segunda-feira, 6 de abril de 2009

Iuca é o que é. Vela-de-pureza para a semana santa.


Minhas flores sobre foto do livro: Sazones de México, de Marilyn Tausend

No post anterior, mostrei apenas os ovários que lembram mesmo cardamomo ou flor em botão. Ninguém acertou o nome da coisa, mas houve quem desconfiasse de que se tratava de uma parte da flor. Nada mau. Obrigada a quem participou com comentários.
Desde que descobri que flores de iuca são comestíveis, passei a olhá-las de maneira diferente e gulosa, torcendo para que aqueles cachos de flores brancas inatingíveis um dia caíssem no meu colo. Isto já tem uns cinco anos e eu as almejei sem pressa. Finalmente o desejado aconteceu: estava passando numa praça aqui perto quando bateu um ventinho de nada e tibum, lá de cima despencou um galho pesado de flores. Se tivesse na bolsa um canivete teria levado embora o cacho inteiro, mas não era o caso e tive que desgalhar a penca, que, em casa, no vaso, ainda serviu para ornamentar a cozinha até o outro dia.
Corri ao livro “Sazones do México”, pois foi através dele que fiquei sabendo da natureza culinária de tais flores. A foto é a que aparece na abertura do post: um vendedor carregando no ombro um pau com cachos dependurados. Mas o texto só diz que elas são colhidas ao redor de Veracruz, sul do México, onde são encontradas em estado silvestre e vendidas tradicionalmente na Semana Santa e preparadas com huevos revueltos, cubiertas com salsa de tomate ou em um mole rojo. Bem, se é planta de semana santa, a hora é esta.

Quase todas da vizinhança já floresceram, mas hoje encontrei esta ainda florida numa outra praça aqui perto.
A planta Yucca elephantipes ou Yucca aloifolia é originária do México e Guatemala, mas pode ser encontrada facilmente aqui em São Paulo, nas praças e calçadas. É conhecida também como iuca-elefante, vela-de-pureza, iuca-sem-espinho, iuca-mansa ou pita. No México e outros países do Centro-América é conhecida como Izote.

O problema é que iucas crescem muito e muita gente nem repara nas flores lá perto do céu, brancas, alegres, iluminando a escuridão. É claro que ninguém vai ficar colocando escada pra colher flores por aí. Agora, se cai um galho com flores numa praça, não vamos deixar para as formigas, não é?

Acabei achando mais informações num site de comida Salvadorenha e fiz o que tinha que fazer: despetalar, desprezar anteras, preservar ovário, branquear as pétalas. Estas, viraram um guisadinho, apenas inspirado na descrição do prato dada pelo site, que comemos com pão recém-feito em companhia da Veronika, Ricardo e meninos, com o vinho português que trouxeram. As pétalas têm textura cerosa, macia, crocante. O aroma é floral, mas muito mais herbáceo. Bem agradável. Os miolinhos da flor, ou os ovários, foram cozidos em água salgada e juntados a vinagre com cebolas, pimentas e alho, conforme também ensina a Doña Sarita do site citado. Tem um fundinho amargo, mas é aromático, saboroso e bem de longe lembra as alcaparras.


Flor de izote guisada ou flores de iuca refogada

2 xicaras de flores de iuca (80 g)
1 colher (sopa) de azeite
½ cebola picada
1 tomate sem pele picado
1 pimenta cambuci verde picada
1 pimenta dedo-de-moça vermelha sem sementes picada
2 colheres (sopa) de cebolinha picada
Sal a gosto

Passe as flores por água fervente só para banhá-las e escorra bem. Numa panela pequena, aqueça o azeite e coloque as cebolas para refogar, até que fiquem macias. Acrescente o tomate e as pimentas, refogue por 2 minutos até amolescerem. Junte as folhas, tempere com sal e mexa para homogeneizar o sabor. Prove o sal e corrija, se necessário. Junte a cebolinha e sirva. Se quiser, quebre no guisado uns ovos ligeiramente batidos e mexa para que cozinhem.

Rende: 2 a 4 porções, dependendo do que mais vai no prato


Para a conserva com miolos de izote (conserva com ovários de iuca), afervente os ovários em água com sal por cerca de 5 minutos ou até que fiquem macios. Escorra bem e reserve. Aqueça duas partes de vinagre com 1 parte de água, duas pitadas de açúcar e outra de sal. Quando ferver, junte uns pedaços de cebola, de alho, folha de louro, pedaços de pimenta, grãos de pimenta-do-reino e os miolinhos de izote. Espere ferver novamente. Desligue o fogo e coloque tudo em vidro aferventado, escorrido e ainda quente. Feche e deixe esfriar. Depois de 2 dias estará bom para consumir como picles.

10 comentários:

Bia disse...

Oi Neide,
Visito sempre teu blog porque sempre tem uma novidade sobre alimentação e uma forma artística de falar sobre o assunto que encanta. Parabéns!
Queria dedicar um selinho chamado "Blog Amigo da Natureza", que tenho certeza que o seu merece muito.
Então, visite o http://nutricaoealgomais.blogspot.com/, receba o selinho e distribua para os blogs amigos da natureza que você conhece.
Abração.

Sandro (Um Litro de Letras) disse...

Neide, essa história é impagável. Só você ficaria debaixo de uma árvore esperando as flores cairem para poder comê-las.

Gina disse...

Neide, dessa vez não arrisquei, não fazia a menor ideia do que era.
Gosto de suas descrições sobre as plantas e faço um resumo básico sobre plantas e flores, desde o primeiro post, associando-as ao prato. Sou admiradora delas "há muitos anos" (aliás, podia ter pulado essa informação...rsrs!)
Bjs.

Daniel Brazil disse...

Convivo com essas flores desde a infância e nunca imaginei que fossem comestíveis! Mais uma que aprendo por aqui...

Bianca Elisa disse...

Nossa, que curioso, nunca me imaginei comendo essas florzinhas, vou correr atras dela agora. rs
Um beijo

Ana disse...

Nunca eu poderia imaginar que isso daria nisso..ahahah
Por aqui também existem essas gigantonas,e jamais pude imaginar que são comestíveis e essa história toda bonita das coisas que vc fez com elas. Muito bacana.

Carmen disse...

Oye, esas flores de izote o de yuca, son las que comí ahora que pasó el Festival gastronómico de Santiago de Anaya, hice el reporte de gran cantidad de flores que las señoras prepararon para la ocasión. Cada año acudo y cada vez es más sorprendente como el ingenio y astucia de las señoras transforma la austeridad de la naturaleza del suelo y se vuelve tan abundante en guisos e ingredientes.
Me encantaría comerlas en conservas, pero ¿no amargan?

Neide Rigo disse...

Carmen,
obrigada pelo comentário e informações. Não, a conserva não amarga, não. É uma delícia.
Um beijo, n

Ingrid Freitas disse...

Adoro comer estas flores, como desde a infância...

Ingrid Freitas disse...

Adoro comer estas flores, como desde a infância...