quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Adega Velha, parte 1 - Açorda de coentros e alhos em canto alentejano


Já que comecei a falar de pão, é agora uma boa oportunidade para se ver este vídeo feito na Adega Velha, que ensina a fazer açorda de alhos e coentros, um dos pratos típicos do Alentejo, que sustentou muita gente na época de penúria, à base de pão e água, mas que hoje se come a todo o tempo mesmo por prazer.
Eu não me ofenderia se me chamassem de papa-açorda, pois é o tipo de prato que me apetece e me conforta. Se o caldo for bem temperado como o da sopa de panela que sabia à hortelã, ou o do cozimento de um bacalhau, então... Basta mais apenas um copo de vinho e um azeite bom e puro, como se diz na música. Aliás, letra lá embaixo, pra cantar junto quanto for para lá. E, claro, aprender a fazer açorda.
Na Adega Velha, também conhecida como Tasca do Engenheiro ou Adega do Engenheiro, funciona um restaurante simpático e acolhedor em Mourão, onde era antes uma adega. Almoçamos lá no mesmo dia, se não me engano, um domingo, em que visitamos o Lagar de Varas de Fôjo, em Moura - o azeite desta região é considerado o melhor do Alentejo. Logo depois visitamos ali perto, Monsaraz, de onde se vê a imensidão da represa de Alqueva. Então, este dia foi especial.
Não estava no programa, mas quando já estávamos acomodados à mesa espremida entre rádios antigos e enormes talhas de vinho de produção própria do Engenheiro Joaquim Bação, começamos a ouvir a cantoria popular emocionada e forte que vinha da sala da frente. Isto, pelo que pareceu, sempre acontece por lá. Do nada, alguém começa e outros acompanham, já que este é um canto para se distrair em grupo. E o engenheiro é um dos mais empolgados, sempre com um cigarrinho aceso numa mão e o copo de seu vinho na outra. Era, talvez, a primeira vez que ouvia o canto alentejano ou pelo menos que ouvia de tão perto e tão verdadeiro.
Minha alma saloia voltou para a roça e lembrei do nosso canto caipira - nas reuniões de família, no sítio dos avós, enquanto a mulherada reinava na cozinha e o jantar não saía, um tio pegava a viola, o outro a sanfona, o vizinho trazia a voz e dali saiam músicas ingênuas, às vezes tristes, às vezes brincalhonas, com temas de gente trabalhadora, namoradeira, desiludida, esperançosa. Mas, sobretudo, que se gaba da força e da valentia. Foi o que me ocorreu quando aqueles homens começaram a cantar.
Em várias destas músicas vê-se o orgulho que o povo tem de sua comida, do seu vinho, do seus azeite, da qualidade de seus ingredientes e da simplicidade de seus costumes. Cantam ainda o asseio das casas caiadas do Alentejo, o sol escandante do verão sem sombra, a imensidão das terras planas salpicadas de oliveiras e carvalhos. Enfim, uma música de puro orgulho regional.


Só este caldo perfumado com hortelã da sopa de panela com o pão alentejano, no centro, já seria um alento
A comida da Adega: na mesa comprida foram chegando pratos regionais - azeitoninhas de tonalidades variadas, não tão salgadas quanto as nossas, chouriços fatiados, queijo de ovelha maturado, sopa de cação, cozido de grão, feijão com choriço, lombo de porco assado, sopa de panela e outras sortes. Acompanhado de vinho dos potes (falo deles depois, afinal trouxe um garrafão). Ainda tomei licor de poejo para ver se o poejo de lá é como o de cá. E não é que é? Nas outras mesas, velhos, moços e crianças.



Os verdes: Manuela Soares, a amiga portuguesa, disse que, como o Alentejo é uma terra de solo fraco, à falta de verduras variadas, aprendeu-se a utilizar de maneira sábia as ervas que crescem no campo espontaneamente, como beldroegas, coentros, hortelãs, oréganos, poejos, carquejas. Além de aspargos, pimentas e louros, como pude observar na Adega Velha. Pois vi que todas elas estão sempre às mesas.
Ainda falarei do vinho e mostrarei outras cantorias. Tudo no ritmo slow alentejano. Agradecimentos à Mariana Matos e Teresa Zacarias da Casa do Azeite - Associação do Azeite de Portugal pela oportunidade única.

