segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Jambu (awere-pepe, ewerepèpè ou éurepepe) em São Paulo


Os ramos novos, com folhas e flores, nasceram na água, onde coloquei só os galhos.

Já disse aqui que gosto de entrar em qualquer loja, sem amarras ou preconceitos, mesmo quando o assunto não me diga respeito. Sempre acabo achando alguma coisa de meu interesse, geralmente ligada ao ato de comer. Pena que nem todos os vendedores tenham a paciência que compradores como eu merecem. Mas não desisto.
Há mais ou menos um ano descobri no Mercado da Lapa uma banca de ervas para males e simpatias, banhos de Umbanda e oferendas de Candomblé. Fiquei perguntando para quê servia cada erva, qual era a preferida de tal orixá e tal. E antes que a mocinha me enxotasse com vassoura de guiné, entre tantas ervas de cheiro me deparei com uma de comer. Perguntei o nome e a emburradinha: oribepê. Fiz repetir, anotei. Perguntei se não era o jambu. Ela, sem paciência: oribepê! Como usa? Banho para Oxum. Para que serve? Para banho. Ah, e de onde vem? Vou lá saber. A despeito da coisa ruim, comprei, pois conheço jambu de longe e na cozinha sei pra que serve.
Quem nunca sentiu na língua aquele choque-tremelique da erva no tacacá ou no pato no tucupi, pelo menos já deve ter ouvido falar. A plantinha é a Spilanthes oleracea, também conhecida como agrião-do-brasil, agrião-do-norte, agrião-do-pará, jambuassu ou abecedária. É originária da América do Sul, embora haja relatos de cultivo também na Índia e na América Central. E a substância responsável por uma intrigante sensação de amortecimento e tremor na língua é o espilantol (a mesma usada pela Natura para o creme anti-rugas). O excesso de cocção ou fritura direta das folhas elimina este efeito, por isto as folhas devem ser aferventadas rapidamente ou consumidas cruas, em saladas. Muito rico em nutrientes, o jambu apresenta teores mais elevados de ferro e cálcio que o espinafre, parecido na textura macia das folhas.
Chegando em casa, coloquei logo os galhos com folhas murchas na água e vim correndo procurar no Google. Nada de oribepê, nem aproximações como uribebe, auripepê. Fui pela sonoridade até chegar awere-pepe, ewerepèpè e éurepepe. E também pimentinha d´água, o mesmo que jambu. Depois de alguns dias, os galhos, que adoram água, já estavam todos enraizados e com folhas novas. Aí foi só passar para a terra do quintal. Agora, com as primeiras chuvas da primavera, os jambus já começaram a ficar bem assanhados, com folhas graúdas e até flores. A próxima etapa é preparar o tucupi – fácil de fazer em casa. Para o tacacá é só um mais um passinho. Aguardem.

Agora, não me perguntem se já havia jambu na África antes de chegarem aqui os europeus; ou o que quer dizer, em iorubá, awere-pepe; nem sobre os mistérios das comidas de Santo, que eu também preciso aprender. Contribuições são sempre bem-vindas. Enquanto isso, axé!

Tucupi: sumo fermentado e temperado da mandioca.
Tacacá: espécie de sopa tomada em cuias, típica da região Norte, feita com o tucupi, um pouco do mingau de goma de mandioca, camarão seco e folhas de jambu.
Pato no tucupi: pato assado e cozido no tucupi com folhas de jambu.

12 comentários:

fezoca disse...

fosse eu, teria ficado totalmente intimidada pela mandona de oxúm... nem preciso dizer que nunca comi essas delicias do norte e que adoraria provar uma salada de jambu. por enquanto fico com um maço de espinafre pra me consolar.. ;-)

um beijo, Neide!

Eliana Scaramal disse...

E eu vou só aprendendo com você minha doce amiga!!

- Elis - disse...

Bom saber, pois sempre acabo comprando jambu já cozido e congelado no Açai da Diana, na Penha. Já procurei no Mercado Municipal e não encontrei. Vou procurar com o nome iorubá, obrigada pela dica!

Dora Saunier disse...

Amei esse vasinho com pequenos pés de Jambu,realmente muito lindo.Eu que sou amazonense,sei que se espalhado em terra úmida so tende a alastrar feito mato,pois em Manaus não compramos porque encontramos à vontade em qualquer lugar onde haja terra.Como conseguiu os galhos?Teria como me mandar um galho?Pago a postagem via Sedex10,penso que chegaria em perfeitas condições aqui no Rio de Janeiro.Por favor,avise-me se for possível. Grande abraço verde amazônico.

sergio disse...

Não te conhecia mas ao pesquisar sobre o cultivo...
Admirei a matéria a tal ponto que merece meu elogio...

pio disse...

Olá Neide,td bem?
Sou parecido com você no que diz respeito a perguntar sobre qualquer ingrediente culinário,pois ao contrário de minha esposa,adoro cozinhar!
Eu moro em São Paulo,na zona leste,você poderia me dizer onde encontrar o "jambu" e o "tucupi"?
Grato pela atenção,e parabéns pela matéria,beijos.
O meu E-mail é: silviobsouza@ig.com.br; quanto ao meu nome já deu para perceber né?

dentinho disse...

Olá, Neide!
REcentemente estive em Manaus e pesquisei mto sobre o Jambú, pois nuncA COMI NADA IGUAL....VC SABIA QUE ASSIM, COMO EU, ALGUMAS PESSOAS, AO COMER JAMBU EM EXCESSO....FICAM TOTALMENTE ZEN...
NO MEU ORKUT POSTEI FOTOS DE JAMBU E DA FABRICACAO DO TUCUPI....O TUCUPI É O CALDO QUE FICA ACIMA DA GOMA...A GOMA É USADA PARA A FABRICACAO DA TAPIOCA E O CALDO....FERMENTADO....VIRA TUCUPI....SE QUISER...ENTRE EM CONTATO COMIGO E LHE ENVIAREI AS FOTOSD....PMYSZKO@UOL.COM.BR...BJUS

Léo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Léo disse...

O jambu tbm é um ótimo expectorante vc ferve as folhas junto com os talos depois acrescenta mel e abacaxi cortado em cubos pequenos,tbm é bastante usado em varios pratos na cidade de Manaus, um deles e o tacacá feito com camarão,goma,tucupi e o jambu é uma delícia!!! Levanta até defunto.

Anônimo disse...

olá neide adorei tudo que vocè compartilhou sobre o jambú você pode me conseguir um galho desta planta tão especial ?parece que ela é otima para pessoas que usam alcool pararem de usá-lo...moro no rio de janeiro email claraluzmar@yahoo.com.braguardo seu contato

Anônimo disse...

Boa noite,
onde posso encontrar Jambú na cidade de São Paulo-SP.
obrigado.

Nelza disse...

Bom dia.........

Adorei seu jeito curioso e teimoso de ser.............me identifico.

Faz um tempinho que eu queria mudas de JAMBÚ.

Depois de minha maratona, finalmente arrebentei a linha de chegada.

Uma amiga me trouxe de Rondônia.

Agora é só plantar..............e saborear meu TACACÁ.....

Boa sorte para mim.