terça-feira, 10 de março de 2009

Feijão guandu


Acima, já lavado. Aqui, à venda numa Casa do Norte. Clique & Amplie.
A primeira vez que provei, achei estranhíssimo. Uma vizinha pernambucana de minha mãe, lá de Fartura, me mandou um saco grande deles. Eu já havia experimentado antes, por isto não me animei muito e, infelizmente, todo ele acabou comido por carunchos. Não me perdoando por ter deixado isto acontecer, me penitenciei comprando de pouquinho a cada vez que ia ao Mercado da Lapa. O vendedor diz que tem gosto de mato. E foi indo, foi indo, acabei gostando muito. O fato é que Eliana, a baiana que me ajuda aqui, disse que pra ficar bom tem que ferver e jogar fora a primeira água, para não amargar. Assim, o sabor fica melhor. Agora, só faço deste jeito e fica muito bom mesmo.
Ele não é daqueles feijõezinhos suaves de personalidade amena. Não, ele tem sabor agreste, de natureza forte. Não é dos que se contentam com qualquer alhozinho refogado. Ele pede temperos fortes como pimentas, pimentões, cominhos, sementes de coentro, ervas. E foi assim que fiz.
Dizem que o Cajanus cajan (ascendência completa: família Fabaceae, subfamília Faboideae, tribo Phaseoleae e subtribo Cajaninae) foi trazido da Índia ao Brasil e Guianas pelos mercadores de escravos. Por aqui, a planta que, diferente dos outros feijões, tem formato arbustivo geralmente perene, é também usada nos projetos de recuperação florestal e de solo. Bastante rústica, a planta se mantém verde mesmo durante a seca, é um ótimo fixador de nitrogênio do solo e ainda tem raízes que penetram na terra dura em busca de água profunda, abrindo espaço para raízes mais frágeis de outras plantas, como o milho, por exemplo – por isto é apelidada de “arado biológico”.

Infelizmente no Brasil é visto com um certo preconceito como alimento humano, mas é uma fonte protéica de ótima qualidade, comparável a outras leguminosas. Na Índia, os grãos pelados (split pigeon pea) são usados em dhals e outros pratos vegetarianos. Em Porto Rico, o Arroz con Gandules (seu nome por lá) é um prato bastante popular, feito com arroz, o feijãozinho, além cebolas, alhos, louro, tomates e carne de porco. Nos estados brasileiros (não sei exatamente quais - depois que eu levei uma bronca aqui, em público e com razão, não ouso mais generalizar a região Nordeste), parece que é feito sempre com outros aditivos além dos simples alho e cebola. Carne seca e toucinho também cabem na panela. Podem ser usados tanto os grãos secos, encontrados facilmente nas Casas do Norte, quanto os frescos – já vi aqui na Lapa vendedora do feijão guandu verde, são lindos, todos rajados e coloridos, mas é coisa rara. Outros nomes: andu, ervilha-verde ou guando. Veja como fiz e recomendo:

Feijão guandu com pimentões e especiarias

1 xícara de feijão guandu seco
2 folhas de louro
2 colheres (sopa) de azeite ou óleo
3 dentes de alho micropicado
Meia cebola picada
1 colher (chá) de cúrcuma em pó (açafrão-da-terra)
Meia pimenta dedo-de-moça vermelha sem sementes, finamente picada
Meia pimenta dedo-de-moça verde sem sementes, finamente picada
4 colheres (sopa) de pimentão verde picado
4 colheres (sopa) de pimentão vermelho picado
1 tomate bem vermelho e firme sem pele, picado
1 colher (chá) de sal ou a gosto
½ colher (chá) de sementes de coentro
½ colher (chá) de sementes de cominho
½ colher (chá) de sementes de feno-grego (opcional)
1 cravo-da-índia
5 grãos de pimenta-do-reino preta
2 colheres (sopa) de cheiro verde picado

Lave bem o feijão guandu e leve ao fogo com 2 xícaras de água. Quando ferver, escorra, descarte a água, coloque os grãos na panela de pressão e cubra com 5 xícaras de água quente e junte as folhas de louro. Tampe a panela e leve ao fogo. Quando a válvula começar a chiar, abaixe o fogo e deixe cozinhar por meia hora. Tire do fogo, espere sair toda a pressão e abra a panela. Se precisar, cozinhe mais um pouco. Os grãos precisam estar macios. Reserve. À parte, aqueça o azeite e refogue nele o alho e a cebola, até começarem a dourar. Junte a cúrcuma, as pimentas, pimentões, tomate, o sal e refogue por 1 minuto. Junte o feijão reservado com o caldo que restou. Se for preciso, junte mais água quente. Tampe a panela e deixe cozinhar por cerca de 10 minutos ou até os pimentões estarem bem macios. Por fim, doure numa frigideira rapidamente o coentro, cominho, feno-grego, cravo e pimenta-do-reino e triture bem. Junte ao feijão e misture. Prove e corrija o tempero e o caldo, se necessário. Desligue o fogo, coloque o cheiro verde e sirva com arroz.

