sexta-feira, 13 de março de 2020

Cogumelos silvestres da Mata Atlântica. Coluna Nhac para o caderno Paladar. Edição de 13 de março de 2020

Favolus 
 Hoje tem matéria de capa do Paladar / Sextou no Estadão. Veja no site do Paladar a matéria completa, editada, com fotos lindas do Tiago Queiroz. Aqui, algumas fotos minhas só pra ilustrar. Tem também no jornal impresso. Segue aqui o texto bruto, sem edição. Só pra registrar.



Cookeina 

Oudemansiela

Phallus

Salada de Auricularia 

Lentinula 

Lentinula colhida seca e hidratada 

A equipe do IFungiLab


Mariana


Tamille

Andrés e Tiago 

Prof. Nelson 

Eu com estas lentínulas secas que trouxe pra casa


Lentinula 

Tiago 

Voltando da Trilha com Julio 



COGUMELOS SILVESTRES COMESTÍVEIS. SIM, NÓS TEMOS! 

Chicken of the woods!  Alguém apontou e gritou como se tivesse achado o tesouro da ilha. Os olhos dos pesquisadores brilharam como a água que nos circundava. Foi o primeiro cogumelo que avistamos já em terra firme depois de uma hora de voadeira que seguiu beirando a faixa contínua de manguezal, observada do alto por guarás e de baixo por golfinhos.  Saímos de Cananeia, litoral Sul de São Paulo, rumo a Ilha do Cardoso, especialmente para estudar cogumelos.  A coleta ainda não havia começado oficialmente naquele fim de tarde azul prateado, pois as últimas horas com luz natural seriam usadas para descarregar do barco inúmeras caixas com material de trabalho e para nossa própria acomodação na pousada Recanto do Marujá, que só tem energia elétrica por gerador durante algumas poucas horas da noite. No dia seguinte, acordaríamos cedo para a lida.
O grupo era coordenado pelo biólogo e micólogo Nelson Menolli Jr., professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo – IFSP e pesquisador associado do Instituto de Botânica – IBt, ligado à Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo.  Além dele, compunha a turma a orientanda de doutorado Mariana Drewinski, as alunas de Iniciação Científica Maria Fernanda Ortiz, Marina Pires e Tamile Rodrigues e o monitor ambiental do parque Julio de Souza Jr. Todos fascinados por cogumelos de diferentes maneiras e motivações – Maria Fernanda, por exemplo, se encantou com cogumelos já na infância com as histórias de fadas e duendes.  Por nossa conta e risco, o artista plástico Andrés Sandoval, o fotógrafo Tiago Queiroz e eu, nos juntamos ao grupo a convite do professor, que aceitamos pelo prazer e privilégio de aprender um tanto mais sobre este reino tão negligenciado.  A ideia era apenas acompanhar, observar e registrar esses dias de campo previstos no projeto “Cogumelos da Mata Atlântica: diversidade e potencialidades de espécies comestíveis”, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo 2018/15677-0, salientando que as opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas aqui não refletem necessariamente a visão da Fundação.   
Depois de termos nos ajeitado nas acomodações simples da pousada, nos banhado no mar e experimentado no caminho de restinga as pequenas e doces camarinhas, como mirtilos, era hora de explorar o entorno, mesmo que de uma forma rápida e com pouca luz, afinal todos queriam voltar à árvore que hospedava o chicken of the woods, a que todos se referiam com intimidade e sobre o qual nós, os leigos, nunca tínhamos ouvido falar.  Eu o descreveria num primeiro momento simplesmente como uma orelha-de-pau.  Mas esta era especial - grande, macia, carnuda e deveria ter textura e sabor de frango, daí o nome mais comum, principalmente nos Estados Unidos,  pelo qual são conhecidos estes cogumelos do gênero Laetiporus. Mas descobrimos na prática que ele têm prazo de validade e só são gostosos quando jovens. Os mais velhos, que era o caso, têm um amargor nada palatável que não desaparece mesmo sob fervuras repetidas, característica confirmada depois consultando outras fontes. Agora, a cor salmonada e a textura de peito de frango são de verdade. Pena que não encontramos outros exemplares mais jovens. A experiência só reforçou o tanto que temos ainda a aprender sobre cogumelos e suas particularidades. E nem precisava ser muito sobre todo o reinado. Que fosse ao menos sobre o que nos interessa neste caderno – o alimento.
Aliás, como pode um grupo de organismos com reino próprio, o reino Fungi, e de fundamental importância para o funcionamento da vida na terra receber tão pouca atenção de todos nós? A começar pelas escolas de Biologia, que dedicam grande parte da grade curricular à Fauna e à Flora, mas quase nada à Funga.  Poucas faculdades de Biologia no Brasil têm disciplinas específicas e professores especialistas em micologia e há ínfimos estudos financiados hoje por órgãos de pesquisa. Ou seja, faltam ensino, pesquisa e pesquisadores de fungos no Brasil. No entanto, apesar da invisibilidade aparente ou simplesmente cegueira nossa, eles estão por toda parte.  Claro, há fungos parasitas, tóxicos, patógenos ou alucinógenos, mas eles são fundamentais para a manutenção do equilíbrio do ambiente e muitos têm interesse comercial como na fabricação de bebidas fermentadas, pães, queijos e até como antibiótico – afinal, o que seria da humanidade não fosse o descobrimento da penicilina?  E, para sorte nossa, vários são comestíveis, gostosos, nutritivos e cheios de umami e é deles que vamos falar agora neste recorte.
