terça-feira, 11 de agosto de 2009

Entre Estantes e Panelas e Arturito


Itens levados à Livraria Cultura pelo Thiago, incluindo a baunilha amazônica. Devidamente embalados pela Nina Horta - o pacote foi aberto na mesa do Arturito, onde o debate continuou.
Ontem foi dia de mesa redonda do projeto Entre Estantes e Panelas, na Livraria Cultura. Eu devia ter avisado antes meus leitores, feito propaganda, mas esqueci completamente com a cabeça na lua. E errei até o horário. Começava às 18 e eu achava que fosse às 19 horas.
Sorte que combinei com a Nina de passar na casa dela bem antes para não chegarmos afobadas. E chegamos em cima da hora. Então, guarde aí: sempre às 18 horas. Horário ótimo, termina pontualmente às 20 horas, e ainda dá pra continuar o papo comendo em algum restaurante.
Desta vez eu estava numa situação muito mais aconchegada, embaixo, na platéia, e o tema foi ingredientes amazônicos, num debate que nos põe a pensar sobre o assunto pra lá de polêmico. A conversa foi mediada pelo Luiz Américo, do Paladar e participaram minha amiga Teresa Corção, do restaurante O navegador, do Rio, além do Thiago Castanho, de 21 anos, do restaurante Remanso do Peixe (veja sobre ele aqui no blog do Dória) e do chef boliviano Checho Gonzalez (veja o moço aqui no vídeo que postei outro aqui). O legal de ontem foi que o Alex Atala, um dos curadores do projeto, não esperou para meter a colher depois, por escrito, como é a regra. Quebrou o protocolo e subiu ao palco várias vezes e isto arejou o debate, criou movimento, interação. Pena que não seja sempre assim. Talvez por causa do tempo curto. Talvez não funcionasse se a platéia quisesse intervir a todo momento. Mas ontem, pelo menos, funcionou.
Tínhamos combinado já havia algum tempo um jantar no mesmo dia, no Arturito. É que a Mari Hirata está no Brasil (vai ter aula dela na escola Wilma Kovesi, na quinta-feira) e fomos convidadas pela chef Paola Carosella e pela Sofia Carvalhosa, amiga e assessora de imprensa do restaurante, a provar das delícias da casa, em comemoração à vinda da Mari. Além de nós, da Sofia e seu filho Gil, estava também a Maria Helena Guimarães (do Spot).
Vou confessar uma coisa: até há uns 2 ou 3 anos eu adorava ser convidada para conhecer restaurantes, talvez porque não tivesse blog e não me sentisse na obrigação de comentar nada depois, nem criticar nem elogiar. Tampouco me sinto agora, já que por aqui falo mais de ingredientes, ninguém tem esta expectativa do Come-se e, além disso, não tenho um décimo do talento para a crítica dos dedicadíssimos Demian e Anna, por exemplo (do ótimo blog Que Bicho Me Mordeu). E também porque sei que quem convidou o fez pela consideração da amizade, que é sincera. E estávamos ali pra brindar a temporada da Mari no Brasil. Mas, ainda assim, fico sem graça, embora super agradecida pelo convite delicado e amigável. A Nina, então, que de vez em quando escreve sobre restaurante, convidada ou não, costuma dar caixinhas generosas para o serviço a fim de se manter isenta. E se mantém. De qualquer forma, poderia simplesmente ignorar minha ida se não tivesse comentário favorável a fazer. Agora, o que fazer se tenho?

Pode-se dizer que foi tudo muito bom por estar com um time importante na mesa. Mas aquela comida não foi feita só para nós, nem de uma hora para outra. Vizinhos de mesa comiam as mesmas delícias que começaram a ser preparados dias antes, no caso da carne de pato curada e da terrine, por exemplo. Como não escolhemos pelo menu, foram vários pratos com nomes e sobrenomes, selecionados e apresentados à mesa pela chef. Já esquecidos, claro, embebidos que foram no bom vinho e na conversa animada (mas não o sabor nem o conceito ou explicação da Paola de como o prato foi feito e a origem dos ingredientes). A comida é muito boa, a começar pelos pães. É tudo muito fresco, com aquele aroma insinuante de forno à lenha, que vêm do andar de cima, onde fica a cozinha super organizada. Linguicinhas de porco e coelho embaladas em tripa de carneiro feitas ali mesmo; um polvo também feito na lenha em cozimento perfeito; patê de foie gras com cebolas carameladas; quiabos dourados e crocantes; nhoque de ricota leve como núvem e sobremesas do céu. Tudo para encantar, encantou. E, se tudo é sempre como o que provamos ontem, recomendo.











Mari Hirata, eu e Nina Horta. Foto da Sofia, que pegou minha máquina e pediu pose.

Arturito: R. Artur de Azevedo, 542, Pinheiros, tel.: 3063-4951. Dom. a qua., 19h/0h; qui. a sáb., 19h/1h.

Ainda os grolados ou engrolados. Receita de cabrito e sopa

Ainda não sei se o que fiz pode ou não ser chamado de grolado, engrolado ou enrolação. Leitores conhecedores, por favor, apareçam. Enquanto isto, as receitas que prometi ontem (para mim mesma, diga-se, já que o registro aqui do que deu certo me impede de improvisar de novo da próxima vez, sob o risco grande de errar). Para o guisado de cabrito usei como inspiração o atolado de bode do Mocotó - cuja receita está aqui.


A gordura sobrenadante, tirei depois - deu quase meia xícara. E a carne ficou muito boa (já a foto... fica como registro)
Guisado de mandioca para comer com grolado
1 pernil de cabrito com 1,5 kg cortado em cubos - com osso
2 colheres (chá) de sal
1/4 de xícara de vinagre
5 dentes de alho bem socados
1 colher (chá) de pimenta-do-reino triturada grosseiramente
2 colheres (sopa) de azeite
2 xícaras (chá) de água fervente
2 tomates médios ralados (de modo a sobrar na sua mão só a pele)
1/4 de pimentão vermelho ralado igual
1 colher (chá) de grãos de coentro e 1 colher (chá) de cominho triturados juntos
1 cebola ralada
4 folhas de louro
10 folhas de alfavaca
4 colheres (sopa) de cheiro-verde (salsa e cebolinha) picado
Tempere a carne com o sal, o vinagre, o alho e a pimenta, coloque numa tigela de vidro e deixe na geladeira durante cerca de 8 horas. Aqueça o azeite numa panela de fundo grosso e coloque a carne. Deixe refogar, mexendo de vez em quando, até dourar - cerca de 20 minutos. Junte a água quente e, em seguida, todos os outros ingredientes, menos o cheiro verde. E cozinhe por cerca de 2 horas e meia, em fogo baixo, ou até a carne ficar macia (se preciso for, junte mais água quente) e sobrar um molho denso. Retire o excesso de gordura sobrenadante, junte cheiro-verde e sirva com o grolado. Ou sirva com arroz, mandioca cozida, cuscuz.
Nota: se preferir, cozinhe em panela de pressão.
Rende: 6 porções

Sopa instantânea de grolado com cenoura
1 xícara de caldo de galinha caseiro já salgado
3 colheres (sopa) de grolado com grãos miúdos
3 colheres (sopa) de cenoura ralada grossa
Alfavaca e coentro-da-índia (coentro-do-maranhão, culantro, chicória-do-pará, coentrão, coentro-de-pasto)
Uns pingos de molho de pimenta
Aqueça o caldo, junte o grolado e a cenoura e deixe ferver por 2 minutos. Desligue o fogo, prove o sal e corrija, se necessário. Espalhe por cima as ervas e sirva.
Rende: 1 porção

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Grolado, engrolado..

Na última charada proposta estava morrendo de vontade que me dissessem que o que eu fiz se parecia com um engrolado ou grolado. Se ninguém acertou, foi porque eu errei.
É que procurei por tudo e não encontrei uma foto que fosse do tal grolado citado num comentário sobre o
cuscuz de mandioca: "mon cahier disse...
Neide querida esse beiju me lembrou minha infância no interior do Maranhão...saudades.Essa massa me lembrou um "grolado" bem gostoso que minha mãe fazia quando moravámos no interior; é o seguinte você aquece uma panela ai acrescenta a massa fresca, uma pitada de sal,um pouco de manteiga ou de azeite de coco e mexe até que a massa se transforme em pequenas bolas macias, a cor vai variar entre um roxo leve ou verde, mas é normal. O ponto é quando você provar e sentir que a massa não tá mais com gosto de mandioca crua, você vai preceber qual é o ponto... fica uma delicia com um café bem fresco".
Fiquei curiosa e fui procurar saber o que era um grolado. Achei umas descrições meio vagas, como esta: Mas os dois irmãos preferiam engrolado. Os craôs chamam de “engrolado” ou “grolado” a um alimento preparado em panelas de ferro com massa de mandioca. É como que uma farinha retirada do forno no meio do processo de torragem, ainda úmida e encaroçada. (Conto Craô de Guerra - neste site).
Ou esta: Vivia-se da pesca artesanal e da agricultura de subsistência. Faziam farinha ou utilizavam a mandioca brava que era cavada no chão e servia para fazer o “grolado” e o “beiju” para comer com peixe. Na falta da mandioca eles utilizavam a manipeba que era ralada e também servia para o grolado (Memória Viva dos povos do Mar do Icapui).
Foto que era bom, nada. Fiquei só na imaginação. Por isto, tive vontade de que alguém me dissesse que aquilo que fiz se parecia com um grolado. Mas, pelo jeito, não. E se não, pelo menos virou uma coisa muito boa, que logo associei com um cuscuz de mandioca - como respondeu a leitora Turmalina. Ana disse que parecia um torresminho - pois fui lá, fritei e virou uma coisa crocante gostosa pra salpicar sobre uma salada, com gosto de crostinha dourada de mandioca frita. A Rhayssa acertou na mosca: massa de mandioca na manteiga. Já a Marília lançou mais um desafio com seu chute: o que será frique-frique?
Como fiz: derreti um pouco de manteiga numa frigideira antiaderente, espalhei por cima, usando uma peneira de fritura, a massa de mandioca - aquela que tirei da prensa. E fui mexendo com um garfo largo de madeira e cozinhando até que ficasse com cheiro de mandioca cozida, até que os roladinhos ficassem translúcidos. Como não havia uniformidade nos tamanhos, passei por peneira para dar tratamentos diferenciados.
A esperança é que começasse a ficar esverdeado como citou o leitor/leitora que não assinou o comentário - de modo que eu nem pude tirar dúvidas. Olhei praquilo, provei e imaginei já um refogado de cabrito por cima ou qualquer outra carne, peixe, servido como cuscuz marroquino. Eles ficam macios, só um pouco elásticos, mas agradáveis na mordida. Com os grãos miúdos ainda fiz sopa rápida com um caldo de frango que tinha acabado de fazer e ainda uma farofinha crocante com bacon.
Como não sei se posso chamá-lo de grolado ou engrolado, vou enrolando chamando-o de roladinhos de mandioca na manteiga. Ou qualquer outro que alguém me sugira.

