terça-feira, 19 de março de 2013

Sobre mangas

Mangas papo-de-rola e pingo-de-ouro, de Salvador
Nem parece muito apropriado falar de mangas neste momento, quando as melhores já se foram. Claro, no mercado ainda temos as de sempre, keitt, haden, palmer, tommy (não vou me dar ao trabalho de conferir a grafia), que se fingem de morta quando todo mundo sabe que a estação das mangas já passou. 


Mangas ubás (as menores) e sapatinho, as demais, presentes do João

Mas em janeiro escrevi sobre elas para minha coluna no Paladar e um leitor mineiro do caderno me escreveu corrigindo. "Prezada Neide Rigo, tomo a liberdade de informá-la que você cometeu um pequeno equívoco na sua coluna de hoje, no caderno Paladar. Na realidade, a manga que a gente massageia, faz um furinho na ponta com os dentes e chupa o sumo é a sapatinho, que tem fibra que nem corda de sisal. A espada, rainha de todas as mangas, não tem fibra e seu sabor só é confrontado com o da ubá, que pode ser chamada princesinha de todas as mangas, até pelo seu tamanho diminuto.". 

Pois eu, ignorante, chupava mesmo a espada apertando, não conhecia ao vivo nem a sapatinho que parece ser mais apropriada. Nem a ubá, da qual falaria no email seguinte, que é mais de comer. "Neide, realmente a casca da sapatinho é mais grossa, mais flexível e ela tem muito mais sumo do que a espada. Mas tem de se tomar cuidado ao apertá-la para a casca não se romper. Infelizmente não existem mais as sapatinhos nas barracas das feiras e gôndolas de supermercados. Nesse fim de semana vou tentar encontrar algumas em fazendas de parentes e amigos e mandá-las para você. Entro em contato se tiver êxito na empreitada. E a ubá, você conhece? Ela domina os manguezais da Zona da Mata mineira, onde encontra-se uma cidade que leva o seu nome e que é vizinha a Cataguazes, imortalizada pelo modernismo brasileiro pelas mãos do genial cineasta Humberto Mauro".

Brotos das manga ubá e sapatinho, presentes do João,  já foram pra Piracaia


O fato é que João Bosco me mandou uma caixa de mangas misturadas, ubás e sapatinhos. Uma gentileza sem fim, que eu não soube como retribuir. E ele tinha toda a razão. A sapatinho é muito melhor para se chupar apertando, a casca é mais resistente e flexível que a espada. Mas as duas se prestam a isto. E o sabor da sapatinho é muito bom, ligeiramente ácido. Já a ubá é incrível, tem massa cremosa, com pouca acidez, muito doce, sem fibras - pode ser mordida sem deixar fiapos nos dentes ou no caroço. 


Saindo das mangas mineiras e indo para Piracaia, nos deparamos com dois pés de mangas carregados. Um num vizinho mais próximo, onde temos comprado leite e ganhado nata. Outro, no mineiro onde comprei queijo. Os dois me disseram que foi a primeira vez que os pés carregaram tanto. 

Nossas mangas de Piracaia





Nossas mangas abertas

Na nossa chácara havia poucas fruteiras quando chegamos lá. Alguns araçazinhos bem jovens, uma pitangueira doente, uns ingazeiros, alguns cítricos doentes, um abacateiro vistoso que passava o meu tamanho mas que foi cortado pelo antigo caseiro antes de sair por conta própria (as pequenas vinganças) e uma mangueira quase na frente de casa que não se manifestou quando deveria ter flores. Mas nesta última estação, floresceu e uns frutinhos  vingaram. Eu fiquei chocando aquelas manguinhas escondidas sob as folhas todo final de semana. Até que Marcos resolveu podar a mangueira porque estava com galhos muito baixos. Não se lembrou que ali se escondia um cacho de mangas. Quando percebi, corri pra conferir se as manguinhas se foram junto com a poda. Consegui recupera-las e trouxe pra casa (sim, claro, discutimos por isto). Estavam granadas e talvez tenham sido colhidas à revelia da chocadeira na hora certa. Pois quando percebi que estavam mais macias e com a casca alaranjada, abri e tive uma surpresa. Estavam super coloridas, cremosas, macias, doces, perfeitas, colhidas no momento certo. Eu, que não conhecia manga ubá, acho agora que são as próprias. Neste último final de semana chegamos à chácara e encontramos uma cacho de banana ouro e mudas de manga e outras plantas, presentes do novo caseiro (parece que agora acertamos). E foi ele quem nos contou que em Piracaia nunca dava manga, porque nunca coincidia de ter uma situação climática perfeita na época da floração, sem chuvas. Neste ano, tudo conspirou a favor e os felizes proprietários de mangueiras se esbaldaram. Até eu, graças à colheita do Marcos, pois se as frutas não fossem colhidas naquele momento talvez tivessem ficado aos periquitos que já sondavam a árvore. 


Manga papo-de-rola


Mangas pingo-de-ouro
Indo pra Salvador, experimentei mangas pingo-de-ouro e papo-de-rola. Uma mais ácida e fibrosa e o papo-de-rola, que lembra a ubá, mais cremosa, sem muita fibra. Agora, é esperar pela próxima safra.