A vegetação protegida da Ilha do Cardoso favorece o surgimento de várias espécies de cogumelos silvestres comestíveis. Trata-se de um Parque Estadual com mais de 130 quilômetros quadrados de Mata Atlântica preservada com ambientes de mangue, floresta e  restinga, cujas trilhas só podem ser percorridas com a presença de um monitor ambiental local.  Nos três dias seguintes, com a presença de Júnior, nosso guia para todas as horas, percorremos caminhos tortuosos, úmidos, quentes e mágicos, cujos portais começavam na praia adornados com bromélias, orquídeas, canas de macaco floridas, araticuns de anta, aracás e pitangas do mato, entre tanta diversidade. Depois de caminhar alguns quilômetros pelas picadas, às vezes enlameadas ou empedradas e escorregadias, invariavelmente chegávamos a uma linda cachoeira, um poço refrescante para banho ou uma vista admirável. Mas não era o destino que importava e sim o caminho. E neste caso não era só uma questão de filosofia ou retórica. Era literalmente o caminho que importava, pois nosso campo de coleta estava todo nas margens das trilhas percorridas ladeadas por uma vegetação antiga de diferentes tons de verdes em constante renovação, com troncos e galhos caídos, de volta ao solo, enegrecidos e entranhados de insetos e cobertos de musgos e cogumelos comestíveis ou não.   
Os pesquisadores têm olhos treinados. Enquanto nos esforçávamos por um furo, para sermos os primeiros a avistar algum cogumelo, eles enxergavam um bom tanto de longe. Quando olhávamos para o chão, lá estavam as Auricularia sp. no alto de um tronco já morto de uma árvore prestes a cair. Então, enquanto andávamos olhando para cima, tropeçávamos num toco caído coberto de Favolus sp..  E se era ao longe que mirávamos, lindos e rosados Pleurotus djamor soltavam nuvens de esporos debaixo do nosso nariz.  Eles estavam por toda parte, mas era sempre alvoroço quando nos deparávamos com um pedaço de pau coberto de musgos e cogumelos, especialmente os comestíveis. Sem falar da comoção causada por aqueles com formas inusitadas e raras como o rendado Phallus sp., o Cookeina tricholoma, com aparência de cúpula de abajur laranja, o Geastrum sp. conhecido como estrela-da-terra e com formato de flor ou a Tremella sp., um buquê de renda translúcida, gelatinosa e tremelicante.  Muitas vezes o grupo tinha dúvida da exata classificação – quanto mais se sabe, mais se desconfia. O gênero era certo, mas a espécie, discutível, só comprovada em laboratório com base em estudos microscópicos e moleculares. O estipe era central ou excêntrico? Como eram as lamelas, o píleo ou chapéu? Tinha anel? Qual era o habitat? Vinha direto do solo ligado às raízes, aos pés de uma dada árvore ou em madeira em decomposição?  Enquanto alguém anotava tudo isso, uma pessoa arrumava o cenário da foto, outra recolhia exemplares inteiros e com cuidado colocava-os em uma caixa com divisórias.  Durante os três dias, foram cerca de 15 espécies comestíveis coletadas, algumas mais raras e outras recorrentes como as Auricularia spp., as Oudemansiella spp., a Lentinula raphanica, o Pleurotus djamor, os Lentinus spp. E o Favolus brasiliensis.
Já na pousada, que se transformou num verdadeiro laboratório, os cogumelos eram tirados da caixa e, em ambiente rodeado de lamparinas para impedir contaminação, micropedaços da parte interna, entre o píleo e a lamela, eram pinçados e dispostos em placas com meio de cultura próprio para o crescimento destes fragmentos.  Esta primeira tentativa de reprodução é um sucesso quando depois de poucos dias começam a crescer em volta dos fragmentos os micélios branquinhos. Mas este é só o começo. A partir daí, até conseguir isolar este material genético e ver desenvolver um cogumelo, são vários outros passos. A ideia é avaliar as condições ideais de nutrição, luz, temperatura e umidade para o desenvolvimento e cultivo fora do habitat natural.
Enquanto os micólogos trabalhavam, Andrés desenhava, Tiago fotografafa e eu fazia experiências na cozinha com o excedente do estudo para uma breve degustação. Do que foi coletado, tivemos alguma sobra de Oudemansiella sp., um cogumelo carnudo delicioso, Auricularia sp., um tipo de orelha-de-pau de cor marrom violáceo, macio e com consistência cartilaginosa, muito comum na cozinha chinesa, e Lentinula raphanica, um cogumelo bege de sabor suave e perfumado.  O primeiro, apenas refoguei no azeite com alho e cebolinha. Com Auricularia sp., que pode ser consumida até crua, fiz salada – cortei em fitas, aferventei e temperei com gengibre, molho de soja, vinagre, açúcar, sal e cebolinha. Já as Lentinula raphanica, que coletamos já secas, hidratei por 1 hora e refoguei na manteiga e azeite, sal, pimenta-do-reino e salsa silvestre que colhi na praia.  
Mas a pergunta que não cala. Para quê tudo isto? Nós sabemos que a maioria dos cogumelos comestíveis frescos presentes hoje no mercado é de origem europeia ou asiática e precisa ser cultivada em ambientes climatizados ou condições muito específicas. Com este projeto os pesquisadores querem mostrar que há no Brasil diversidade e potencialidades de produção de espécies silvestres, sejam nativas ou exóticas, que crescem espontaneamente na Mata Atlântica, adaptadas às nossas condições climáticas e que podem ter o cultivo simplificado sem grandes investimentos, como uma fonte de renda para muitas famílias e pequenos produtores. Para isto, as instituições às quais os pesquisadores estão vinculados estão abertas a parcerias com a iniciativa privada ou organizações sociais que quiserem apoiar os projetos de pesquisa e inovação. Que a ciência não morra!

