pode ser também a Langermannia gigantea, da mesma família Licoperdácea dos Lycoperdon.  Alô, alô,  especialistas micófilos...  Quero muito que este seja comestível. 

Além da beleza e do potencial alimentício dos cogumelos, eles podem servir de telefone, flor de cabelo, tapa-olhos etc, como nas brincadeiras das primas Ananda, Flora e Tarsila. 

Quanto a comer, fica por sua conta e risco.  Eu não comi -  a foto é só uma brincadeira, tá?  A seguir, cogumelos de Curitiba.