quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Bijajica



Já tinha ouvido falar em cuscuz de toda sorte: de tapioca, de massa de mandioca, de arroz, de carimã ou puba, de fubá e outros, mas a bijajica foi uma descoberta excitante para mim, porque nunca imaginei algo parecido. Aconteceu no Terra Madre, durante o Intercâmbio de Saberes e Sabores, quando nos encontramos com representantes das comunidades de alimento do Slow Food, que puderam nos mostrar seus produtos.

De Garopaba e Paulo Lopes -SC veio este cuscuz de massa de mandioca com amendoim cru e açúcar mascavo que, à primeira vista, mais se parece um pumpernickel. Mas, no sabor, é infinitamente melhor. Nilcélia Mara Pessoa me passou todas as dicas de como fazer. A massa de mandioca usada vem dos engenhos na época em que se faz farinha – entre abril e junho. Mas, quando cheguei ao sítio e quis aproveitar as mandiocas de lá, vi o tamanho da minha ignorância. Não sabia se deveria sacrificar o sumo da mandioca ou não. E como na dúvida, pró réu, a raiz foi polpada da espremeção e deu no que deu: uma coisa liguenta a que meu pai torceu o nariz. O Marcos até que gostou, mas não tinha nada a ver com a delícia que eu tinha experimentado. Chegando aqui, liguei para mãe da Nilcélia, Dona Maria de Lourdes Lopes de Souza, autoridade em bijajicas. Foi como vê-la fazendo e assim ficou fácil. Tenho certeza de que ela ficaria orgulhosa da eficácia da aula (pelo menos eu fiquei com meu aprendizado). Segundo ela, a massa que vem das casas de farinha chega bem sequinha e pode ser congelada para a entressafra. O que ela não sabe é de onde vem o costume de se comer bijajica, que se estende por vários municípios vizinhos. Tampouco, a origem do nome, homônimo de outra iguaria catarinense – um bolinho de polvilho com ovos e açúcar, frito em banha. Em minhas pesquisas também não encontrei nada a respeito. Se alguém souber, por favor nos conte.

A versão que fiz foi a doce, como a que degustei em Brasília, mas também pode-se excluir o açúcar e acrescentar mais sal. E, em vez de cravo, pode temperar com gengibre, erva-doce, canela.

Quentinho, com manteiga, é divino, lembra biscoito de amêndoas com textura de pumpernickel. Segundo Dona Lourdes, vai bem também com manteiga, coalhada, nata ou doces. Depois de frio, é bom embrulhar em plástico para não ressecar. Ela me deu ainda receita de cuscuz que, diferente do que conhecemos como tal, é um biscoito super crocante resultado, aí sim, de um cuscuz de massa de mandioca com farinha de milho cortado em fatias finas que são tostadas no forno. Mas isto é outro assunto, porque ainda quero testar.

Receita de bijajica da Dona Lourdes

Ingredientes: massa de mandioca, amendoim, açúcar mascavo, sal e especiarias. Abaixo, a goma e o sumo da mandioca espremida

500 g de massa de mandioca ralada, bem espremida (talvez seja necessário 1 kg de mandioca).
500 g de amendoim vermelho cru triturado (usei processador, mas pode ser no liquidificador ou máquina de carne)
250 g de açúcar mascavo
1 colher (chá) de sal (ela disse uma pitada, mas uma colherinha rasa está de bom tamanho para o equilíbrio)
12 cravos triturados (poderia até ser mais para esta quantidade; também medida minha)

Misture bem todos os ingredientes e coloque, sem apertar, na parte de cima de uma cuscuzeira ou panela de vapor, forrada com pano de algodão. Cubra com as pontas do pano, feche a panela e cozinhe por mais ou menos meia hora ou até sentir com os dedos que a massa está cozida e grudadinha. Aí é só virar e desenformar. Se quiser fatias perfeitas, espere esfriar um pouco para cortar.

Rende: 15 porções

Considerações

Minha cuscuzeira é pequena, então moldei uma bijajica na forma de sushi - perdoem-me a heresia - e cozinhei no banho-maria, do mesmo jeito. Ficou com mais cara de pumpernickel ainda.

