segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Comidas em Fartura



Por isto escrevo todo dia. Se paro, não quero mais voltar, perco o costume, fico a me perguntar pra que serve isto tudo. Dá um desânimo e uma preguiça desgramada, ainda mais quando volto da minha casa em Fartura, onde viver parece tão mais simples. Depois, mesmo sem respostas, tudo passa.
Havia alguns anos que não passava o Natal e também o Ano Novo em Fartura, em família, e de jeito tão calmo. Ninguém estava estressado, as comidas foram as de sempre, quase todas criadas, cultivadas e colhidas no próprio sítio ou na região e todos os dias foram festivos.
E o que não faltou mesmo foi assunto para o dia inteirinho, com todo mundo falando ao mesmo tempo ao redor do fogão, principalmente quando estão juntas as quatro irmãs. As prosas foram sobre a melhor conserva de pimenta (sempre se gasta algum tempo antes das refeições para se falar de pimentas, isto é comum?); sobre as abelhas arapuás que devoraram as minhas lichias que neste ano amadureceram antes do tempo; da galinha que está criando 18 pintinhos; do bezerrinho que não quer desmamar; do ninho com sabiazinhos perto da janela; do torrador de café que trabalha sozinho; das artes da nova cachorrinha Cristal; do excesso de berinjelas na horta; do pé de tomate de árvore que caiu com os ventos; do gato do mato que come as criações; do pato que quer comer a galinha ou dos perus que foram embora.
Aliás, achei que comeria peru, embora prefira frangos e angolas, mas minha mãe achou mais vantajoso vendê-los, o que não foi uma má ideia. Na véspera de ano novo, jantamos cedo, com brinde e tudo, mas nem me lembro direito o que comemos - certamente alguma comida de roça da minha mãe, excelente como sempre. Ah, sim, fiz lentilhas e panetone para forçar um costume, mas não precisava mesmo.
Fomos dormir cedo, de modo que não ouvimos os fogos nem artifícios da cidade na virado do ano. Acordamos já na manhã ensolarada do ano seguinte sem nenhuma sensação de perda. E todos os dias queríamos comer porco ou frango com muitos legumes, verduras e frutas - felizmente era o que tinha. Como pés, costelas, asas e cabeças de frangos sobravam sempre na panela, foram estes os meus pequenos exageros nestas festas, além dos gostosos mamões amarelos. De resto, foi subir e descer muito o pasto íngreme (minha casa fica bem no alto e a da minha mãe, no vale), às vezes no escuro atropelando vacas deitadas.
Se tenho visitas, cozinho em casa. Se não, mal acabo de tomar café e alguém lá embaixo já grita que o almoço está pronto. Alguns passos e tropeços morro abaixo, a visão da fumaça na chaminé e a imagem do repertório provável de comida fresca e cheirosa para o dia (minha mãe não fica inventando, em compensação os pratos que faz foram aperfeiçoados ao extremo com a repetição), fazem o apetite reaparecer rapidinho. E foi assim, lá fiquei internada só saindo um dia pra comer lichia no pé num sítio próximo e comprar arroz cateto direto da máquina, em Carlópolis, no Paraná, que faz divisa com Fartura-SP. E desta vez mais comi que fotografei. Pura pregui.
Chuchu refogado da dona Olga não pode cozinhar demais para não perder a cor. E com ovo, para o cunhado Darly.

O mangarito ainda não deu batatinhas, mas as folhas macias podem ser preparadas como as de taioba.


Fomos comprar arroz cateto em Carlópolis-PR, para fazer com suã.


Desta vez meu pai fez o doce de mamão verde com rapadura (receita a partir da garapa, veja aqui), temperado com canela e gengibre. Abelhas e abelhinhas, atacar!


Salada de catalonha com suas lindas flores azuis.

Um mar de pimentinhas cumaris voltadas para o céu.

Três espécies no mesmo espaço: moranga, jiló e berinjela.
Em menos de 20 minutos o jiló da horta virou um refogado com ovo.
A costela de porco veio do açougue.

O amarradinho de feijão paquinho veio do sítio vizinho, pra semente.
O milharal tem rendido: pamonha, cural, bolo e mingau salgado pra comer com frango caipira e quiabo (o melhor é feito assim, com o milho verde ralado para que apenas a parte mais molinha da pele dos grãos passe pelos furos do ralador, dando aspecto granulado). E pimenta, muita pimenta!

Abóboras de pescoço e morangas: sorte que elas duram meses

31 comentários:

Luiz disse...