O que são cogumelos

Os cogumelos dos mais diferentes formatos são estruturas macroscópicas de reprodução de espécies de fungos formadas por um emaranhado de hifas chamado micélio. Quem vê um cogumelo não imagina a extensão de sua estrutura micelial,  que pode alcançar quilômetros.  O  micélio é fundamental, por exemplo, nos processos de absorção de água e nutrientes pelas raízes das árvores que se associam a fungos específicos. Além disso, o micélio dos cogumelos age na transformação da matéria orgânica de difícil decomposição, como a lignina da madeira, em substâncias que retornam ao ambiente e podem ser assimiláveis por outros organismos.

 

Cogumelos em números

Segundo o micólogo Nelson Menolli Jr., há estudos que apontam como sendo 22 mil o número estimado de espécies de cogumelos no mundo, sendo que aproximadamente 2 mil são comestíveis e cerca de 100 representam espécies cultivadas.  Este número é desconhecido em se tratando de Brasil, mas estudos preliminares do grupo do professor Menolli apontam como 2 mil o número aproximado de cogumelos conhecidos no país, com 100 espécies silvestres comestíveis ocorrendo apenas no estado de São Paulo, sendo que a Mata Atlântica é o domínio fitogeográfico com maior número de registro de fungos no Brasil.

Como saber se um cogumelo é comestível

Esta é a pergunta que todo mundo faz. Como saber se um cogumelo é comestível? Infelizmente eles não chegam com uma marcação.  Assim como as plantas, há cogumelos comestíveis, tóxicos, indigestos, alucinógenos e aqueles que embora não sejam tóxicos não despertam nenhum interesse gastronômico – podem pequenos e exíguos que desaparecem com o cozimento ou muito duros que não possam ser mastigados ou ainda serem carentes de sabor, cor, textura e aroma. E a melhor forma de se chegar ao conhecimento é começar treinando o olhar para os cogumelos de um modo geral, tentando diferenciar suas características, observar as diferentes fases, desenhar e fotografar de cima, de baixo, de lado, associar com a paisagem, o substrato, o clima, a estação do ano, fazer cursos, ler sobre o assunto, participar de expedições para identificação e conversar com quem entende. Segundo o professor Menolli, “não há uma característica que possa ser usada para distinguir um cogumelo comestível de um tóxico, alucinógeno ou mesmo de um sem potencial de comestibilidade. Todo o conhecimento das espécies comestíveis que temos é baseado em registros prévios e o reconhecimento delas em campo se dá pela prática e experiência, mas a confirmação só com estudos mais detalhados em laboratório”.


Como coletar cogumelos silvestres

Mesmo enquanto os estudos sobre os cogumelos da Mata Atlântica não são concluídos e enquanto ainda não temos cultivo destas espécies, não se aconselha a sair por aí coletando cogumelos silvestres para comer se você ainda não tem experiência.  Se já conhece e tem o hábito ou a assistência de um especialista, ainda assim há algumas recomendações que são consenso entre especialistas. Entre elas:

. Não coletar cogumelos em terras alheias sem autorização do proprietário.