Adega Velha
Rua Dr. Joaquim José de Vasconcelos Gusmão, 13
7240 - 255 Mourão
Telefone: 2665 86443
A letra da música, quem conseguiu e me mandou foi o amigo português João Pedro Diniz, do blog Ardeu a Padaria.
"Alhos, coentros e sal
Também se faz com poejo
Este comer que afinal
Nasceu no nosso Alentejo
Depois do alhos pisados
E com a água a ferver
Corta-se o pão aos bocados
Está pronto, vamos comer
É fácil fazer
Dá pouco trabalho
É água a ferver
Coentros e alho
Coentros e alho
E água a ferver
Dá pouco trabalho
E é fácil fazer
Com o panito bem duro
E a rabano a acompanhar
O azeite bom e puro
Não há melhor paladar
Açorda de bacalhau
Com azeitonas pisadas
Também não é nada mau
Com umas sardinhas assadas
Recordo quando era moça
Antes de ir para o trabalho
Comer ao pequeno almoço
Uma boa açorda de alho
Já meu avós me diziam
A força que a açorda dá
Todos os dias comiam
E dez filhos estão cá"

10 comentários:

Mariângela disse...

ai Neide,que texto lindo de doer este do início do post,quando falas da cantoria,em Portugal e em família, e da comida.De uma delicadeza que não tem mais fim, a gente consegue sentir emoção em cada palavra que escreves.Gostei demais.

Sandra G disse...

Açorda é muito bom, a que eu mais gosto é a de camarão.

Bjs

Isabel disse...

Adorei a analogia entre o canto alentejano e o seu "canto caipira" em família. Que bom que o Alentejo lhe causou boa impressão. Açorda de Alho sempre esteve muito presente em minha casa. Já comi muitas!!
Bjs

Anônimo disse...

Neide querida,
Já tenho saudades suas!!!
Quanto material rendeu a viagem, hem?
Espero te ver em breve...mas não as 6hs da manhã
bjs
Selma Nunes
secrinunes@hotmail.com

Neide Rigo disse...

Mari,
Obrigada. Estas coisas realmente me emocionam.

Sandra, preciso experimentar..

Isabel, não vejo a hora de tentar fazer a receita de açorda de alho.

Selminha, saudade também. Realmente aquele encontro às 6 da manhã, vocês chegando e eu saindo pro mercado vai ficar na história. Da próxima vez vou tentar arrastar todos para o mercado.

beijos, N

carneiro disse...

Já cantei essa cantiga com esse solista. Essa e outras.

No verão, enquanto se espera por mesa, vamos cantando - qualquer moda alentejana que saibamos, aqueles cantores acompanham.

E já lá passei 5 horas a almoçar....

Mas o petisco (aperitivo) costuma ser tomate biológico aos pedaços com sal grosso, acompanhado por um vinho branco da Vidigueira (Baixo Alentejo), da casta Antão Vaz. Tem odores e cor citrinos e, fresco, é como uma "bota da Tropa: marcha que é uma maravilha".

A Senhora teve a sorte de ter conhecido um dos lugares mais pitorescos do Portugal profundo.

E o "nosso" Engº é...o nosso Engº. Não há igual.

Neide Rigo disse...

Carneiro!
Por mim, passaria umas 10 horas por lá, ouvindo aquelas músicas e comendo destes tomates que me atiçam as vontades.
Eu bem sei que tive muita sorte.
Um abraço,
N

meldevespas disse...

E esse cozidinho de grão da Adega do Engº é daqueles de babar MESMO!!!
Apesar de alentejana não sou grande apreciadora da çorda de alho, mas os meus filhos adoram e quando o inverno chega, chega com ele a vontade de comer açorda cá em casa. É xactamente assim, cá neste deserto e gente, não passamos sem as nossas ervas, os coentros (perco-me por coentros) os oregãos, os poejos (dos quais de faz um licor tão tão bom), enfim, tudo o que vem do campo é recebido de braços abertos, os espargos, as cilarcas(espécie de cogumelo, muito aromatico e saboroso), as beldroegas, as acelgas, os cardos. Era um não parar mais de falar Neide! Ainda bem que se encantou por cá. Eu vivo aqui há 42 anos e todos os dias me apaixono por esta terra. Todos os dias um bocadinho mais.
Beijo

Neide Rigo disse...

Mel,
Lá no engenheiro, eu experimentei licor de poejos, muito bom. E cilarcas não conhecia (agora já vi foto deles). Espero um dia ter mais tempo para conhecer melhor Portugal. Mas já a amostra foi muito boa.
Um beijo, N

Cat disse...

Ainda na semana passada estava a dizer ao meu marido que andava cheia de vontade de ir à Adega Velha a Mourão, mas como uma boa refeição fica sempre melhor acompanhada de um bom vinho, a ida à Adega velha fica para depois da piolhita nascer.... já falta pouco e ai estou muito mais levezita certamente... Ainda bem que gostou do nosso Alentejo...