segunda-feira, 18 de abril de 2011

Um banquinho limpo pra se sentar


Amanda sentada no banco agora limpo
 Continuando e terminando o post do banquinho (ali e aqui). Embora eu possa dar a entender o contrário, não sou o tipo de pessoa engajada, que articula, que faz acontecer. Tudo em mim é muito devagar, tudo em mim conflui para um trabalho solitário e lento ainda que o resultado dele tenha a pretensão de atingir muita gente. Este não é o jeito certo de se trabalhar pelo bem comum, mas é o meu jeito. Acabo acreditando que uma pequena ação pode atrair e motivar outras pessoas mais aptas para um trabalho coletivo e político.  Gosto dos bastidores.


 
Removedor, gazolina, água quente, sabão em pó, nada adiantou. Mas um pedaço de tijolo e muita força no braço limpou


Redenção: até o próprio guarda que sujou o banco ajudou. Foi buscar mais água, trouxe gasolina, arrumou saco para o entulho

No sábado chamei apenas minha vizinha Ana para irmos lavar aquele banco. Fui a um piquenique de manhã e à tarde estávamos lá com balde, escovas, água, sabão. Zé Antônio, marido da Ana, também foi. Marcos estava num evento do Aikido em Mogi e fez falta.  A camada de gordura sebosa era tanta que a água escorreu sem que o sabão espumasse. Jogamos querosene para dissolver e nada.  Muito braço na escovação e nada. Aí apareceu o guarda, autor da arte, que disse que não poderíamos limpar em um dia o banco que ele demorou quatro meses para deixar naquele estado lastimável. Até pó de vidro e graxa ele admitiu ter jogado. Pois teimamos que só sairíamos dali quando o banco estivesse em condições de ser usado. Ele aderiu à causa e foi buscar gasolina para tentar dissolver o óleo. Não adiantou. Outra vizinha e amiga, a Rose, mãe da Amanda, apareceu com uma chaleira de água fervente. Também não funcionou.  O que mais deu certo foi usar o efeito abrasivo de um pedaço de tijolo.

Saímos de lá com os braços doendo, mas valeu a pena.  No final, enxaguamos, molhamos as marias-sem-vergonha e os coleus e fomos nos ocupar de um monte de terra que alguém jogou há tempos na calçada e ali ficou atrapalhando a passagem.

O marido da Rose também veio ajudar no enxadão, mas o sol era tanto que deixamos o resto para depois. Parou para conversar o Camelo, treinador de corrida, que se animou com a ideia de fazermos marcação de distância em toda a volta da praça para estimular caminhantes e corredores.  O menino Daniel, que vive andando de bike pela rua, gostou da ideia de fazermos piquenique ali e já quis que eu marcasse uma data, segundo ele, pra se organizar. Que tal amanhã?  perguntei.  Ele topou e eu pensei, e agora? Só eu e a Dendê?

 
Dendê estava animadíssima pra ir à praça. Chegamos e ficamos ali sozinhas. Logo apareceram a Rose e a Amanda, depois o Daniel e sua bike

Não foi exatamente um piquenique, mas peguei minha toalha, o jornal, uma garrafa de chá e um bolo de chocolate e fui pra praça no domingo de manhã. A Dendê e eu, apenas. O Marcos novamente fez falta. Ficamos lá olhando de um lado pro outro, até que apareceram a Rose e a Amanda com um pouco de uvas e logo depois o Daniel com sua bicicleta.

 


Depois ainda ficamos um tempo no banco. Parava um e conversava, depois outro, e assim fomos ficando plantando sementes. Em comum todos tem o desejo de usufruir mais do espaço público, de ocupar as ruas, de conhecer seus vizinhos. Então, é só começar ainda que seja devagarinho sem grandes movimentações. Aos poucos, os que pensam igual vão se juntando.