. Usar sempre uma cesta ao coletar, pois assim estará espalhando os esporos enquanto caminha; nunca misturar espécies duvidosas com as comestíveis e levar sempre um canivete, assim poderá retirar a base dos cogumelos sem danificá-los e já limpá-los no local.

. Evitar a ganância. Ao encontrar um bosque público com muitos cogumelos,  nunca colete tudo. Lembre-se que outras pessoas poderão chegar depois de você, ou mesmo os animais que se alimentam deles e também ajudam a espalhar os esporos. 

. Não coletar em Áreas de Proteção Ambiental, como parques estaduais, sem autorização.

. Se estiver pensando usar os cogumelos silvestres no seu negócio, contar sempre com a assessoria de um especialista para certificar a identificação das espécies e coletar apenas os cogumelos que crescem em sua propriedade ou fazer parcerias transparentes com outros proprietários e coletores.
. Pode ser uma boa ideia formar clubes de coleta com regras definidas para que haja distribuição justa para a os coletores.  O excedente pode ser seco com uso de desidratador, forno a lenha, lareira. Assim, terá cogumelos para o ano todo. 
. Ao comprar cogumelos silvestres, escolher  associações e empresas que respeitem a população local e que pratiquem comércio justo e o respeito aos princípios agroecológicos.
. Preservar os habitats naturais é garantir a manutenção da vida e da biodiversidade fúngica à mesa.

Como preparar

Se você tem em mãos cogumelos silvestres já identificados como comestíveis e não sabe o que fazer com eles, observe a consistência. Os mais firmes ficam bons em sopas e caldos. Os mais delicados podem ser chapeados rapidamente ou simplesmente refogados em manteiga e azeite. Alho, salsa e cebolinha podem combinar. Desta forma podem entrar em recheios e fritadas, por exemplo. Evite tomates se o sabor for muito suave, pois o tomate vai predominar. As Auricularia spp. podem ser consumidas cruas ou aferventadas em sopas ou em cozidos com carnes e vegetais. Apesar do pouco sabor, contribui com sua consistência cartilaginosa.

Outras experiências com cogumelos silvestres

Enquanto este projeto da Mata Atlântica de São Paulo é ainda insipiente e promissor, já há algumas iniciativas de consultoria, pesquisa, divulgação e comercialização de cogumelos silvestres. São elas:

IFungi Lab . Coordenado pelo Prof. Nelson Menolli Jr, o laboratório de pesquisa atua em projetos de ensino, pesquisa e extensão no que diz respeito ao estudo dos fungos em sua forma mais ampla, com foco na diversidade e potencialidade das espécies de cogumelos comestíveis silvestres que ocorrem na Mata Atlântica.  Fica no Instituto Federal  de Educação, Ciência e Tecnologia – IFSP, Campus São Paulo.
Instagram: @cogumenolli  e @ifungilab

Terroir Sul. Empresa de Santa Maria, RS, criada pelo micólogo Marcelo Sulzbacher, biólogo e pesquisador, com o sócio Ormuz Neto, cervejeiro. Dentre a linha de produtos disponíveis, há até cerveja de cogumelo, a Birra Porcini, além de sal com cogumelos porcini e mix para risoto funghi secchi selvagem com Boletus edulis, Pleurotus e Suillus entre outros.  Marcelo também oferece cursos e expedições de identificação e coleta.
Instagram: @_terroirsul e @marcelosulzbacher

Universina. Também do Sul, da região de Lages, a empresa de Daniela Carneiro Máximo de Oliveira, médica veterinária especialista em agroecologia, trabalha com parceiros que tenham alguma relação com áreas de reflorestamento de pinheiros, onde estes cogumelos silvestres de origem europeia, Lactarius deliciosus e Boletus edulis, introduzidos de forma involuntária com as mudas de Pinus spp crescem espontaneamente. São parceiros as pessoas que fazem manejo ou que moram nestas áreas e que até há pouco tempo ainda não viam estes cogumelos como alimento. Muitos contam que os Porcini, por exemplo, serviam apenas para serem chutados como se fossem bolas de brinquedo – pelo menos saiam rodopiando e liberando esporos pelo ar. No catálogo de produtos, estes dois cogumelos são vendidos frescos, congelados, desidratado ou em pó, a depender da sazonalidade.
Instagram: @universina.alimentos