Rende: 6 porções
Nota: se quiser, junte carne seca, bacon, linquiças.

31 comentários:

Marcia H disse...

Neide,
ainda bem que eu estou indo em maio, pois nos últimos dias seu blog só está me deixando de àgua na boca. Aff, andu - nao sabia q tinha outro nome! Lá em casa (no interior da Bahia) tinha uns pés de andu. Sempre gostei muito. Também nao sabia q era chamado de arado natural.
Você como sempre muito informativa.

Turmalina disse...

Hummm...a cara ficou ótima....me encheu a boca d'agua tb....

Felipe Santiago disse...

Neide, Aqui na minha região, interior de S. Paulo, conhecemos como andu. Fazemos ele mais ou menos nesse estilo ou quando ainda verde e não completamente maduro, fazemos uma farofa no estilo "arrumadinho" de feijão de corda na tradição recifense.

clau disse...

Sabe, ler sobre este feijaozinho amargo me fez lembrar dos meus tremoços, que eu fiz e que estao me esperando ali na minha geladeira, dentro de uma salmoura...
Me ensinaram que eles tb podem ser, "aromatizados", antes de se comer, embora eu curta o toque amargoso deles.
Enfim, nao conheço este feijao que vc fez, mas me pareceu muito, muito apetitoso, mm...!
Bjs!

Silvia disse...

Neide,

Comi este feijão a vida inteira, só que conheço como andu.Sempre minha faz uma farofa deliciosa, com muito torresmo, linguiça, uma pimentinha...Fica delicioso! Depois farei a sua receita..

abraços!

Silvia Vieira

Lisa Tassi disse...

Esse feijão é muito bom como Adubação verde! Dá uma bela arvoretinha que ajuda a fixar nitrogenio. Ótimo para ser plantado em hortas e jardins. Lá em Botucatu nas hortas comunitárias são vendidos ainda verdes, para serem cozidos e saboreados. Delícia!

Dricka disse...

Neide,
minha tia mora em uma pequena chacara e utiliza 300% o espaço, planta o que dá, respeitando sempre as épocas.Dias desses ela nos trouxe uma sacola desse feijão(chamamos gandu) fresquinho.Ele fresquinho reescende mesmo a natureza.Bommm.

taisando disse...

Neide,
No sertão da Bahia chamamos de Andu, muito valorizado e presente em muitas mesas. Todo mundo em Uibaí tem um pé de andu no fundo de casa. Mas carece de umas receitinhas mais variadas, sim. Adorei vê-lo por aqui.
:)
Cheiro!

Taís

Edilene disse...

misericordia,me deu até água na boca de ver esse feijão,que delicia. parabéns

Anônimo disse...

Oi, Neide, boa tade
Meu nome é Edéia, moro em Poços de Caldas/ MG
Acredito que sua receita deve ser deliciosa.
Eu estou precisando de uma informação, quem sabe vc pode me ajudar. Preciso com urgencia de raiz de feijão guandu. Sabe onde posso encontrar? Se vc souber, poderia responder no meu e-mail, por favor? edeia_payoletti@hotmail.com
Obrigada
Edeia

Ernani disse...

Sou Ernani, moro no interior de são paulo, sou produtor de semente. Tenho ótimos preços de feijão guandú. Se tiver interesse ligar.
17 3267-1134

Anônimo disse...

meu nome é roberto, moro em sp a 12 anos,tenho 42 anos,nascido no estado do rio de janeiro, e por lá o feijão é conhecido como guando,lendo a receita tambem fiquei com agua na boca, pois tem muito tempo q ñ ò como,minha mãe sempre fazia ele seco pra gente, ela cozinhava com carne seca dentro q delicia. parabens neide pela iniciativa. essi nosso brasil é tão maravilhoso ñ é. temos de tudo de bom. beijos.

Personal Stylist disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Patricia O. disse...

Oi!
Huuuum, que delícia.
Aqui em Pernambuco, ele é conhecido como feijão-andu.
Um abraço

shenifer disse...

Sou argentino, conheci o "andú" na casa da minha sogra mineira e passei a plantar. Ha duas variedades uma de flor Roxinha outra verde. A gente come seco em cozidos ou verde em saladas ou diretamente da vagem, assim se acostumaram os meus filhos.Seco geralmente preparamos como cualquer outro feijão, agradeço a dica de ferver e trocar a primeira agua.

Edgar disse...

