Há alguns meses, a Fernanda, do Chucrute com Salsicha, me mandou dos Estados Unidos sementes de legumes psicodélicos, como diz ela, além de ervas aromáticas. Amei o presente. Como no meu minúsculo quintal aqui em São Paulo não cabe mais nada, levei pra Fartura e meu pai semeou na terra fértil, vermelha e fofa. Da última vez que estive lá, ainda pude experimentar um ou outro do que vingou. O que não pôde me esperar já tinha sido devorado. Restaram umas cenouras com pele sanguínea; uns rábanos mais compridos; uns rabanetes verdes por fora e vermelhos por dentro; beterrabas brancas e algumas listradas. Muito diferentes das fotos dos rótulos, afinal não foram feitas para a terra e o clima de Fartura. Mas valeu a tentativa. Elas se esforçaram. E embora não tenham sido fiéis ao que prometiam, mostraram-se terrivelmente boas no sabor. As beterrabas, assei-as. E estavam muito doces. Temperei com hortelã, uma pitada de açúcar, pimenta, azeite e limão.
Beterrabas de três tipos temperadas com hortelã, pimenta, azeite e limão cravo
Antes que minha amiga carioca/marajoara Kátia reivindique autoria, vou logo dizendo: o título é dela. É que fomos passear no Jardim Botânico, no Rio, e nos deparamos com as duas coisas: sagüizinhos comendo jaca e logo em seguida um lindo pé de sagu que eu não conhecia ao vivo. Mas a Cyca quase passa batida por mim e por ela. Quem a avistou foi a menina Mariana sabendo do meu interesse por gêneros alimentícios.
No Brasil, nossas bolinhas de sagu são feitas com amido de mandioca, mas as pérolas de sagu ou pearl sago, como são conhecidas na língua inglesa, originalmente são obtidas a partir do amido tirado da medula do tronco de algumas palmeiras dos gêneros Borassus, Arenga e Metroxylon, incluindo a Metroxylon sagu (veja o vídeo abaixo), encontrada na Ásia e Pacífico e também desta planta da foto, que não é uma palmeira, mas do gênero Cyca, Cycas revoluta, da Indonésia e do Japão.Parece que o alimento começou a fazer parte da dieta da tripulação dos navios que voltavam da Ásia trazendo chá para a Europa, no século 19. Aos poucos ele foi sendo incorporado aos hábitos dos ingleses, especialmente os do norte industrial e, na última metade do século, passou a ser usado em pudim, manjar branco e alimentos infantis. Porém, com a alta demanda, as bolinhas brancas, que se tornam transparentes depois de cozidas, passaram a ser feitas com outros tipos de féculas (ou amido) com características similares, especialmente a de mandioca, o polvilho. Mas podem ser feitos também com uma mistura de amido de mandioca e de batata doce, como fazem os chineses. Ou ainda com araruta, usada em vários países da América do Sul. Féculas de batata, de feijão e de milho são outras alternativas. O importante é que resultem em pequenos grãos esféricos, transparentes ou translúcidos, com textura elástica e gomosa depois de cozidos. Receitinha com sagu com hibisco, AQUI. Pela legislação brasileira, quando o produto é feito de outro amido que não o da palmeira, a informação deve constar no rótulo: “sagu de (o vegetal de onde foi extraído o amido)”. Por aqui, o mais comum é mesmo o sagu de mandioca, já que a raiz farta nestas terras. Mas no Pacífico, o amido das palmeiras tem tantas aplicações e produtos quando o nosso polvilho, entre eles o sagu. Com o amido obtido por sedimentação, como o nosso, também se faz um mingau elástico para comer com peixe e até uma espécie de tapioca. Veja o vídeo que mostra a extração do amido da Metroxylon sagu. O feitio de uma espécie de "tapioca" é muito similar ao nosso. Vale a pena.
Trouxe estes de Fartura Aproveitando o caviar de berinjela da amiga Fer, do Chucrute com Salsicha, ponho aqui também o meu jiló. Afinal, tudo da mesma família. A das Solanáceas. Não gosto de usar técnicas para eliminar o suave amarguinho da berinjela nem a amargura potente do jiló. Às vezes até recorro a uma esfregação de sal, mas não por mim. Como o amargo da cerveja, de certos vinhos, da alcaparra e do almeirão. De tempo em tempo me vem uma vontade louca de amargo. Seguindo o mesmo raciocínio de quem diz que de amarga já basta a vida, acho que a minha é doce demais. Porque preciso de um tom amargo na minha boca para talvez alcançar o equilíbrio. Jilós vermelhos são mais adocicados, mas ainda amargos. Difícil é encontrá-los vermelhos e em bom estado no mercado. Já do pé a gente pode colher quando quiser - babies, jovens, maduros. Dos mais verdinhos aos mais vermelhinhos. E estes adultos terão cor viva e estarão firmes, bojudos, brilhantes. Têm pele mais firme e são mais bonitos. Fiz refogado só no azeite, sem água. Bom para comer com pão, com carne, arroz e feijão...
Jiló verde e vermelho 2 dentes de alho picados em dadinhos
2 colheres (sopa) de azeite
2 jilós verdes cortados em gomos
2 jilós vermelhos cortados em gomos
Meia cebola cortada em gomos
1 pitada de sal
1 pitada de pimenta vermelha em flocos secos
2 colheres (sopa) de salsinha picada Numa frigideira antiaderente, doure o alho no azeite. Junte os jilós e a cebola. Polvilhe sal e, em fogo médio, vá mexendo devagar até o jiló ficar macio. Adicione a pimenta e corrija o sal, se necessário. Espalhe por cima a salsinha e sirva com mais um fio de azeite frio. Rende: 2 porções
Minha amiga Cris Cruz é diretora executiva de uma ong em Carapicuíba, a OCA - Associação da Aldeia de Carapicuíba, que faz um trabalho lindo com mulheres e crianças da comunidade. Fui convidada para dar, neste último sábado de manhã, uma oficina de cuca (vejam só a ousadia: aprendi outro dia e já acho que posso ensinar). Usei a mesma receita que aprendi no Rio Grande do Sul com a Dona Iraci e já repliquei em casa algumas vezes. Só que substituí a uva por bananas e maçãs (das cascas destas, fizemos chá com cravo e canela). A idéia era compartilhar o conhecimento que pudesse melhorar a geração de renda destas mulheres. Cris e eu achamos que as cucas seriam uma boa escolha. E nem foi preciso dizer que estes pães doces com frutas frescas seriam uma ótima opção aos panetones nas festas de fim de ano. Elas mesmas sugeriram a troca e ficaram empolgadas para fazer e vender. Como sobraram ingredientes, ensinei ainda a fazer pão branco simples. E aproveitamos a oficina para trabalhar o conceito de frações como reforço à matemática - medindo e pesando ingredientes, estas abstrações começam a fazer sentido. A experiência foi tão boa que já estou pensando em próximas oficinas. E quem quiser patrocinar touquinhas, aventais, utensílios e equipamentos para a CozinhOCa, a ajuda é bem-vinda. É só entrar em contato pelo email: ocacarapicuiba@ig.com.br.