Cogumelos Yanomami.  Os cogumelos silvestres dos Sanöma, povo Yanomami,  fazem parte de sua dieta tradicional e o projeto de comercialização é fruto de pesquisa de jovens indígenas sobre alimentos tradicionais em parceria com o Instituto Socioambiental - ISA.  Os recursos resultantes da venda são revertidos às comunidades Yanamomi produtoras. No site do Isa ou no box do Instituto Atá, no Mercado de Pinheiros, em São Paulo, podemos encontrar  mix com cerca de dez tipos diferentes de cogumelos silvestres colhidos pelos Sanöma:  desidratados inteiros ou em pó, sendo que alguns deles são das mesmas espécies que encontramos na Mata Atlântica.
Loja virtual: www.socioambiental.org
Mercado de Pinheiros -  Biomas Mata Atlântica e Amazônia
Rua Pedro Cristi, 89 – Box 16 e 17
Telefone: (11) 3032-0875

Jorge Ferreira. O pesquisador autônomo, conhecido também como Jorge Forager, oferece curso e expedições sobre cogumelos silvestres de Mata Atlântica em Paraty.
Instagram: @jorge_forager

Primavera Fungi. O biólogo Jeferson Müller, de Canela – RS, também oferece cursos de identificação e expedição para coleta.
Email: contato@primaverafungi.com
Instagram: primaverafungi



sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Taco azul. Coluna do Paladar, edição de 26 de dezembro de 2019

Foto: Lucas Terribili 
Ainda tenho assunto sobre os Kayapó, mas interrompo aqui as postagens pois já ia me esquecendo da coluna do Paladar do último 26 de dezembro. Então, além de estar lá no site do caderno, publico a íntegra aqui também.




Confie no seu taco

Neste novembro aconteceu a última edição de 2019 do projeto “Taquera por um dia” promovido pela Taqueria La Sabrosa, na Rua Augusta, em São Paulo, e as convidadas da vez fomos nós, Mara Salles, chef do restaurante Tordesilhas, Ana Soares, chef da Rotisseria Mesa 3, e eu, aprendiz de cozinheira atrevida. Os sócios Hugo Delgado e Carlos Tavares conheciam o histórico do trio desde o Paladar Cozinha do Brasil, onde demos várias aulas juntas – sobre amargos, invólucros, galinha de cabo a rabo, farinhas de todos os sacos, doces mas nem tanto e nossas misturas. Sabiam que não nos contentaríamos apenas em oferecer um novo conteúdo para o meio das tortillas de milho. Queríamos mexer em tudo, inclusive na massa.  E assim foi.

Entre tacos e pitacos, chegamos aos conjuntos que falavam um pouco de nós, do nosso trabalho, dos nossos desejos e de nossas trajetórias, afinal tudo cabe dentro de um disco de tortilla. Ana fez o taco de pancita y fideos - tortillas de milho recheadas de dobradinha completa e cabelo de anjo crocante, acompanhados de coalhada, vinagrete de salsão e torresmo.  O taco da Mara era quase um acarajé em verso e prosa, por isto ganhou o apelido de tacarajé - uma tortilla de farinha de feijão fradinho coberta com caruru, manjubinha frita e complementos como pasta de pimenta e molho lambão, o vinagrete baiano.

Já eu, sintetizei no meu os interesses do momento – espécies, estágios e usos não convencionais, forrageio, mandioca e pigmento azul de jenipapo. As tortillas do meu taco foram feitas com farinha de raspa de mandioca que já mereceu uma coluna Nhac e pigmento azul do jenipapo verde, outra coluna. De recheio, os nopalitos ou palma, da coluna sobre jerumbeba, que ornamentavam o jardim de uma casa vizinha, e falafel de feijão preto fermentado, ladeados com creme de abacate e coentro, molho picante de manga verde que colhi nas praças do meu bairro, grolado de mandioca com puba que eu mesma fiz e folhinhas de epazote, epa, mentruz do quintal. E a quem possa interessar, era vegano, sem glúten, sem açúcar e tinha pouca gordura. É mais simples do que parece, embora não muito comum, por isto, atendendo a pedidos, resolvi dedicar esta coluna à explicação do processo todo. Espero que ao final você tenha recebido a motivação necessária para criar também o seu próprio taco.

Vale dizer, para quem não sabe, que no México tortillas são discos chatos e flexíveis de milho com os quais se fazem tacos.  Tortilla seria o similar ao nosso pão e o taco, o sanduíche.  As tortillas de milho são as mais populares, mas no Norte também são feitas de trigo. Como sabemos, o milho carece de coesão e flexibilidade, mas os grãos usados nas tortillas passam antes por processo de nixtamalização que é o cozimento em água alcalina - com cal, a mesma usada por aqui nos doces de frutas cristalizadas, embora o processo seja outro. Com isto, a massa resultante do milho triturado torna-se mais gelatinosa, elástica e flexível, perfeita para os discos que são cozidos rapidamente na chapa dos dois lados. A técnica é trabalhosa e poucos mexicanos fora da zona rural fazem isto em casa, pois há no México moinhos elétricos espalhados pelas cidades para onde se pode se levar o milho já nixtamalizado em casa para triturar. E também há farinhas instantâneas e pacotes com as tortillas prontas para esquentar em casa.

