sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Feijão verde, feijão-de-corda verde. O Nordeste é aqui.



Lá em cima: fradinho bem verde; fradinho verdolengo e feijão-de-corda quase maduro, mas ainda fresco, cujas vagens são deste colorido verde-vinho bonito

Agora estamos aqui em São Paulo em plena safra de feijão-de-corda verde. Eles chegam do Nordeste ao bairro da Lapa como quem vem do bairro vizinho e encontram aqui nordestinos saudosos e paulistanos que sabem o que é bom. Nestes tempos esquisitos em que não sabemos mais qual é a época das castanhas que permanecem refrigeradas esperando o natal, é uma delícia poder observar nos mercados populares e em volta deles quem está realmente em alta e constatar que esta coisa de safra não é ficção científica. Afinal, qual é mesmo a época das cerejas que estão nos supermercados e de onde elas vêem? Agora é época de pequi do centro-oeste; e, do nordeste, umbu e feijão-de-corda, muito feijão de corda. Do feijão-de-corda (propriamente dito) e do feijião fradinho (também um tipo de feijão de corda, que tem mais valor seco que fresco). Dos mais tenros aos quase maduros; dos que vêem em vagens coloridas e dos que já estão debulhados. E quem faz este exercício de paciência? os próprios vendedores ambulantes que compram a mercadoria em caminhões que chegam de madrugada nas imediações do Parque Dom Pedro. Aqui, em Salvador ou João Pessoa, os vendedores de feijão de corda passam horas debulhando o feijão sobre a frieza das bacias de alumínio ou a alegria do plástico colorido. E não adianta exigir - pra feijão de corda as únicas medidas aceitas informalmente são a lata ou a caneca. Tenha o peso que tiver, é o que conta, mas sempre vem um chorinho no monte que uma mão consegue segurar além da borda da lata. Eu aproveito a época para comprar de todos os tipos que encontro, para cozinhar e congelar.



Clique & amplie. Aqui vagens de feijão de corda, pequi e umbu (mais sobre estes produtos, veja no campo de busca, lá em cima à direita - a receita de umbuzada é muito boa).

Ontem trouxe também as vagem e a baiana Eliana que me ajuda aqui se divertiu debulhando-as. Ela faz tudo com calma e nada a aborrece. Diz que no sítio do pai e nas redondezas de Santa Luz, lá na Bahia, onde a família tem sítio, plantam feijão de corda em apenas um pedaço da tarefa, pois dá muito. Tem que plantar na época da trovoada que tem chuva mas também sol e isto corresponde à primavera, no mês de setembro. Torcem pra chover depois que o feijão foi plantado, para que os grãos germinem. Depois, pode parar de chover. Torcem pra chover de novo na floração, que é pra flor ser fecundada e não cair. E depois torcem pra parar de chover quando a vagem se desenvolve, que é pra não melar. Se esta matemática climática funcionar, lá pra novembro, dezembro, têm uma boa colheita. E podem ir tirando aos poucos, até pra meados de março. O bom mesmo é o feijão-de-corda fresco. Quando já comeram o que tinham que comer, venderam o que tinham que vender, ainda sobra um tanto para secar. Deste não gostam muito, não, segundo ela. Cozinham e dão pros porcos e galinha (passam bem os animaizinhos, hem?).
Do fradinho, quem tem, deixa secar e vender pro acarajé. É dinheiro certo e mais. Mas também come-se dele verde (como se vê na foto, o que comprei), mas é incomum, segundo Eliana. Pra comer seco, preferem os feijões de inverno - o carioquinha e o rajado, por exemplo, que plantam no São José, em 19 de março, e colhem no São João, no 24 de junho. Assim como abóboras, maxixes, melancia, melão e, claro, o milho para as festas juninas. Como a Eliana não sabe lidar muito com camarão seco por ser do sertão, perguntei pra minha amiga Silvinha, que mora em Salvador (às vezes começamos a falar de comida logo cedo).
Refoguei alho em azeite, depois juntei cebola e pimentão, fritei mais um pouco. Em seguida, o tomate, o feijão fradinho verde já cozido (por cerca de meia hora em água com um pouco de sal) e um pouco de camarão cozido - demolhado po 1 hora, escorrido e livre das carapaças. Cozinhei uns 10 minutinhos com um pouco da água do feijão. Temperei com pimenta vermelha seca, sal, e, no final, salsinha. Com arroz, nhac. Se tivesse, faria com dendê, leite de coco e coentro.