E chega de falar de bancos e espaços públicos. Voltemos no próximo post à solidão da cozinha privada.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

No meio da calçada tem um banquinho

Banco providencial na calçada da casa da amiga Veronika

Continuando o último post, falo agora do banco, que acabou ficando esquecido diante da minha indignação. Mas gostaria de homenagear este objeto de desejo das panturrilhas cansadas e símbolo mor do ócio criativo ou do descanso das mentes. É ele que suporta o peso do seu corpo com firmeza quando suas pernas cambaleantes pedem arrego ou simplesmente te acolhe quando quer ler um jornal, olhar para o horizonte, comer seu pão. 

Às vezes Marcos e eu saímos para caminhar pelo nosso bairro. Na volta, sentimos falta de uma paragem aconchegante, um banco debaixo de uma árvore. Já reparou como São Paulo é carente de bancos?  A maioria das praças do meu bairro não tem bancos. A praça que mostrei no último post possui um único banco, aquele banhado por óleo queimado.

Mas outro dia encontramos um banco na frente de uma casa. Coincidentemente é a casa dos nossos amigos  Veronika e Ricardo, que não estavam. Mas todo mundo que passa por ali sente-se tentado a diminuir o ritmo, a se sentar, ficar um pouco em silêncio.  São caminhantes, corredores, mães com seus bebês, adolescentes que vão namorar escondidos, andadores de skate e lá um andarilho ou outro.  E a casa está sempre de portas e janelas abertas, o sol batendo na terra do jardim, o carro tomando o mesmo sol na lataria, crianças balançando em cordas sob a amendoeira e um entra e sai de amigos a toda hora. E se todo mundo que tivesse uma calçada larga a gramasse, colocasse um banco e saísse para a rua?  Ou botasse uma cadeira de praia na calçada, saísse com seu livro e seu cachorro (como esta vizinha da foto abaixo), pronta para uma conversa com estranho? Será que não teríamos uma cidade mais gentil, civilizada, humanizada?  E se lançássemos um movimento do tipo "cadeira na calçada" e fizéssemos como ainda se faz em Belém ou em tantas outras cidades? Será que pegaria? Às vezes acho que sonho demais, mas sei que não estou só. 

Uma praça, uma árvore e um banquinho que é um perigo

Óleo queimado sobre o banco, pra ninguém sentar



Numa das manhãs desta semana, quando a previsão era de chuva no fim da tarde,  fui plantar umas maria-sem-vergonhas e coleus coloridos ao redor de uma árvore que sofre com o abandono e os lixos que jogam aos seus pés. Lixos que vão de box de banheiro a pedaços de privada, passando por latas de cerveja, cacos de lâmpadas, restos de papelão de fogos de artifício estourados no reveillon passado e assim vai. Aproveitei que a prefeitura deve ter levado grande parte deste lixo e precisei amontoar apenas um pouco do que ainda restava. A terra estava dura e seca, contribuindo para um uma pequena bolha na palma desta mão sedentária. Mas hoje a bolha já é calo, não choveu, tive que voltar algumas vezes para molhar a terra e vamos ver se as plantas vingam. 

Depois do trabalho, quis me sentar com a Dendê (que me esperava pacientemente) no banco sob a sombra da árvore, mas me lembrei que o próximo passo programado será levar um balde com água e sabão para lavá-lo. Podem imaginar um banco onde não se pode sentar?  Pois é, voltando da praça parei para conversar com o guarda da rua (que aliás me informou que algumas pessoas foram falar com ele dizendo que havia na praça uma moça de turbante na cabeça mexendo na terra, provavelmente deixando macumba ... era eu) e comentei do banco, na nocegada de alguém que o inutilizou. Fui eu, disse ele. - Eu e um morador, pois banco serve pra mendigos, pra gente desocupada sentar, observar as casas, assaltar, é perigoso. Jogamos óleo e ácido, assim, se a pessoa sentar, vai ter a roupa e quem sabe a perna corroída. E além do mais, nenhum morador se senta ali.