Para um clássico taco mexicano é importante que se tenha pelo menos três elementos: a tortilla, o conteúdo e uma salsa, como se diz de um molho geralmente apimentado e denso. E, como regra de comportamento, claro, sempre se come com as mãos.
Como mesmo no México o atrevimento renovado impulsiona a criação de novos sabores e cores para as tortillas e os tacos o todo tempo, não me acanhei em usar a nossa mandioca.

Achei perfeita a farinha de raspa, a farinha dos Guarani – nada mais que lascas de mandioca desidratadas e trituradas, também encontrada como cassava flour no mercado nacional e internacional de produtos sem glúten. A água quente ajuda a massa a ficar ainda mais modelável. Para o azul, uma homenagem às tortillas mexicanas de milho azul,  substituí parte da água por leite azul de jenipapo – a receita está na coluna sobre pigmentos. Em vez de tortillas azuis, poderiam ser verdes feitas com chaya ou nopal;  rosa, feita com pitaia ou caldo de beterraba; vermelha com pimenta;  amarela, com cúrcuma etc.

Vamos então por partes.






 Os tacos azuis

Numa tigela, coloque 1 xícara de farinha de raspa de mandioca, 2 colheres (sopa) de leite azul de jenipapo (o leite de vaca dá um azul mais vivo, mas usei o de amendoim para ser vegano) ou outro líquido colorido que queira, 1 colher (sopa) de azeite ou óleo, ½ colher (chá) de sal e, por fim, despeje cerca de 70 ml de água fervente ou um pouco mais, para fazer uma massa maleável. Mexa rapidamente com uma colher, deixe amornar um pouco e amasse bem com as mãos, fazendo uma massa homogênea.  Junte mais água quente se a massa estiver dura.   Retire porções com uma colher (sopa) ou cerca de 25 g, abra na prensa entre duas folhas de plástico ou use uma tábua ou o fundo de uma panela para achatar e cozinhe em frigideira bem quente, meio minuto de cada lado. Sem o plástico, claro. Faça isto até acabar a massa e vá as deixando espalhadas sobre um pano para esfriar. Guarde em recipiente fechado, empilhadas, e reaqueça dos dois lados na hora de servir.

Para fazer o leite de amendoim azul, bata no liquidificador ¼ de xícara de amendoim sem pele cru com 1 xícara de água fervente. Coe em pano e use o líquido para fazer o leite azul – bata meio jenipapo verde sem casca no liquidificador com 1 xícara de leite de amendoim. Passe por peneira, esprema bem e leve ao fogo para ferver até começar a azular. Espere esfriar em temperatura ambiente sem tampar. Coloque em vidro, tampe e guarde na geladeira. Use sempre que houver o desejo de comer algo azul e a receita permitir que se substitua parte do líquido.  Mexa no jenipapo com luvas. 


Pasta de abacate

Coloque no copo do liquidificador a polpa de um abacate maduro grande com o suco de dois limões, 5 ramos de coentro ou mais, com folhas e talos, e ½ colher (chá) de sal. Bata bem até resultar numa pasta lisa e cremosa como maionese.


Molho picante de manga verde

Numa frigideira grande coloque 4 colheres (sopa) de óleo de girassol e ½ colher (sopa) de grãos de cominho. Leve ao fogo e aqueça até o cominho começar a dourar - se queimar, vai amargar. 

Junte 1 xícara de cebola e refogue, sem parar de mexer, até que comece a dourar. Junte 1 colher (sopa) de páprica picante defumada (opcional) e 1 xícara de pimentas em flocos (daquela usada para fazer kimchi) ou 1 xícara de pimenta dedo-de-moça batida ou triturada no processador.  Refogue um pouco e junte ¼ de xícara de açúcar. Mexa bem e adicione 2 xícaras de polpa de manga verde (a polpa cozida em água até amolecer, escorrida e passada por peneira de tramas largas – pode ser as de fritura).  Misture bem, adicione 1 colher (chá) de sal ou a gosto e cozinhe por cerca de 5 minutos em fogo baixo ou até ficar bem cremosa.  Guarde em vidros na geladeira por até 2 semanas e use como acompanhamento ou como uma pasta agridoce e picante para temperar e engrossar molhos de peixes, frango e legumes, tal qual uma pasta tailandesa de curry.  