As bolinhas pequenas viraram sopa instantânea, com cenoura e folhinhas de alfavaca e coentro-chicória
Grãos graúdos servidos com guisado de cabrito, como o cuscuz marroquino
Os grãos pequenos também viraram farofa com bacon, alho, cebola, cheiro-verde
Como torresminho: os grãos grandes podem ser fritos e jogados sobre salada para dar crocância
Hoje tem de novo mesa redonda na Cultura
e estou saindo correndo - começa às 7. Amanhã dou as receitas da sopinha e do cabrito.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O que é, o que é?

Se não sabe o nome, como o chamaria?
Só digo que se come e que foi feito pelas mãos do homi (no caso, da mulher aqui). Clique, amplie, palpite. Resposta na segunda-feira.

Bom fim de semana e reparem nas pitangueiras em flor pela cidade de São Paulo - que, aviso, não tem nada a ver com a charada. É que estão lindas, nevadas de tanta flor, encharcadas de perfume e tremelicantes sob a nuvem de abelhas. Chuva fora de hora também traz coisas boas além de mofos nos sapatos de couro.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O caju passa e o purê tropical - com mandioca, banana e estas passas



O caju passa que a Irineide de Recife, me deu lá em Pirinópolis está rendendo. Servi com o cuscuz de massa de mandioca (do post anterior) e agora usei para fazer um purê que cai muito bem com uma posta ou filé de peixe de carne clara bem dourados. Por isto meu peixe equivocado não aparece na foto. Não era claro nem estava muito dourado - uma anchova cozida no vapor e a foto ficou horrível, sem contrastes. A combinação também não foi das melhores, o sabor do peixe muito forte. Mas com um filé de pescada, peixe galo, linguado, teria ficado supimpa. Ou mesmo com frango assado ou seu peito grelhado.
Cajus preparados assim substituem muito bem as ameixas secas. Eles são feitos artesanalmente, em cocção muito lenta, às vezes no fogão à lenha (pelo menos este era e guardava um gostinho defumado). O caju é furado, espremido, seu suco é reservado e aí começa o processo de cocção durante todo o dia, umas 8, 10 horas, apenas com açúcar e o suco que foi reservado e que lentamente vai sendo agregado de novo ao caju, até que esteja impregnado, sequinho e enegrecido. Cheio de sabor do melhor caju. A textura é densa mas cremosa.
E é um ótimo destino para os pedúnculos do caju depois que sua parte mais valorizada foi extraída. Os frutos, que são as castanhas, têm mercado certo, são pouco perecíveis e item requisitado para exportação. Enquanto isso, cajus suculentos e desprezados apodrecem ao léu, principalmente nas pequenas propriedades sem estrutura para processá-los. Mas, fora a cajuína e os sucos industrializados, surgem por aí outros exemplos de aproveitamento artesanal desta parte do caju, como compota,
mel de caju, e estas passas, comuns em partes do Nordeste com muita produção. E a polpa, depois de o suco ter sido extraído, ainda pode ser preparada salgada, com temperos de carne ou de moqueca e são muito gostosas, chegando a ser chamadas de "carne de caju" (veja moqueca com ela, aqui).
O fato é que quem prova desta passa não se esquece e acha que nunca mais vai conseguir viver sem ela. Pena que ameixas secas importadas sejam mais fartas no mercado nacional que estas preciosidades locais que podem ser usadas em farofas, nos bolos, nos pudins, nas caldas para manjares e outras inspirações (e ela há de te inspirar).
No purê, acho que combina mais com mandioca ou banana-da-terra que com batatas. Pura intuição. Teria usado banana-da-terra se tivesse, mas fiz com a banana que tinha e o resultado não poderia ter sido mais feliz. E quanto à passa de caju, vá lá, se não encontrá-lo por aí, substitua-o por duas ameixas secas, que também ficará bom. Mas continue procurando por ele entre as passas importadas, que uma hora ele há de aparecer (é o poder da demanda...)

Purê de mandioca com banana e caju passa
300 g de pedaços de mandioca
1 banana prata média
1 caju passa picado em pedaços grandes
Meia cebola picada
2 colheres (sopa) de manteiga
Sal e pimenta-do-reino a gosto
Cubra os pedaços de mandioca com água, junte uma pitada de sal e leve ao fogo para cozinhar, em panela aberta. Se precisar, junte mais água quente para que tenha sempre um pouco de líquido e os pedaços não grudem no fundo. Quando a mandioca estiver bem macia, junte a banana e o caju e deixe cozinhar mais 10 minutos ou até que amoleçam. Escorra tudo numa peneira, reservando o caldo. Tire os fiapos centrais da mandioca e passe tudo, com um pouco do caldo, pelo passador de legumes, peneira grossa ou triture com o mixer. Reserve. Numa panela, doure a cebola na manteiga. Despeje aí a mandioca espremida. E, aos poucos, o caldo reservado, mexendo sempre, até adquirir a consistência de purê. Prove o sal e junte mais, se necessário. E uma pitada de pimenta-do-reino. Sirva com aves ou peixes de carne clara.
Rende: 4 porções
Mantenha um pouco do caldo para usar depois - a mandioca incorpora bastante líquido quando vira purê
A cebola dourada assim parece situar o purê adocicado no universo dos salgados

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Cuscuz com massa de mandioca e coco


Temperei a massa com casquinhas de limão-rosa
Está aí um ingrediente a que pouca gente dá importância, pelo menos cá no sudeste. Nos engenhos de farinha de Florianópolis a massa de mandioca prensada, antes de virar farinha na mão dos homens, é surrupiada pelas mulheres que a transformam em bijajicas, beijus, cuscuz (cozidos, fatiados e torrados), bolos. No norte e nordeste acho que acontece a mesma coisa. Eu não tenho familiaridade nenhuma com ela, mas estou aprendendo.
Minha amiga Irineide Teixeira, lider do Convivium do Slow Food de Recife e professora na Universidade Federal Rural de Pernambuco, me deu a receita do cuscuz que por lá pode ser feito doce ou salgado: "Cuscuz de massa de mandioca: 500g de massa de mandioca lavada e espremida (a massa deverá estar úmida, não molhada), 1 coco ralado ( aproximadamente 200 g de coco ralado fresco ), sal a gosto. Poderá também ser doce. Misture os ingredientes; coloque a mistura em uma cuscuzeira e leve ao fogo por aproximadamente 15 minutos (você sentirá o cheiro da massa cozida ). Servir quente ou frio com manteiga ou como você preferir." Levei bem a sério esta última recomentação: "como você preferir".
Aproveitei a massa para fazer beijus grossinhos que poderiam fazer papel de pão para celíacos e ali caberia até, fiquei pensando, um fino hambúrguer de carne de porco bem temperado com cebolinha e gengibre. No doce - botei açúcar, inventei de colocar umas raspinhas de limão-cravo (rosa, china, caipira, capeta ... ) e ainda servir com caju passa, também de Recife, presente Irineide - feito artesanalmente, denso, escuro, seco na lenha, delicioso (falo dele depois). E um pouco de mel de caju (caldo do caju em melado). E ficou muito bom, manjar perfeito para sobremesa. O salgado, servi com camarão e ele fez bonito. Aí a receita básica da Irineide com intromissões minhas:
Cuscuz doce com massa de mandioca
500 g de massa de mandioca bem espremida
200 g de coco fresco ralado
2 colheres (sopa) de açúcar
1 pitada de sal

Misture todos os ingredientes, deixando-os bem soltinhos. Cozinhe na cuscuzeira, com a parte de cima forrada com pano molhado (se fizer quantidade menor, use a cestinha de uma chaleira com o bico tampado com uma rolha). Não pressione a massa, apenas ajeite. Deixe cozinhar por cerca de 15 minutos ou até que a superfície do cuscuz esteja firme e quente.
Sirva com manteiga, frutas, leite de coco. Invente.

Cozinhando cuscuz na chaleira (aqui, metade da massa)

Cuscuz de massa de mandioca salgado: igualzinho ao doce, porém sem raspas de limão e sem açucar. Sirva com manteiga, camarão, carne de cabrito etc.

Beijus com massa de mandioca: usei a mesma massa salgada, coloquei numa frigideira antiaderente usando um arco para ficar redondinho. E deixei dourar em fogo baixo dos dois lados. Comi com manteiga e ficaram divinos. Mas poderiam ser recheados e comidos como sanduíches.

Prensando a mandioca

Se a quantidade de mandioca é pequena, precisa usar um apoio para dar a altura do pressionador. Se a quantidade for suficiente para encher o arco (há um outro ainda maior), será necessário ir tirando o caldo para não transbordar.