Aqui nossa conversa antes do café: 07:53 eu: Oi, Silvinha, bom dia! Tenho aqui feijão de corda verde e camarão seco. Alguma sugestão? / 07:55 silvia: Oi! Bom dia! Acabei de acordar, vou pensar no assunto/ 07:58 silvia: Aqui na Bahia se usa camarão seco em vários pratos desde comida baiana até os pratos triviais, tipo ensopados.Um muito comum é maxixe com camarão seco./ 08:00 eu: Silvinha, mas se você tivesse aí feijão verde e camarão, como faria?/ silvia: Acho que pode preparar o próprio feijao verde com o camarão./ 08:01 eu: é isto que queria. Mas como?/ 08:03 silvia: Cozinhava o feijão na água e sal (pouco sal), depois regogaria com alho, cebola e colocaria o camarão (que já ficou de molho para dessalgar). Por último, colocaria coentro e azeite de oliva./ 08:05 eu: Yes!!!! Não vai pimentão nem tomate nem dendê? Vou usar salsa em vez de coentro./ 08:08 silvia: Aqui o povo usa tomate e pimentão em tudo, eu não uso muito pimentão, Jorge não gosta. Tomate, sim, talvez usasse. Agora, sou apaixonada por coentro. coentro/ 08:09 silvia: Pensei agora que se tiver leite de côco pode ficar bom também. /08:09 eu: Querida, eu vou colocar tomate e pimentão, que eu gosto. E coentro, vou ficar te devendo. Também adoro, mas não tenho./ 08:10 Por aí, tudo bem? Obrigadinha pela receita! nhammm, mal posso esperar a hora do almoço. bjs,n /08:12 silvia: Vai ficar bom, sim. Você lembrou bem do tomate e do pimentão. Quanto ao coentro ou salsa, é mais questão de hábito. Por aqui tá tudo bem. bj, n


Em cima, em João Pessoa, no Mercado, num mês de novembro. Embaixo, aqui em São Paulo, ontem, em frente ao Mercado da Lapa - Dona Aparecida da Silva, que chegou estes dias de Garanhuns-PE, para passar férias. Enquanto descansa debulha vagem pra ajudar a filha, vendedora de delícias de época (umbu, jaboticaba, banana, pequi e... feijão-de-corda)

11 comentários:

Marcia H disse...

ai, que eu mato e morro aqui agora. Feijao-verde com manteiga de garrafa, refogadinho com cebola, alho e coentro, uhmmmmm
minha irma mora em Queimadas, pertinho de Santa Luz, passei lá em novembro. Tá seco demais, mas as melancias e umbús (ou ímbus) da regiao sao ma-ra-vi-lho-sos

Gina disse...

Ah, Neide, você me fez ter saudade do tempo que vivi em Recife e adorava comer feijão verde. Que delícia!
Bjs.

Sonia Novaes disse...

Fazia tempo que eu não ouvia falar em feijão de corda,acho que só na minha infância que havia muitos.
Plantamos na chácara esse ano o feijão guandú,vc conhece?
Ele é um arbusto,as flores são amrelas e depois que elas se vão aparecem as vagens.São pequenas,secam e vc colhe.Dura muito tempo e as árvores não morrem,permanecem a té a próxima colheita.
É muito bom ler o que as pessoas escrevem nos blogs,porque é uma oportunidade única de resgatar o que foi perdido através das invenções modernas...rsss...ainda bem que existem pessoas assim como vc,como eu e tantas outras que não deixam morrer,o que no passado foi marcante em nossas vidas.
Feliz Natal e um ano novo de muita fartura.
Abços

Ana disse...

Oi Neide....que delícia mais este post.
Até na 25 de março já encontrei gente vendendo veijão verde em carriolas. Que coisa boa numa saladinha hein....
A medida da lata é famosa no Norte e Nordeste. Aliás, quando fui morar em Roraima em 94, achava engraçado a forma de comprar bananas. Nem por peso e nem por dúzia, mas por "palma"....

clau disse...

Oi, oi Neide!
Com gde atraso, "desfiei" tudo que ainda nao tinha visto aqui no seu blog, antes de vc escapar de férias, rss.
E ver estas fotos de lugares tao familiares, ali na Lapa, me deixou com uma baita de uma saudade...
Mas, valeu!
Bonissimo 2009 pra vc!
Bjs!

Abreu disse...

Ah Neide!
Minha mulher que me desculpe e seu marido (oops!) que me não me ouça, mas vou casar com Você (rs!).
Ai ai ai, que coisa boa esse feijão...
Receberemos sobrinhos e sobrinhos-netinhos para um churrasco de fim de semana e acabei de "decretar" que não poderá faltar um feijão-de-corda feito na horinha (assim com um arroz branquinho e couve na manteiga com farinha), uma costeleta suína na brasa tudo regado a uma boa cachaça e uma bela cerveja... hummmm!

Neide Rigo disse...

Abreu! Chegou a dar fome com o anúncio deste menu. Um abraço, N

Abreu disse...

... ah!
Só faltou dizer que uns torresminhos são acompanhamento indispensável.
Mesmo que haja quem não goste, esta é uma refeição para os deuses!

prof coruja disse...

Oi Neide...estava lendo um folheto de Sabores de Minas, do Vale do Jequitinhonha, e eles falando em um tal de feijão-catador...e estava lá, vc, de novo, me tirando a dúvida...valeu

Unknown disse...

Boa tarde, Neide, sou de Natal Rn, mais moro a 7 anos em MG, e sou louca pra conseguir cultivar o feijão verde aqui na minha casa, será q vc me indicaria um local para eu conseguir as sementes deste feijão verde? e se vc tiver esta informação me fala como tambem de outras delicias do nordeste tipo: umbu, cajá , agradeço a tenção.

Unknown disse...

Boa tarde, Neide, sou de Natal Rn, mais moro a 7 anos em MG, e sou louca pra conseguir cultivar o feijão verde aqui na minha casa, será q vc me indicaria um local para eu conseguir as sementes deste feijão verde? e se vc tiver esta informação me fala como tambem de outras delicias do nordeste tipo: umbu, cajá , agradeço a tenção.