Espremi a mandioca ralada no meu tipitizinho de brinquedo, que comprei do Clayton, de Bragança-PA. Apesar da função meramente decorativa, a miniatura funcionou. Deixei o suco da mandioca em repouso até sedimentar o amido (goma, fécula, polvilho). Usei o líquido (que temperei como tucupi), para cozinhar arroz. E a goma me rendeu uma bela tapioca, que Ananda devorou.


Passei a mistura por peneira para ficar mais aerada (Dona Lourdes ressaltou bem: não pode apertar a massa).

20 comentários:

Alessandra disse...

Oi Neide, querida...fico estarrecida como você consegue fazer tudo isso!!!! em algum momento você dorme (rsrsrs)??? Ou vive sonhando - acordada, claro! - com as iguarias ainda não testadas por essas "mãos de fada"!?
Bjs..e até a nova aventura...

Alessandra Madeo (da Viva com Orgânicos)

Andrea disse...

Oi Neide!
Acho o seu blog muito interessante e informativo! Dá uma grande saudade do Brasil. Olha, esse "pão" se assemelha muito com o "Schinkenbrot" alemão. Tem a mesma consistência e aparência, mesmo com ingredientes tão diversos. Já copiei a receita.

Um grande abraço

Neide Rigo disse...

Alessandra,
que bom que pensa assim, pois sempre acho que meu dia não rende nada, embora tenha ainda que trabalhar e cuidar da casa (e isto aqui é hobby). Um beijo, volte sempre!

Andrea, não conheço este pão, mas vou me informar. Espero que faça e que dê certo, assim, mata um pouco a saudade do Brasil. beijos, n

Agdah disse...

Menina, mas você "desencava" é coisa...

Roberta Sá disse...

Querida Neide
A experiência Terra Madre é diferente para cada um, e vejo que você está aproveitando o máximo e descobrindo ainda mais novidades. Seu blog é fantástico!
Agradeço pela divulgação dos produtos das nossas comunidades do alimento, sua contribuição é muito importante.

Valentina disse...

Neide,este post aqui me deixou morta de inveja.Inveja de ter um sítio para ir e onde se aprende tanta coisa bacana. Amei este teu post.obrigada por tantas leituras maravilhosas.

•๋.ßiค•. ● disse...

Olá...a sua bijajica ta estranha..
Sou catarinense e a Bijajica que fazemos é com polvilho, ovo e açúcar.
Qual será é a correta? rs

http://pt.wikipedia.org/wiki/Bijajica

um abraço =)

Neide Rigo disse...

Oi, Beatriz! Você deve ter visto que citei na minha postagem esta outra bijajica: "homônimo de outra iguaria catarinense – um bolinho de polvilho com ovos e açúcar, frito em banha". É pra gente ver como é rico este nosso país - num mesmo Estado, duas coisas diferentes com um mesmo nome. Mas esta também é bijajica, te garanto. Obrigada pela visita, um abraço, N

Karla Garcia disse...

Oi, Neide... tudo bom?
Sou catarinense, mais exatamente de Garopaba e moro há 3 anos no Guarujá/SP. Eu adoro culinária e minha sogra também, daí eu estava pensando outro dia sobre os doces típicos de SC e lembrei da bijajica. O problema é que ninguém aqui conhece essa iguaria e ninguém da minha família sabe a receita, então procurei no Google e achei o seu blog, fiquei muito contente. Logo faremos a receita aqui!
Beijos.

Neide Rigo disse...

Oi, Karla!
Coincidentemente ontem ensinei a bijajica num evento aqui em São Paulo. Espero que dê certo. Depois me conte.
Um abraço,
Neide

Fernando disse...