Fiquei chocada, disse que eu me sentava, dei bronca brincando mas falando sério e agora ele está de acordo que tudo bem, que posso lavar o banco,  que ele promete não sujar mais. Infelizmente este não é um pensamento isolado. Muita gente prefere inutilizar um bem comum a ter que conviver com as diferenças que estão por aí.

Um lugar sem praças, uma praça com grades, um coreto sem teto, um casa de muros altos, um centro de compras vigiado aonde só se chega de carro, guaritas, crachás, bancos onde não se possa sentar e tudo o mais que uma cidade pode ter de mais hostil. Será que tudo isto torna nossa cidade mais segura?  Claro que não. Nem segura, nem acolhedora. É preciso ocupar os espaços públicos, mostrar a cara, ir a pé ao mercadinho da sua rua ou do seu bairro, colocar a cadeira na calçada para ler um jornal, conhecer seu vizinho, tomar um sol na praça e usar os bancos para descansar, comer seu lanche, apreciar o movimento.

Se um andarilho se senta no banco, ele está no seu direito numa sociedade democrática e andarilhos solitários podem incomodar com sua simples presença, podem ser loucos que precisam de cuidado, mas quase nunca são bandidos. Os ratos perigosos são mais espertos e não ficam por aí caindo de bêbados nem dando bobeira nas praças com saco nas costas. Eles preferem a área limpa e é muito melhor que estejamos engaiolados e indefesos em nossas casas e carros para que possam agir com segurança.  

Nós somos muitos e podemos escolher como queremos viver em sociedade, a começar pelo espaço onde moramos. É muito fácil ficarmos trancados diante de uma tela de computador, vislumbrando grandes revoluções políticas, assinando petições internacionais, militando por uma causa grandiosa, mas que tal retomarmos, ou talvez começarmos daí,  também aquela pequena causa ao nosso redor? Será que é uma causa muito estreita querer viver numa cidade mais segura, acolhedora e gentil, que inclui em vez de hostilizar? Podemos começar por sentar de vez em quando nos poucos bancos que a cidade oferece e pensar no assunto.  

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Quinta sem trigo 17: Cuscuz marroquino? Não, attiéké da Costa do Marfim

Três tipos de attiéké
Fora nossos vários tipos de cuscuz - de arroz, de fubá, de flocão, de tapioca, de mandioca com amendoim, mandioca com coco, de cará etc, todos sem gluten, conhecemos o cuscuz marroquino,  feito com sêmola de trigo duro e é este que é considerado o tal, importado, caro, que aparece nos restaurantes.  


No entanto, na parte norte da África, o cuscuz de trigo é só mais um e custa bem barato, já que tudo o que faz farinha pode se transformar também em cuscuz, até banana verde. Comprei em Dakar e em Paris vários tipos de cuscuz africano - de sorgo, de fônio, de arroz, de milho, de milhete e até de trigo. Mas um que me deixou feliz mesmo foi o attiéké, da Costa do Marfim. 


Além de ser o primeiro produtor mundial de cacau (ou era até antes dos conflitos), a Costa do Marfim produz muita mandioca e, embora a planta tenha sido introduzida no continente africano a partir do Brasil, nem toda a técnica indígena para lidar com a raiz acompanhou a viagem. Não se vêem por lá, por exemplo, beijus de tapiocas ou outros produtos e receitas feitos com a fécula. Em compensação, parece que assimilaram a preparação da pubagem ou fermentação para inativar o glicosídeo que dá origem ao ácido cianídrico nas mandiocas bravas. E assim são feitas algumas farinhas por lá. 


O processo de fabricação do attiéke é mais ou menos parecido com aquele usado para fazer nossa farinha d´água, ou seja, a raiz é descascada, deixada imersa em água por alguns dias até amolecer, esmagada, prensada e seca. A diferença é que a massa fermentada é misturada a um pouco de massa de mandioca fresca e deixada mais uns dois dias para refermentar, e, no final, a massa prensada é posta a secar por algumas horas sob o sol. Deve haver peneiragem antes e depois para manter o tamanho dos grãos uniformes. Aí é só cozinhar no vapor e está pronto para comer. Ou vender. 


