sábado, 8 de setembro de 2007

Ades, desnecessário no cinema, na vida


Animadores de platéia de cinema

Ontem, aproveitando o feriado vazio em São Paulo, fomos ao cinema. Nossos filmes preferidos quase sempre estão passando no cine Unibanco Arteplex, no Shopping Frei Caneca. Gosto de ir lá por vários motivos. Primeiro porque são várias salas e apenas um ou dois filmes são daqueles que eu não veria nem que me pagassem. Assim, mesmo que uma sala esteja lotada, dá sempre para escolher um outro filme interessante (o problema é que, como somos assíduos, nos restam sempre 1 ou 2 inéditos) ou esperar a próxima sessão enquanto tomamos um café, servido por um escritor (o Sérgio Clemente, que trabalha lá). E também porque é um cinema democraticamente freqüentado por casais de gays, senhores e senhoras distintos e alguns adolescentes pingados, desgarrados da turma. Fora ter que agüentar sempre a mesma propaganda do Unibanco (mesmo não pagando menos por isto) e os avisos de não fumar e coisa e tal, nos sentimos em casa, encontramos os amigos de mesmos gostos e em cada sala temos nossos lugares preferidos, quase reservados. Além disso, as pessoas costumam falar baixo, não atendem ao celular e quase não tem croc croc de pipocas. Mas ontem foi demais. As coisas estão mudando para pior. Estávamos lá, conversando baixo enquanto o filme Brasileirinho (sobre nosso Choro) não começava quando dois jovens animados foram para a frente da tela dizer que tínhamos que gritar, pular e interagir com o filminho publicitário. Fiquei com vergonha por aqueles que atenderam aos apelos dos animadores da torcida (os dois lados nitidamente constrangidos), mas o que me deu mesmo foi muita raiva. O Chorinho, em seguida, aliviou. Mas na próxima sessão, em outra sala, levei um susto maior. Algumas poltronas, aqui e ali, estavam com forro branco no encosto de cabeça, com a marca Dove. Ades e Dove, da mesma Unilever. Mas justo no documentário sobre Milton Santos que questiona a democracia vazia de conteúdo, o consumismo, os efeitos perversos da globalização, as multinacionais e outros assuntos perturbadores? Não nos basta todo o assédio nas telas, nos congressos e nos papéis impressos? Agora temos que passar por isto também no cinema?

E voltando ao Ades e outros suquinhos com apelos nutricionais, considero estas bebidas todas como a praga da modernidade. As empresas criam necessidades, fazem todo mundo crer que um suco de fruta natural pode ser perigoso, perde todas as vitaminas depois de pronto, que soja é bom para a saúde, que a bebida tal tem vitaminas, que a outra tem fibras e bla bla bla. Fazem acreditar que toda criança hoje precisa de suquinho de soja, beber todinho, iogurtezinho e outras tranqueiras. Parte da obesidade infantil se deve a isso (é claro, somado à inatividade). Ninguém quer mais saber de beber água para hidratar e matar a sede. É suco, de preferência doce, bem doce. E até a água agora passou a ser doce, com sabor. O refrigerante virou H2O.
As crianças são expostas desde muito cedo a aditivos artificiais e não se sabe muito ainda do que eles são capazes a longo prazo. Sem falar nos adoçantes. Acaba de ser publicado na The Lancet deste mês o estudo de especialistas da Universidade de Southampton (Grã-Bretanha) que mostra uma associação positiva entre corantes e hiperatividade em crianças. Pelo menos começam a surgir agora alguns trabalhos sérios a este respeito. Os aditivos envolvidos no estudo são os que estão presentes na maioria dos produtos industrializados consumidos por crianças (e por todos nós): cor de amarelo crepúsculo (E110), carmim ou azorrubina (E122), amarelo tartrazina (E102), ponceau 4R (E124), amarelo quinoleína (E104) e vermelho 40 (E129), além do conservante benzoato de sódio.
Sobre o Ades: só analisando as informações de rótulo dá para inferir que a quantidade de leite de soja usada em 200 ml deve equivaler a apenas 50 ml; é adoçado com mais ou menos 2 colheres (sopa) de açúcar; tem menos proteína que 2 tangerinas pequenas; as versões coloridas (uva, morango) levam corantes; o aroma é artificial e a quantidade de suco de fruta usada é menor que a de açúcar. É isto aí. Menos suquinho (e lixo) e mais fruta para a molecada. E água, muita água..

11 comentários:

Sill disse...