Bem, já devo ter dado variações desta receita aqui umas três vezes, mas, para muita gente, é a primeira vez. E também porque na oficina pouca gente conseguiu anotar. Então, lá vai:
Pão branco simples
2 tabletes de fermento biológico fresco (30 g)
3 xícaras (720 ml) de água morna
3 colheres (sopa) de açúcar
1 colher (sopa) de sal
1 quilo e 250 g (mais ou menos) de farinha de trigo
1/2 xícara de óleo
1 ovo Numa bacia grande, dissolva o fermento na água morna. Junte o açúcar e o sal e vá acrescentando farinha até formar um mingau. Junte o óleo e o ovo. Misture e vá juntando o restante da farinha aos poucos, com uma colher de pau, até formar uma massa firme. Com as mãos enfarinhadas, sove a massa, colocando mais farinha devagar, até formar uma massa lisa que se solte das mãos. Cubra com plástico, coloque um pano por cima e deixe em lugar abafado para crescer (colocamos a bacias sob o sol e cresceu rapidinho - mas precisa proteger com plástico para não ressecar). Quando a massa estiver bem fofa, divida em 4, faça pães e coloque em forma grande untada com óleo e enfarinhada. Se quiser, polvilhe com farinha ou molhe o pão e passe-o sobre flocos de aveia, farelo, germe de trigo, gergelim. Usamos queijo ralado. Faça cortes com faça bem afiada ou faça bicos com tesoura. Deixe recuperar o volume (quando se manuseia a massa, ela murcha um pouco), leve ao forno preaquecido bem quente e deixe assar por 10 minutos. Abaixe o fogo e asse por mais 50 minutos ou até ficar bem dourado. Rende: 4 pães
Sequinhas: aqui com flor de sal e floquinhos de pimenta
Lembram-se da dona Neide? Não, eu não; outra. A que me ensinou a fazer mingau de alho. Naquele mesmo dia, no Revelando São Paulo, ela me contou que quando se casou não sabia fazer nadinha na cozinha. Mas tinha boa vontade. O marido orientou já logo no início: - Amor, eu gosto de batata-doce no café da manhã.
No outro dia ela se levantou de madrugada, na ponta dos pés, e lá foi pra cozinha preparar a tal batata. Cozinhou na panela de pressão e botou na mesa toda feliz aquela coisa desmilingüindo. -Não, amor, é batata-doce frita. - Ah, bom. Na manhã seguinte, pé ante pé, lá foi ela fritar batata. Cortou como batatinha inglesa, fritou em gordura quente e esperou à mesa com um sorrisinho quase satisfeito diante de umas fatias duras, escurecidas e envergonhadas. - Não, benzinho, é batata cozida e frita! - Ah, agora entendi! Mal podia esperar pelo próximo café da manhã. E, antes de o sol raiar, botou o penhoar e saiu pé ante pé para não acordar seu amor. Pensou: ah, agora acerto. Pois cozinhou rodelas de batata em panela sem pressão nem pressa sem deixar amolecer demais, escorreu, aqueceu o óleo e jogou lá as rodelas. Agora até ela estava convencida de que aquela era a batata que ele sempre quis. Douradinha, macia por dentro. Tá certo que ainda restava um óleozinho, mas ela secou no papel pardo o excesso, passou o café e nem esperou seu amoreco à mesa. - Acorda amor, acabou o pesadelo agora, chega de aflição, a batata ficou perfeita. - Ele olhou praquela coisa encharcada, coçou a barba por fazer e finalmente se deu conta de que a pobrezinha não entendia mesmo nada de cozinha. Afinal, a técnica de fritar batata-doce era tão óbvia, simples e impregnada no inconciente coletivo que era impossível supor que alguma mocinha de família não a soubesse. - Ah, benzinho, de hoje em diante vou lhe ensinar a cozinhar. Vem cá que vou te mostrar a maneira correta de fazer batata-doce, cozida e frita, mas ao mesmo tempo. Descascou a batata, cortou em fatias grossas, colocou numa frigideira funda, cobriu com óleo e juntou um pouco de água. Acendeu o fogo e esperou o óleo borbulhar e chiar. Quando o óleo se aquietou, as batatas estavam cozidas, fritas e sequinhas. Nem precisou secar no papel. E como estavam douradas! Casquinha crocante, super macias por dentro, doce concentrado. Bastou um salzinho. Todos os dias, a partir daí, oferecia ao marido as mais perfeitas batatas-doces. Outras lições vieram e hoje dona Neide se considera uma boa cozinheira graças ao marido exigente.
Dei muita risada, porque ela é tímida e contou exatamente nesta seqüência (firulas por minha conta): só cozida; só frita; cozida e depois frita; e finalmente o correto: cozida-frita. Desde que me ensinou isto, não faço batatas-doces nem inhames ou taros fritos de outro jeito (como se fizesse muito...). Nesta última ida a Fartura, contei para minha mãe, crente que iria adorar a fórmula. Só então, depois de todos estes anos de convivência, ela veio me dizer: -Ué, é claro, batata-doce se faz assim, minha avó já fazia. Como ela quase não fazia fritura em casa, nunca a vi fritando batatas-doces. Comíamos cozida e misturada com leite no lanche da tarde. Mas, segundo ela, é assim que se faz. Será que todo mundo aí sabia disto e eu aqui fazendo o papel de tonta? Se estou, ok, desculpaê, deixo registrado isto para mim e para minha filha.
Minhas batatas-doces fritas
1 batata-doce descascada e cortada em rodelas
2 xícaras de óleo de milho
1/2 xícara de água Coloque tudo numa panela antiaderente funda de forma a acomodar todas as rodelas e leve ao fogo. Quando a água aquecer a 100 graus a mistura vai borbulhar bastante. Enquanto isto, a batata está cozinhando. Mas, depois que esta água evaporar toda, a temperatura do óleo começa a se elevar mais rapidamente e, antes que chegue a 180 graus, suas batatas já estarão cozidas-fritas-crocantes. É só tirar com uma escumadeira, polvilhar sal e nhac.
Enquanto borbulha, a temperatura permanace a cento e poucos graus Celsius. Depois, sobe gradativamente até mais ou menos 180. Neste ponto, as rodelas estarão crocantes, douradas e cozidas por dentro. Mas não precisa de termômetro. Você vai ver. Cerca de 15 minutos desde o momento que ligou o fogo. Use a mesma técnica pra fritar taros e inhames.
Ontem à noite, Marcos disse que se lembrou de mim com este vídeo da Cesária Évora. Não sei se por causa da pancinha (vocês querem o quê, depois de comer em mais de 40 restaurantes em menos de 30 dias?) ou porque nutricionistas gostam de nutridinhas. O fato é que esta coladera do Ti Goy na voz da Cesária Évora é fantástica e nutre a alma. Como eu não entendi nada do que ela dizia - deve ser num dialeto crioulo caboverdiano-, além, é claro, do nutridinha, fui atrás da letra original (só encontrava a versão com Martinho da Vila). Aproveitem!