A massa espremida fica assim, moldada como um queijo

Depois, basta soltar e usar
Já havia algum tempo que eu estava atrás de um método mais eficaz para espremer a mandioca ralada. Para ter uma massa sequinha de um lado e um caldo denso, farto e amarelo de outro, sem precisar recorrer às prensas de engenhos ou ao incompatível tipiti das casas de farinha (incompatível para minha cozinha, fique claro). Nem precisar ficar espremendo no pano de pouquinho. Assim poderia ter a massa para a bijajica, a goma para a tapioca e o caldo para o tucupi.
Na minha última ida à Fartura fui fuçar as novidades na loja de produtos agrícolas e me deparei com esta prensa para queijo. Não pensei duas vezes e já vi ali a serventia. Pena que não não trouxe muita mandioca, por isto precisei, na primeira experiência, apoiar o arco furaco sobre uma vasilha resistente para dar a altura da chapa que vai por cima pressionando, como mostra a foto. Fora isto, deu super certo, levando em conta que não foi feita para isto.
O segredo é fazer como nas casas de farinha - ir rodando a manivela aos poucos. Acho que levei certa de 1 hora para que a massa ficasse assim, bem seca e soltinha. Como não tinha previsão de usar a massa naquela hora, ensaquei e congelei. E ela congela bem.
Mas ontem usei para um cuscuz, com receita da minha amiga Irineide, de Recife - no próximo post.
Veja também

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Que limão é esse? Um vídeo sobre o limão



No Brasil todo, de norte a sul, este limão avermelhado e às vezes enferrujado pode ser encontrado ancorado às cercas, solitário no meio dos pastos, nas franjas das matas ralas ou desprezado nas calçadas e terrenos baldios de cidades pequenas. Ou grandes – tenho um limoeiro deste aqui bem pertinho, numa praça.

Nas minhas férias no sítio dos meus avós, no Paraná, a bebida preferida das crianças era a limonada feita com ele. Para ficar bem gelada, a garrafa de água a ser usada era deixada imersa na corredeira do “corguinho” que passava por lá e às vezes uma casca em caracol do limão decorava o refresco. Não havia coisa melhor. Lembro ainda da garrafinha da lancheira de plástico impregnada com o cheiro desta limonada que eu mesma preparava e não conseguia esperar a hora do recreio para dar umas bebericadas. E o cheiro daquela lasquinha de limão-rosa que minha mãe botava no arroz-doce? Bastavam dois ou três pedacinhos para deixar o arroz todo perfumado. E no final eu gostava de comê-las mesmo sendo meio amarguinhas.

Ele (Citrus limonia Osbeck) não é exatamente um limão como o siciliano, mas sim uma lima ácida como o galego e o taiti. Originário da Índia, provavelmente é um híbrido de limão verdadeiro com tangerina, mas, botanicamente, está agrupado entre as limas ácidas e seu interesse maior é como porta-enxerto para outros cítricos, já que é resistente a uma série de doenças comuns no gênero. Por isto também, limão-cavalo. Sendo que para nós, que queremos usá-lo na cozinha, pouco importa saber se é um limão doce, uma lima ou uma tangerina ácida.

O que importa é saber que pode ser usado como limão em todos os preparos clássicos como caipirinhas, limonadas, sorvetes, musses, cremes, recheios, vinagretes e tantos outros. Com a vantagem de ser mais rico em betacarotenos (um precursor da vitamina A), mais adocicado quando maduro, suculento mesmo quando verde e menos perecível que os outros limões – os limões da foto estavam guardados na geladeira, dentro de sacos plásticos, havia 60 dias!
Mercado: uma pena que não seja vendido facilmente nas cidades grandes. Está certo que nas pequenas cidades rurais o tal limão não tenha valor no mercado pois qualquer pessoa pode consegui-lo facilmente nos quintais ou nas redondezas, de graça. Mas toda esta produção que se perde por aí ou é abocanhada pelo gado poderia ser aproveitada nas cidades grandes ou pela indústria para a produção de sucos, junto com tangerina, por exemplo; para a limonada da merenda escolar em vez de sucos artificiais; ou para a fabricação de bebidas alcóolicas, como este gin.




O vídeo
Agora, o que não falta a este limão são nomes, daí a ideia de filmar meus amigos do Slow Food de vários cantos do Brasil (durante um encontro em Pirinópolis – a maioria dos depoentes é líder de Convívio), contando como a fruta é chamada na sua cidade. Havia filmado outros depoimentos, mas perdi não sei como - leseira, na certa. E, claro, chamei minha amiga Inês Correa para editar, que aceita estes projetos voluntários na maior boa vontade. E a gente sempre acaba se divertindo com a ajuda dos filhos e dos amigos. O filho Lucas, de 15 anos, já tinha pesquisado a música; a Júlia, de 8, fica do lado para qualquer problema técnico na edição e também fotografa bem como a mãe - algumas fotos dos limões são dela. No meio do trabalho a Inês achou que precisava de um pé de limão rosa. Lá fomos nós para a casa da amiga vizinha Verônika fotografar seu limoeiro.
Foi uma surpresa em relação aos nomes, pois não imaginava que o apelido galego predominava. Aqui em São Paulo, galego é aquela lima ácida amarelo-limão também deliciosa e que também fugiu do mercado - dominado agora pelo taiti. E descobri ainda outros nomes curiosos lá mesmo em Pirinópolis, onde o feirante o chama de limão lava-tacho, certamente uma alusão ao seu uso, com sal ou fubá, para arear tachos de cobre, coisa que já fiz muito também - basta cortar ao meio o limão, encostar no sal ou no fubá e esfregá-lo na superfície de cobre, que ficará livre dos verdetes e cheio de brilho avermelhado. Pode ser qualquer limão ou outro elemento ácido, mas como este foi e sempre será o mais abundante, é o preferido, e também porque é mais molinho e se ajeita à mão.
O nome mais aceito em trabalho científicos, pelo que vi, é limão-cravo, mas os nomes regionais não só confundem, mas também enriquecem. Por que não limão lava-tacho?

Abaixo, nomes internacionais para este mesmo limão, do site da Universidade de Purdue, onde poderá encontrar outras informações sobre este e limões similares: "Rangpur (Citrus X limonia Osbeck) is also called rangpur lime, rungpur, marmalade lime, lemandarin; Canton lemon in southern China, hime lemon in Japan; Japanche citroen in Indonesia; sylhet lime, surkh nimboo and shabati in India; limao cravo in Brazil".
Na caipirinha
Felizmente é moda agora servir por aí copos de caipirinhas de limão-cravo, deliciosas como no Mocotó, mas podemos fazer diferente e servir a bebida em pedaços, como aperitivo. A receita foi inspirada nesta daqui, feita com tequila, limão cravo e tangerina.

Caipirinha em pedaços
2 envelopes de gelatina em pó, sem cor e sem sabor (24 g)
1/2 xícara de água
3/4 de xícara de açúcar
1 xícara de suco de limão-rosa (ou limão-cravo, limão-caipira, limão-galego, limão lava-tacho...)
1/2 xícara de cachaça
Flor de sal para polvilhar (opcional)
Coloque numa tigela de vidro a gelatina e a água. Junte o açúcar e misture bem. Espere 5 minutos e aqueça em banho-maria ou fogo muito baixo até a gelatina derreter. Desligue o fogo, junte o suco de limão e misture bem. Quando a mistura estiver totalmente fria, junte a cachaça, mexa e coloque a mistura numa forma baixa, para que consiga cortar em cubinhos. Leve à geladeira e deixe de um dia para outro (ou cerca de 8 horas para ficar bem firme). Desenforme e corte em cubinhos. Apenas na hora de servir, polvilhe com flor de sal.
Rende: 6 porções
A casca ralada pode ser usada como tempero em bolos e pudins. E, misturada com açúcar, fica ótima para decorar bordas de copos para drinques. Basta encostar antes as bordas no suco de limão e depois empanar com esta mistura. Se quiser, esfregue as raspas em açúcar, passe pela peneira e use o açúcar (que pode ser deixado um pouco ao sol para secar antes de ser guardado para adoçar sucos ou cafés).
Mas, diga aí, como este limão é chamado na sua cidade?

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Orelha-de-padre. Resposta à charada do post anterior


Dá em qualquer cerca: entre maio e junho as vagens são tenras. À partir do final de julho até começo de agosto, melhor comer o feijão verde, como favas. Depois, se houver inverno sem chuva, é esperar para comer o grão seco.


Tenras: neste ponto, dá para comer as vagens grudadas em seus feijões

Prontas para parir: quando estão gordinhas e começando a amarelar, as vagens podem ser separadas dos seus feijões - ambos podem ser consumidos, mas terão tempos de cozimento diferentes.


Formas diversas: há muitas variedades da planta e os formatos das vagens podem ser diferente, como estes que copiei pretensiosamente de um livro (fiz a obra com papel recortado sobre pano de veludo verde). Em comum, esta curva suave com rabinho no final - nunca reparei direito na orelha de um padre para fazer a relação com o nome.
Pelas respostas da charada no post anterior, percebe-se a marginalidade em que vivem certos legumes com potencial para iguaria. A orelha-de-padre é um deles. Só a Lilian acertou. Mas agradeço a todos que palpitaram.
Nunca encontrei para comprar por aqui, mas também nunca a perdi de vista - primeiro meus avós plantavam; depois, meus pais. Agora, eles e eu. As vagens se comem ao modo das ervilhas tortas; e seus feijões, como as favas. Já há mais de um mês que venho colhendo e comendo as que estavam ao alcance das mãos. Mas foram sobrando as que estavam mais perto do céu e todos os dias quando passava pelo corredor, pensava: já é hora de colher se quiser aproveitar os feijões verdes. É que seria inútil deixar que secassem com a chuvarada que caía - os feijões iriam mofar e não secar.
Mas, só de pensar em tirar a escada do armário para fazer o trabalho, já dava uma preguiça danada. Aí, na semana passada, chegou de surpresa meu amigo Celso Fioravante e, como sempre, já foi pro quintal ver o que tinha pra colher. Nem a chuvinha chata o incomodou - disse que o trabalho dava saudade dos tempos em que colheu uvas na Europa. Como também adora este vegetal (e todos os outros), pegou a escada, colheu toda a orelha-de-padre que havia e levou a metade delas num acordo de meeiro. Agora, o pé vai secar e só daqui a uns 9 meses teremos mais. E ainda conseguiu um pouco de couve, cúrcuma e cará-do-ar.


