Sutilezas da globalização
Imagino que a melhor promoção para algo comestível seja contratar umas 30 pessoas de diferentes idades e dar a elas o produto para que comam simultaneamente disseminadas no meio de uma multidão, provocando um efeito cascata, por exemplo na rua Galvão Bueno ou no viaduto do Chá. A cor da embalagem deve ser verde-cheguei e por perto deve haver um quiosque da marca com outros 30 sujeitos afoitos fazendo fila para comprar o tal objeto de desejo que subitamente se tornou uma imperiosa necessidade de consumo, uma verdadeira alucinose coletiva. Pronto, sucesso na certa. Nada de espaço publicitário na TV, nas revistas. É só isto. Deve ter começado assim a campanha de marketing para aumentar o consumo do Melona. Ele estava lá há um bom tempo, era vendido no bairro da Liberdade como qualquer outra curiosidade oriental. Aposto que o fabricante coreano usou alguma artimanha. A própria vendedora me disse que não sabe porque, mas de repente, há uns 3 meses, o quiosque começou a não dar conta de atender às filas. Eu já o conhecia há um bom tempo e sequer tive vontade de experimentar. Mas agora não pude ignorá-lo. Todo mundo quer. Até nós, Marcos e eu, caímos na cilada. Se todo mundo está chupando, eu também quero, uai. Abordamos um casal para saber onde estava sendo vendido e morremos com R$ 3,50 cada. Logo também nos tornamos informantes. Várias pessoas queriam saber onde encontrar o incrível picolé do Hulk. A paisagem estava salpicada de verde. Os lixos da rua e das lojas, as sarjetas, as calçadas, tudo melona fluorescente. Ah, sim, como é a coisa? Para quem ainda não experimentou, veja se anima: a cor é verde artificial às custas de erioglaucina azul brilhante e amarelo tartrazina (pode provocar asma alérgica, é proibido na Áustria, Finlândia e Noruega); o sabor de melão é artificial, dado por essência, e a textura, claro, artificial - daquelas conseguidas à base de muita goma guar, carboximetilcelulose e outras gominhas mais. E é uma bobagem, um sabor infantil em forma de monolito radioativo. Agora o que me irrita mais é tentarem vender gato por lebre. Quando você lê o rótulo obrigatório, em português, fica feliz em saber que é feito com o puro xarope de melão. Mas se você é meio cético como eu e resolve arrancar na unha o adesivo da tradução e ler no original, vai procurar, procurar e nada de melon syrup. É gostosinho até, não mata ninguém, imagino, mas não me engane, que eu não gosto. De melão, não é não.
Evidências incontestáveis da febre verdolenga
O meu, enfiei aqui

