sexta-feira, 15 de abril de 2011

No meio da calçada tem um banquinho

Banco providencial na calçada da casa da amiga Veronika

Continuando o último post, falo agora do banco, que acabou ficando esquecido diante da minha indignação. Mas gostaria de homenagear este objeto de desejo das panturrilhas cansadas e símbolo mor do ócio criativo ou do descanso das mentes. É ele que suporta o peso do seu corpo com firmeza quando suas pernas cambaleantes pedem arrego ou simplesmente te acolhe quando quer ler um jornal, olhar para o horizonte, comer seu pão. 

Às vezes Marcos e eu saímos para caminhar pelo nosso bairro. Na volta, sentimos falta de uma paragem aconchegante, um banco debaixo de uma árvore. Já reparou como São Paulo é carente de bancos?  A maioria das praças do meu bairro não tem bancos. A praça que mostrei no último post possui um único banco, aquele banhado por óleo queimado.

Mas outro dia encontramos um banco na frente de uma casa. Coincidentemente é a casa dos nossos amigos  Veronika e Ricardo, que não estavam. Mas todo mundo que passa por ali sente-se tentado a diminuir o ritmo, a se sentar, ficar um pouco em silêncio.  São caminhantes, corredores, mães com seus bebês, adolescentes que vão namorar escondidos, andadores de skate e lá um andarilho ou outro.  E a casa está sempre de portas e janelas abertas, o sol batendo na terra do jardim, o carro tomando o mesmo sol na lataria, crianças balançando em cordas sob a amendoeira e um entra e sai de amigos a toda hora. E se todo mundo que tivesse uma calçada larga a gramasse, colocasse um banco e saísse para a rua?  Ou botasse uma cadeira de praia na calçada, saísse com seu livro e seu cachorro (como esta vizinha da foto abaixo), pronta para uma conversa com estranho? Será que não teríamos uma cidade mais gentil, civilizada, humanizada?  E se lançássemos um movimento do tipo "cadeira na calçada" e fizéssemos como ainda se faz em Belém ou em tantas outras cidades? Será que pegaria? Às vezes acho que sonho demais, mas sei que não estou só. 

18 comentários:

veronika paulics disse...

que legal, neide. nem eu mesma me lembrei de comentar do nosso banco. mas lendo o post lembrei que quando colocamos o banquinho, todos diziam que no dia seguinte não estaria mais. e apostamos. e estava lá no dia seguinte. na primeira viagem, imaginamos que alguém o levaria embora. mas levar um banquinho pra onde? com o tempo ele é mais e mais usado. e é bom. é muito bom. sou a favor do cadeiras nas calçadas. vamos pensar em alguma coisa. deflagra aí um chamamento para boas ideias. o melhor de um blogue são os leitores. os seus são maravilhosos. bom fim de semana. bjs.

angela disse...

Lá na FAU não havia um único banco! os jovens se sentam pelo chão, mesmo como professora jovem , coisa que já fui, não tinha onde sentar.
Creio que não se espalham bancos para não aparecer população de rua :-( Os coqueiros das praias cariocas viraram favelinhas com roupas penduradas entre eles, redes, caixotes.. assim, os elementos urbanos acabam virando acolhedores para a população de rua, coisa que , em geral, os pagantes de impostos não gostam.

Mariângela disse...

aqui em Porto Alegre acontece exatamente isso que a Angela coloca.Como a cidade está lotada de pessoas sem teto já estão "repaginando" prédios com marquises(levando as grades mais para a calçada)e nos bairros isto não existe mais,afinal,sempre pensam que alguém vai dormir ali, fazer suas necessidades,etc etc(e dormem e fazem mesmo,presencio diariamente em meu bairro).Talvez em São Paulo isto fique mais diluído que aqui pois SP é uma cidade que não tem mais fim né..Bom,se colocasse um banco aqui na calçada de nossa casa ,te asseguro,não sobreviveria nem uma noite.Beijo!

Maurileni Moreira disse...

amei! adorei a ideia!!!

Cristina disse...

A ideia é calorosa...hoje a maioria das casas tem até cerca elétrica,ficando perigoso até se aproximar das grades! minha casa é pequena e tem uma varanda bem simples na frente,mas sempre que posso,coloco ali minha rede e fico observando a rua,o movimento das pessoas..adoraria ter um banco,mesmo no lado de dentro,mas acredito que não duraria muito tempo...pena!

Lilian, a mãe do Gabriel. disse...

Ei Neide,
adorei esses 2 posts sobre "os bancos", pois eles me fizeram pensar muuuito viu!
Moro numa cidade pequena, cheia de praças e bancos, mas que já está se contaminando pelas idéias de preconceito, exclusão!
Mas eu não me deixo contaminar e sempre que dá levo o Gabriel pra pracinha e me estiro preguiçosamente num banco!!!Paz e muita Luz sempre

Dricka disse...

Não está só mesmo. Estamos contigo!!!
Em minha rua há um rio canalizado, onde cada morador plantou sua planta preferida e a prefeitura fez um pista de corrida ( muito usada por sinal0, uma moradora, colocou um banco sob uma arvore bem frondosa, ficou lindo, mas para não correr o risco de ficar sem o assento ela passou uma corrente, amarrando-o na arvore. Mesmo assim é muito aprazível.
Bjs

Neide Rigo disse...

Veronika, sua atitude amigável é um exemplo de que bancos não são coisas roubáveis - tem que ter um carro, dois homens pra carregar, não é tão simples. E aí está ele há anos como um objeto amigável. E esta foto você não conhecia, hem? Foi quando estavam viajando.

Angela, a população de rua está por aí e não dá pra fecharmos os olhos. Mas não podemos deixar as cidades mais hostis e enfeiadas por causa disto, não é?