Nutridinha - letra original autor: Gregorio Gonçalves (Ti Goy)
Oia ta bêm qel menininha C'sê corpim nutridinha Tra oio del, ca bo spial Pamod sê mãe ta ba sotal
O q'el sinti El é q'bscal Ca bo stod t'inguiçal Pamod el entra na idade Agora é so maternidade
Ess menininha d'aoje em dia Ca ta sinti cobardia Bo ta fazês coladera Es ta tma'l na brincadera
Atendendo ao pedido do Zé Carlos em comentário no post anterior, dou aqui a receita do pão da minha mãe e do sabão do meu pai. Eu vivo prometendo falar disto e daquilo quando volto dos lugares e as coisas vão se acumulando. Teria que postar de manhã, à tarde e à noite para dar conta. Mas, vamos lá, que hoje estou mais tranquila. E podem cobrar:
Estes foram modelados por mim, então só enrolei em cilindro, enfeitei e fiz cortes. Mas minha mãe enrola como rocamboles.
Pão da dona Olga (Orga, pros íntimos e capiais)
1,5 tablete de fermento biológico fresco (ou 1 colher cheia)
3 colheres (sopa) rasas de açúcar
1 colher (sopa) rasa de sal
1 copo de requeijão de água morna (acho que deve ter 250 ml)
1 copo de requeijão de leite morno (eu dou medidas padronizadas pra minha mãe, mas ela não usa, não adianta)
1 quilo de farinha de trigo especial
3 ovos caipiras
1/2 copo de requeijão de óleo
Gergelim, aveia, linhaça, germe de trigo ou farelo de trigo pra decorar Numa bacia, dissolva o fermento com o açúcar, o sal e a água morna. Junte o leite e mexa bem. Acrescente um pouco de farinha suficiente para fazer uma massa com consistência de mingau. Mexa bem. Junte os ovos e o óleo, mexa bem. Acrescente a farinha restante aos poucos, mexendo com uma colher de pau. Quando começar a ficar firme, trabalhe a massa com as mãos, juntando mais farinha aos poucos, até formar uma massa lisa e homogênea. Se precisar, junte mais farinha de trigo. Tem que formar uma massa modelável, firme, mas não dura. Cubra com pano limpo e deixe em local seco e abafado para crescer (pode ser dentro do fogão desligado). Se não tiver prática, coloque uma bolinha de massa dentro de um copo com água e deixe no mesmo ambiente da massa. Quando a bolinha subir, é porque a massa já cresceu. Passe a massa para uma superfície enfarinhada, divida em 4 partes iguais e modele pães (abra com um rolo e enrole como rocambole). Pulverize a superfície dos pães com água ou passe-os debaixo da torneira e role-os sobre gergelim ou flocos de aveia ou flocos de gergelim ou linhaça espalhados sobre a bancada. Coloque-os em assadeira grande untada com manteiga e polvilhada com farinha. Deixe crescer novamente até voltar ao volume perdido com o manuseio (de meia a uma hora, dependendo da temperatura). Leve ao forno preaquecido bem quente e deixe assar por 10 minutos ou até começar a dourar. Abaixe o fogo e deixe assar até completar 1 hora no total. Neste tempo o pão deverá estar bem dourado e assado. Espere esfriar (se resistir) antes de comer. Rende: 4 pães
Sabão do Seu Antônio (Tonhão ou Toninho pros íntimos e capiais)
Sabão de álcool a frio
Ingredientes
1 quilo de soda cáustica
2 litros de água
3 litros de óleo de cozinha usado e coado
2 litros de sebo derretido (banha bovina - em Fartura compra-se no açougue já derretido, mas você pode aproveitar gordura de mocotó, de costela etc).
3 litros de álcool Coloque no chão uma bacia de plástico grande com capacidade acima de 15 litros, deixe do lado um banquinho e prepare-se para mexer a mistura durante meia hora. Na bacia dissolva a soda na água, mexendo com colher de pau própria para isto ou um cabo de vassoura (lá no sítio, usa-se qualquer pedaço de pau). Junte o óleo e o sebo quente e derretido. Mexa bem por 15 minutos. Adicione o álcool e mexa por mais 15 minutos. A mistura começa a endurecer. Deixe na própria bacia até o dia seguinte (ou por pelo menos 12 horas) e então desenforme e corte em pedaços. Se despejar num recipiente de ângulos retos, ficará bem mais fácil cortar. Guarde em caixas de papelão em lugar arejado. Rende: 11 quilos de sabão
Elas são vendidas por aí bem jovens e verdes (chamadas de abobrinha brasileira) ou totalmente maduras e secas, deliciosas para doce, purê, mingau, quibebe. Mas quem tem um pé em casa pode usá-las em todas as fases, da flor ao fruto maduro. É o que se faz lá no sítio em Fartura. E a fase de que mais gostamos é quando está verdolenga, só encontrada assim nas plantações. Nunca vi uma destas no supermercado. Tem sabor levemente adocicado e a textura começa a perder a coesão e ganhar fibras macias. A coloração passa do verde-claro para um tênue alaranjado e já começa a se encher de betacarotenos e sabores mais adultos. Se por acaso se deparar com uma delas, saiba que ficam deliciosas em saladas, risotos e cozidos.
A casca imperfeita não atrapalhou em nada seu desempenho na panela
Na salada
Receita da minha mãe: cortada em pedaços grandes e cozida em bastante água com sal e um pouco de azeite (a água ela usa depois para temperar o feijão). Com temperos do sítio como tomatinhos, cebola, cebolinha e limão cravo. Além dos comprados azeite, sal e pimenta-do-reino. No Cozido
Com coxa de peru: refoguei as postas de duas coxa de peru com óleo, sal e pimenta. Cozinhei por meia hora na panela de pressão com um pouco de água, folhas de louro e de alfavaca e páprica defumada. Tirei a carne cozida, dourei um pouco no forno e cozinhei no caldo legumes como cenoura, batatas e pedaços da abóbora, cebola e pimentão. Aos poucos, nesta ordem. Foi nosso jantar no dia de ação de graças, coincidentemente. No risoto
O risoto fiz com o que tinha em casa. Então nem precisam chamá-lo de risoto para não ofender ninguém. Baseado no livro Risotto de Judith Barret e Norma Wasserman. Amoleci meia cebola picada em 2 colheres (sopa) de manteiga, juntei 1,5 xícara de arroz arbóreo sem lavar, mexi bem por um minuto. Joguei por cima 1/4 de xícara de vinho santo (pecado mortal, porque não tinha outro branco) e deixei evaporar. Juntei aos poucos (meia xícara de cada vez) 5,5 xícaras de infusão de ervas aromáticas (nada mais que água fervida com salsa e seu talo, manjericão, tomilho, alecrim e alguma coisa mais que tinha no quintal - por minha conta, porque não tinha caldo) e 1,5 colher (chá) de sal. Continuei mexendo por cerca de 18 minutos, quando foi colocada a última porção de água. À parte, aqueci 1 colher (sopa) de azeite e refoguei 250 g de shimeji, até murchar. Juntei 250 g de abóbora ralada e esperei murchar. Temperei com pitada de sal e de pimenta-do-reino e juntei ao risoto com duas colheres (sopa) de queijo parmesão ralado. Mexi e espalhei salsinha picada por cima. O adocicado da abóbora casou muito bem com o vinho santo e todo mundo ficou feliz. Deu para 4 porções.
