quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

É tempo de dente-de-leão


Em minhas caminhadas pelo bairro, sempre volto com alguma erva que cresce espontaneamente nas calçadas e praças. E neste quesito, minha aldeia, City Lapa, é bem servida - um dos bairros mais arborizados de São Paulo. Agora é época de colher caruru, beldroega, seralha, pincel-de-estudante, tiririca dourada e dente-de-leão, entre outros verdes (se bem, que dente-de-leão pode ser encontrado quase todo o ano). Ontem me deparei com uma praça com barba por fazer, um verdadeiro canteiro de dente-de-leão que, por aqui, não se dá o menor valor, é considerado mato, de forma que fiz um favor para a limpeza municipal em arrancar pela raiz uns 10 pezinhos da planta daninha. Mas gente simples da roça come ou comia em situações de penúria. E franceses chiques também, já que é vendida no mercado como qualquer outra (é o que vejo em livros, nunca estive lá), sob o nome de pissenlit, apelidada de dent-de-lion por causa das folhinhas dentadas. Em inglês, virou dandelion.
Nativa da Europa e da Ásia, é fácil entender porque é tão prolífera. Toda criança já soprou uma vez na vida aquela bolinha fofa de sementes aladas que acabam parando e germinando em alguma praça, terrenos abandonados ou frestas de calçadas. Pelo nome científico, Taraxacum officinale já se pode imaginar que esta folhinha não está aqui pra brincadeiras. Espécies denominadas officinale são sempre aquelas com aplicações na fitomedicina. Folhas, raizes e flores são diuréticas e também indicadas para problemas biliares e estomacais. Mas, para isto, é melhor procurar um médico fitoterapeuta que sabe fórmulas e dosagens adequadas.
O que me interessa é que as folhinhas são gostosas como o almeirão e me apetecem porque são amargas - contém princípios amargos como a taraxina. Sem contar que tem fitoesterol, vitaminas, minerais e, como qualquer verdura, clorofila (Oh!!) para a alegria dos que gostam de suco de luz do sol. Não é o meu caso. Eu gosto de clorofila na panela fazendo bonito com azeite, bacon, pimenta, alho, macarrão (com muito gluten, por favor). Ontem, com macarrão, foi meu jantar, que saiu com o que tinha aqui inspirada nas saladas francesas que vejo por aí. Folhinhas novas vão bem em saladas com bacon, alho, croûtons.
Para a salada que não fiz, é mais ou menos assim: frita bacon e alho picado em um pouco de azeite, tira e reserva. Mistura a gordura que restou na frigideira com um pouco de vinagre, sal e pimenta e joga ainda quente sobre as folhas novas (limpas e desinfetadas). Por cima, espalha o bacon e o alho reservado e pedacinhos de pão dourados na frigideira com pouco de manteiga.
Veja também aqui no Come-se salada com este e outros matos: Salada de folhas silvestres ao molho de cereja-do-rio-grande


Talharim com dente-de-leão e bacon
Numa panela, coloque 2 litros de água com 1 colher (sopa) de sal para aquecer. Enquanto isto, lave bem e desinfete com hipoclorito 100 g de folhas de dente-de-leão. Escorra bem. Corte em lâminas 4 dentes de alho. Deixe lavadas umas 20 folhinhas de manjericão. E pique em cubinhos 40 gramas de bacon. Quando a água ferver, cozinhe pelo tempo indicado na embalagem 150 g de talharim (usei um com pimenta, da Ana Soares, da Mesa 3) ou outro macarrão de sua preferência. Neste tempo, aqueça numa frigideira 2 colheres (sopa) de azeite e frite nele o alho e o bacon, só até o alho começar a dourar. Junte as folhas de dente-de-leão picadas grosseiramente ou inteiras, se forem pequenas. E as de manjericão. Refogue rapidamente só até murcharem. Desligue o fogo, tempere com sal e pimenta-do-reino e junte o macarrão escorrido. Misture tudo com cuidado e nhac. Dá para dois.
Livros onde dou minhas fuçadas

Wild Foods, de Roger Phillips; Fruits of the Forest - cooking with wild food, de Sue Style

18 comentários:

Marcia H disse...