Depois de cozido no vapor, os grãos podem ser embalados e vendidos em saquinhos para que se esquente em casa na cuscuzeira ou no microondas. Pode ser congelado também. Mas, para vender ao mercado internacional (há attiéke em Paris, por exemplo), o produto, depois de cozido no vapor, é desidratado, bastando, na hora de consumir, hidratar e aquecer (no vapor ou cuscuzeira). 


Cuscuz marroquino e Attiéké, da Costa do Marfim
Os grânulos do attiéké seco são uniformes e algo translúcidos, lembrando um pouco aquele risilho que mostrei aqui. E você agora pode me perguntar, mas onde vou conseguir este tal de attiéké? Na África, em Paris, nos Estados Unidos. Talvez você não encontre facilmente, mas se um dia se deparar com ele já vai saber que não tem gluten e é delicioso para se comer com peixe. Lembra na forma o cuscuz marroquino com um delicado sabor ácido da fermentação.  No sabor, aproxima-se mais à nossa farinha de Uarini - tipo ovinha, que tem os grãos arredondados e você pode usá-la se encontrar (é só encomendar àquele amigo que vai pra Belém ou Manaus). Em último caso, compre uma boa farinha d´água e peneire para obter grãos do tamanho de grãos de triguilho. E é só preparar como fiz o cuscuz com a farinha de Uarini.  Ainda há a opção de fazer um bom  engroladinho de mandioca fresca para comer à guisa de attiéké com a tilápia - companhia constante naquele país.


Assei a tilápia embrulhada em folha de bananeira - com dendê, cebola, pimentão, tomate, limão e leite de coco
Preparei o cuscuz como recomenda o rótulo, hidratando e aquecendo no vapor. Abri o peixe e nhac!

O attiéké pode ser acompanhamento de carnes, frango, legumes e especialmente tilápia (nossa tilápia veio da África, lembra?), que costuma ser servida frita. Comprei o peixe com meio quilo, fiz uns cortes na pele e temperei com sal, pimenta, alho, cebolinha e coentro picado. Deixei dentro de um saco plástico, na geladeira, de um dia para outro. No outro dia embrulhei em folha de bananeira, recheei e cobri com rodelas de cebola, pimentão, tomate, limão, azeite de dendê e leite de coco.  Deixei assar em forno médio por cerca de meia hora nhac!

Se quiser, pode passar em farinha e fritar para comer com o Attiéké 
 Prometo para a próxima quinta algo bem fácil e gostoso!  

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Flor de jambu vira conserva


Foi culpa de minha irmã Suzana, que gosta tanto de flor de jambu que me perguntou se não dava pra ela ter sempre por perto estas florezinhas mesmo morando em apartamento. Perguntou se não era possível fazer conserva. Não custa tentar, respondi.

Como o jambu tem tomado conta de todo o quintal, posso colher florzinhas à vontade sem que elas façam falta. Já nem me lembrava mais que assim que ela pediu, fiz a experiência da conserva, só tirei foto da panela, comi todo as florezinhas em saladas, não fotografei e já não me lembrava mais quando agora, fuçando o arquivo, vi a foto da panela. 

Como tenho sempre as flores, basta chegar aqui alguém que eu ofereço a experiência mágica. Peço para que mastiguem devagar e que mantenham a massa de flor na boca por algum tempo, sem parar de mastigar. Aos poucos, percebe-se a boca salgada e anestesiada, sensação que pode se estender até a garganta (a Ana, minha viznha dentista, diz que vai começar a usar como pré-anestésico).  Depois e engolir, basta um copo de água para sentir tudo gelado como quando chupamos a bala halls. O bom é que a performance se mantém na conserva de vinagre, com a vantagem de o vinagre ficar bem temperado e poder ser usado nas saladas.

Estas florzinhas podem ser encontradas pra vender em sites internacionais como Szechuan button (já falei delas aqui).