Aqui se fala de comida e, infelizmente, também de quem não tem comida. Além do nosso dó, o povo de Santa Catarina vitimado pela enchente precisa de ajuda financeira para comer e reconstruir suas vidas. Muita gente tem se mobilizado pra mandar mantimentos e objetos, mas, para quem não sabe como ajudar, um jeito fácil e eficiente de contribuir com as vítimas da enchente neste momento é mandando dinheiro. Vale qualquer quantia. De grão em grão, o pato enche o papo. Estas informações que reproduzo abaixo estão no http://www.desastre.sc.gov.br/ divulgado no site da Defesa Civil de Santa Catarina. Entrem e confiram: http://www.defesacivil.sc.gov.br/ . E não caiam em golpes de aproveitadores. Confirmem pelo fone 0800 48 2020 as contas bancárias para doações. De qualquer forma, está publicado assim:
A DEFESA CIVIL NÃO ENCAMINHA E-MAILS PARA PEDIR DOAÇÕES, AS CONTAS OFICIAIS SÃO AS PUBLICADAS NESTE SITE.
Doações em dinheiro devem ser feita através das contas disponibilizadas:
Banco/SICOOB SC - 756 - Agência 1005, Conta Corrente 2008-7
Caixa Econômica Federal - Agência 1877, operação 006, conta 80.000-8
Banco do Brasil - Agência 3582-3, Conta Corrente 80.000-7
Besc - Agência 068-0, Conta Corrente 80.000-0.
Bradesco S/A - 237 Agência 0348-4, Conta Corrente 160.000-1
Itaú S/A - 341, Agência 0289, Conta Corrente 69971-2
SICREDI - 748, Agência 2603, Conta Corrente 3500-9
SANTANDER - 033, Agência 1227, Conta Corrente 430000052
BANRISUL - 041, Agência 0131, Conta Corrente 06.852725.0-5
Nome da pessoa jurídica é Fundo Estadual de Defesa Civil, CNPJ - 04.426.883/0001-57.
Defesa Civil de SC alerta sobre ação de golpistas pela Internet. A Defesa Civil não envia mensagens eletrônicas com pedidos de auxílio.
MUNICÍPIOS: Alguns dos municípios afetados também abriram contas para ajudar suas comunidades afetadas, os números das contas e bancos podem ser consultados pelo 199 na Defesa Civil de cada cidade.
Conta Ilhota: BANCO DO BRASIL/ AGENCIA: 3148-8 / CONTA: 90.000-1/ P. M. ILHOTA/Defesa Civil
ATENÇÃO: A Defesa Civil alerta aos que desejam contribuir em dinheiro para as vítimas atingidas pelas fortes chuvas, no litoral de Santa Catarina, para que prestem atenção nas contas onde estão efetuando o depósito. Muitos golpistas têm utilizado a internet, se passando pela Defesa Civil, e pedindo dinheiro em contas não-oficiais, através de e-mails.
Ninguém nunca me viu aqui espernear por causa de plágio. De vez em quando encontro por aí uma foto tirada por mim e não ligo. Acho deselegante pegar fotos sem permissão, eu não faço isto (às vezes, do meu marido ou filha, mas mesmo para amigos dou crédito), só que não me importo muito quando alguém copia uma de minha autoria para ilustrar um texto próprio. Uma porque minhas fotos são amadoras, meramente ilustrativas, sem técnica nem qualidade artística. E outra porque não ganho dinheiro com elas e sei que quem roubar também não vai conseguir. Agora, é claro que acho mais educado quando me pedem (várias pessoas já o fizeram e eu consenti), pois meu email está aqui no blog e é fácil falar comigo. Outras vezes me deparo com textos inteiros, meus e de colegas blogueiros, colados em blogs spams, destes institucionais, feitos com o único propósito de atrair leitores via palavra-chave para os anúncios publicitários laterais. Neste caso, pela impessoalidade do blog, cuja autoria não aparece, nem cheira nem fede, também não me incomoda muito, embora, claro, eu o sinalize como impróprio. E mesmo estes, sem pedir autorização, lógico, às vezes dão crédito no final do texto. Agora, ver o blog de uma pessoa que você sabe que existe e conhece de nome, que faz um trabalho que se pretende profissional, ganha dinheiro com isto e tenta passar credibilidade nos produtos que vende, colar seu post inteirinho, com textos, fotos e até minúncias recém-descobertas, sem dar a mínima dica de que o texto não é dela, aí é de desanimar qualquer mortal que não tenha sangue de barata. Fico triste em saber que isto acontece, pois acho impossível que alguém possa ser tão vazia de idéias. Até a gente mais simples e sem instrução sabe bem sobre alguma coisa para poder contar com suas próprias palavras. Querer se parecer o que não é, para mim, é uma coisa deplorável.
Sorte que tenho amigos que reconhecem meus textos e fotos. Se não, não ia nem saber, embora outro dia mesmo tenha entrado neste blog e achado os vídeos até que interessantes. Sei que meu texto pode não ser lá estas coisas, mas é o melhor que posso dar. É a ferramenta que uso para registrar o que sei, o que descubro. Às vezes passos horas pesquisando, experimentando, fotografando, revirando meus livros, ligando pras pessoas, deixando meu trabalho remunerado para a madrugada e finais de semana, só para poder deixar o registro certo, dividir com meus leitores, com um aluno que está fazendo pesquisa ou voltar a ele quando tenho dúvida. É um registro pessoal, em primeira pessoa, que divido honestamente e sem boicotes a quem tiver paciência de ler. Não tenho blog só pra dizer que tenho, um chama-google pra rechear de letrinhas, pra fazer publicidade do meu trabalho, pra vender produtos, pra falar de jabás e encher linguiças. Tanto que ele é tosco, mal ajambrado, mal desenhado, simplesmente porque não sei usar seus recursos estilísticos. Um dia ainda quero saber. Mas é meu, fui eu quem fez, eu falo só o que quero, quando tenho vontade e só o que sai da minha cachola. E ninguém pode dizer o contrário. Tenho porque gosto, porque me deixa feliz e eufórica poder falar sem censura - mas com ética - das minhas paixões nem que seja para um leitor, nem que seja pra mim mesma. Esperava só um pouco de respeito. Nem precisa ser muito, não. Só um pouco.
