terça-feira, 3 de novembro de 2009

Pão alentejano e seus saquinhos

Enquanto estive no Alentejo fiquei a pensar o que seria daquele povo se a moda americana em voga por aqui chegasse por lá - aquela bobagem do glúten-free que só se justifica para quem tem doença celíaca ou intolerância ao glúten. Vi por onde passei pessoas alegres, receptivas, bonitas e com corpos comuns que, à luz dos valores de normalidade aceitos pelo Índice de Massa Corporea, me pareceram ok.
No entanto, o pão e o azeite estão presentes de manhã à noite na mesa do alentejano. Nas entradas, no prato principal e na sobremesa. O que seriam das deliciosas açordas de coentro e alho, de bacalhau, de poejo e de beldroegas? Das migas, farinheiras e alheiras? E as tostas com azeite ou açúcar? E o que seriam de nós turistas sem estas delícias?
É um pão que me fez lembrar o pão toscano, com a diferença de que aquele não leva sal. Já o alentejano é salgado na medida certa, tem miolo firme e aerado e crosta enfarinhada bem dourada. Assado em forno de lenha, tem uma aparência apetitosa.
E, mesmo quando não está tão fresco, basta jogar por cima um pouco de azeite extra-virgem e eu poderia passar assim durante um dia todo. De preferência acompanhado por um copito de vinho. Ou até água bem fresca.
Comi alguns mais ácidos, outros mais leves, mas todos deliciosos, feitos geralmente com isca de fermento natural (geralmente, porque a receita da mãe da recepcionista do hotel é feito com fermento em tablete - que também é fermento biológico, só que menos complexo). E parece que há até uma rezinha específica para que a massa cortada em cruz cresça com vigor. Saiba mais sobre ele e
veja aqui uma receita.
A moça do saquinho branco é a Claudia, da Adega Mayor, que estava oferecendo degustação de azeite com pão alentejano na Vinipax e Olivipax.
Um fato curioso é a forma de se guardar o pão alentejano. São saquinhos feitos com restos de tecido de confecção das roupas, como forma de aproveitamento. Vi vários assim, com retalhos xadrezes e floridos, forrados e com cordão dos dois lados. Podem ir à mesa assim, como um embrulho de presente, sem macular a tábua de refeição como o faz os indesejáveis saquinhos plásticos de hoje. Vi alguns feitos de um só tecido, mas todos parecem ser confortáveis e uma boa opção para não ferir a dignidade do senhor pão alentejano. Alguém por lá citou o nome desses saquinhos, mas quem diz que guardei? Lembro de algo como forné, borné ... ou palavra parecida com o nosso bornal. Alguém sabe?

18 comentários:

Isabel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Isabel disse...

Já visitei este blog várias vezes, mas nunca comentei. Até já fiz um gelado/sorvete de amburana que vi aqui. Hoje não resisti a comentar. O meu pai é alentejano e eu adoro o Alentejo e o pão e o azeite alentejanos. Os sacos de pano são muito típicos, mas agora também não me lembro do nome tradicional.
Também já tive o prazer de conhecer a Moura pessoalmente, mas infelizmente num encontro com quase 30 pessoas e a confusão foi tanta que não deu para conhecer bem as pessoas. Assim, num jantarzinho íntimo é bem melhor!
Bjs

Gina disse...

Neide, ainda estou para descobrir onde andaram meus ancestrais, porque tenho um pé em Portugal, com certeza. Cresci comendo rabanadas, aletria, queijadinha, castanha portuguesa, bacalhau...
Quando vim morar no sul, muitas pessoas sequer sabiam o que era rabanada, há 9 anos apenas.
Esses saquinhos de pão minha mãe tinha quando eu era pequena, lá no Rio.
E pão está intimamente associado à Portugal nas minhas memórias. No meu bairro, todos os donos de padaria eram portugueses.
Bjs.

J P Diniz disse...

ainda não sei o nome mas encontrei isto:
http://www.col-b.org/scolb/novidades/bocadopao.html

J P Diniz disse...

deve ser mesmo talegos.

anabela martins disse...

Ola, nao sei se posso ajudar mas na minha zona que é Beja, os sacos de tecido onde se coloca o pão chamamos de " Talego ", ah quem chame "Farnel " , mas farnel para mim é o que se poe dentro do saquinho ou seja o " lanche ou merenda " nao sei se ajudei a esclarecer . bjo

Neide Rigo disse...

Isabel, que bom saber disto - do sorvete e do seu pai alentejano. Realmente encontros menores são melhores. Eu só queria ter mais tempo para conhecer melhor amigas e amigos portugueses. Pausadamente.

Gina, quem aqui não tem o pezinho em Portugal, não? Por um lado ou por outro, sempre teremos. Sinceramente, me senti em casa embora não tenha nenhum parente português por perto no tempo ou no espaço. Não que eu saiba.