 


Como fiz:  fervi ½ xícara de vinagre de vinho branco com ½ colher (sopa) de açúcar e ½ colher (chá) de sal, umas lascas de alho, umas rodelinhas de pimenta e umas folhas de alfavaca. Quando tudo ferveu, juntei 1/4 de xícaras de flores de jambu lavadas e apaguei o fogo. Coloquei em vidro aferventado e ainda quente, esperei esfriar e tampei. Deixei na geladeira até o outro dia. Para usar em saladas, decorar arroz, para comer de aperitivo, de brincadeira etc.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Berinjelas da Ana Soares




Outro dia jantamos na casa Ana Soares, do Mesa III, e fiquei apaixonada por estas berinjelas macias e algo defumadas, além de tantas outras comidas gostosas, sempre tão caprichadas, tão criativas - exatamente como os pratos de sua rotisserie, com a vantagem que comer entre amigos e junto da autora daquelas delícias tem sempre um tempero extra. Pedi a receita da berinjela e aí está pra quando quisermos fazer um prato simples que impressiona.


Berinjelas "Queimadas”


300 g de berinjelas pequenas - mais ou menos 2 unidades

Sal e pimenta-do-reino a gosto

Tomilho fresco desfolhado gosto

20 ml de Azeite

1 dente de alho sem embrião laminado

150 g de tomates marinados (receita abaixo)


Chamusque as berinjelas (todos os lados) no bico do gás até queimar bem a casca. Reserve até amornar. Abra ao meio no sentido comprimento, risque a polpa em xadrez, tempere com alhos, ervas, sal, pimenta e fio de azeite. Reserve em temperatura ambiente.


Na hora de servir, espalhe por cima da polpa os tomatinhos marinados e leve ao forno para aquecer. Sirva sobre uma camada de azeite.


Tomate Marinado


200 g de tomate picado, com pele e sementes

50 ml de azeite

10 g de alho sem embrião cortado ao meio

20 g de manjericão fresco (folhas) picadas grosseiramente

Sal e pimenta-do-reino a gosto


Misture todos os ingredientes. Deixe marinar por mais ou menos 15 minutos. Tempere com sal e pimenta na hora de usar.
Rendimento: 4 porções

Piquenique de abril - fotos

http://piqueniquepertodecasa.blogspot.com/2011/04/piquenique-de-abril.html

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Feira de Belleville

Era a última terça gelada em Paris e queria conhecer a feira de Belleville que acontece duas vezes por semana, sendo a segunda opção no sábado, quando já estaria de partida. Convidei a amiga Gaby e sua irmã Adriana para irem junto, já que queríamos nos encontrar. Além da eterna e sempre desejável companhia do Marcos.
A feira é imensa, não acaba nunca mais e você segue a passinhos lentos e com olhos bem atentos para não perder os companheiros na multidão. Foi assim que consegui ver um pouco, fotografar um pouco e até ganhar algum sorriso de vendedores. Quando terminamos, entre boinas, olhos puxados e veus, anunciei para todos: "agora que já dei uma passada d´olhos em tudo, vamos voltar para ver os detalhes do que me chamou a atenção". Não, sob caras de pânico, o negócio é desfazer logo a brincadeira de mau gosto. Só por respeito a eles, claro.
Sei que o Marcos não gosta nem de feiras livres nem de multidões e, embora Gaby e Adriana se mostravam ainda dispostas, duvido que alguém tem coragem de me acompanhar numa feira daquele tamanho no meu ritmo. É como comer cabeça de peixe, sugando olhos e gordurinhas cerebrais, é coisa pra se fazer na mais absoluta solidão. Até hoje não conheci ninguém que tivesse a paciência. Então, um dia eu volto, ah se volto.