Vejam se estou ficando louca
Quinta-feira, 19 de Junho de 2008. Escrevi este AQUI. http://come-se.blogspot.com/2008/06/mais-paladar-brasileiro-e-radiografia.html
Em Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008. Ela escreveu este DAQUI. http://assumasuabrasilidade.blogspot.com/2008/08/derivados-da-mandioca.html
A família também agradece ao Paladar
Como disse no post anterior, fui jurada do Prêmio Paladar 2008 (veja no site do Caderno). E, como registrei tudo diariamente num blog fechado, a partir de hoje vou reproduzir aqui, intercado com as coisas de sempre, um pouco do que foi minha vida dupla entre os meses de outubro e novembro. Pouca gente sabia porque tinha que largar às pressas meu trabalho e sair às vezes duas vezes por dia. E quem sabia, invejava. Comer no Dom? no Fasano? no Antiquárius? no Mocotó? no Gero? E ainda reclama! Confesso: reclamei muito. Estava com saudade de ficar em casa à noite, saudade da minha comida trivial, do meu fogão - neste tempo, óbvio, não cozinhei. Enquanto engordei dois quilos na jornada, a Eliana que trabalha aqui, que todo dia comia a minha comida, perdeu a mesma gramagem porque também não se animava a cozinhar só pra ela. Era pão com ovo e uma fruta todo dia.
Durante um mês tive saudade da feira, do supermercado, do cheiro de alho fritando. Foram mais de 40 restaurantes (55 pratos pré-selecionados internamente pelo Paladar através de indicações da própria equipe e jurados dos Prêmios passados) em menos de 30 dias. Tinha 5 mil reais para gastar e podia levar acompanhante desde que não saísse do orçamento. Várias vezes levei Ananda, o Guilherme e Marcos comigo. Consegui não estourar o orçamento (ainda sobrou crédito no cartão do Estadão), mas percebi que na maioria dos restaurantes você não pode se distrair, se não, só em couvert, água, sobremesa e cafezinho, gasta 3, 4 vezes o valor do prato principal.
Como era pra avaliar apenas o prato pré-determinado, nada mais deveria ser levado em conta: nem o lugar mofento, claustrofóbico ou suntuoso, nem o serviço mala, nem a decoração brega. O foco era no prato. Fiz a lição de casa direitinho: por exemplo, votei imparcialmente em pratos de restaurantes que nada têm a ver comigo e deixei de votar em outros de restaurantes que são a minha cara, simplesmente porque o prato não era feito com o arroz que eu queria ou porque tinha um miligrama de sal além do meu limiar. Mas também votei em alguns que uniam as duas condições: comida gostosa e lugar onde me senti bem. Agora chega de blá e vamos aos restaurantes e pratos que mais me chamaram atenção. Começo pelo único restaurante que não faz questão nenhuma que eu volte, nem você, nem ninguém, mas voltarei e recomendo. Só pelo prato (obs: já tinha postado sobre o Aska aqui, sem mencionar o Prêmio, mas o tirei do ar rapidamente para não gerar suspeitas - então, quem já viu, desculpas minhas)
Negui Lamen, com sal em vez de shoyu ou missô, mais cebolinha, algas e kamaboco (esta massa de peixe com desenho pink) Tonkotusu missô: todos trazem as três clássicas fatias de lombo de porco assado (veja o filme lá embaixo)
ASKA - Lamen Depois da aula do Marcos, fomos comer lamen no Aska, que concorria à categoria Oriental. Chuviscava e fazia um friozinho que pedia comida confortante. Já eram mais de 9 horas da noite (fecha às 10) e não enfrentamos muita fila. Só dois casais na frente, mas lá não tem nada de slow food no sentido lerdo da palavra. No painel, um recorte de revista com Jun Sakamoto dizendo que é seu restaurante de lamen preferido e que nunca deixa de passar lá pra comer um chashu men shoyu. Enquanto esperávamos, fomos xeretando o cardápio, assim já vamos nos adiantando, porque ninguém está ali pra enrolar. É pra comer e se mandar. Pelo menos são diretos, não ficam com sorrisinhos hipócritas e vassoura atrás da porta. Escrevem logo no cardápio, que é pra ninguém ter dúvida: "se estiver esperando mais gente, só ocupe a mesa quando todos chegarem e se estiver só ou em dois, ocupe o balcão". E, o principal: "desocupe a mesa o mais rápido possível".
O ambiente é pequeno, mas silencioso e aconchegante na medida certa para o tempo que deve permanecer ali - só até acabar de sugar o último fio de macarrão e sorver a última gota do caldo.
Em seguida, já estão tirando a louça e limpando a mesa. Ainda assim, fast food japonês, comida deliciosa para nutrir e alegrar a alma, você sai querendo já voltar. Pedimos chashu men missô, cashu men shoyu, negui lamen shio (todos estes feitos com caldo de galinha) e cashu tonkatsu misso (com caldo de porco) - este o concorrente. Todos trazem as três clássicas fatias de lombo de porco assado. A diferença entre eles é que você pode escolher entre os lamens feitos com caldo de porco ou de galinha e ainda optar pela forma de salgar - sal, shoyu ou missô.
Experimentamos todos e estava um melhor que outro. Em comum, um caldo límpido e muito aromático, com sal na perfeição, seja ele salgado com shoyu, sal ou missô. Os legumes como brotos de feijão e repolho aparecem crocantes; os pedaços de alga, macios. Na mesa, pimenta branca moída para completar. A porção é enorme, mas não empanturra porque o prato é leve, sem gordura. Parece funcionar como um repositor mineral. Pedimos ainda guiosas que seriam entradas, mas chegaram depois dos lamens que demoraram certa de 10 minutos para chegar à mesa. Foi rapidinho, mas com qualidade.
Paladar gastou: R$ 68,00 reais, em quatro, com água e refrigerante mais uma porção de guiosa.
Aska Rua Galvão Bueno, 466 - Liberdade
Tel. 11-3277-9682
Das 11h30 às 14 horas e das 18h30 às 22 horas
Domingo, só almoço
Fecha na segunda feira
Para quem não viu o filme Tampopo (de Juzo Itami de 1985), traduzido no Brasil como "Tampopo - Os brutos também comem spaghetti", aqui vão dois aperitivos deliciosos. E, para quem viu, acho que nunca é demais relembrar aquela cara engraçada do Ken Watanabe.
Acabo de voltar da festa do Prêmio Paladar. Muita gente ficou feliz com o resultado. Outras, frustradas. E imagino que algumas, até revoltadas. Mas não precisa. Porque não avaliamos a trajetória do chef, a simpatia do serviço, o aconchego do lugar. Nada disso. Nossa missão era avaliar apenas os pratos pré-escolhidos. E eu tentei ser fiel a isto. Uma edição especial do caderno estará nas bancas daqui a pouco. Minha filha Ananda, que foi comigo, disse que não entendo nada de gastronomia, porque "errei" quase todos. Isto significa que meu voto nem sempre se juntou à maioria. Ah, já ia me esquecendo de dizer: fui jurada do Prêmio e durante um mês levei vida dupla. Saia pra almoçar e jantar e não podia dizer nada. Fiz um blog diário paralelo, registrando todas as visitas aos restaurantes, com textos e fotos. Mas decidi não mostrar - talvez, aos poucos, traga um ou outro post para o Come-se sobre restaurantes e pratos de que gostei.
