quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Baixa tecnologia e soluções inteligentes ou a influência do vapor da panela de pressão no cozimento do cuscuz de funil

Basta colocar um pouco de água na panela, fechar e apoiar o funil no caninho da válvula (sem o botão). Forre com um pano se quiser mais segurança.

Com o caderno Paladar de toda quinta-feira é impossível ficar sem ter o que falar. Repertório não faltará durante semanas. É que eles escolhem temas que poderiam ser divididos em vários livros. O de hoje, baixa tecnologia, fala daqueles utensílios sem raios ultravermelhos, leitores óticos, termostatos e outros sensores e multifunções. Aqueles que funcionam na base da força bruta mesmo e esta é a graça. Pelo menos pra mim, que sou mais socar arroz no pilão que pedalar um troço que não leva a lugar algum. Gosto de gastar energia e ver o resultado prático muito além dos músculos modelados.
Bem, estes untensílios continuam produzindo delícias esquecidas, como as linguiças calabresas, na receita do chef Hamilton Mellão, que já foi pra minha fila de receitas à espera do seu tempo. Falta encontrar o funil de encher linguiças debaixo da pia – e que já foi usado uma vez. O Caderno foi pequeno para o tema que renderia vários livros: um só para panela de pressão; outro para moedores e passadores; um para prensas ou moldes - de hóstia, hambúrguer, almôndega- e tostadores não-elétricos - de waffles, panquecas e sanduíches; outro para moedores de carne, café, especiarias; um para cozimento a vapor e por aí vai. É assunto sem fim.



E como uma coisa de lá sempre me faz lembrar uma coisa cá, mostro uma gambiarra altamente funcional e eficaz na produção de cuscuz. Solução engenhosa e requintada que provavelmente nasceu da adversidade. Vi na feira Revelando São Paulo, da qual comecei a falar ontem.
Conheço pelo menos uma dezena de formas de cozinhar no vapor usando de improviso o que se tem na cozinha mais elementar. Hoje a baiana Eliana, que trabalha aqui em casa, me ensinou mais um jeito super criativo para se fazer cuscuz na roça com utensílio inusitado – isto é outro post. Mas nem ela nem eu conhecíamos este jeito de fazer - um funil de plástico acoplado à válvula da panela de pressão. Aprendi com a Magda Josy Mendes, chefe de divisão de cultura da prefeitura de Eldorado, no vale do Ribeira. Segundo ela, é uma técnica muito prática para as feiras porque cozinha o cuscuz de arroz, sem pano nem cuscuzeira, em 5 minutos. Fast food? Nem tanto, afinal a sanga de arroz (a quirera que sobra da pilagem ou beneficiamento) é deixada de molho por uma noite, depois é bem escorrida, socada no pilão e peneirada. Na hora de cozinhar, nada mais justo que este trabalhoso cuscuz possa ser feito rapidinho.
Se tem perigo de explodir? Não, desde que não se deixe entupir a válvula. É só ficar por perto. Se a panela silenciar ou se parar de soltar vapor, desligue o fogo e saia correndo (brincadeira - é só esperar esfriar e tirar o funil). O que usei tem uma redinha no final. E mesmo que não tenha, a pressão da válvulal é forte o suficiente para empurrar pra fora qualquer grãozinho que entre ali. De qualquer forma, é melhor que isto não aconteça ou poderá ter cuscuz grudado no teto, espalhado atrás da geladeira e salpicando o chão.
Então, se quiser arriscar a técnica em casa - e ela vale para qualquer tipo de cuscuz, aconselho a forrar o funil com pano de fralda. E, melhor que plástico, é usar funil de alumínio. O problema é que o bico tem que encaixar perfeitamente na saída da válvula (sem o botão).

Este é o cuscuz que me inspirou a testar minha própria versão. Depois de pronto, ele escorrega fácilmente do funil e fica com uma superfície lisinha (este já está um pouco ressecado - tem que comer quente)

Próximo post, cuscuz de sanga de arroz com coquinho de licuri, usando a técnica do funil na pressão.

6 comentários:

Ana disse...

Nossa, muuuito interessante isso, nunca me passou pela cabeca usar o vapor da panela de pressao! (e eu adoro panela de pressao! rss!)
Engracado q alem de pensar na possibilidade de explodir a panela eu tbem pensei no fato do funil derreter, acho q nao eh calor suficiente p/ tanto, ne?!
Ana

Tá Bem Bom disse...

Olá
Que bela engenhoca! Com certeza vou testar inclusive com outros ingredientes. Já tomei sauna onde o vapor era gerado por uma panela de pressão com uma mangueirinha no lugar do funil que jogava vapor em uma caixa de madeira com um buraco para por a cabeça para fora.

Fer Guimaraes Rosa disse...

Neide, mas esse funil se equilibra bem, mesmo com o peso da tapioca dentro? So de olhar a foto ta me dando a impressao que o treco vai tombar!

Mas nao deixa de ser uma invencionice super util e inteligente. Coisa de caipira sabido... :-)

beijao,

Neide Rigo disse...

Ana,
engraçado que o vapor nem chega a aquecer o funil. Vai direto pro cuscuz.

Leo, gostei da idéia do sauna. Tenho certeza que vai se divertir com as invenções.

Fer, a questão é esta. Tem que encaixar direitinho. E tanto o da feira quanto o meu encaixaram - fica super firme.

Um abraço,
N

Agdah disse...

A necessidade é a mãe da invenção. Os indianos têm um aparato bem semelhante que utiliza o mesmo princípio.

Roopa disse...

oh my thats indeed so similar to making puttu :) Indian and Brazilian cooking is very similar. Thank you so much for visiting my blog, it helped me discover your wonderful blog :)