Falafel negro

Como o taco que me propus fazer era vegano, pensei em ter algo proteico e crocante junto ao nopal, que é mais cremoso. Cheguei aos bolinhos fritos,  como falafel, só que de feijão preto - cru e fermentado. A fermentação faz com que a pele pigmentada do feijão fique mais arroxeada. Só é mais demorado, mas o preparo é fácil. Aqui, a receita:
Lave 500 g de feijão preto e deixe de molho em água fria, em temperatura ambiente, por 24 horas. Escorra bem, lave e triture no liquidificador com um mínimo de água limpa. Tire o excesso de água, espremendo a massa de feijão em pano limpo. Coloque a massa em uma tigela com tampa e deixe em temperatura ambiente até fermentar (de 6 a 10 horas). A massa crescerá quando estiver pronta. Tempere com uma cebola média finamente picada,  2 colheres (chá) de sal ou a gosto, 1 colher (sopa) de  páprica picante defumada, 1 dente de alho ralado ou socado, 1 colher (chá) de pimenta-do-reino e 1 colher (chá) de cominho triturados na hora. Prove e corrija o tempero ao seu gosto, se necessário. 
Com a ponta de uma colher de sobremesa, tire porções da massa e, usando outra colher, modele os bolinhos e frite em imersão em óleo quente, na hora de montar os tacos. Escorra em cesta gradeada. Se não for usar imediatamente, guarde a massa crua na geladeira em recipiente fechado por até dois dias. Se quiser, coloque salsinha bem picada na massa.



Os nopalitos ao alho e óleo

Para o recheio principal resolvi usar um ingrediente pouco valorizado e conhecido por aqui, mas muito comum nos recheios de tacos no México: os nopales ou, como conhecemos aqui, palma.  Enquanto no México se usa mais a Opuntia fícus-indica, a planta do figo-da-índia, com folhas mais densas e graúdas, nos Estados Unidos, especialmente na Califórnia e Texas, a espécie Nopalea cochenillifera  é muito comum no recheio de tacos – é menor, tenra, azedinha, mucilaginosa. No meu caso, usei esta última que tinha por perto. Colhi com luvas de couro e lidei com pinças para sapecar os espinhos na chama. 
Separe 10 raquetes jovens de palma (Nopalea cochenillifera) e, com ajuda de uma pinça, passe uma a uma pela chama do fogão, dos dois lados e nas laterais para queimar todos os espinhos. Depois passe na água e lave com uma escova pra tirar os espinhos queimados. Corte em tirinhas e coloque em uma frigideira larga. Leve ao fogo médio e vá mexendo para que saia a baba. Vai borbulhar um pouco conforme vai cozinhando. Quando a baba secar, afaste para a borda as tirinhas e coloque no centro da frigideira 3 colheres (sopa) de óleo e 2 dentes de alho picado finamente. Quando o alho começar a dourar, misture tudo e tempere com sal. Junte pimenta em flocos, se o quiser picante.  Está pronto para rechear tacos, compor saladas etc.

A erva e o grolado

Foto do Lucas Terribili
Para terminar, precisava de uma erva verde e optei pelo nosso mentruz ou mastruz ou erva-de-santa-maria, aqui usada mais como remédio, mas que no México se chama epazote e é tempero fácil pra pratos com queijos, feijões etc. E este eu tinha no quintal de casa. Outro toque para o taco foi o grolado, feito com mandioca puba. Você pode comprar em alguns mandioqueiros nas feiras de São Paulo e em várias cidades Brasil afora. Mas se não encontrar, faça você mesmo como eu sempre faço a minha. 
Massa puba: coloque pedaços de mandioca (aipim, macaxeira) dentro de um recipiente de vidro ou barro e cubra com água. Coloque um pano por cima, prenda com elástico e deixe fermentar por cerca de 7 a 10 dias ou até a mandioca ficar bem macia, se desmanchando quando apertada. Escorra, enxague e seque com um pano limpo – esprema para sair o excesso de umidade. Tire os pavios e está pronta sua massa puba.

Grolado

Passe a massa puba enxuta por uma peneira de fritura (de tramas grossas), pressionando com as mãos ou esmigalhe a massa com os dedos.  Sem desmanchar os grumos, passe-os para uma frigideira antiaderente e vá mexendo até que cozinhem e fiquem meio translúcidos. Tempere com sal a gosto e um pouco de azeite, óleo ou manteiga no final. Pode ser usado como cuscuz ou acompanhamento para carnes com molho. Ou simplesmente servido como granola, acompanhando o café – delícia!  Neste caso, entrou no taco como um complemento de sabor intrigante e aparência de queijo e eu usei azeite e não manteiga.
Pronto, temos aqui tudo o que vai dentro do taco que servi na Taqueria La Sabrosa.