Celso Fioravante: com seu motorista Robson, animados que só


Celso enche a cesta - farta produção num corredorzinho de nada. E ainda levou cúrcuma, cará-do-ar, couve lisa, rendada e outros matinhos que encontrou.
Da minha parte, separei as vagens mais maduras para tirar o feijão. E, separados os grãos, só desprezei as vagens mais amarelas e duras. As desafeijoadas mas ainda verdes e macias, cozinhei e temperei com sal, pimenta e azeite.
Os feijões são deliciosos, lembram um pouco sementes de favas, caroço de jaca, e conservam um certo amarguinho, também presente na vagem mesmo quando jovem. Acho as vagens mais gostosas que as ervilhas tortas. São mais macias, aveludadas até, e tem este amargor de que gosto (devido à presença de glicosídeos cianogênicos, que geram ácido cianídrico, como nas mandiocas bravas, mas que são eliminados com a cocção). Pena que não haja cultivo comercial delas - pelo menos nunca vi no mercado. Se bem que outro dia a Eliana veio dizendo que na feira de domingo, lá no quilômetro quinze da Raposo Tavares, havia delas ainda nos cachos.
Quem é ela: a planta Lablab purpureus (sinônimos botânicos: Dolichos lablab, Lablab niger) é originária da África e hoje é largamente cultivada nos trópicos e subtrópicos. Seus feijões são ricos em proteíns e fibras e toda a planta é comestível, incluindo folhas jovens e flores. Os grãos também podem ser germinados e comidos como os brotos de feijão mung. Devem ser consumidos sempre cozidos porque apresentam fatores tóxicos e antinutricionais como os glicosídeos cianogênicos e inibores de tripsina. Mas a cocção elimina estes inconvenientes. Em compensação são muito ricos em lisina, um aminoácido que falta ao arroz e ao milho, por exemplo. Sendo, assim, ótimo complemento para estes grãos (com polenta é uma opção muito boa). O bom é que a planta é rústica e dá bem em solos pobres ou ricos. E qualquer cerquinha a suporta.
Nomes
comuns, segundo o site Agronomia.com.br: "Rongai dolichos, lab-lab bean (Austrália) poor man's bean, Tonga bean (Inglaterra), lubia (Sudan), batao (Philippines), Lablab (Brasil), frijol jacinto (Colômbia), quiquaqua, caroata chwata (Venezuela), poroto de Egipto (Argentina), dolique lab-lab, dolique d'Egypte (França), fiwi bean (Zambia), chicarros, frijol caballo (Puerto Rico), gallinita (México), frijol de adorno (El Salvador) e wal (Índia)".
Preparos


Grãos cozidos: basta debulhar, reservar as vagens que não estão duras (que ainda são comestíveis) e cozinhar os grãos em água salgada (para 1,5 xícara de grãos, 2 xícaras de água e 1 colher (chá) de sal), até a água secar e ficarem macios (cerca de 20 minutos). Se houver diferença de maturação dos grãos, como foi o meu caso, não se preocupe pois os mais tenros esperam os mais maduros sem se desmancharem. Se for preciso, junte mais água quente. Faça um refogado com azeite, alho, bacon, se quiser, cebola, salsão, cenoura e tomate e junte os feijões já cozidos. Deixe que fervam juntos por cerca de 10 minutos, junte mais sal, se for preciso; água quente para formar um molho; pimenta, se quiser. E, por último, um tanto de salsinha, já fora do fogo. Sirva assim, com arroz ou polenta. Ou, junte uns pedaços de linguiça paio já cozida e fatiada ou codeguim cozido e fatiado.


Com codeguim: furei a pele do codeguim, cozinhei em água por 50 minutos, esperei esfriar e fatiei antes de juntar ao refogado de feijões de orelha-de-padre e deixar aquecer um pouco.


Cozidas: as vagens sem feijões, que não estavam duras, cozinhei em um pouco de água com sal e temperei com pimenta-do-reino e azeite.


As vagens cozidas e os grãos com codeguim servi com polenta cremosa.


Feijões de orelha-de-padre com macarrão: o mesmo refogado que servi lá em cima com codeguim, misturei aqui com pedacinhos de filé mignon refogados com shiitake, pimentão vermelho, cebola e servi com massa folhas de oliva. Com salsinha e mais azeite no final.

Orelha-de-padre refogada com cebolinha: estas foram preparadas por minha mãe - refogadas em azeite e alho com um pouco de água para cozinhar. E depois, temperadas cebolinha.


Orelha-de-padre com gergelim e pimenta: esta, faz tempo, já nem sei. Acho que cozinhei no vapor e passei num refogado de azeite, alho, pimenta, gengibre e gergelim preto.


Fritada de orelha-de-padre. Também tem tempo e não anotei a receita, mas não tem segredo: foi só refogar cebolas e tirinhas de vagens de orelha-de-padre em bastante azeite e despejar por cima ovos batidos e temperados com salsinha, sal e pimenta-do-reino. Fritei dos dois lados e nhac.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

O que é, o que é?


Clique, amplie, mordisque. Resposta na segunda. Bom fim de semana!

Porções de boteco por aí


Atendendo à provocação do Dória, comi ontem o sarapatel e a galinha na rua Tatuí, 167, mesmo sem pertencer a guia gastronômico nem nada disto. Pra falar a verdade, nem gosto muito de falar de restaurantes. Mas fiquei curiosa quando ele mostrou a foto daquele boteco mal ajambrado quase em frente ao Così. Lembrei que meu mais recente amigo, Andres Sandoval, morava na rua e perguntei sobre o lugar. Ele respondeu que já havia comido lá, gostava, mas tinha mudado de dono (o antigo agora é um taxista). E disse ainda que se eu fosse comer ali era só chamar que ele iria junto. Pois ontem aconteceu. Atencioso, teve ainda o cuidado de ir um dia antes comer a galinha para ver se a qualidade da comida continuava a mesma. E continuava, já que a cozinheira é a mesma. Pedimos sarapatel, que poderia ter um tantinho mais de cominho, e a galinha, que estava ótima, sem gosto de pena, com bom tempero, bem cozida, só que com muito coentro para o meu gosto. As sobrecoxas grossas não me pareceram as de galinhas caipiras trabalhadeiras, mas eram gostosas. Enquanto o feijão estava cremoso, fresquinho e bem temperado como os melhores caseiros, o arroz estava meio sem-graça, parecido com aqueles requentados no vapor - gostoso no tempero, mas não maravilhoso na textura. Também, sou chata com arroz e pão de restaurante. Pelo menos não era uncle-bens. E não nos sentimos lesados no bolso. Com uma Tubaína e umas rodelas de tomate, tudo isto saiu por 28 contos*. Aceitamos recomendações de botecos desconhecidos que façam comida boa que, espalhados entre os bairros de São Paulo, deve haver às pencas.
Além de ótima companhia, Andres Sandoval tem guache nas veias - desenhou como se bebesse água e ainda me mostrou muitas ilustrações lindas.
* Andres me corrigiu: os 28 contos incluiram ainda a refeição do dia anterior com tubaína. Ou seja: compensa!

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Panela elétrica de arroz. Com a berinjela a todo vapor


Pretendia usar esta vasilha, com tampa, mas a panela não fechou e eu mudei para uma mais baixa e cobri com papel alumínio.

Juro que a panela não é jabá. Deve haver outras marcas com cestinha. Ela pode ainda ser programada para começar a funcionar mais tarde. Assim, o jantar pode ser programado no café da manhã.
Minha panela elétrica de arroz é usada quando estou em casa, mas sem tempo para ficar na cozinha atenta ao fogo e seus momentos precisos. Ou quando saio e quero deixar programado para ter arroz quente quando voltar. Raramente a uso para arroz branco, que no fogão seu preparo não demora mais que 15 minutos. Já que vou usar, prefiro fazer grãos que no fogo comum também levariam mais tempo, como o arroz integral, puro ou com lentilhas, afinal, apesar da praticidade, não é o tipo de eletrodoméstico para apressar, mas sim facilitar sua vida, desde que haja o tempo para se programar e usá-lo para outras prioridades.
Ontem à noite precisava trabalhar e não ia dar pra fazer o jantar que seria servido lá pelas 8, quando o Marcos chegasse. Então, por volta das 6 horas fui à cozinha e já deixei cozinhando na panela elétrica o arroz integral (moti aromático, crotalária) do Seu Juarez (2 xícaras de arroz, sal e manteiga, para 4 xícaras de água - mas isto pode variar de acordo com a idade e tipo do arroz) e voltei para o escritório sem preocupação.
A grande sacada deste modelo de panela é a cestinha que encaixa na parte de cima do recipiente onde vai ser cozido o arroz. Então eu sempre aproveito para botar ali uns pedaços de batata-doce, beterrabas embrulhadas em papel alumínio, batatas, abóboras, brócolis, couve-flor, quiabos, vagens. Ou qualquer coisa que possa ser cozido com o vapor.
No caso do arroz branco, de cocção mais rápida, muitos destes legumes ou mesmo peixes podem ser colocados desde o início. Já com o arroz integral, eles podem ser colocados no meio da cocção. Ou é só escolher aqueles mais firmes como beterrabas, bardanas ou cenouras. Brócolis, vagens e quiabos, deixo para colocar quase no final. De qualquer forma, se optar por fazer purês ou sopas cremosas com os legumes feculentos como mandioquinhas, batatas, batatas-doces, carás, inhames, banana-da-terra etc, eles podem ser cozidos mais longamente.
Chegou em casa, o arroz está pronto e quente e o legume, pronto para ser salteado no azeite ou manteiga com algumas ervas e especiarias ou virar sopa ou purê, que é vapt-vupt. Se tiver um filé de peixe, um bife ou uma carne macia picada em tirinhas ou cubos, basta temperar com sal e pimenta e dourar na frigideira antiaderente com um pouco de azeite. E num palito seu jantar está na mesa.
Mas, se ainda quiser incrementar o uso da cestinha de vapor e adiantar ainda mais seu trabalho, deixe lá a mistura completa e temperada, como estas berinjelas. Foi só temperar e elas sairam prontas no mesmo tempo do arroz. Vários outros vegetais podem ser preparados assim e até folhas mais firmes como repolho ou acelga. Você pode usar uma vasilha de aço inoxídável ou uma travessa refratária baixa que não atrapalhe o fechamento da panela. Só tome o cuidado de cobrir com papel alumínio para que o vapor que se condensa na tampa da panela não transforme seus legumes num indesejável ensopado.

