terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Batatinhas de tiririca ou chufas


Carmem no comando da enxada; eu e Claudia no controle de qualidade.


Do tamano de avelãs

Outro dia escrevi aqui sobre minha surpresa em descobrir a chufa que faz a horchata espanhola era uma vulga tiririca, considerada uma das piores pragas da agricultura. Depois disto não houve terra à vista que eu não cavucasse. Em Fartura meu pai indicou na horta algumas tiririquinhas mixurucas – ele arranca todas, não deixa vingar. E, na tarde do Natal, debaixo de chuva, fui lá e cavei um buraco tão fundo que quase mina água. E nada das bolinhas (porque ele me disse que às vezes as batatinhas estão nas profundezas). Mas não desisti.
Em Gonçalves-MG havia praticamente um roçado delas junto ao jardim, para minha alegria. Quer tirar, tire e aproveite para levar longe as batatinhas porque são umas pestes para proliferar, disse Carmem, a dona da casa. Foi moleza, as batatinhas estavam todas ali, quase rentes à superfície da terra fofa. Carmem e eu nos alternamos na enxada. Claudia ia separando as bolinhas da folhagem e numa brincadeira conseguimos reunir uns 200 gramas. Mas chegando aqui fui correndo ao google imagens conferir as formas das chufas espanholas e vi que, embora o gênero da planta seja o seja o mesmo, a espécie é outra (Cyperus esculentos), de pendões dourados. As minhas eram daquela tiririca de flores arroxeadas (Cyperus rotundus).
Fiquei chateada, comi uma batatinha crua (depois de descascadas ficaram com a forma e o tamanho de avelãs peladas), senti gosto resinoso de cúrcuma fresca, achei pequenas demais. Joguei tudo fora, com medo de fazer mal. Adeus minha orchata e sorry Carmem e Claudia, que vão ficar sabendo agora do trabalho à toa.
Mas eis que nesta semana chega um comentário do Neco Torquato, do blog Mungo Verde, que me anima novamente, dizendo que temos sim tiririca amarela ou tiriricão. E que as bolinhas que joguei fora poderiam sim ser usadas. Por exemplo, na chapa como aperitivos (se tem sabor de cúrcuma - eu achei, basta um salzinho e pimenta para já sair bem temperada). Com cerveja, ele sugere. Gostei desta parte.
O comentário dele, com a receitinha:
A variedade correta para fazer a orchata é a conhecida com tiriricão, junquinho ou tiririca amarela. É bem fácil de distinguir a "correta" da outra: o tiriricão tem as sementes douradas, bem douradas mesmo (como essas
), tem as folhas mais largas, o caule mais grosso e costuma dar um pé de uns 2 a 3 palmos (ou mais). Aqui na minha região tem bastante. Agora esta na época dessa variedade (como se existisse época para a tiririca:) ). Tem um terreno aqui do lado de casa que está cheio. Semana que vem, quando estarei mais folgado, vou apanhar algumas e ver o que vai dar.De todo caso, nada é perdido pois eu adoro as batatinhas de tiririca (qualquer variedade) cortadas bem fininhas para fazer uma pasta de passar no pão ou ainda torrá-las na chapa, bem temperadinhas, e saboreá-las acompanhadas de uma cervejinha bem gelada :) Neco Torquato, Santa Rita do Sapucaí - MG

A propósito, segundo o dicionário Aurélio, temos na língua portuguesa o termo orchata derivada do horchata, em espanhol. E a descrição é uma receita a ser testada: refresco preparado com pevides de melancia pisadas, água e açúcar.

Fotos de Claudia Monteiro Magalhães e Osvaldo Campos Magalhães (a minha máquininha digital pifou)

11 comentários:

Luiz Horta disse...

Neide! Como diz aquela vaquinha que vem espetada nas carnes do Rubayat: "Tô passada"! Isto pode mudar os nossos verões para sempre, já imaginou beber orxata aqui e lá, alternado? Passa a ter o ano todo! Achei isto que vc já deve ter visto:
http://en.wikipedia.org/wiki/Cyperus_esculentus

Neco Torquato disse...

Neide, valeu mesmo por publicar meu comentário no seu blog.
Que pena q vc jogou as batatinhas fora, poderia ter feito uma pastinha p/a comer com torradas. Mas tudo bem, agora vc jah sabe q pode aproveitar elas tbem, não é?
Essa semana esta chuvendo um pouco por aqui, se no fim de semana der sol eu vou colher as batatinhas e botar p/a quebrar. Se sobrar alguma eu mando p/a vc, ok?