ASSINO EMBAIXO! TAMBÉM DETESTO ESSES SUCOS PORCARIAS QUE APARECERAM DEPOIS DOS REFIGERANTES COM ESSE DISCURSO NATUREBA...DE NATURAL NEM A CAIXA! UMA HORA O POVO SE TOCA: LEMBRA DO MUNDO E MALBORO? bj Sill

Mariângela disse...

Tomara que esta "moda" de propaganda imbecil no cinema não chegue por estes pagos,é o fim dos tempos, quanto aos suquinhos e afins,sem comentários.Tenho uma filha de 8 anos que não toma refri e nem consome estes produtos, é o Et da turma ,coisa triste que as crianças hoje estão sendo criadas com tanta porcaria..beijo!

Michel Khodair disse...

estamos sendo bombardeados por porcarias para ingerir. Eu ainda sou do tempo em que tudo era feito em casa com produtos da terra. Leva tempo mas fica muito bom.

Gostei do post.

Andrea disse...

Acho ótimo a sua indignação e crítica! Nós brasileiros temos que ser sim, mais críticos diante a mídia e propaganda que nos bombardeiam! Valeu!

Aqui na Alemanha há uma regra geral, no que diz respeito a corantes e aditivos, que é largamente divilgada: os que começam com "E" são perigosos e por isso devemos evitar produtos que os contenham.

Abraços,

Andrea

Agdah disse...

Menina, sempre digo isso. Aqui nos EUA, as pessas já começaram há muito a se conscientizar dos efeits maléficos da comida processada. Fico impressionada com rítmo cada vez maior da popularidade desses produtos no Brasil. Ninguém lê rótulos, ninguém parece se importar com o que consome e com os alimentos que escolhem para a família. É gordura hidrogenada a torto e adoidado, é açúcar em quantidades exorbitantes e o pior que acho são exatamentes esses "de caixinha". Muitos se iludem com as palavras chaves usandas para ludibriar o consumidor desavisado e ingênuo. Dizem "mais saudável","mais isso e mais aquilo" e no final os desavisados se deixam contaminar pelo "vírus da mente", a propaganda manipuladora das empresas capitalistas. A tendência dessas estratégias de marketing é invadir cada vez mais os espaços públicos, nossas vidas e nos cabe abrir os olhos para evitar a manipulação. Minha filosofia é evitar tudo que dura mais na prateleira do que na minha geladeira, bem como produtos que contêm ingredientes indesejáveis. Eu prefiro ter o controle do que vai na minha comida.

bia disse...

é incrivel isto até no cinema ? ja nao basta os anuncios ! E quando as pessoas vao tomar consciencia que nada melhor que uma fruta do que estas porcarias compradas prontas, é a facilidade, mais facil comprar do que descasacar a fruta...Ainda bem que meu filho adora fruta, e odeia refrigerante e bala, mas tb é pq foi criado assim ! bjs

fezoca disse...

Neide, que palhacada esse evento dentro do cinema!

Eu e o meu marido somos meio maniacos lendo rotulos. Mesmo sendo leigos, dah pra sacar muito bem o conteudo de alguns produtos. Nos nao acreditamos na empafia de se colocar a frase "suco de fruta' num rotulo, quando a porcentagem do referido ingrediente eh de miseros 7%.

Eu fui professora, eons ago - nos meados do seculo passado, e ficava horrorizada com as comidas das lancheiras das criancas. Muitas bebiam uns sucos de caixinha que MANCHAVAM a mesa! Lord have mercy!

um beijo,

Bruna Lyrio disse...

Realmente esses sucos industrializados sao uma verdadeira praga. Tenho um priminho que, aos 5 anos mais ou menos, estava com suspeita de ter doença celíaca. Mil exames, dietas e restriçoes, tristeza e nervosismo por parte da família, e, no final das contas, todos os seus sintomas eram causados pelo tal do suco Ades, tomado em excesso (coisa que a sua mae astutamente intuiu). Horrorizante.
Beijos!

Neide Rigo disse...

Pois é, a Elisabeth Bishop quando esteve no Brasil, em meados do século passado (bem antes da professorinha Fer rsss), já ficava horrorizada com o que a faxineira dava de comer ao seu bebê, tendo nós tantas frutas aqui. Tudo em nome da suposta assepsia, nutrição e modernidade. Mas felizmente ainda há gente pensando no consumo consciente. Vamos lá.

Gabi disse...

É isso aí e ponto!

Edna disse...

"Tô"contigo e não abro!!!bjs.