Como fiz as berinjelas: misturei duas berinjelas médias cortadas em cubo com meio pimentão verde picado e um tomate vermelho sem sementes picado; temperei com sal, pimenta vermelha ardida em flocos, uma colher (sopa) de vinagre, 1/4 de xícara de azeite e ervas frescas (manjericão, tomilho, manjerona). Coloquei tudo numa vasilha de inox, tampei com papel alumínio e encaixei na cesta de vapor da panela de arroz. Cozinhou por cerca de 1 hora ou mais (não vi quando a panela desligou, mas estava tudo quentinho na hora do jantar).
Nota: gostaria de ter colocado uvas passas, mas não encontrei; queria pimentão vermelho e não o verde, mas não havia; umas azeitonas pretas cairiam bem, mas não me lembrei delas; e o tomate não era pra entrar, mas estava dando sopa na geladeira. Então, faça sua própria mistura, boa sorte e nhac.

Que bicho é este?


Há dias acompanho o comportamento destes seres imutáveis que povoam o galho do meu ora-pro-nobis. À luz fraca são de cor flicts e para o míope passaria por protuberâncias de uma planta doente. Mas ao piscar do flash revelam-se cheias de cores. No meio delas, uma sem asa com manto desenhado de vermelho, amarelo, branco e preto. São cigarras maduras depois de anos em ninfa na terra? O que pretendem ali paralizadas? Será que à noite trocam de lugar? Tem ali uma organização? Alguns ovinhos escondidos por baixo daquelas asas? Meu ora-pro-nobis sofrerá? Será que se alimentam de sua seiva? Esperam a ecdise para espichar o esqueleto (ops, exoesqueleto)? Trocarão todas de roupa ao mesmo tempo? Aguardam a primavera para ziziar juntas no fim da tarde? Por enquanto nada acontece. Ou nem cigarra são? Ajudas, please, entomólogos de plantão.


quarta-feira, 29 de julho de 2009

Requeijão moreno com cajuzinho com cerrado



Diferente de muita gente, não sou do tipo que se derrete por um queijo. Como e gosto se ele está na minha frente, mas não o desejo. O mesmo se dá com doces, chocolates. Em compensação, não resisto à raspinha ainda quente de arroz grudado do fundo da panela, a um bom prato de sopa gorda, um quadrado de torresmo crocante e pão salgado quando sai do forno. Sorte que também gosto de muitos legumes, verduras e frutas. Então, fica tudo certo.
Por isto, no café da manhã na pousada em Pirinópolis já ia deixando passar este e tantos outros tipos de queijo. Mas resolvi experimentar porque era novidade pra mim e por causa da cor que dá o nome: requeijão moreno. Provei e repeti. Era uma massa cremosa, cozida, com gosto forte de manteiga dourada, aquele gosto amendoado combinado com um certo doce de leite. Achei que pedia mais um acompanhamento doce que salgado. Ficou bom, por exemplo, recheando uma broinha de fubá. Dizem que derrete bem, mas não sobrou dele pra comprovar.
Encontrei pra comprar na feira que acontecia na cidade, no domingo e a vendedora me explicou como se faz - tempera com a manteiga dourada (receita no link lá embaixo). Não podia deixar de trazer na bagagem - por ser bem gorduroso é também bastante resistente a viagens e chegou fresquinho. Aqui, pesquisei um pouco sobre ele e descobri que é um produto típico de Goiás, mas não só. Em Minas Gerais, mais para o Norte, parece que também é bem popular, e é vendido no Mercado Municipal de Belo Horizonte.
Ananda não ligou muito, mas Marcos gostou bastante e quase que não sobra o queijo para experiências – usei um pedaço para rechear o ravióli de baru (porque achei que iria bem com o adocicado da fruta – e combinou) e outro para acompanhar o cajuzinho do cerrado, que eu estava louca pra provar. Pena que este não chegou bem por aqui ou já passava mal quando o comprei também na feira.


Requeijão moreno com cajuzinho do cerrado
Não consegui confirmar o nome científico do exato cajuzinho que comprei, já que duas espécies do gênero Anacardium são chamadas popularmente de cajuzinho-do-cerrado, caju-do-cerrado ou cajuí: o Anacardium othonianum e Anacardium humile. De qualquer forma, era um mini caju muito perfumado, mas no retrogosto senti um azedo não de ácido mas de estragado mesmo. A espuminha na calda confirmava a contaminação. Na dúvida, foi tudo pro lixo. Mas a foto fica como dica de combinação, pois acho que se merecem. Só vou ficar sabendo mesmo quando tiver de novo a oportunidade de provar uma amostra sã. Se você já provou, me conte.
Recheio para ravioli com polpa de baru - a receita publiquei antes de ontem.

Recheio para massa com abóbora e castanha de baru

Para saber mais sobre os cajus do cerrado, acesse

Espécies potenciais do gênero Anacardium no Cerrado Goiano, de Sílvia Correa Santos Fruteiras do Cerrado, de Silva, A.P.P., Melo, B. e Fernandes, N.
Sobre o requeijão
Uma receita de requeijão moreno
Um vídeo sobre requeijão mineiro, de Pedra de Indaía, com raspa do fundo da panela

terça-feira, 28 de julho de 2009

Província, de Carlos Posada. Um videoclique na cozinha com Checho

De uma só tacada conheci melhor a vida e carreira do chef boliviano Checho Gonzáles que aparece no videoclipe acima, enviado ao Come-se pelo produtor Gilson Val, e ainda a música Província, de Carlos Posada e seu gostoso sotaque pernambucano. Gilson mandou o link a propósito do panelaço da cozinha, da cena gastronômica em ritmo de guitarra. E eu adorei a filmagem, o enquadramento, a luz, a massa de pão e a lâmina cortante no desce-e-sobe sobre a carne. Mas a música, pra mim, foi uma surpresa boa e já virei fã do jovem Carlos. Fui atrás e, de lambuja, acabei conhecendo o trabalho da banda Bárbara e os Perversos, da qual ele faz parte. Se a gente começa a fuçar, ver e ouvir myspace, youtube e que tais, este mundo estimulante não tem fim. Mas, deixe eu ir lá ver meu bolinho de fubá de arroz com abóbora que está a fermentar.

Ah, a produção do vídeo é do Gilson Val e de seu sócio há 10 anos, Eduardo Brand, que também é o diretor. Seus filmes já participaram de vários festivais como o Internacional de Vídeo do Japão, o Independente de Cinema de NY e o Internacional do Rio. Vale a pena conferir.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A polpa do baru



Amigos do Slow Food em treinamento: Fábio Sícilia e Rosângela Pezza Cintrão (Bibi) tirando castanha de baru (foto de cima). Eles chegam lá.


A polpa tirada - uma camada fina entre a pele e o caroço duro - dentro do qual está a amêndoa.
Não dá pra ir a Pirenópolis e voltar sem baru na bagagem. Desta vez (só havia estado lá uma outra vez, há uns 10 anos), trouxe não só as castanhas, mas também o fruto inteiro para testar a polpa em receitas. O Seu Bié, da Fortaleza do baru que fomos visitar (Associação de Desenvolvimento Comunitário de Caxambu), nos mostrou o processamento do fruto. Para se extrair a amêndoa, é usada prensa hidráulica ou cortador artesanal feito com uma foice adaptada e projetada de tal modo que só a capsula é quebrada, preservando a integridade da semente. Cada trabalhador consegue extrair 3 a 4 quilos de amêndoas por dia (durante a safra, no inverno). De cada mil frutos só se consegue em média 1 quilo de amêndoas, para se ter ideia do trabalhão que isto dá.
Ele nos mostrou também o que é feito com a sobra dos frutos desamendoados – viram carvão de ótima qualidade. E nos deu a provar umas lascas da polpa crua, cujo uso na cozinha poderia ser uma outra alternativa de uso além do carvão. De cor marrom, densa, cremosa e adocicada, remete a sabores perfumados como chocolate ou baunilha. Eliana, aqui de casa, acha que lembra jatobá. Eu, não.
Fiquei sabendo que daria para fazer com ela bolos, geléias, licores e pães, mas quase nunca é aproveitada como tal. O que se quer é a amêndoa. É claro que fiquei curiosa e quis trazer um tanto para fazer umas experiências. Não é muito fácil tirar a polpa na faca, faz bolhas nos dedos, mas a Eliana me ajudou e conseguimos quantidade suficiente para fazer o que eu queria. Talvez seja a falta de técnica. Lá embaixo, as receitas.

O baru: para quem não sabe, o baru (Dypterix alata) é uma árvore leguminosa típica do cerrado brasileiro. É parente do cumaru,
Dypterix odorata (fava-tonka), mas em sua semente não se nota forte presença de cumarina como é o caso deste e por isto usado como aromatizante. Tem, sim, sabor de amendoim. Fraquinho, mas tem. O baru recebe nomes populares que se confundem com a D. odorata: cumbaru, cumaru, emburena brava, pau cumaru e cumarurana. Mas também barujo, coco-feijao e fruta de macaco. Ocorre nos estados de Mato Groso, Minas, Goiás. Em São Paulo também havia, mas está praticamente extinto. Em Goiás, muitos fazendeiros tem cortado baruzeiros antigos para darem lugar à soja.

O que mais se aproveita da árvore alta e vigorosa são as sementes bastante nutritivas que devem ser torradas (cruas, apresentam um fator antinutricional - inibidor de tripsina) e podem ser usadas do mesmo jeito que amendoim, nozes e castanhas de caju. No pesto, no pé-de-moleque, nos cereais matinais, nos pães, biscoitos.


Mas a polpa também é uma ótima fonte energética, rica em proteínas, fibras e carboidratos e são apreciadas pelos animais silvestres. Gados comem o fruto inteiro e descomem as sementes com sua cápsula lenhosa (endocarpo) intacta.