Grande [] e inté

João Pedro Diniz disse...

li tudo como se fosse uma história com fadas e gnomos, fui ao google procurar imagens da planta para ver se por aqui há, mas creio que nunca encontrei tal ervinha ao vivo.

Antônio César disse...

Venho quietinho acompanhando seu blog e me deliciando com suas peripécias. Sou um "cozinheiro" amador e coleciono receitas, além das minhas próprias e as da minha família que vou fazendo para matar as saudades dos parentes vivos. Li com muita curiosidade seu artigo sobre tiririca e chufas. Coincidentemente, os empregados aqui do edifício onde resido estavam arrancando a tiririca que nasce adoidada no meio dos gramados. Aí, um deles me questionou se era verdade que a batatinha da tiririca era afrodisíaca, pois havia passado uma senhora e feito esse comentário. Eu disse que havia lido um artigo sobre a tiririca mas que não havia qualquer menção sobre seus efeitos afrodisíacos. Confesso que fiquei curioso e resolvi pesquisar sobre a tiririca e as chufas. Encontrei algumas menções interessantes que mando para você depois. De qualquer modo gostaria de deixar aqui minha admiração por seu trabalho, devidamente documentado e que mereceria até uma publicação.
Um forte abraço e continue a nos brindar com seu profundo conhecimento sobre a culinária, seus ingredientes e os utensílios necessários.

Lima disse...

Neide, você só não acertou a planta correta, nos arredores de SP existem as duas variedades, sendo a tiririca de folhas mais fibrosas, e a que produz batatinhas nas raizes e com sabor de avelãs, mais delicadas nas folhas. Os mais antigos chamam essa chufa nacional de capim de jacú (uma ave) que se delicia quando encontra um campo delas, revolvendo todo o0 terreno à cata das chufas. Boa sorte!

Lima

Hailton disse...

Tenho pesquisado sobre a tiririca, inclusive existe uma publicação "falemos de tirircas", que pode ser encontrada no google, que diz que ela pode substituir a cyperus esculentus para consumo humano, na orchata por exempleo. Se tiver alguma novidade gostaria de ser informado.
Atenciosamente
Hailton

Lima disse...

Neide, não desista na sua procura, a chufa nacional (brasileirissima) é a de folhas fininhas, delicadas, e as batatinhas tem sabor de avelãs, e nascem presas nas suas raizes formando um emaranhado. Essa plantinha gosta de terra fofa e arenosa. Um grande abraço.
Lima

Marcus disse...

Ola Neida,

Outra coisa interessante é que a tiririca possui alta concentração de Ácido Indolbutírico (IBA), o famoso hormonio usado em substratos de enraizamento.
Para os adeptos de cultura organica, existem duas receitas utilizando a Tiricia para enrizamento.

Como preparar:

MATERIAIS:
1kg de Tiririca
250 mL Álcool cereal
1L Água

PROCEDIMENTO:
Moer ou macerar bem os bulbos (batatinhas) com as folhas e colocar na água durante 48 horas, em seguida, coar e colocar no álcool (álcool cereal).

USO: imersão da estaca até a metade durante uns 2 minutos.

Ou bata uma boa quatidade da planta inteira (folhas e bulbos) com agua e deixe 1/3 das estacas imersas durante 1 dia antes do plantio.

Abraços

Adilson disse...

Boa noite!
Recentemente cuidando do meu gramado me deparei com muita tiririca, como já havia lido algumas coisas dizendo sobre a tiririca resolvid arranca-las usando uma faca e retirando com as batatinhas, as separei e coloque-as em uma peneira para secar ao sol, passado alguns dias coloque-as no liquidificador e bati até que virasse pó, exalava um cheiro muito agradável e amadeirado tipo balsâmico, posteriormente esquentei bem o forno a gás e sobre uma bandeira de alumínio coloquei para secar

Adilson disse...

Concluindo!
Quando estava já bem moreninho moí e coloquei uma pequena porção no café deu um sabor bem especial. Fica aqui minha sugestão. Feliz 2016 a todos!

Andrea Isobata disse...

Olá Neide! Adoro o blog e sou grata pela possibilidade de experimentar tantas coisas novas para mim! Andei pesquisando na internet e gostaria de saber se há alguma contraindicação em usar as folhinhas de tiririca em sucos verdes!