Neide,
volte lá para colher as flores, dá para fazer uma géleia deliciosa. ;-)
200 g de flores (só as pétalas amarelas)
cozer em 1 l de água por 5 minutos
deixar de molho 24h, coar,
juntar suco de 1 limao e 1 kg de acúcar para géleia (é acúcar com pectina q vendem aqui nos supermercados)
pode-se também fazer uma espécie de drink, ao invés de juntar 1 kg de acúcar, vc soze em 500 ml de água, adoca e junta água mineral com gás
bom proveito
bj

Neide Rigo disse...

Oi, Márcia! Obrigada pela dica. Num dos livros que citei há várias receitas com as flores, como geléias, sucos e cervejas. Fiquei curiosa, mas teria que castrar todas as plantinhas do bairro rsss. Haja tênis. Mas um dia ainda vou tentar. Hoje devo colher mais. Um beijo e, de novo, obrigada pela contribuição.
N

Moira disse...

Fiquei com tanta vontade de experimentar. Minha mãe costumava fazer qualquer coisa com urtigas, mas eu já não me lembro o quê.
Bjs

Lili disse...

Neide,
Olá! Essa é a que depois fica branquinha e penugenta? se for, conheço-a como papai careca, é mole?
beijos!

Baú da Conceição disse...

Neide, o que se aprende por aqui!

Eu sempre olhei essas ervinhas desconfiada, manchei muitas peças de roupa com essas flores. E agora venho a descobrir que a plantinha come-se. Vou ter que experimentar.
Beijinhos.

Neide Rigo disse...

Moira,
urtigas ainda não comi, mas o farei.
Lili, é a própria. Este nome não conhecia. É conhecida também como taraxaco, alface-de-cão, saldada-de-toupeira, chicória silvestre, chicória louca, amor-dos-homens e amargosa (segundo Harri Lorenzi).
beijos,n

Moira disse...

Olá Neide,
Hoje telefonei à minha mãe e perguntei sobre as urtigas, ela diz que tem que apanhar com luvas para não ficar com comichões, escaldar em água, retirar as folhas velhas e serve para fazer esparregado. Depois disse-me que a rama da cenoura nova também faz um esparregado muito bom. Fica a informação.

Neide Rigo disse...

Cara Moira,
olhe que coicidência: hoje de manhã passei na casa de uma amiga aqui perto e ela me mostrou os pezinhos de urtiga e me explicou exatamente como sua mãe sobre o modo de preparar. Super obrigada. As folhas de cenoura, uso sempre que compro delas orgânicas e fresquinha. Um beijo,
N

Gina disse...

Não sabia que se podia comer essas plantas, que aparecem de vez em quando no meu pequeno gramado.
Bjs.

Anônimo disse...

Neide.
Que legal !
Gostei muito da sua sugestão de usar em salada e melhor ainda com massas... o Dente de Leão [uma planta medicinal de tão fácil identificação - o que é importante não é?!? muito dificil confundí-la! Pena que não vende em feiras !! E acho que seria bem barato, não? Seria ótimo e ultra saudável! Mais uma opção entre as verduras amargas, concorda ? Lembra um pouco o almeirão ... !?!
Descubra mais para nós...!!
Abs
Paulo Chanel.

Neide Rigo disse...

Gina, pois agora aproveite!

Caro prof. Chanel, que alegria te ver por aqui. O dente de leão é amarguinho como o almeirão e é sim uma boa opção entre estas verduras amargas. Acho que já vi pra comprar na feirinha do Parque da Água Branca.

Um abraço,
Neide

Anônimo disse...

Neide, o Chanel mostrou-me o blog hoje. Muito interessante!
Não sabia que se usava Talinum como alimento. Você experimentou em algum prato? Tem sabor que lembra quiabo?
O dente-de-leão é outra dica. Deve dar um sabor todo especial no macarrão.
Não entendi por que as pessoas estão querendo comer urtiga. Particularmente, teria receio de ingerir urtiga. Se sobrarem alguns tricomas urticantes vai ser um problemão. Abs. Edna

Neide Rigo disse...