Mari, esta arquitetura da exclusão é um horror, não? Sempre achei Porto Alegre bonita justamente por causa das praças abertas, sem grade, ocupadas por todos. Agora, o problema da população de rua não vai desaparecer com nosso engaiolamento. O problema está aí a ser resolvido - não imagino como. Ah, em sua calçada até que ia bem um banco, hem... As estatísticas comprovam: a proporção de roubos de bancos é inversamente proporcional aos assaltos a bancos.

Cristina, bancos não são objetos roubáveis - e se alguém roubar, deve ser por uma boa causa.

Lilian, numa cidade pequena é bem mais fácil adotar posturas mais amigáveis, ainda que tenha que vencer preconceitos.

Dricka, espero que aos poucos atitudes como estas dos seus vizinhos vão se espalhando por aí.

Um abraço, N

Priscila Maria disse...

mas neide!! deve se tratar de confluência cósmica! estamos justamente bolando uma intervenção urbana com bancos, eu e uns amigos, vamos fazer banquetas com palets e vamos espalhá-las por aí! que coisa! é isso, a cidade é nossa. nós somos simpáticas e acolhedoras, nossa cidade tb há de ser assim! beijos.

iury pedro disse...

Cara neide sou leitor de interessantissimo blog há alguns meses, sou de Santarém no inteiro do Pará, porém moro em Manaus, e pensei que vc esteja interessada em alguns ingredientes da culinária amazônica... To indo pra Sampa nesse feriado e seria o maior prazer contribuir com o site...
E-mail iury_pedro@hotmail.com
facebook iury pedro

Patricia disse...

De todas as cidades que visitei, talvez o que melhor permanece guardado na mémoria sao os mercados, as comidas e as praças. Nao é diferente em minha cidade natal (BH): o Mercado Central e Praça da Liberdade sao meus lugares favoritos. Em ambos ambientes, é possível ver e conhecer gente, papear sem se preocupar com o tempo e aprender!
As pessoas se esqueceram do quanto estas "relaçoes com desconhecidos" sao importantes e gratificantes e nenhum lugar melhor para isto que uma praça ou um mercado. Sentar-se sem se preocupar com o tempo - nao esquecendo os compromissos, mas relaxar - observar as pessoas, plantas e passarinhos ou so se perder em pensamentos...
Na rua dos meus pais, os vizinhos ainda sentam-se nas portas e papeiam nos fins de semana, mas isto tem se tornado mais e mais raro, mesmo em Minas.
Parece que agora é chic isolar-se. Ter um banco na rua ou em uma praça, pensar coletivo, também é pensar em si mesmo: cada pessoa que conhecemos é alguém a mais que pode nos ajudar um dia.
Bancos nao sao roubaveis e quase nunca alvos de vandalismo. Alias, adoro sentar-me em um banco e ler os recadinhos de casais (que ali namoram escondido ou nao) - o que também é considerado vandalismo.
Vamos aumentar o numero de bancos em nossa cidade e usar os ja existentes.
Aproveitando o comentario, quero dizer que sou apaixonada por este Blog. Aqui me inspiro nao so para cozinhar. Ainda estou lendo os Post antigos - e pretendo ler todos! Parabéns e vida longa ao Come-se.

raq disse...

não está sozinha mesmo. você e seus vizinhos com o piquenique e os banquinhos me fazem querer morar aí. não é a primeira vez que falo isso aqui ;c)

Meire disse...

Perto de onde eu moro, aqui em São Paulo, tem uma belezinha de praça, bem pequena, com bancos muito usados por todo mundo, inclusive por moradores de rua para dormir à noite. Será que é porque é um lugar onde passa muita gente? Será que é porque as gentes usam muito os bancos? Será que é porque os comerciantes conservam, tem sempre um zelador limpando? Essa pequena jóia chama-se Omanguás e fica perto da FNAC Pinheiros.

Luciane Morais disse...

Ótima ideia! Seria harmonioso!

Lindas fotos!

Um lindo domingo pra vc* Tudo de bom

Abraços,
Lu
http://olharacreano.blogspot.com/

Kenia Bahr! disse...

Aqui em Taubaté há uma praça em um bairro 'nobre' que está cercada com grades e trancada com cadeados! Achei um horror desde a primeira vez que vi. Venho amadurecendo a idéia de tentar transformá-la em uma horta-jardim comunitária. Se a prefeitura permitir...

Anônimo disse...

Aqui em Teresina(PI) ainda é muito comum as pessoas colocarem cadeiras nas calçadas. Como nossa cidade é quente a maior parte do ano, então é desculpa perfeita pras famílias ficarem sentadas em suas cadeiras de 'espaguete' nas sombras das árvores. Vemos isso principalmente no subúrbio e em algumas partes do Centro da cidade onde ainda existem residências. Abrços!
Hildeny Medeiros

Neide Rigo disse...

Poxa, quantas histórias legais. Obrigada, pessoal, pelos comentários. Adorei saber. Raq, venha sim!

Yuri, espero que tenha recebido meu email.

Um abraço,
N

Raquel Triano disse...

que bom saber que outras pessoas tambem gostam de.....um banco na calçada! ja fiz isto uma vez, o banco foi roubado por um vizinho que depois o devolveu e o banco voltou para a calçada novamente. Apos mudanca de casa tenho pensado em colocar um novo banco outra vez mas os vizinhos insistem que pode ser muito perigoso inclusive para eles(vizinhos) e assim continuo sem o banco na calcada e de portoes fechado como todos exigem por medida de seguranca do bairro. Mas penso em quanta coisa boa que perdemos com este comportamento exageradamente defensivo!