Dendê não é animal silvestre, mas a viralatinha age como se fosse - abocanhou os dois frutos que foram ao chão da cozinha e correu quanto pode para trás do sofá. Os dois só voltaram em cena quando já estavam no osso, como escovinha seca (são os da foto). Não desperdiçou nadinha da polpa (mesocarpo). E ontem fiz um tanto de talharim com polpa e deixei secando. Quando me dei conta de que ela poderia alcançá-los, era tarde. Só sobraram dois cadarcinhos de massa que separei pra foto, mas misteriosamente sumiram hoje da cozinha - pergunto, pergunto e Dendê não me responde se pegou ou não. O Seu Bié me contou que ninguém fala muito sobre isto, mas que a polpa é vermífuga. Que bem faça à Dendê, então. Um dos inconvenientes da polpa é que é rica em taninos, mas quando os frutos estão bem maduros, eles somem. Nos que trouxe não havia nenhum resquício de travo ou amargor associados à substância.

Para extrair a polpa os frutos podem ser cozidos e raspados, depois de tirada a castanha. Eu preferi tirar a polpa crua, com faca, mas reconheço que não é o jeito mais prático. De qualquer forma, tudo o que fiz deu certo. Talvez possa ser aperfeiçoado, mas não o será por mim, já que dificilmente terei de novo estas polpas em mãos. Deixo a experiência para quem tem por perto farta polpa de baru. E, pelo menos quem mora em Goiás, deve ter.

Primeiro, quis fazer um mingau bem simples pra criança comer no lanche da tarde - aproveitei a mandioca que tinha aqui cozida e congelada e a rapadura de fim de tacho que trouxe da feira de Pirinópolis, mas ficou tão bom que acho que não faria feio se fosse servido como sobremesa. Depois achei que a polpa adocicada mas não muito faria uma boa massa de macarrão que poderia ser recheada com a própria castanha, abóbora cozida e requeijão moreno que trouxe de lá também. A massa adocicada casou bem com este recheio e com a manteiga clarificada que a banhou. E, por fim, acabei de fazer um pão neutro em sal e açúcar, usando a polpa e a castanha. Quente, com manteiga derretendo sobre a fatia, estava bem bom. Mas acho que vai ficar melhor quando frio - menos perfumado. Fiz tudo a olho, mas tive o cuidado de anotar o que fui juntando. Então, às receitas:

Creme de baru com mandioca e rapadura
1 xícara de leite
3/4 de xícara de mandioca cozida em água, sem o miolo
1/3 de xícara de polpa de baru maduro
3 colheres (sopa) de rapadura picada ou a gosto
10 castanhas de baru torradas e picadas
Para a calda: 3 colheres (sopa) de rapadura picada, água, 1 colher (chá) de suco de limão
Leve ao fogo o leite, a mandioca cozida, a polpa de baru e a rapadura. Quando ferver e a rapadura derreter, bata com mixer ou no liquidificador até resultar num creme bem liso. Espere esfriar, cubra e coloque na geladeira até ficar bem gelado. Bata de novo com o mixer para ficar bem liso, despeje em taças e sirva com a calda (veja abaixo), polvilhado com castanhas de baru.
Faça a calda: leve ao fogo a rapadura com um pouco de água. Espere derreter a rapadura e começar a caramelar. Junte, aos poucos, mais um pouco de água e deixe ferver até formar um xarope grosso. Desligue o fogo e despeje o suco de limão. Se estiver ainda muito grosso, junte um pouco mais de limão ou água.
Se quiser, coloque em copinhos e cubra com a polpa de baru ralada. Ou coloque tudo ao mesmo tempo: as castanhas picadas, a polpa ralada e um pedacinho de fruta cristalizada.
Rende: 3 a 4 porções
Pão de polpa e castanha de baru
1 xícara de água morna (240 ml)
1,5 colher (chá) de fermento biológico seco
1 colher (chá) de sal
150 g de polpa de baru
1 ovo
50 g de manteiga em temperatura ambiente
400 g de farinha de trigo (ou mais, se necessário)
40 g de castanha de baru torrada e picada
Misture a água com o fermento e mexa para dissolver. Coloque no liquidificador este fermento diluído junto com o sal, a polpa de baru e ovo. Bata bem até formar um mingau liso e cremoso. Coloque numa tigela e junte a farinha aos poucos, mexendo sempre com uma colher de pau (ou coloque na máquina de pão) no modo massa. Quando quase toda a farinha já foi adicionada, coloque a manteiga e misture bem, amassando com as mãos (se não estiver usando a máquina de pão). Quando a manteiga estiver bem incorporada, junte a farinha restante e amasse bemobter uma massa lisa e brilhante que se solte das mãos. Se preciso for, junte mais farinha. Acrescente metade das castanhas e misture bem para incorporá-las. Cubra a massa com um pano e deixe em lugar abafado para crescer até dobrar de volume. Molde um pão redondo, pulverize água e espalhe por cima as castanhas picadas restantes. Coloque numa assadeira untada com manteiga e polvilhada com farinha. Deixe crescer novamente até recuperar o volume. Faça corte em cruz na superfície e leve ao forno (250ºC) pré-aquecido. Deixe assar por 10 minutos. Abaixe o fogo para 180ºC e deixe assar por mais 50 minutos. Deve ficar bem dourado (observe que o meu deixei passar um pouco os 10 minutos iniciais, por esquecimento, e ficou mais dourado que o desejado).
Rende: 1 pão
Ravioli do Cerrado (massa de polpa de baru recheada de abóbora, requeijão moreno e castanha de baru, com manteiga clarificada e alfavaca)
Massa
3 ovos
100 g de polpa de baru maduro
260 g de farinha de trigo especial (ou mais, se necessário)
1 pitada de sal
Recheio
150 g de requeijão moreno (de Pirinópolis) ralado
150 g de abóbora cozida e amassada
50 g de castanha de baru torrada e finamente picada
1 pitada de sal
Manteiga
5 colheres (sopa) de manteiga
3 colheres (sopa) de alfavaca picada
3 colheres (sopa) de castanha de baru torrada e picada
A massa: bata no liquidificador os ovos com a polpa de baru até obter uma mistura bem lisa. Passe para uma tigela e junte a farinha e o sal. Trabalhe a massa com as mãos até conseguir uma bola bem firme, flexível e homogênea. Se tiver um bom processador de alimento, bata primeiro a polpa com os ovos e junte a farinha com o sal. Bata até formar a bola. Enrole em filme plástico e deixe repousar na geladeira por 1 hora.
O recheio: misture todos os ingredientes e deixe na geladeira por 1 hora.
Abrindo e recheando: cilindre a massa na máquina de macarrão, diminuindo a espessura gradativamente até chegar no grau 4. Coloque a massa sobre superfície enfarinhada, marque-a com o cortador de ravioli no formato desejado. Coloque bolinhas de recheio no meio da massa, pincele água onde será colado e apoie outra massa por cima. Corte, pressionando bem e deixe os ravioli sobre pano enfarinhado enquanto termina toda a massa (os retalhos são juntados e cilindrados novamente). Cozinhe em água salgada (2 litros de água e 1 colher (sopa) de sal) fervente, em 3 ou 4 porções. Deixe cozinhar cada porção por 3 minutos. Retire os ravioli com escumadeira, passe para uma travessa e mantenha sobre uma panela com água fervente, para que não esfriem.
Manteiga: aqueça a manteiga em fogo baixo e vá tirando devagar a espuma que se forma até resultar numa gordura bem límpida. Junte, então, as castanhas e a alfavaca e cozinhe por 20 segundos. Tire do fogo imediatamente.
Montagem: distribua os ravioli nos pratos, cubra com um pouco da manteiga e sirva com folhinhas de alfavaca.
Rende: 5 porções
Para saber mais sobre o baru, acesse os trabalhos
Avaliação cinética de comportamento de componentes do baru (Dipteryx alata Vog.) para estudo da vida de prateleira da polpa do fruto, de Aline Luiz de Mendonça
O extrativismo de baru (Dipteryx alata Vog.) em Pirenópolis (GO) e sua sustentabilidade, de Denise Lúcia Mateus Gomes Nepomuceno
Baru, biologia e uso. Documento da Embrapa.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Tordesilhas norteado

Mara Salles e seu sócio no Tordesilhas, Ivo Ribeiro, acabaram de voltar do Norte. Junto com o chef Leonardo Botto, do restaurante La Frontera (R. Coronel José Eusébio, 105, Higienópolis, 3159-1197), a convite do Instituto Socioambiental, foram conhecer São Gabriel das Cachoeiras, onde navegar é preciso. À cidade, que no mapa tem formato da cabeça de um cachoço, na beira do alto rio Negro, só se chega por água ou via céu. Mara me convidou para ir também, mas tinha a viagem para Pirenópolis, e eu fiquei na vontade. Um dia, quero ir. Pelo menos, os chefs voltaram com a mala cheia e ontem, com outros sortudos (Carlos Alberto Dória e Pedro Martinelli também estavam lá), Marcos e eu tivemos o privilégio de provar algumas das criações a partir dos ingredientes da bagagem. Tudo temperado com pimenta defumada dos Baniwa e entremeado de vistosos bijus. O cardápio foi só para apresentação dos ingredientes e preparos para os amigos, uma gentileza dos chefes, mas duvido que depois desta viagem o cardápio do Tordesilhas estará livre dos pitacos do norte. Não será de se espantar, portanto, se a gente der de cara com um tucupizinho preto aqui ou uma formiguinha saúva acolá temperando as maravilhas da dona Mara. Por enquanto, fique com as fotos dos pratos que estavam todos divinos, de causar comoção e orgulho pela nossa comida que não conhecemos.
Mara Salles servindo a Mujeca de surubim (uma sopa de peixe engrossada com biju, bem apimentada)
Os bijus são feitos com uma mistura de massa de mandioca fresca e pubada. Sequinhos, enormes.
O chibé é uma mistura de água com farinha d´água. Mas Mara temperou com coentro, chicória-do-pará, cebolinha e um sal mínimo de um camarãozinho seco. A farinha é a de Uarini (ovinha). Com este, eu viraria uma papa-chibé.

Na salada com acelga, agrião e laranja, amanteigadas e cremosas fatias de tucumã (já falei do tucumã aqui).

Olhete aos tucupis, um "ceviche" amazonense de sabor indescritível.
Filhote (o peixe) com molho de tucupi e formigas saúvas que temperam como laranja, capim-santo e gengibre. Com purê de banana purinho. Só comendo pra saber como estava bom isto.