Salve Neide. Estou preparando um material para o Terra Madre Italia, aqui do povo do litoral catarinense. Segundo o Fernando Bittencourt, secretário de Turismo de Garopaba ,a Bijajica é o seguinte:
"Bijajica é uma palavra dos povos Mbyá Guarani, nativos do litoral sul-brasileiro.
Vem de “Bija” (ou Biju), que é o pão de massa da mandioca, “Jy”,cozinhar, e “Ka”, que significa semente de amendoim ou milho. É um alimento indígena milenar, feito de massa de mandioca sem soro e amendoim ou milho cozido em pote cerâmico ou folhas de Caeté. A partir da década de 1650, foi adaptado pelo colonizador açoriano e recebeu os condimentos: cravo, canela, açúcar mascavo e sal.
Atualmente, poucas famílias mantém a técnica de fabricação da Bijajica, mas sua produção é ainda bastante expressiva nos municípios de Paulo Lopes e Garopaba, próximos a Florianópolis (capital do Estado)

grande abraço, Fernando Angeoletto (jornalista)

chef Ricardo Siginore disse...

Neide faz mas ou menos 3 anos que acompanho o seu blog, aliás foi um amigo meu que trabalhava com a Nina Horta que me disse, fiquei fascinado e ainda estou com o seu trabalho de investigaçâo, penso em trabalhar exclusivamente com gastronomia brasileira quando volte e queria muito bater um papo com você, e visitar as suas plantas, agora eu queria te perguntar algumas coisas ai no Brasil você encontra estas plantas/ flores como:
Cordifolia - Aptenia Cordifolia
Begonia - Begonia semperflorens
Còleus- Coleus Blumei
Amaranto tricolor - Amaranthus tricolor
Sâo plantas/ flores todas comestíveis, é que eu queria te perguntar e te peço algum dia se você puder fazer uma pesquisa sobre plantas e flores comestíveis da nossa terra que se diferenciam do somente alface, rucula, etc...
Uma salada com flores e platas genuínamente brasileiros .
Beijos desde a España

Apacheco disse...

Oi Neide,
corrigindo um ponto:
A Bijajica é originária da região de Imarui, próxima a Laguna-SC.
Tenho um amigo que mora na região, sendo um especialista nesta iguaria. Sua receita foi apresentada a ele e foi aprovada.

Parabéns.

Neide Rigo disse...

Obrigada pela contribuição, APacheco! Não sabia da origem. Só sabia de onde veio esta receita, mas não a origem do prato. Que bom que seu amigo aprovou.
Um abraço,
Neide

Neia Silvano disse...

Eu fui criada comendo essas comidas!! mais qto ao nome da bijajica aqui a minha mãe diz que é Mané pança e a bijajica é outra coisa feito com a mesma massa e vai amendoim e levada na chapa enrolada na folha da bananeira p/ assar. Mais tudo isso é maravilhoso. Desejo muita saúde a vc que está resgatando essas comidas que existe na nossa culinaria e que muita gente infelismente nao conhece. Bjos Neia

Neide Rigo disse...

Neia,
obrigada pelo comentário. Então, já são três coisas diferentes com o mesmo nome bijajica. De onde você é?
Um abraço,n

Anônimo disse...

Oi Neide!!
Tudo bem com você? Eu nasci em Laguna, morei dezoito anos em Palhoça, trabalhei oito anos no TJSC e ultimamente estou morando em Garopaba. Aqui existe vários engenhos e as pessoas tbém chamam a mané pança que eu connhço. ABraço

Tailu, disse...

Neide, passeio pelo come-se há uns meses e não me canso!
Mas nunca imaginei encontrar uma iguaria da minha terra aqui!
Sou de Garopaba, mas moro em Floripa.
Ler sobre a tua experiência com a bijajica me deu uma vontade louca de tomar um cafézinho preto com bijajica e banana assada. Na casa da minha mãe, claro!
Beijos e parabéns!!

Neide Rigo disse...

Tailu,
pelo menos alguém que conhece a bijajica! Obrigada, um abraço, N

Rúbia Silveira disse...

Oi Neide!

Minha vó faz uma bijajica dos deuses! Eu adoro!
Sou de Imbituba, sul de SC, fica logo depois de Garopaba.
Pesquisei na net uma receita, e o que encontrei foram aqueles bolinhos que vc mencionou no post. Esses sim, eu nunca tinha ouvido falar, hehehe.
Como moro em Floripa, tive que pesquisar na net como fazer. Adorei a receita e vou fazer aqui em casa.
Obrigada.