Os meus votos estão no jornal de hoje e no site do Paladar, inaugurado durante a festa. Veja lá outros comentários que não estão no caderno impresso. Acesse http://www.estadao.com.br/suplementos/paladar/ e confira as notícias do Prêmio, além de blogs do Caderno, do Luiz Horta e do Saul Galvão. E tem mais sobre chefs, receitas e tantos assuntos de assanhar o paladar. Para entender melhor os critérios do Prêmio, também vá lá no site do Paladar, que eu estou com preguiça de falar.
Vatapá servido na festa. Olhe o charme dos pratinhos de cerâmica. E o vatapá estava muito bom. Mas, o duro disto tudo era não poder nem contar pros amigos. Mentira, o duro era às vezes sair de casa duas vezes para comer. De resto, foi puro aprendizado e diversão. Aqui, o que escrevi no blog fechado quando acabou a maratona:
É dada a largada: 17 de outubro, 65 kg
Atravessei a faixa em 15 de novembro: 67 quilos
Acabou a maratona e eu confesso que já estou com saudade de comer fora todos os dias. Mas não poderia deixar passar a oportunidade de comprovar o que todo mundo está careca de saber: comer só (não importando o duplo sentido) em restaurantes engorda. Comecei com 65 quilos e terminei, depois de menos de um mês, com dois quilos a mais, mesmo achando que não tivesse engordado nada. Afinal, durante este tempo comi em casa apenas o café da manhã - uma fatia de pão com um copo de kefir batido com frutas no café da manhã. À noite, uma ou duas laranjas. E só. Mesmo quando apenas almocei fora, comia não mais que algumas frutas à noite. E de forma alguma isto foi auto-imposto ou representou esforço, porque não sou disto. Mas era mesmo o que o corpo pedia. Havia dias que trabalhava um pouco e já era hora de sair para almoçar. Durante a semana fui a todos os lugares de transporte público - uma porque não dirijo e não queria gastar com taxi e outra porque era uma boa forma de já ir queimando energia na ida e na volta com longas caminhadas. A maior delas fiz do metrô Armênia até a casa Líbano. O lugar não chegava nunca. Gastava às vezes de 3 a 4 horas, contando com o tempo de transporte. Aproveitei para ler bastante nos trajetos. Voltava para casa, trabalhava mais um pouco e já era hora de sair de novo para o jantar. Fiz isto algumas vezes durante a semana e em todos os dias dos finais de semana. Só que aí ia de carro. Houve dia em que almocei num lugar, comi a sobremesa noutro e depois ainda saí para jantar. Já não aguentava mais. Mas, apesar da fadiga gustativa, do stress gastronômico, sem falar nas trapalhadas que me fizeram voltar em alguns restaurantes, consegui chegar ao final tendo avaliado imparcialmente cada prato. Imparcialmente porque também não é fácil você ter a maior simpátia pelo chef ou pelo restaurante, chegar lá com grande expectativa e disposição em dar seu melhor voto e justo o prato a ser avaliado não estar no seu melhor dia. Isto aconteceu com a entrada do Tordesilhas, os dois pratos do Mocotó e a merluza do Porto Rubayat. E o contrário também aconteceu. Comi muito bem na maioria dos dias. Em outros, nem tanto. Houve muitos empates resolvidos no sal ou no açúcar, sendo que a falta esteve sempre no exagero e não na carência deles. Como o objetivo do Prêmio era avaliar só o prato servido, apenas este ponto foi levado em consideração na hora de dar meu voto. Porém, não pude deixar de observar outros elementos que nos levam a sair de casa e escolher este ou aquele restaurante. Se tudo fosse levado em conta, certamente haveria uma reviravolta nos meus prêmios. Portanto, em alguns restaurantes com pratos premiados talvez eu nunca volte, mas certamente passarei a frequentar muitos que não tiveram seus pratos escolhidos por mim. A ditadura do couvertNão tenho um repertório muito grande de restaurantes, mas pude notar alguns vícios comuns entre muitos deles. O principal é o péssimo hábito de colocar o couvert na mesa do cliente sem que ele peça. É contrangedor ter que pedir para retirar o que não foi pedido (é como ter que ligar para o banco dizendo que mandaram um cartão de crédito não pedido - acho que isto agora é proibido). E tomar coisas de volta é sempre deseducado, deselegante. E, lógico, muito constrangedor pra quem fica com a mesa vazia e a sensação de que ganhou um presente que não era seu. A sensação é esta, carregada de simbolismo. Sem falar da cara feia dos garçons que deixam de ganhar seus 10% ali. Alguns restaurantes, educadamente, ainda deixam uma cestinha de pão e um azeite ou manteiga. Outros, dão e tomam tudo num segundo. Por outro lado, também é constrangedor colocar na mesa o couvert e não dizer que é por conta da casa. Por que você, já escaldada com a má educação espalhada por aí, pode pedir pra tirar e depois, quando descobre que é de graça, pedir para deixar. Ah, já que é assim.... A mensagem subliminar para o garçon e para o próprio cliente é a mesma: sovina!! Você é um sovina/ Eu sou um sovina. Custa o garçon perguntar: o couvert é por conta da casa, a senhora aceita? Ou simplesmente esperar que abramos o cardápio e vejamos o preço do couvert. Aí sim, o garçom fazer a pergunta: nosso couvert vem com isto, aquilo e aquilo outro. O senhor vai pedir? (isto deixa claro, ainda que não se tenha visto o preço do couvert, que não é presente). Jamais imaginaria que um couvert com grissini, pão e manteiga (ou um molho qualquer), como o que é praticado no Fasano, pudesse custar, por exemplo, R$ 27,00! Servilismo Odeio garçons pretensamente invisíveis. Odeio que escutem minhas conversas. Odeio que me tratem como incapaz. Gosto que falem comigo, que interajam de forma educada; que garçons, maitres e qualquer serviçal do restaurante não sejam atrevidos, mas que mostrem que não são inanimados. E que sejam discretos, mas atentos quando eu os procurar com os olhos. Se não, me deixem em paz, deixem que eu reponha a água do meu copo se a garrafinha estiver perto de mim. Eu sei e posso fazer isto com minhas próprias mãos. Se não, eu peço. Garçons existem e estão ali para me ajudar, não para se fazer de fantasmas e me servir sem ser notados. Não é isto que eu quero deles (mas será só eu?). Eu noto, digo obrigada. Se vêm toda hora encher meu copo de água, enchem minha paciência e abrem águas mais do que gostaria de tomar. Isto, porque, afinal, são invisíveis e não vão interromper minha conversa para perguntar se quero mais água. Só que eu os vejo; quando botam mais água sem perguntar se quero, agradeço, interrompo minha conversa e bebo por educação (e, depois, pago 5 reais a contra-gosto). O Marcos tem uma sugestão para clientes que não querem mais beber água, cerveja ou qualquer coisa que seja que não seja pedido. Virem seus copos de boca para baixo! Ou então resista e mantenha seu copo abastecido com os últimos goles preenchendo até a metade do seu volume. E só entorne depois que chegou a conta.