E, pra fechar com alegria, duas bolas de poesia. Sorvete de açaí e de tapioca em tapete de jambu fresco com gominhas de tapioca.

A pimenta Baniwa


Carlos Alberto (Beto) Ricardo, do ISA, Carlos Alberto Dório e Pedro Martinelli.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Catolé



Catolé é um nome comum, que até ir a Pirinópolis desconhecia. Comum para alguns tipos de palmeira, incluindo a gueroba ou guariroba, que dá o palmito mais famoso do Cerrado. Segundo me explicou o feirante, a diferença entre os dois se dá no sabor. Enquanto o palmito da gueroba é amargoso, amargo por ser, só amargo sem saber a nada, o catolé, não. É amargo, mas saboroso. De fato, achei bem gostoso, mas sou suspeita e também acho o mesmo da gueroba, que adoro. Só com muito treino para saber distinguir os dois com segurança. E isto ainda me falta.
Demorei para descobrir o nome científico da palmeira, pois o termo catolé ou catulé se aplica a vários tipos de palmito amargo. No afunilamento da pesquisa, achei duas espécies afins, Attalea geraensis, originária do Brasil e Attalea exigua, originário do Cerrado, ambos com descrições parecidas e muito de acordo com o tipo de broto que tinha em mãos. E os dois nomes dão como sinônimos populares os mesmos indaiá-do-campo, indaiá-do-cerrado, indaiá, insiá e coquinho-catolé. Mas o segundo, A. exigua, me pareceu mais apropriado, porque o encontrei num livro sobre cozinha regional que diz ser este originário do Cerrado, encontrado nos estados da Bahia, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Tocantins.

A palmeira que tem caule junto ao chão, e de julho a janeiro dá frutos marrons com ótima amêndoa para a extração de óleo parecido com o de babaçu. As folhas são firmes e duráveis, aproveitadas para fazer cobertura de casas ou para a produção de fibras para artesanato.

E o palmito é assim, sem aquela elegância retilínea do açaí, da pupunha, da juçara ou da palmeira real. E descascá-lo pode aliviar a culpa de quem não tem freqüentado a academia. Depois de meia hora, aos golpes, tentando desvendar um miolo cortável e que tivesse cara de palmito, a Eliana deixou a roupa que passava e veio me perguntar com quem eu estava lutando. Não foi fácil, mas despi à força o bitelo de 2 quilos e consegui salvar só 160 gramas do cerne amarelo, adocicado e amargo (provei cru - vem um docinho enganador anunciando um amargo cruel, que parece vir a danar com a glote). Deixei imerso em água enquanto fatiava, porque oxida facilmente. E dei uma escaldada em água salgada antes de botar no arroz - foi o uso que me ocorreu, para, assim, aproveitar também o pequi e as cebolinhas que trouxe da viagem. Ficou muito bom. Claro, pra quem gosta de guerobas, jurubebas e jilós.


Arroz com catolé, pequi, cebola branca do cerrado e cúrcuma
1 colher (sopa) de banha de porco
2 dentes de alho socado ou picado finamente
1 xícara de arroz cateto
1/2 colher (chá) de cúrcuma (açafrão-da-terra) em pó
1 colher (chá) de sal
160 g de palmito catolé picado e aferventado
3 caroços de pequi (crus ou em conserva)
10 cebolinhas brancas (chalotas) frescas - com parte da folha verde
3 xícaras de água fervente
2 colheres (sopa) de cebolinha picada - pode usar a cebolinha da chalota
Numa panela, coloque a banha e o alho. Leve ao fogo e deixe dourar. Junte o arroz e a cúrcuma e refogue, mexendo, por cerca de 1 minuto. Junte o sal e mexa. Adicione o catolé, o pequi e as cebolinhas. Por último, despeje a água fervente e não mexa. Abaixe o fogo no mínimo, tampe e deixe cozinhar até não restar mais água e o arroz ficar macio. Desligue o fogo, deixe a panela tampada por cerca de 10 minutos. Junte a cebolinha e sirva.
Rende
: 4 porções

terça-feira, 21 de julho de 2009

Pirinópolis, catolés e caramoelas


Excesso de bagagem: frutos de baru, chuchus pra plantar, biscoitos de queijo, doce de leite na lata, mané-pelado, marmelada de santa luzia, pequi em conserva, compota de cajuzinho do cerrado, frutas cristalizadas, castanhas de baru, queijo branco, requeijão moreno, geleia de cagaita, geleia de hibisco, cará-moela, cúrcuma, cebolinha branca, semente de quiabo, de alfavaca, feijão guandu, muda de cará-de-espinho e um pilão duplo e pesado. Fora as ovas de curimatã que ganhei da Adriana, de Natal, e caju-passa, presente da Irineide, de Recife. Que eu me lembre.
Com excesso de bagagem, cheguei ontem de Pirenópolis - GO, a terra do empadão e da pamonha, onde líderes de convívios brasileiros do Slow Food se reuniram para discutir assuntos como Arca do Gosto, Fortalezas e Terra Madre. Graças ao apoio do IMCA (Instituto Morro da Cutia). A escolha do lugar foi estratégica já que poderíamos ser recepcionados pelo Convívio local e ainda conhecer a Fortaleza do Baru, ali perto. Não deu tempo de fazer trilhas nem visitar cachoeiras, porque a programação de reuniões foi intensa, com discusões às vezes acaloradas. Mas no final o que fica é o calor do encontro de pessoas unidas por um ideal (aquela coisa do Slow Food - comida boa, limpa, justa). Apesar do aperto, quem não foi pra gandaia na rua do lazer no sábado à noite ainda conseguiu acordar cedo e pegar a feira-livre de domingo, com produtos locais, antes de subir no ônibus para a visita programada para 8 horas da matina.

Na feira: palmitos guerobas, leite cru, jurubebas, cará-moela, ovos caipiras

Na pousada: queijo com rapadura

Segundo a cozinheira Nadja, as almôndegas são chamadas por lá de armoncas. Estas, minis, com molho de goiaba, estavam muito boas.
Quando não se está discutindo rabos da reunião, o assunto preferido dessa turma, advinhe qual é. Comida, claro. Tem gente de tudo quanto é lugar do Brasil e o que mais me empolga são as diferenças regionais que aparecem a todo momento. Basta alguém pegar um limão que já aparece um repertório enorme de nomes. Na minha terra este limão se chama galego. Não, é limão-china. Que nada, lá onde moro é limão comum. Imagine, na minha cidade, é limão bergamota. Sem certo nem errado, assim vai. Aguarde filminho sobre isto.
No domingo fomos ainda conhecer a Associação de Desenvolvimento Comunitário do Caxambu, da Fortaleza do Baru, uma comunidade de agricultura famíliar que beneficia o baru e cultiva vários outros alimentos seguindo um modelo agroecológico. Fomos pra roça, andamos no mato e almoçamos frango caipira e outras delícias. Trouxe de lá sementes de feijões guandus de cores variadas, milhos crioulos, quiabos nativos, hibiscos vermelhos e rosados, raiz de cará de espinho etc. Mas também deixei em troca alguns feijões - levei minha caixinha de amostras e havia nela muitas variedades não existentes por ali.
Na Pousada Mandala nossos almoços e jantares foram preparados por dois cozinheiros talentosos do Convívio de Pirenópolis: a Nadja Nairas e o Sebastião Maria de Sá, que nos mimaram com angu de milho verde; paçoca de carne seca com baru; risoto goiano - com pequi, linguiça, guariroba e cúrcuma; doce de laranja da terra; caldinhos de feijão e de abóbora e pratos que estimulavam o repeteco. Mas o café da manhã e os lanchinhos não ficavam atrás - todos incrementados com ingredientes locais. Comida boa também comemos no Dom Francisco, restaurante do Francisco Ansiliero, líder do Convívio de Brasília.

Em Pirenópolis, a feira chamou minha atenção a quantidade de jurubeba que tem pra vender em várias bancas. E pelas garrafas de leite cru, pelo requeijão moreno, o frango caipira, os palmitos catolés e também os guerobas enormes. Bem, agora preciso dar conta daquela mesa de coisas.
Se quiser ver mais fotos, aqui estão:
No Restaurante Dom Francisco
Fotos da Fortaleza do Baru
Fotos da cidade de Pirinópolis

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Café-cricri e outras crias de Eldorado


Só ia voltar a escrever aqui depois que voltasse de Pirenópolis, para onde estou indo amanhã para uma outra reunião da Arca do Gosto, do Slow Food. Porque tinha trabalhos a adiantar e também porque estava com preguiça.
Mas não posso deixar de falar do monte de presentinhos que recebi da Cenia Salles e da Claudia Mattos, trazidos da cidade de Eldorado-SP, para onde eu deveria ter ido, na Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas, e não fui porque amarelei com a chuva forte que caiu aqui no sábado.
Como sou sortuda e tenho bons amigos, Eldorado veio até mim. Muda de cana, raízes de mandioca branca e cremosa, rizomas de bananas maranhão e pacová, maracujá do mato e taiá roxo para plantar (o nome taiá é, em alguns lugares, aplicado para os tubérculos de taioba; em outros, para o inhame ou taro, da mesma família das Aráceas, assim como o mangarito). Veio também canela brasileira, pau e mudinha, cacho de arroz pratão, espigas de milho crioulo amarelo e de palha roxa, mini chuchu antigo, maxuxinho, amostras de cuscuz de mandioca e de arroz (já falei deste cuscuz do Vale do Ribeira aqui) para comer com o café-cricri, que veio também em vagens aveludadas.

