Era a última terça gelada em Paris e queria conhecer a feira de Belleville que acontece duas vezes por semana, sendo a segunda opção no sábado, quando já estaria de partida. Convidei a amiga Gaby e sua irmã Adriana para irem junto, já que queríamos nos encontrar. Além da eterna e sempre desejável companhia do Marcos. A feira é imensa, não acaba nunca mais e você segue a passinhos lentos e com olhos bem atentos para não perder os companheiros na multidão. Foi assim que consegui ver um pouco, fotografar um pouco e até ganhar algum sorriso de vendedores. Quando terminamos, entre boinas, olhos puxados e veus, anunciei para todos: "agora que já dei uma passada d´olhos em tudo, vamos voltar para ver os detalhes do que me chamou a atenção". Não, sob caras de pânico, o negócio é desfazer logo a brincadeira de mau gosto. Só por respeito a eles, claro.
Sei que o Marcos não gosta nem de feiras livres nem de multidões e, embora Gaby e Adriana se mostravam ainda dispostas, duvido que alguém tem coragem de me acompanhar numa feira daquele tamanho no meu ritmo. É como comer cabeça de peixe, sugando olhos e gordurinhas cerebrais, é coisa pra se fazer na mais absoluta solidão. Até hoje não conheci ninguém que tivesse a paciência. Então, um dia eu volto, ah se volto.
Por muitos parisienses, Belleville é ainda considerado um lugar perigoso, feio, insalubre, mas pra muita gente faz parte de um patrimônio que conserva a memória operária e comercial de Paris e por isto tem atraído gente jovem, intelectuais e especialmente artistas que montam ali seus ateliês. Belleville foi o último faubourg incorporado à cidade - até metade do século 19 o local era dedicado à viticultura. Com a reforma de Paris, Belleville passou a abrigar os desalojados - artesãos, operários e pequenos comerciantes. Juntaram-se a eles judeus e refugiados das duas grandes guerras além de servir de acolhida aos imigrantes após as guerras de independência das colônias francesas. E hoje continuam chegando asiáticos, africanos, árabes ou não.
Em Paris, visitei os beaus quartiers do Oeste, mas esta feira, inserida num dos quartiers populaires do leste foi um dos lugares mais modernos, cosmopolitas e multiculturalis que conheci. E não por atitudes desafiadoras, pelos silicones, corpos modelados ou cabelos coloridos como creio poder se ver em Nova Iorque, Londres ou Tóquio (que, afinal, também poderiam estar ali sem problemas), mas porque é o ambiente de convivência, troca, respeito, brincadeiras e descontração que a maioria de nós sonha para um mundo contemporâneo e que talvez não se dê fora daquele bulevar.
Ali a maioria imigrante se faz representar nos ingredientes e produtos vendidos na feira, mas também nos gestos. Faz questão de não abolir as diferenças mas dar a elas o significado de tolerância, afinal a feira parece ser um ambiente festivo, um acontecimento para o qual tem-se o orgulho de mostrar suas vestes etnicas sejam veus ou turbantes, sua lingua nativa ou o sotaque francês sem vergonha no meio da gritaria para anunciar um produto qualquer a um euro - como o nosso "caneta social é um real, régua de três é um real, tabuada é um real, um real, um real é um real", o que por lá vira: anorrô, anorrô, anorrô, como uma canção.
Favas, tupinambos, damascos, tâmaras, azeitonas, nigelas e cominhos, romãs de rubis, laranjas de sangue, peixes frescos, frutos do mar, raladores, tagines, panelas e tigelas, lenços islâmicos e panos senegaleses. E gente, muita gente diferente.












