segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O Mercado do Militão





No mercadinho Martins tem de tudo. De rodo, vassoura e ingredientes pra feijoada, até pombinha sem perna, perdida no cerol, que vem comer quirera duas vezes ao dia nos mesmos horários

Tem farinha de rosca, feijão comum, farinha de rosca, feijão branco, sagu e feijão-fava

E colorau puro, artesanal, quase sem fubá, canjica de milho e amendoim
Uns dias atrás, andando a pé pela Vila Madalena, pude parar e entrar no mercadinho que sempre me chamou a atenção quando passava em frente de carro. Fui entrando e Seu Militão, simpático, em meio a uma baguncinha aconchegante, já foi puxando papo, do tipo: diga o que procura que aqui tudo tem.
E me lembrei dos mercadinhos de infância em que a gente chegava correndo de alguma brincadeira, apoiava os dedos suados na beira do balcão de fórmica, ficava na ponta dos pés para ser vista pelo vendedor e pedia, sem cerimônia, moço, dá um copo de água, por favor. E todo mundo sabia que água não se comprava, se pedia em qualquer lugar e ninguém negava um copo americano de água de torneira e ainda perguntava se queria mais. Agradecia-se e voltava pra rua.
Pois me deu vontade de pedir água de torneira ao Seu Militão. Mas pedi tubaína que dava quase no mesmo (no sentido das lembranças). Respondeu que tinha acabado, mas tinha um outro refrigerante genérico também com guaraná, em garrafinha, mas com gosto de abacaxi artificial. Nestas horas ninguém olha o rótulo, combinado? E estava geladinho, bom.
Ele disse que está ali há 60 anos, do mesmo jeito. Os filhos já quiseram modernizar o estabelecimento, mas pra ele está bom assim. Há uns 12 anos vem ali comer quirera a mesma pombinha manquitola, cuja perninha foi arrancada pela linha de pipa com cerol. E ali ele conversa com clientes, faz amizade. Minha irmã Biba, que mora por ali, diz que, sempre que passa lá, Seu Militão, cearense vindo pra cá aos seis, quer convencê-la a fazer feijoada. Convence e ensina a receita.
Coincidentemente no mesmo dia minha outra irmã, Suzana, me contou fula da vida que foi à região cerealista comprar grãos, farinhas e temperos. Acontece que as lojas estavam sem energia elétrica e não puderam vender nada a granel, simplesmente porque estavam sem sistema! A mercadoria lá, o cliente lá, o vendedor lá, só não tinham o tal do sistema. Minha irmã, vinda de longe, entrou num tal sistema de nervos que só faltou bater nos lojistas. Custava ter uma balança mecânica como a do Seu Militão para horas de emergência? Mas o imprevisto não estava no programa. Nem no sistema.
Mercadinho Martins
Rua Fidalga, 547 - Vila Madalena - São Paulo
(11) 3032-7851

8 comentários:

Rosemary disse...

Que saudades...o mercadinho da minha infancia era do "Seu" Francisco um portugues simpatico que recebia seus fregueses sempre de bom humor...já sabia de cor o que cada um gostava...também era um dos poucos que entendia a lista de compras de minha mãe (escrita em portunhol) que eu entregava no balcão bem acima da minha cabeça...Naquele tempo as crianças participavam desde cedo nas tarefas da casa...eu e as crianças da vizinhança faziamos compras (e enfrentavamos as longas filas do leite) desde os 8 anos de idade!
beijos
Rosemary

Talula disse...

Eu sou doida por esses mercados que tem de tudo um pouco!
:)

Dricka disse...

Neide, esses mercadinhos são a cara do Brasil, pena que como tudo o que nos é tipico parece se extinguir em tempos de globalização. Adoro o prédio velho, a atmosfera nostalgica. É triste pensar que a grande maioria das pessoas acha que predios velhos e comércios familiares tem que ceder espaço para modernos prédios e negócios altamente rentáveis.
Liga não que meu nome é nostalgia.rsrsrs
Bjs

Verena disse...

Neide, pois é...seu Militão é que é sábio...não? Esse negócio de tudo no sistema dá um nó na cabeça quando acontece o imprevisto e aí ninguém consegue fazer acontecer...coisa tão simples...
Deve ser uma viagem esse mercadinho, e se ele está ali há tanto tempo já deu muito certo mesmo.
Lembro-me de um bar perto da fazenda dos meus avós, numa vilazinha interiorana deste SP. Íamos de trator, na parte do carrinho, aquela bagunça de netos e família italiana, tomar refrigerante geladinho... Quando se comia muito na época de festas sempre um tio ou até meu pai falava: "desse jeito vou ter que ir à pé lá em Itapé...".
Um beijo!

Neide Rigo disse...

Rose,
o da minha infância era do português Seu Salvador. Também pegava a fila do leite.

Talula, pena que estão com dias contados,né?

Dricka, não tem como não ser nostálgica com estes mercadinhos familiares. E o homem me pareceu tão feliz!

Verena, que imagem linda esta do trator com a criançada.

Um abraço,
n

Anônimo disse...

Neide, eu conheço o mercadinho de passar de carro por lá, mas nunca entrei. Achei o máximo!! Tinha um "Seu" Francisco na Pompéia que era assim. Ainda lembro da mulher dele, Dona Celeste, que era um doce. O meu apóio incondicional pra sua irmã, tem ela toda a razão; fosse eu tinha enchido todos eles de porrada. Beijo. chus

Rusty Marcellini disse...

Oi Neide,
Meu nome é Rusty Marcellini e leio seu blog regularmente. No ano passado, participei do Laboratorio Paladar falando sobre queijos, mas não tivemos a oportunidade de nos conhecer pessoalmente. Percebi que as mercearias de bairro também lhe atraem. No ano passado, descobri um armazem em Itabirito que é sensacional. Até fiz um video sobre sua história. Para assisti-lo, clique no link a seguir (http://rustymarcellini.blogspot.com/2009/07/um-armazem-das-antigas.html) ou entre no meu blog (Blog do Rusty).
Um abração,
Rusty.

Neide Rigo disse...

Chus,
o Português do meu bairro era o Seu Salvador onde íamos comprar fósforos, sabão em pedra e doce do balcão.

Rusty
Encantada! Publiquei o vídeo no come-se. Maravilhoso. Parabéns!

Abraços,
N