Neide é um Epicuro de saias e Fartura não é uma metáfora.

Janaina disse...

Neide, que ótimo tê-la de volta! E com tantas delícias. Muito prazer para a flor de catalunha. Não conhecia... Linda!
Beijocas
Janaina

Mariângela disse...

Quase morri de saudade.Beijos!

nana disse...

ahh, essas pimentinhas cumaris!

zel disse...

ai, neide... chuchu com ovo! AMO :) que post gostoso.

Silvia disse...

Neide!!!!!!!!!!!Juro que morro de inveja de você, porque sei exatamente o sabor que tem essa prosa que dura o dia inteiro, regada a muita comida feita no capricho...Mas, infelizmente, para mim esses sabores ficarão só na lembrança. Que bom ter seus textos deliciosos de volta. Feliz 2010,2011,2012...Silvia Vieira

Neide Rigo disse...

Luiz, quem me dera. beijo, n

Janaína, a flor aberta é mais linda ainda.

Mari, eu também.

Nana, dá um trabalho para colher...

Zel, eu me lembro da sua paixão por chuchu com ovo!

Silvia, os ciclos se fecham e vêm outros. Sei que também um dia terei saudade.

Abraços de feliz ano novo!
N

Anônimo disse...

Minha querida Neide, que bom que você voltou!!! Feliz 2010!!!. Deve ter sido difícil voltar de Fartura, até eu que nunca fui lá morro de saudades!!!
Você viu o que aconteceu em S. Luiz do Paraitinga? Eu não estava lá e a minha casa não chegou a inundar mas o pessoal que estava lá saiu no dia 2 de manhã pela janela do quarto e telhado da garagem até um barquinho do pessoal do rafting, a água chegou a subir 1,20 na escada da minha casa, não dava mais pra sair pela porta da garagem. Mas está lá e serve de base para quem precisa um lugar pra ficar. Mas caiu a igreja da matriz e a capelinha das Mercês (ai, ai a minha santinha grávida!!) e meu coração está apertadinho de tristeza pela cidade e pelos amigos que perderam tudo. Devo ir no fim de semana ajudar a limpar o que for possível. Um beijão. chus

Anônimo disse...

Cada vez que leio um post seu sobre a vida em Fartura sinto que um dia quero voltar a morar no campo, no interior, no mato... Saudades da minha infância e de uma época incrível da minha vida.Quem sabe um dia...
Bjs e feliz 2010
Hildeny Medeiros

Anônimo disse...

Neide!
Estou em santa Rosa com a Laura. De fato é ótimo passar uma semana em Standby. Amanhã vou melar as Jataí, pensei em mandar um pouco para tí pela Mariângela na terça.
Preferes ele já limpo ou em "favo"?
Também me deu saudades de Fartura.
Aguardo comentário resposta.
Rui

Neide Rigo disse...

Chus,
estamos todos muito triste e pensamos muito em você nestes dias. Mas escrevi email pra você.

Hildeny, o campo sempre traz saudade. Eu mesma nunca morei no campo. São sempre férias, mas eu preciso disto. Obrigada, feliz 2010pra você também.

Rui, já que está aí sem fazer nada (risos), prefiro o melzinho já limpo. Vou adorar me encontrar com a Mari no aeroporto e ainda ganhar presentinhos. Obrigada.

Um abraço, N

Paula Pacheco disse...

Neide Feliz 2010, amei a galinha, os ovos e os pintinhos, as berinjelas, os pratos singelos e familiares do campo...que bacana isso.
bjs
Paula

sonia disse...

Nosssssssaaaa! eu não deveria ter visto seu blog hj. não tenho nada na geladeira e fiquei salivando = aqueles desenhos animados que os personagens estão numa ilha deserta.

As fotos são impressionantes na beleza e na sutileza.

Que todos tenhamos um ano de muita Fartura

bjs.

Anônimo disse...

"...pra que serve tudo isto?"
Querida Neide
Dá-me uma alegria danada ler os seus posts!
E tenho a certeza de que muitos mais sentem como eu. Olhe as provas aí acima!
Bom Ano Novo para si e, também, para os seus leitores, blogueiros ou não.
Beijinhos
Manuela Soares

Alfredo/Agência WD1 disse...

moça do céu!!!quase lambi o monitor .
que delicia,senti até o cheiro da comida!!!parabéns.

Mariano disse...

Esse mingau de milho com frango e quiabo... Onde será que aceitam minha alma por um pratinho dele?