Pois é, acabei indo à feira Brasil Rural Contemporâneo, no Rio, comentada no post anterior. Foi bate-e-volta, mas deu pra pescar algumas novidades e raridades que só consigo comprar em feiras (ou depois, por correio). Apesar do excesso de obviedades como docinhos de leite, compotas, artesanatos, embutidos e suco de uva, cada vendedor ali tem uma linda história de superação pra contar. São pequenos produtores que muitas vezes só vendem em feiras e sequer têm produção pra atender uma possível demanda maior que aquilo. Fui já no penúltimo dia, quando muitas coisas já haviam acabado. Muitas prateleiras vazias. A impressão que tive é que a feira do ano passado, em Brasília, era mais diversificada. De qualquer forma, tomei meu tacacá e conheci gente com quem só tinha contato por email, como a Josenaide, da Coopes , lá de Capim Grosso, Bahia, que luta para melhorar a renda da comunidade que trabalha com o coquinho licuri nesta região. Comprei uns biscoitinhos salgados divinos, mas eles têm vários produtos, dos quais já falei aqui, como azeite de licuri, licor, granola, cocada, licuri torrado, licuri cru, licuri verde.
Comprei também suco de butiá, outro coquinho, que vem se somar à garrafa de outro produtor que trouxe de Porto Alegre e ainda não tomei (este é da Agroindústria Figueira do Prado). Comprei também uma deliciosa e crocante farinha de mandioca com pequi, na verdade uma farofa, da Associação dos Produtores e Beneficiadores de Frutos do Cerrado, da Fazenda Santa Catarina, Daminópolis, Goiás. Farinha de trigo orgânica baratinha comprei da Cooperativa Mista Camponesa do Rio Grande do Sul. As castanhas de baru, da Associação dos Empreendedores Solidários do Vale da Esperança, vieram de Formosa, Goiás, e estavam fresquíssimas. Passei ainda na Coopercuc, para repor minhas geléiasbaianas de umbu (xilopódios, não havia). Já as abobrinhas verde-e-amarelas em picles são tão lindas, que dá um dó danado abrir o vidro (quando abrir, eu mostro direito) e serão até perdoadas se não forem gostosas. São de uma empresa pequena, Zita Indústria de Produtos Alimentícios Ltda, de Cascavel-Paraná. Senti falta das farinhas. Era a oportunidade para se trazer farinha de todos os cantos do Brasil, mas quando perguntei ao produtor de farinha de mandioca amarela do Acre por que ele não trouxe a farinha d´água, respondeu que nunca imaginou que no Rio alguém pudesse querer este tipo de farinha. Um preconceito às avessas. Acabei comprando esta farinha seca amarela mesmo, muito boa por sinal. E uma outra do Sítio Primavera, de Campina Verde, Minas Gerais, do tipo Biju, com muita goma, super crocante, boa para farofas e pra pirão. Depois falo de jaqueiras, sagüis e sagus. É que até consigo ficar sem ver a praia, e desta vez foi o que aconteceu, mas me dá uma melancolia incrível se não puder lamear os pé nas alamedas do Jardim Botânico. E, pra melhorar, fazia sol. Jardim Botânico: as palmeiras imperiais
O guarda-do lago: senhor Bem-te-vi protegendo suas ninféas
No Ano Passado ela aconteceu junto ao Terra Madre, em Brasília. Neste ano está no Rio. Ainda dá tempo de visitar a IV Feira Nacional de Agricultura Familiar e reforma Agrária, que está acontecendo neste momento - até domingo, na Marina da Gloria. Se você tem interesse em conhecer produtos e ingredientes de comunidades e pequenos agricultores, a feira é um prato cheio. E ainda tem artesanatos e outras coisinhas que a gente não encontra em lojas. Se fizer bom tempo amanhã/ Eu vou!/ Mas se por exemplo chover/ Mas se por exemplo chover/ Não vou!... (Caymmi). Estou pensando em ir daqui a pouco. Pensando..
Quando: de 26 a 30 de novembro de 2008. Endereço: Avenida Infante D. Henrique, S/N - Marina da Glória - Rio de Janeiro - RJ Como chegar: Veja o mapinha aqui.
Em volta do mercado da Lapa há sempre ambulantes vendendo feijão verde, pimentas, mandiocas descascadas, jiló, maxixe, coentros, bolo de massa puba, castanhas de caju tostadas artesanalmente e outros produtos regionais não encontrados nas bancas oficiais. E quando é epoca de pequi e umbu, eles estão sempre lá. E o tempo é este. Já falei bastante desta frutinha por aqui (é só procurar no campo de busca aí do lado).
Comprei umbu de São Luiz do Maranhão e aproveitei pra perguntar para uma mulher que comprava também como ela faria a sua umbuzada (o prato nodestino mais comum que conheço feito com a frutinha - uma espécie de coalhada doce, azedinha e perfumada à fruta). É fácil, minha filha, é só cunzinhar este tanto aí com um litro de leite e um quilo de açúcar. / E só? / É só isso./ E o que faço com o caroço? / Ué, é só cuspir.
Cheguei e contei o causo pra Eliana, a baiana que trabalha aqui em casa. Ela deu foi risada, porque acha que a mulher zoou com a minha cara. Onde já se viu, dona Neide, tudo isto de açúcar pra este tantinho de fruta? (cerca de meio quilo). E este leite todo fervendo e derramando no fugão? Não é ela que limpa, né? Agora, imagina, Dona Neide, este seu chão brilhando cheio de caroço guspido? Mulé porca sem-vergonha! (o pior é que a mulher falou sério).
Claro, deixei a umbuzada ao seu comando. Fiquei só anotando e fotografando. As frutinhas estavam bem verdes, mas já cheias, como diz ela. Então, era só cozinhar, juntar o leite e o açúcar. Se tivessem bem madurinhas, bastava espremer o sumo no leite quente e mexer. Mas vamos lá à receita dela que ficou um encanto.
Umbuzada - receita de Eliana Santiago
270 g de umbus verdes (23 unidades pequenas)
1 xícara de água
1,5 xícara de leite
1/2 xícara de açúcar (ou menos, se quiser - mas para o sorvete, receita abaixo, esta quantidade ficou boa)
Lave bem os umbus, tire restos de cabinhos e leve ao fogo com a água. Cozinhe por cerca de 5 minutos ou até a água quase secar e os umbus ficarem molinhos. Junte o leite e o açúcar e mexa bem. Cozinhe por cerca de 3 minutos ou até os umbus se desmancharem.