Monte o taco

As tortillas devem ser tostadas na hora em que todos os itens do recheio estão no jeito. Os bolinhos e os nopalitos devem estar quentes.
Aqueça as tortilhas em chapa bem quente dos dois lados, passe uma colher de pasta de abacate, coloque dois bolinhos, um do lado do outro, e cubra com uma boa porção de nopales. Por cima distribua um fio de molho picante de manga verde, espalhe uns grãos de grolado e finalize com uma folhinha de mentruz.
Incline a cabeça, segure o taco com uma das mãos, com jeito para não perder recheio nem a compostura,  e nhac!  E agora, confie no seu taco, invente o seu próprio ou corra a uma taqueria.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Índios Kayapó. Pintura com urucum


Continuação. Assim como a pintura de jenipapo, a de urucum é marcada de significados, mas também usada no cotidiano em harmonia com o grafismo preto. Com funções mais prosaicas como estética, protetor de insetos e de sol, tem fácil aplicação, mas exige cuidados para não manchar. Basta uma coceirinha e a gente já se borra. 
Para fazer, basta umas sementes de babaçu e sementes de urucum. Veja a seguir como se prepara. 


Como se prepara: a tinta de urucum é simples de fazer. Basta mastigar bem sementes de babaçu e usar o óleo extraído com a trituração misturado à saliva pra diluir a tinta que sai do arilo das sementes atritadas entre as mãos. O que sobra do babaçu é comida, come-se.  

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Índios Kayapó. A pintura de jenipapo



Voltando aos Kayapó. Ainda vou chegar à comida, mas antes não posso deixar de falar da "ôk", pintura de jenipapo e de urucum, que ocupa um lugar importante na vida de homens e mulheres da aldeia. Os motivos das ôk podem estar relacionados a especificidades como festas diversas,  rituais como funeral e nascimento e eventos como guerra, pesca, incursões à floresta etc. Mas no dia a dia servem mesmo para embelezar, ajudar a desenvolver o corpo e garantir proteção, com grafismos feitos usando varetinhas de inajá, super flexíveis, ou com dedo, inspirados  em elementos da natureza - cabaça, peixe, jabuti, pegadas de animais, casca de árvores etc.

A casca da árvore usada para o carvão 


Vai fazendo carvão aos poucos 
A mistura de carvão, jenipapo e saliva 

A tinta corporal dos Kayapó. O preparo da tinta de jenipapo é complexo e envolve algumas etapas: coleta do jenipapo na floresta, preparo das varetinhas de palmeira inajá e extração da casca de uma árvore que tem aspecto de carvalho, muito porosa e leve. Com ela se faz carvão bastante friável que ainda quente é misturado com a polpa do jenipapo - parte dele deve ser mastigado para triturar e incorporar saliva. Imagino que a ptialina possa contribuir de alguma forma para que o pigmento genipina fique mais escuro. O carvão serve para marcar. Depois de lavado, saí e aí o pigmento já terá tingido a pele - vai saindo aos poucos, conforme a pele se renova. Pode durar de 7 a 15 dias aproximadamente, a depender de quanto a pele é lavada e atritada.






Uma sessão de pintura corporal entre as mulheres Kayapó é como uma tarde no salão de beleza. Umas pintam as outras com capricho e paciência. Depois de pintar o rosto geralmente com retângulos, tiram os vestidos e ficam de shortinho ou calcinha pra pintar o corpo todo. De crianças, até a bunda. Com os dedos, a pintura é mais rústica e não demora mais que meia hora. Mas com varetinhas de inajá, o corpo todo pode demorar três horas pães ser pintado, com três ou quatro mulheres pintando ao mesmo tempo (a minha foi assim). Depois tem que esperar secar bem por umas três horas ou até o outro dia e tomar banho no rio pra tirar o carvão. Como esta atividade é constante, elas têm sempre uma das mãos totalmente pretas. 


Além da pintura corporal, outra prática de beleza comum é raspar com lâmina o topo da cabeça assim. Não descobri outra razão além da estética, mas certamente tem.



Crianças são pintadas ainda bebês para ajudar no desenvolvimento do corpo, e aprendem muito precocemente a arte da pintura, de modo que toda mulher sabe pintar. Algumas são mais caprichosas e talentosas que outras, mas todas sabem


Continuação. Homens também são pintados e nem os kuben (homens não índios) são poupados. Elas ficam felizes quando aceitamos compartilhar a experiência. Depois ficam admirando a própria pintura e dizendo que ficamos bonitos e bonitas .  Aqui, o fotografado é o talentoso fotógrafo Loiro Cunha @loirocunha que filmou e fotografou a comunidade sem em nenhum momento deixar que a estética atropelasse a ética e o respeito pelas pessoas clicadas - o amigo que esta viagem me presenteou

Depois da pintura, depois de algumas horas, o banho no rio 


Feito com facão 

Pezinho de anta 

A parte do jenipapo desprezada serve para a confecção de carimbos, quase por brincadeira, como mostra no vídeo com Doto, uma liderança local  -  desenho de uma tribo e patinha de anta. Passa na mesma tinta preparada pelas mulheres para a pintura corporal e carimba o que quiser.