terça-feira, 9 de outubro de 2007

Granola com jatobá

De como, no prazo duma hora só, careci de ir me vendo escorando rifle e alvejando, em quentes, em beira de mato e campo, em virada de espigão, descendo e subindo ramal de ladeirinhas pequenas, atrás de cerca, debaixo de cocho, trepado em jatobá e pequizeiro, deitado no azul duma laje grande... Guimarães Rosa em "Grande Sertão:Veredas", 1956

Uma das comunidades de alimento presentes no Terra Madre era a Agrotec, que agrupa 21 agricultores e coletores numa área do Cerrado, em Diorama, oeste de Goiás. Era deles a farinha de jatobá que eu queria comprar, mas cheguei tarde e perdi o bonde. Sorte que ganhei da Sofia Carvalhosa
algumas vagens dias antes de ir pra Brasília e como não tive tempo de fazer nada com elas, peneirei a polpa para fazer farinha e congelei para quando voltasse. No domingo mesmo cheguei aqui motivada a usar produtos da terra. Lembrei da misturinha baiana que minha amiga Silvia Lopes me ensinou a fazer com farinha de tapioca (a baiana, de beiju, e não a granulada, do Pará), açúcar e coco ralado fresco. Leva tudo ao forno e depois guarda para comer como cereal matinal (vespertino, noturno, de madrugada... ) com frutas frescas, iogurtes, leite. Aliás, cereal matinal ou corn flake é um daqueles alimentos que nos enfiaram goela abaixo com a alegação de ser um hábito saudável – quase sempre é super açucarado e praticamente não tem fibras. E ainda pra ficar bom, tem que ser fortificado. Melhor comer um belo de um cuscuz de milho com leite de coco. Pelo menos tem cara de comida.
Mas, voltando..... Somei a inspiração baiana com a multimistura da Dra. Clara Brandão - que estava no Terra Madre e contou como salvou muita criança da desnutrição com o complemento nutricional à base de folhas de mandioca e sementes. Achei que poderia dar samba usar alguns itens que trouxe do Planalto Central, o jatobá que tinha aqui e o polvilho de mandioca que eu mesma fiz em Fartura (depois eu conto como, se alguém se interessar – fácil, fácil). E deu no que deu, uma granolinha crocante bastante boa para comer com bananas, kefir ou iogurte. Foi só um teste que pode ser melhorado acrescentando frutas tropicais secas, coco ralado e farinha de beiju em vez da mistura polvilho-jatobá. Ou ainda mel em vez de rapadura. É só inventar.


Para fazer a farinha, é só quebrar as vagens e passar a polpa por uma peneira. Pode ser congelada assim.

Granola brasileira
30 g de polpa peneirada de jatobá
70 g de amido de mandioca (polvilho doce, fécula ou goma seca)
1 pitada de sal
40 ml de água
10 g de gergelim preto (opcional).
50 g de castanhas picadas (amêndoas de pequi, baru e castanha do Brasil)
20 g de rapadura ralada

Sobre uma tigela peneire juntos o jatobá, o polvilho e o sal. Junte água aos poços, até formar uma farofa úmida que possa ser passada por peneira. Numa assadeira grande, espalhe um pouco de gergelim e por cima vá peneirando a mistura, pressionando com os dedos ou com uma colher (prefiro os dedinhos). Leve a mistura ao forno bem quente e deixe por cerca de 7 a 10 minutos ou até formar beijus crocantes. Junte os outros ingredientes, esmigalhe os beijus caso tenham se agregado em placas grandes e misture. Guarde em saco plástico ou vidro depois de frio e coma como granola.

Rende: 5 porções

Notas
Amêndoas de pequi e de baru são típicas do Cerrado. Não as encontrando, basta substituir por qualquer outra oleaginosa como coco, amêndoas, avelãs.

Se quiser, junte à mistura pedaços de banana passa ou abacaxi.
Preferindo, não use a rapadura e adoce com mel na hora de usar. Ou simplesmente polvilhe a rapadura ralada por cima no momento de servir.

Sobre o Jatobá: leguminosa (tudo que dá em na vagens) típica do Cerrado, com polpa verde, seca e macia, recobrinho as sementes . Tem cheiro forte, mas a farinha pode ser usada em pães, bolos, sorvetes, aumentando o valor nutritivo, já que é rica em cálcio e fibras.

5 comentários:

Anônimo disse...

Oi Neide,

Achei Jatobá hj na 23 de maio aqui em sampa e resolvi fazer sua receita. eu ja tinha comido em forma de caldo na amazonia, mas agora vou tentar o beiju. Apesar de que eu sou muito ruim com esse polvilho doce, as vezes ponho muita agua e ele vira um creme, outras vezes ponho pouco e ele fica poeirento... tenho dificuldades de fazer tapioca por causa disso tbem...

obrigado pelo blog tão cuidadoso.

Bjs,
Diogo

Neide Rigo disse...

Diogo,
polvilho a gente tem que ir umedecendo gota a gota, se não acontece aquilo que é chamado de líquido não-newtoniano, que se comporta como sólido quando se pressiona, mas, solto, vira líquido que escorre. Espero que dê tudo certo desta vez.
Um abraço, n

ricardo disse...

Oi neide vc sabe aonde eu encontro Jatobá? Vc sabe a época ? eu me lembro quando era criança que eu comia jatobá mas era mais verdinho.
Espero sua resposta.
Bjs

Ricardo

Neide Rigo disse...

Oi, Ricardo, às vezes vejo no Mambo e no Ceagesp. Mas acho que começam a chegar em setembro.
Um abraço, N

Anônimo disse...

Oi Ricardo,

Se ainda é tempo, na 23 de maio, perto da ponte da rua Tutoia tem uma arvore que da muitos frutos.

abraço.

Diogo