João Pedro, adorei saber estes outros nomes: bornal, fole, bolsa, mântica, patrona, alforge, talêgo ou taleiga. Mas o que ouvi por lá ainda está no "e outros". Era mais parecido como bornal - tanto que nos lembramos imediatamente dela quando ouvimos a palavra. Vou linkar depois o artigo que me mandou. Obrigada!

Um abraço, N

Camila disse...

Oi, Neide
Sempre visito seu blog, mas nunca comentei. Dessa vez, nao resisti. Meu marido vai para Lisboa semana que vem, sera que voce tem alguma sugestao de comidinha que ele pode trazer de presente para mim?
(p.s. se tiver algum restaurante predileto para indicar tambem...)
Obrigada!
Abs
Camila

Sandra G disse...

Neide ao ler as suas palavras vejo que tem um carinho muito grande por Portugal.O alentejo é uma zona com uma gastronomia muito rica desde o pão alentejano até aos doces, tudo é bom.
Ainda bem que gostou de ter vindo cá, pena ter sido tão pouco tempo.
Bjs

Neide Rigo disse...

Camila, infelizmente, por falta de tempo, conheci pouquíssimo de Lisboa. Praticamente nada de restaurantes. Fui apenas ao Spot São Luiz, onde se come um bom bacalhau, hambúrguer delicioso e foies gras fresquinho. Gostei muito. E o restaurante Tentações de Goa, do qual falei no post anterior. Presentinhos? pasteis de Belém, direto da fábrica mais tradicional http://www.pasteisdebelem.pt/, que fazem embalagem para viagem.
Espero poder ter mais indicação em breve.
Um abraço,
N

Neide Rigo disse...

Sandra,
Tiver realmente esta mesma impressão. Pena menos o tempo corrido. Beijo, n

Moira disse...

Pão alentejano é para mim dos melhores pães portugueses. Os sacos são os talegos, tenho uns quantos feitos pela minha avó, são preciosos :)
Bjs

MILZA disse...

Eestas sacolas me fazem lembrar do "embornal" q. costumavamos a guardar biscoitos e etc.
Beijos

Anônimo disse...

Há 40 anos, não havia enxoval de noiva que não incluísse uma dúzia, pelo menos, de sacos para o pão.
Feitos com sobras dos tecidos de que se faziam os lençóis, podiam ser do mais modesto pano cru até ao mais rico linho. Sendo de uma peça só, eram geralmente bordados com ramalhetes de espigas de trigo e papoilas.
Por vezes, com frases que poderiam ter sentido religioso.
Beijo
Manuela S.

leila disse...

sou neta e filha de portugueses e e em casa sempre teve esses saquinhos. eram chmados sacos de pão mesmo.

esparguete juridico disse...

Sou alentejana, genuína, nascida, criada, e que por opção regressou ao alentejo após os estudos.
O pão esse só tem o mesmo sabor por aqui, não desfazendo outros pães como as broas de centeio e milho do Norte que gosto muito.
Na nossa mesa há sempre pão, porque "em casa em que não há pão todos ralham e ninguém tem razão".
O nosso pão tem aquele sabor especial e reune todos em redor de um queijo fresco, molhado numa sopa de cação, tomate ou "entulho" (feijão abóbora, massa, nabo....), dá o mote para um bom gaspacho, e é imperativo para uma bela "fatia dourada".
O nosso pão guardado em "talegos" fica com um sabor incomparável e três ou quatro dias depois, se for pão daquele como manda a tradição faz as melhores torradas do universo.

Muitas visitas secretas depois, senti-me obrigada a deixar este post. Obrigado por divulgar um pouco da minha terra.

Visite Évora, quando desejar, será muito bem vinda, e já agora prove um "pão de rala", para regalar a gulodice. :)say

Neide Rigo disse...

Moira, estou bem convencida a adquirir o hábito. Minha avó também guardava pães em sacos de panos baratos, mas não me deixou nenhum.

Manuela, queria um destes bordados com ramalhetes de trigo.

Leila, os da minha avó também se chamavam sacos de pão. Eu até tenho uns com pano de saco, escritos "pão", mas não tem o charme destes feitos com restos de pano.

Esparguete (coincidência, agora mesmo li este termo numa revista de azeite e estranhei porque não conhecia esta grafia), obrigada por comentar. É neste momento que eu mais aprendo, com os depoimentos. Por exemplo, aprendi agora o que é "entulho" e já deu vontade de comer.

Já estive em Évora, especialmente para comer no Fialho, há uns 10 anos. A cidade é linda, comi, ouvi fado e saí feliz. Desta vez não deu, mas quero voltar e aí sim visitar tudo com mais calma (quando este dia vai chegar é que não sei...).

Beijo,
N

Luís Pontes disse...

Chamam-se "talegos" (diz-se ta-lê- go)