Isaac disse...

Welcome back!

Ah, escrever sobre comida não de todo mal. Penso nas pessoas que leem e acabam descobrindo novos prazeres.

Adorei seu retrato do campo. Bem diferente do que estou acostumado, do que vejo em terras mogianas.

Isaac

Anônimo disse...

Neide me leva, fiquei com vontade.Rose

happynest disse...

Feliz Ano Novo e que continue com fartura em Fartura....um deleite para os olhos....e o paladar!
Beijos
Rosemary

Lisi disse...

Neide, Feliz 2010! Ao ler o seu texto, os meus pensamentos voaram até Fartura e deu até pra sentir o cheirinho das coisas que comeu. Delícia. um beijão

Yara disse...

E eu babei mesmo foi no jiló refogadinho com ovo.. humm :o)

sou a única pessoa lá em casa que gosta de jiló, ó que sorte: todos sobram pra mim. Vou fazer hoje mesmo, pra janta :o)

Beijos pra você, feliz 2010!

Yara
www.uiaqui.blogger.com.br

Nina disse...

Adorooooooooo seus posts sobre Fartura!

beijo!

Rubén disse...

Prezada Neide
Gosto bastante de seus textos, suas fotos...
Feliz 2010!

Abraço,

Rubén Duarte
Wine Broker

Neide Rigo disse...

Paula, obrigada, Feliz ano pra você também!

Sonia, deve haver algum matinho de comer perto de você e longe da geladeira. Obrigada. Muita fartura pra você também!

Manuela, como é bom ter amigas como você! Bom 2010 pra você e sua família!

Alfredo, eu sou mesmo é moça da terra, do mato.. Obrigada!

Mariano, a foto não faz jus à delícia que era. A preocupação maior era comer. Mas não precisa dar a alma, não. É fácil fazer. Se quiser, lhe dou a receita.

Isaac, se servir para que os leitores descubram novos sabores, está bom!

Rose, vambora!

Lisi, bom te ver por aqui. Feliz ano novo para você também!

Yara, eu também amo jiló com ovo. Feliz ano!

Nina, obrigada!

Rubén, feliz ano novo com boa saúde e bons vinhos!

Obrigada e um abraço a todos, N

Mariano disse...

Cara Neide,
Acho que minha alma já era. Ontem, dois dias depois de te postar uma mensagem, fui ao meu quilo favorito, e adivinhe o que tinha brilhando prá mim numa travessa de barro?? A legenda colocada abaixo dizia: angú de milho verde. Caramba, o Torto trabalha rápido! Nem bem anunciei minh'alminha e o Coisa Mais ou Menos Ruim já fez o pagamento. Estava ótimo, ladeado de uma sobrecoxa grelhada, só faltando o diabo do quiabo. Mas outras verdurices também boas lá estavam para honrar a camisa. Tenho gostado muito de milho e, por sorte, a proprietária desse restaurante onde almoço regularmente também dá valor a esse grão.
Acho que não vou conseguir ir até a José Roberto no domingo, mas ficarei ligado em como contribuir.
Obrigado,

Mariano

Neide Rigo disse...

Mariano,
que bom que matou a vontade. Deixe para os leitores do come-se o endereço deste quilo.
Beijos,
Neide

Gina disse...

Neide, acabo de voltar de uma cidadezinha do interior, onde pude desfrutar de coisas muito simples, como ter a família reunida numa casa à beira do lago.
A chuva caindo em cântaros, os patos selvagens passando, as pinhas caindo no telhado... Foram tantas coisas gostosas, que estou publicando em 2 posts.
Que coisa boa vir aqui e continuar com a sensação de estar no interior!
Não pense em deixar de nos brindar com seus textos e imagens...
Bjs.

Neide Rigo disse...

Oi, Gina! Tem coisa melhor? Obrigada, vou ver lá no seu blog.
Beijos, n

Rose disse...

Olá

Neide

Moro em Mateus Lema ( MG)
Amo seu blog, posso ficar horas vendo e revendo seus post...
Um beijo....

Rose

Neide Rigo disse...

Rose, que bom saber disso. Obrigada, um beijo, N

Anônimo disse...

Olá boa noite, Parabéns pelo blog, sou do Norte do Paraná, e ver suas publicações me faz voltar ao passado, parabéns, estou a procura de semente do mamão caipira ai do Paraná, será que consegue alguma pra mim.
Obrigado.
laolivotto@gmail.com