Oi, Edna!
Hoje postei duas receitas com Talinum (beldroega). Veja lá. É comestível sim e bem gostosa. Não lembra quiabo, não. Lembra mais ora-pro-nobis.
A urtiga é uma erva comestível entre os europeus, sempre cozida. Nunca ouvi relatos de problemas com os tricomas. A urtiga comestível deve ser mais dócil - embora tenha que ser colhida sempre com luvas.
Obrigada pela visita.
Um abraço,
Neide

Andréa disse...

Oi Neide,
amei seu blog! Obrigada pela resposta e indicação no Delicia da Marisa Ono. Virei muitas vezes aqui visitar...meu sonho é ter uma horta de verdade...por enquanto so tenho ervas em vasos!!!
bj
Andréa

JOSE disse...

OLA NEIDE, MEU NOME É MARIA SOU DA CIDADE DE RIO GRANDE / RIO GRANDE DO SUL E INFELIZMENTE AQUI NAO ENCONTRO DENTE DE LEAO. TENHO UM PAI MUITO DOENTE E RECEITARAM PARA ELE CHA DESSA ERVA. ELE SOFRE COM UMA DOENÇA CRONICA NO FIGADO. ENTAO PROCURANDO ME INFORMAR MAIS SOBRE ESSA ERVA CHEGUEI ATE VOCE. PEÇO ENCARECIDAMENTE SE POSSIVEL ME ENVIAR POR SEDEX UMA QUANTIDADE DESSA PLANTA JA QUE ELA É TAO ABUNDANDE AI NA SUA CIDADE. EU PAGO O SEDEX AQUI. PODES ENVIAR SEDEX A COBRAR. POR FAVOR A SAUDE E A QUALIDADE DE VIDA DO MEU PAI DEPENDE MUITO DESSA PLANTA. CERTA DA SUA COMPREENSAO E COLABORAÇÃO AGRADEÇO DESDE JA.

DADOS: Maria Silva Mendes.
End: Cons. Teixeira Junior n° 356
bairro: Cidade Nova
cidade: Rio Grande UF:RS
cep: 96211-540
tel:53-84124468

Neide Rigo disse...

Oi, Maria, tudo bem?
Certamente vai encontrar dente de leão também aí perto de você. Ele dá em todo o Brasil, especialmente no Sul e Sudeste. Infelizmente não tenho como mandar pelo correio, porque meu trabalho me consome todo o tempo. E, para mim, ir ao correio significa tomar ônibus, pegar fila. Gostaria de poder ajudar, mas tenho certeza que vai encontrar perto de você.
Um abraço,
N
(você encontra dente-de-leão seco também em casa de ervas medicinais)

calixta.costa@gmail.com disse...

Neide, que blog interessante!!!


Parabéns!!!


Hoje nem o pessoal da roça valoriza as coisas que a natureza dá de graça.

Não sabem o estão perdendo.


Amo estas coisas.

Muitas bençãos em 2012.

Gêzys Victory disse...

Oi Neide to amando seu blog, posso enviar o tão necessário dente de leão
para a Maria pois tenho os quesitos
que ela precisa
1 Tempo porque em casa tratamento medico, mas com capacidade de locomoção
2 meu quintal esta parecendo uma mata atlântica o que era uma horta super enriquecida com adubo organismo feto por mim, virou um matagal entre tantas outras evas que tenho aqui contra a minha vontade, exite o dente de leão que já consumi de varias formas
uma delas
ré corta-las bem fininhas dentro de uma vasilha com aguá umas gotinhas de vinagre,
fritar alho em pouco de óleo, escorrer e espremer as folhas, e dar um susto nas folhinhas com o óleo e o alho e sal bem quente,servir com caldo de feijão gordo e polenta sem sal bem molinha ambos feitos na hora}