Por muitos parisienses, Belleville é ainda considerado um lugar perigoso, feio, insalubre, mas pra muita gente faz parte de um patrimônio que conserva a memória operária e comercial de Paris e por isto tem atraído gente jovem, intelectuais e especialmente artistas que montam ali seus ateliês. Belleville foi o último faubourg incorporado à cidade - até metade do século 19 o local era dedicado à viticultura. Com a reforma de Paris, Belleville passou a abrigar os desalojados - artesãos, operários e pequenos comerciantes. Juntaram-se a eles judeus e refugiados das duas grandes guerras além de servir de acolhida aos imigrantes após as guerras de independência das colônias francesas. E hoje continuam chegando asiáticos, africanos, árabes ou não.

Em Paris, visitei os beaus quartiers do Oeste, mas esta feira, inserida num dos quartiers populaires do leste foi um dos lugares mais modernos, cosmopolitas e multiculturalis que conheci. E não por atitudes desafiadoras, pelos silicones, corpos modelados ou cabelos coloridos como creio poder se ver em Nova Iorque, Londres ou Tóquio (que, afinal, também poderiam estar ali sem problemas), mas porque é o ambiente de convivência, troca, respeito, brincadeiras e descontração que a maioria de nós sonha para um mundo contemporâneo e que talvez não se dê fora daquele bulevar.
Ali a maioria imigrante se faz representar nos ingredientes e produtos vendidos na feira, mas também nos gestos. Faz questão de não abolir as diferenças mas dar a elas o significado de tolerância, afinal a feira parece ser um ambiente festivo, um acontecimento para o qual tem-se o orgulho de mostrar suas vestes etnicas sejam veus ou turbantes, sua lingua nativa ou o sotaque francês sem vergonha no meio da gritaria para anunciar um produto qualquer a um euro - como o nosso "caneta social é um real, régua de três é um real, tabuada é um real, um real, um real é um real", o que por lá vira: anorrô, anorrô, anorrô, como uma canção.
Favas, tupinambos, damascos, tâmaras, azeitonas, nigelas e cominhos, romãs de rubis, laranjas de sangue, peixes frescos, frutos do mar, raladores, tagines, panelas e tigelas, lenços islâmicos e panos senegaleses. E gente, muita gente diferente.












E mulheres de veu: quase foras da lei...

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Bolo de chocolate. Receita infalível para um casamento feliz