Passe por uma peneira para separar os caroços e sirva quente ou gelado. Rende 2,5 xícaras Nota: Se quiser, pode cozinhar a fruta com o leite e o açúcar - neste caso junte um pouco mais de leite. Os gránulos da coalhada ficarão mais firmes. Fizemos as duas versões e eu preferi esta idéia de cozinhar as frutas primeiro em água. Fica uma coalhada mais macia.
Sorvete de umbuzada Depois de a umbuzada pronta e deliciosa, Eliana ainda deu a idéia de fazer sorvete. Foi só gelar a mistura e bater na sorveteira, que já estava no freezer, por cerca de 25 minutos. Se usar menos açúcar, talvez congele um pouco antes. Se não tiver sorveteira, congele em forma de gelo e bata, depois, no processador. E, se não tiver processador, simplesmente congele e chupe. O ideal é bater a mistura antes no liquidificador. Eu não bati e restaram os grãos da coalhada. Mas ainda assim ficou saborosíssimo. Ananda não sabia do que era e chutou uvas verdes. Mas posso dizer que ficou muito melhor. Todo mundo gostou. Faltou uma caldinha com pedacinhos de umbu cozidos em vinho de jabuticaba. Fica para a próxima.
Era pra ser uma caldinha Caldinha para o sorvete - sugestão.
Isto era pra ser a caldinha do sorvete. Umas lasquinhas de umbu cozidas com vinho de jabuticaba e açúcar. Coloquei tudo no fogo, numa frigideirinha antiaderente, só pra derreter o açúcar, coisa de 1 ou 2 minutos e plim, desliguei. Fui pegar uma coisinha na sala e, no meio do caminho, resolvi ir tomar banho. Depois de um tempão, já debaixo do chuveiro, comecei a achar que a casa do vizinho estava pegando fogo, a fumaça já invadindo meus quartos e banheiro. E, plim, me lembrei da caldinha. Desci correndo em tempo de evitar uma tragédia maior. Não salvei a calda, mas pude constatar o quão boa é minha frigideira antiaderente (ou bem o contrário disto) - a crosta estava totalmente solta dela.
Cápsulas de papoulas maduras e suas sementes. Foto (e cerâmica): Rui Gassen
Depois de ter envolvido o nome do meu amigo Rui no post anterior, trocamos alguns emails preocupados com nossa atividade ilícita - a plantação de Papaver somniferum para consumo próprio (as sementinhas, especificamente, para uso prosaico sobre broinhas, biscoitinhos, recheinhos). Ele colheu toda esta quantidade que se vê na foto que veio junto com uma das mensagens. E eu tenho ainda apenas uma flor que ainda nem sei se foi fecundada. Pelo zumzum das abelhas, imagino que sim. Então também terei minha própria cápsula, minha própria produção. E a auto-suficiência em sementes de papoulas me livrará da dependência. De importações. Bem, receosa por delatar meus próprios amigos gaúchos a respeito da atividade supostamente criminosa em que nos envolvemos, perguntei ao Rui se queria que tirasse o nome dele do Come-se. Eis a resposta com o humor que lhe é próprio, como sempre:
Neide! Não adianta retirar meu nome do blog. O que está feito está feito. Dependendo do andar da carruagem, tu vais ter que prestar conta no juizo final, diante de Deus. A minha colheita de papoula deste ano se resume ao que tu vês na foto. Tenho que esconde-la a 7 chaves porque a Mariângela quer usar as coitadas como enfeite de pão... Não entrei no mundo da criminalidade para isto. Valeu mana! Rui
O que ele faz com as sementes quando a Mariângela não usa no pão? Distribui para os amigos pra embelezar seus jardins. Eu ganhei a minha parte em sementes e muda já formada.
Estava ontem comprando umas coisinhas no Mercado da Lapa, quando me deparei com o cartaz da foto acima. Quem viveu nos anos 70 certamente se lembra deste parente ancestral dos salgadinhos e isoporzinhos atuais. A diferença é que era frito em casa com o óleo que a gente conhecia, sem gordura trans e tranqueira a quatro. Não era consumido a rodo e sem pensar porque exigia preparo. Quase um salgadinho slow food. Comíamos em porções pequenas, como pipocas. Não estava fácil e pronto ali atrás da porta do armário. Não era salgadinho pra toda hora, pra comer na frente de qualquer programa de televisão. Lá uma vez ou outra ele aparecia fora de hora, na parada para o lanche, no domingo à tarde, assistindo a algum programa especial na tv. Adultos gostavam de comer com cerveja e nós, crianças, sozinho mesmo porque era gostoso e fazia croc. O meu preferido era o de camarão, mas o sabor não era artificial; era inocente, quase irreconhecível. A versão natural era igualmente boa. Enfim, era, era, era. Foi.
Agora comprei uma caixinha de cada, natural e camarão, e já comi uma porção das duas. Deliciosos. É feito basicamente de amido de mandioca - que no calor do óleo se expande de uma maneira incrível e fica crocante e sequinho, como o biscoito de polvilho (polvilho = amido da mandioca). Leva ainda milho, sal e, dependendo do sabor, outros temperos como queijo, camarão, colorau, sal, glutamato (quase imperceptível). Foi criado em 1954 e depois da febre dos anos 1970 nas prateleiras dos supermercados, ele desapareceu - a empresa situada em Limeira fechou, não aguentou o sucesso repentino. Mas um antigo funcionário que começou na faxina e acabou na manipulação da massa era o único que conhecia o segredo e, anos depois, começou a fabricar a guloseima com outro nome, mas não pegou e sumiu de novo. Agora, ele recuperou a marca Mandiopã, continua a fabricação em Limeira, e já está distribuindo o salgadinho pra todo o Brasil. Quem quiser saber um pouco mais sobre a história do Seu Gomercindo e seu mandiopã, visite o site (veja bem, não estou ganhando nada com isto e nem sei quem é este Seu Gomercindo - vi no site). Neste tempo de ausência de mandiopã limerense e domínio dos superpoderosos salgadinhos multinacionais e, no máximo, pipocas de microondas, encontrei produto similar numa lojinha chinesa na Liberdade. Não me lembro o nome, estava num saquinho transparente. Quando vi que era parecido ao mandiopã, levei. Era quase a mesma coisa. Mas não igual. É claro que agora ele não vai passar a fazer parte da minha dieta só porque renasceu. Na minha vida, ele já teve a sua hora. Mas gostei de saber que voltou. Pura nostalgia. E, se um dia me der vontade, vai ser bom saber que poderei encontrá-lo no Mercado da Lapa. E, a quem não conhece, recomendo que ao menos experimente.
Onde encontrar
Mercado da Lapa - Rua Herbat, 47 - Lapa - São Paulo - SP
Banca de Frios São Miguel Ltda.
Rei da Feijoada - Box 96
Tel. 11 2831-4637
Nesta banca você também encontra linguiças e chouriços caseiros, alheiras, salames e até tripas para linguiça - da seca e da salgada)