Neide
Aqui no ES o chamamos de guandu ou feijão guandu. É quase mato por aqui. É muito comum na beira das estradas.Geralmente é preparado verde, de vários modos. Em salada, com bacon frito picadinho e temperinho verde ou também é preparado feito um ensopado, com linguiça defumada, carne seca, bacon e depois com ovos estalados inteiros, que são cozinhado juntos. Fica uma delícia. Edgar

Dulcilene disse...

Oi,meu noeme e'Dulce;

Eu conheço o feijao andu,da minha infancia,minha mae tinha um butequiznho e facia um bolinho maravilhoso pra vender no buteco e vendia tudo,incrivel o tempo passou e nunca perguntei isatamente como ela fazia a o bolinho,vc's sabem como e'essa receita antiga de bolinho pra tira gosto de anbu? me enviei por favor,morro de saudades de sentir aquele sabor e lembrar da minha infancia e da minha mae que sa morreu a' uns dois anos;quem souber meu e-mail e': leneju@hotmail.com

Anônimo disse...

Oi.. qual é a cultivar desse feijão-guandu que vc consome?

Deni disse...

vc sabe me dizer aonde eu posso encontrar esse feijão de andu(gandu)?

Neide Rigo disse...

deni, não sei onde você está. Mas aqui em São Paulo pode ser encontrado nos mercados municipais, como o da Lapa, por exemplo.

Deni disse...

bom eu moro em santa catarina :S

delcina torres disse...

meu nome é delcina .obrigado

Dalila disse...

vou fazer agora;mas nao com esses temperos todos pois nunca nem vi nem tinha vido falar;mas vou fazer com amor e tambem vai ficar bom ,bjos valeuuu!!!!!!11

Anônimo disse...

Neide te procurei para saber sobre o guandu e acabei lendo sobre kefir.
Você poderia me falar sobre o preparo e conservação?
Há uns 30 anos eu fazia em casa, e só me lembro que tinha de prepará-lo todos os dias e conservá-lo no leite. Depois de um tempo aquilo me cansou.
Perguntas: ele pode ser comparado ao yogurte na composição e benefícios?
se eu viajar faço o que com a criatura?
Agradeço sua resposta.
Cris
anacrisacoelho@gmail.com

Isabel disse...

Neide, tenho uns pés de "guando" aqui no meu quintal no Rio de Janeiro e cheguei ao seu blog procurando informações sobre esta planta. Fiquei impressionada c/ a variedade de nomes e formas de cozinhar...Particularmente, a gente gosta de fazer ele verde, com pedaços de frango e batata, mas já fiz c/ carne seca e amanhâ vou fazer com carne de boi.
Meus patos e galinhas também adoram qundo eu deixo um bocado no chão p/ eles!
Na Região dos Lagos, no Estado do Rio, quase todo mundo tem uns pés no quintal.
Gostei muito do seu trabalho, vou continuar lendo...
Abçs, Isabel.

Henrique disse...

Este feijão me parece muito interessante porque pode ser perene e parece ter uma boa produtividade.
Nós somos muito dependentes do sistema comercial, até para comer, vamos fazer hortas, nunca se sabe do futuro, nada melhor que sermos independentes. Vou comprar umas sementes e plantar guandu. Obrigado pelas informações, gostei também dos comentários.

Anônimo disse...

Olá,neide,tdo bem? moro no es,mas tenho uma casinha c pena mg onde no ano passado plantei algumas sementes de feijão guando!Dessas sementes apena cresceram 3 mudas e formaram pequenos arbustos! Estive lá no dia 09 e fiz a primeira colheita!!!Agora vou tentar fazer uma das receitas sugeridas! Ah! Entrei nessa página procurando saber sobre propridades medicinais do feijão guando! Onde encontro? Abraços!Fique na Paz de Deus!

Anônimo disse...

Neide,por favor,me perdôe,deixei um comentário para você,porém esqueci de dizer meu nome!!Me chamo Neuza e moro em Cariacica E Santo! Abraços!

Neide Rigo disse...

Neuza,
tente entrar no Google Acadêmico e procurar sobre propriedades medicinais. Deve haver alguma coisa.
Um abraço, N

Robson Roberto Silva disse...

gosto muito deste feijão , mas ja faz um bom tempo que não como vendo seu blog me deu ate vontade . vou encontralo aqui em Campinas no mercadão municipal abraço Beto de Campinas

Sueli Rosa disse...

Fizemos uma boa colheita de feijão guandu na horta comunitária da Vila Pompéia, a sua receita pode ser uma ótima opção para que todos possamos degustá-lo. Neide, que tal vir conhecer esse espaço público em formato de horta ? Rua Francisco Bayardo esquina com a Rua Saramenha 10.11.13 a partir das 10 hs. O convite tá feito !! bjs Sueli Rosa