Casamento é assim. A gente cede um pouco aqui, o outro ali, só porque respeita as opiniões e quer ficar bem junto de quem ama. Marcos disse seriamente que eu tenho que alternar no blog comidas inacessíveis, como milho roxo, fubá de canjica, cuscuz de milhete e serralhinhas, com pratos comuns e apetitosos como arroz e feijão, bolo com farinha branca e açúcar. É que ele acha que tenho carregado a mão no primeiro grupo.
Então, não só para deixar todo mundo feliz e o marido satisfeito, mas também pra mostrar que eu não sou apenas um bicho papa-mato, publico aqui um bolo de chocolate bem normalzinho, cuja receita muito simples todo mundo já deve conhecer. É ele que sempre faço, pois além de ter uma fórmula infalível, sempre fofinho, tem também um valor simbólico importante.
Foi uma colega do curso de nutrição, Luzia Kulcsar, quem me deu a receita e a dica de vender para ganhar algum dinheiro sem muito investimento. - Por que você não faz bolo? eu tenho uma receita bem fácil. - Eu não sou boa pra vender, respondi. Outra amiga, Silvana, se ofereceu para fazer propaganda. - Então, tá.
É que tive que parar de trabalhar para estudar nutrição que, na USP, ocupava o dia todo. E naquela altura eu já tinha filha pra criar e um marido estudante de medicina também em período integral. Ou seja, era uma dureza lascada. Marcos fazia uns bicos numa casa de chá nos finais de semana e dava aulas de química à noite e eu, morrendo de timidez porque não nasci pra vender, segui o conselho da amiga e comecei a oferecer, com ajuda da Silvana, só para os colegas de classe. E a receita, tanto do bolo quanto deste modelo, nunca falhou. Felizmente, não precisava nem oferecer. Era só chegar lá pelas 9 da manhã, a fome aguçava e pronto, o pessoal começava a passar papelzinho com bilhete pedindo bolo. Quando sobrava era um ou dois pedaços, que levava pra casa ou dava pra Lisiane, a colega que me dava carona.
Fazia apenas uma receita à noite na cozinha apertada do Crusp, esperava esfriar, cortava, embalava e metia tudo dentro de um tupuware azul que me acompanha até hoje - assim como o marido, que na época ajudava a cortar o filme plástico na medida exata para não enrolar nas mãos nem desperdiçar, e hoje dá bastante palpite. Só assim para um casamento perdurar - ajuda mútua na pindura e na fartura, na labuta e no prazer.
Como durante os quatro anos do meu curso este bolo ajudou a manter alimentados e felizes um casal e uma criança, que se mantém tal e qual, foi a receita que resolvi fazer, meio às pressas, meio de surpresa, quando na semana passada Veronika e eu fomos convidadas a dar nossas assinaturas como provas testemunhais da oficialização de casamento da Fabiana e do Edu.
Era só uma coisa assim: a gente passa aí, te pega, você assina e pronto. Não, não era só uma coisa assim. Combinei com a Veronika de pelo menos fazermos um brinde ao casal. E eles não esperavam de jeito nenhum. "O Edu estava até pensando, a gente podia marcar algum dia de tomar um champanhe com vocês", disse Fabiana ao terminar de assinar a papelada. Mas estava tudo pronto aqui - o bolo que fiz, os espumantes que a Veronika trouxe e os docinhos que ganhei da
Kris.
Na saída do cartório, ela segurando uma rosa e folhas de louro do quintal da Veronika e os dois sem cerimônia e calça jeans receberam uma chuva de arroz no meio da rua para que começassem a perceber que aquilo não era apenas um papel assinado. Pelo menos para nós, madrinhas que não passamos por isto mas damos a maior força, tinha que ter um ritualzinho que fosse. Não amarramos latas no carro dos noivos, mas convidamos para um cafezinho aqui em casa. Aí, a surpresa: bolo de chocolate e estouro de rolha para espalhar borbulhas de festas. Então, vamos comemorar, vida longa e feliz ao jovem casal! E agradecimentos à Luzia e à Silvana!


Bolo de Chocolate da Luzia

3 xícaras de farinha de trigo

2 xícaras de açúcar

1 xícara de chocolate em pó

1 xícara de óleo

1 colher (sopa) de fermento químico

1/2 colher (chá) de bicarbonato de sódio

2 ovos
Misture todos os ingredientes e acrescente 2 xícaras de água ou leite fervente. Misture bem. Forma untada e enfarinhada. Forno médio. Depois coloque cobertura. Rende 20 pedaços

Nota: uso medidas padronizadas (xícara de 240 ml, colher (sopa) de 15 ml, razadas), uso ovos grandes e asso em forma grande, geralmente uma assadeira retangular grande, mas também pode ser feita em forma de buraco como este que vê na foto. Uso chocolate do padre ou orgânico não adoçado, e não nescau nem toddy, muito doces. A cobertura pode ser aquela clássica que combina chocolate em pó, açúcar, manteiga e leite, tudo derretido no fogo. Mas costumo fazê-la derretendo chocolate meio amargo com um pouco de creme de leite quente (180 g de chocolate para 180 ml de creme, por exemplo). Espero esfriar e gelar antes de jogar sobre o bolo e Nhac!

Quinta sem trigo 16: petits fours de fubá de canjica e linhaça

Está certo que você não aguenta mais me ver falando de fubá de canjica, mas juro que não estou ganhando comissão e prometo mudar o ingrediente na próxima quinta. É que aquele fubá de canjica, presente da Kris, ainda está rendendo. E, antes que me questione que fubá é este, se é igual ou não ao fubá comum ou de moinho de pedra, saiba que já falei muito dele, já dei nome de produtor e tudo o mais - é só procurar na caixa de busca aí em cima. Uma das vantagens em relação ao fubá comum é que ele tem mais liga mesmo quando misturado a líquidos frios.
A massa é praticamente a mesma daquela do biscoito tipo cracker que dei aqui, porém juntei linhaça triturada e alcaravia e moldei de um jeito diferente. Usei esta forminha de madeira com diferentes formatos - é só polvilhar com fubá de canjica para não grudar, pressionar a massa e desenformar, mas você pode fazer bolinhas e achatar como estes biscoitos de amendoim, usar um cilindro de moldar biscoitos ou ainda abrir a massa entre duas folhas de plástico e cortar com cortador de biscoitos.
Petits Fours de fubá de canjica: misture numa tigela 200 g de fubá de canjica, 100 g de manteiga sem sal, em temperatura ambiente, 1/2 colher (chá) sal, 2 colheres (chá) de fermento químico em pó, 2 colheres (chá) de açúcar, 1 colher (chá) de alcaravia (kümmel), opcional, e 4 colheres (sopa) de linhaça marrom ou dourada triturada levemente no liquidificador. Ou, se quiser, nozes picadas ou amêndoas raladas. Misture com as mãos até conseguir uma farofa e vá adicionando água aos poucos (cerca de 100 ml) até conseguir uma massa modelável. Se preferir, bata tudo no processador. Molde os biscoitos do jeito que lhe for conveniente. Se não tiver formas, faça bolinhas e achate-as para que fiquem com altura de cerca de 1 centímetro. Coloque em forma não-untada e leve ao forno médio. Deixe assar por cerca de 30 minutos ou até que fiquem firmes e comecem a querer dourar (não devem dourar, se não ficam amargos). Rende aproximadamente 25 unidades

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Prato do dia: angu com milho roxo e serralhinha com pernil

Hoje, um presente: os matos amanheceram orvalhados e eu não resisti a estas folhas novinhas e tenras da Emilia sonchifolia, vulgo pincel-de-estudante ou serralhinha. Já falei dela aqui no Come-se.

Ontem, na oficina de nixtamalização e tortilhas na casa da Lourdes, ganhei do amigo Fernando umas espigas de milho roxo que colheu do seu quintal. Também já falei deste milho aqui (receita de pão,vermelho com especiarias, pipocas peruanas).
Na semana passada recebi fubá de canjica da leitora Kris (já falei dele aqui inúmeras vezes - é só digitar aí em cima na caixa de busca "fubá de canjica" - ainda assim alguém há de não ler isto, me perguntar e tudo bem).
Do ano passado ainda tinha congelados uns pedaços de paleta assada, a mesma desta receita.
E assim foi só misturar tudo isto para chegar a um almoço bastante confortante.
Cortei uma espiga de milho fresco, incluindo não só os grãos, que são brancos por dentro, mas também o sabugo, roxo por inteiro.

Cobri os grãos com água e deixei cozinhar por cerca de meia hora. Pinguei gotas de limão para a água ficar mais avermelhada.

Bati os grãos com a água no liquidificador. Coei, juntei mais água, bati de novo, coei. Completei a água até que chegasse em 5 xícaras. Diluí neste líquido 1 xícara de fubá de canjica e levei ao fogo, mexendo sempre. Quando engrossou, abaixei o fogo, tampei e deixei cozinhar por meia hora. No começo fica muito denso, mas o tempo de cocção mais a adição de suco de limão (que serve também para realçar o tom vermelho - acidez+antocianina resulta numa cor mais viva) deixam a massa mais fluida. No final, se quiser, junte mais suco de limão, 1 colherada de manteiga e sal a gosto. Sirva quente.
O fubá de canjica forma um angu muito liso, como um mingau - veja nestas fotos, servido com pato caipira e grão de bico. Se não tiver fubá de canjica, faça polenta com fubá comum ou sêmola, do mesmo jeito.
Coloquei no prato o angu quente (se resfria um pouco, solidifica como mingau de maisena), a serralha refogada, a carne de porco requentada, uns grãos do milho que separei e dourei no azeite e Nhac!