Pois é, café em vagem. O costume de se substituir grãos do verdadeiro Coffea arabica por substitutos mais rápidos e baratos não é de hoje. Fiquei intrigada com o que me contou a Claudia sobre o uso dos grãos pretos e torrados, chamados de café cricri ou café mucuna, no lugar da bebida clássica, entre os quilombolas do Vale do Ribeira, e fui pesquisar um pouco. Primeiro, achei vários artigos e teses a respeito que não acabam mais, principalmente se você for ao Google Acadêmico e procurar pelo nome científico (Mucuna pruriens, para a mucuna cinza e Stilozobium aterrimum para a mucuna preta).
Depois liguei para os meus pais perguntando se conheciam. Meu pai disse que depois da segunda guerra, quando era criança, era o que tinha para gente pobre beber. Não que ele não fosse pobre, mas não chegou a experimentar, julgava coisa ruim. Minha mãe contou com mais detalhes. Quando se mudou, ainda criança, para Lobato, no Paraná, era tudo mato e a família teve que abrir clareira para construir a casa com a própria madeira tirada à machadada. Na mudança apenas roupas, panelas e alguns sacos de farinha, polvilho, araruta, arroz, feijão, galinhas e sementes e manivas para plantar, esperar crescer e comer. O café era luxo que demorava cinco anos para produzir. E venda por perto não havia - o patrimônio era distante, não havia estradas e mesmo assim era muito caro. O jeito era fazer café de milho e fedegoso. Era tostar até escurecer e moer como o café. Até que a família ganhou sementes de cafezinho, café-mucuna ou café-feijão, a trepadeira que deu flores roxas lindas e vagens escuras e aveludadas que, em três meses estavam secas e prontas para colher. Era trabalho de criança colher o cafezinho. E depois também o trabalho quase divertido de moer. Antes era torrado por adulto no fogão de lenha por cerca de 25 minutos. O sabor era muito melhor que o café-de-milho que só enganava na cor. Não era lá tão bom quanto café verdadeiro, mas era agradável para se tomar com leite.

No trabalho
Blend de café com mucuna preta: análise sensorial por não especialistas publicado na Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais (Campina Grande, v.5, n.2, p.117-125, 2003), os autores Nayara Lia de Lima Aragão e outros dizem que entre as populações mais carentes do Brasil ainda é hábito torrar vários outros grãos para substituir o café e citam a algaroba, mangirioba, feijão guandu e mucuna preta como os grãos mais usados para este fim. Como a mucuna preta parece ser a opção mais barata e popular, fizeram uma degustação com 30 painelistas, em Campina Grande – PB, para avaliar o blend de café com mucuna em diferentes proporções. Ganhou a proporção de 10% com mucuna torrada com coloração mais escura. Com isto, sugerem a possibilidade de blends assumidos e rotulados, inibindo, assim, a prática comum de fraude para aumentar o volume do café e reduzir custos (com milho, palha do café, cevada etc).
A planta é originária do Sudeste da China e leste da Índia, mas hoje é cultivada em vários países. No Brasil, além do uso como café, é muito utilizada como forrageira para fixar nitrogênio da terra e ainda evitar o surgimento de ervas daninhas (veja vídeo no You Tube). Na África tem-se estimulado seu uso na alimentação humana por ser ótima e barata fonte de carboidratos e proteínas. O único problema é que os grãos apresentam fatores antinutricionais e altas concentrações de levodopa ou L-Dopa, substância tóxica que pode causar confusões mentais e outros efeitos colaterais. Mas isto pode ser resolvido eliminando a substância no preparo (deixam-se de molho as sementes em água corrente por 3 dias ou se as fervem por 60 minutos e depois joga a água fora, por exemplo - isto para o uso na panela). Agora, é justamente por causa desta substância, um precursor direto do neurotransmissor dopamina, que os grãos se transformam num procurado remédio ayurvédico (Kapikachhu) para substituir a dopamina sintética nos casos de doença de Parkinson.
Voltando ao café, em outro trabalho publicado na mesma Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais (Campina Grande, v.2, n.2, p.1-8, 2000), os autores Marcelo Barbosa Muniz e outros avaliam o efeito do tempo na torrefação dos grãos de mucuna-preta e chegam à conclusão quanto ao tempo ideal para torrefação dos grãos de mucuna – 25 minutos - e não identificaram princípios tóxicos nos grãos torrados e preparados.
A quantidade que ganhei não deve me render uma xícara de infusão, mas vou plantar, colher, torrar, moer e experimentar.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Volto na semana que vem


Bordado de pendurar na parede. No museu de Antonio Prado-RS.
Volto na terça-feira com novidades de Pirenópolis.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

É hoje. Convite: Entre estantes e panelas - Ingredientes e Territórios

Palestra
Hoje, (dia 13 de julho) às 18:0 0

Tema: Entre estantes e panelas - Ingredientes e territórios
Palestrantes: Ana Luiza Trajano, Neide Rigo, Roberta Sudbrack, Roberto Smeraldi e Betty Kövesi
Local: Livraria Cultura Conjunto Nacional - Av. Paulista, 2073 - São Paulo/SP
Talvez estejamos diante de uma importante guinada na gastronomia: a exaustão das receitas e a horizontalização da última 'revolução técnica' (nanotecnologia e informatização das cozinhas) apontam para a possibilidade para se trabalhar com maior liberdade e criatividade os ingredientes. Ingredientes são entendidos como tudo aquilo que entra como matéria-prima num processo de produção. Qual a situação geral dos 'ingredientes brasileiros', isto é, aqueles que de alguma maneira possam ser identificados com a nacionalidade? Há, necessariamente, que distinguir a perspectiva histórica, cultural, da perspectiva presente. É desejável que os palestrantes abordem questões relativas a acesso, logística, legislação de proteção, processos que ameaçam sua existência, 'descobertas' recentes, etc, além de ações públicas (de ONGs, de órgãos públicos, de particulares) visando produzi-los, preservá-los, democratizar o consumo. Interessa também abordar as relações sociais que estão por trás da sua produção (sustentabilidade etc.). Além disso, vale compartilhar quais são os processos de investigação de um ingrediente, como chegam a novos usos, a aplicações que se diferem das já consagradas pelo receituário de 'domínio público'. A mediação será feira por Betty Kövesi.

* O evento acontercerá no Teatro Eva Herz.
** Haverá distribuição de senhas a partir das 17h em frente ao Teatro.

Fonte: Site da Livraria Cultura (veja lá outros eventos)

Amendoim-de-árvore


Pelas respostas à última charada, vejo que muita gente já conhecia estas castanhas que para mim, assim como para os outros leitores que arriscaram, ainda era um mistério. Acertaram em cheio: Elena sem H, Bruno Moreira-Leite, Isabel, Sanoliv e Sítio Curupira (inclusive já foram mostradas em seu blog).
De todos os ingredientes que falo aqui, muitos chegam até mim e não eu a eles. Às vezes em dose dupla. Explico: no feriado acabei não indo ao Vale do Ribeira, na troca de sementes dos quilombolas, mas precisei ir a Piracicaba visitar a sogra. E sempre que vamos para aqueles lados insisto com o Marcos para que, em vez de pegar a reta e rápida Bandeirantes, vá pela Rodovia Anhanguera, mais longa e cheia de curvas, por mero capricho. Sem reclamações, sou sempre atendida. Só para poder parar no Frango-Assado original, do lado direito da pista, na altura de Louveira. Não pelo frango nem pelos enormes pães de semolina, carros chefes do lugar, mas porque é lá onde se vendem umas mudas de frutas estranhas. Desta vez me chamaram a atenção a Physalis trepadeira, de variedade diferente dos camapus que tenho aqui nas calçadas, e um pé de amendoim de árvore, do qual nunca tinha ouvido falar. O rótulo pendurado no galho não dava grandes dicas, mas dizia que as sementes poderiam ser torradas e tinham gosto de amendoim. Ótimo, de comer.
Até aí, tudo bem, as coisas me chegam geralmente assim. Mas, para completar o aprendizado, em Piracicaba fomos almoçar por acaso na casa de um primo do Marcos e entre uma garfada e outra passei um olhar indiscreto pela cozinha procurando algo de meu interesse. Dei de cara com uma assadeira cheia de frutinhos secos abandonada num canto. A pergunta de sempre: O que é isto, é de comer? / A gente dá pro papagaio, tem um pé lá na chácara, mas tem gente que come, tem gosto de amendoim foi a resposta do primo. Quebrei uma das nozes apertando a casca firme e quebradiça e provei; tinha mesmo o sabor de amendoim cru, muito suave, gostoso.
A palavra amendoim e o sabor que senti me fizeram desconfiar se tratar da mesma planta que havíamos acabado de comprar. Fomos conferir no carro e o primo confirmou, era a própria. Fiquei tão empolgada que quis ir até a chácara ver a árvore com frutos. O primo tinha acabado de vir de lá, mas topou voltar, já que estávamos perto – cerca de 8 quilômetro dali. Chegando ao pomar, contemplei, colhi, fotografei, comi. E no caminho de volta, ainda desviamos para ver mais uma carreira de árvores com frutos na calçada de outra chácara. Pronto, estava satisfeita. Agora era chegar aqui e saber mais.


O pezinho que comprei na loja do Frango Assado

O exemplar piracicabano e o primo Claudio coletando os frutos abertos no chão

O fruto que colhemos lá. Uma cápsula que, quando madura, se abre, expondo as sementes envoltas em paina (é parente da paineira)

As sementes comestíveis envoltas na paina
Descobri que a Bombacopsis glabra Pasq. é parente da paineira, e é também conhecida como castanha-do-maranhão, cacau-do-maranhão, mamorana, cacau-selvagem ou amendoim-de-árvore. A família Bombacaceae, à qual pertence, está distribuída pelas regiões tropicais da América, África, sudeste asiático e noroeste australiano. No Brasil, o amendoim-de-árvore ocorre naturalmente entre Pernambuco e Rio de Janeiro, em formações secundárias de floresta pluvial atlântica e começo de encostas – no interior de matas primárias e densas, esta planta é raridade. Mas, em se plantando, em qualquer lugar dá. Em Santa Catarina é usada como cerca viva e em várias outras cidades é usada como árvore ornamental. Chega a atingir de 4 a 6 metros; tem tronco fino, com no máximo 40 centímetro de diâmetro e folhas compostas e digitadas com 5 a 7 folíolos. A floração começa a partir de setembro, sendo que a safra dos frutos vai de janeiro a fevereiro. Mas, um ou outro fruto pode ser encontrado durante o ano todo - prova disto é que colhemos estes frutos da foto agora, em pleno julho.
As cápsulas, quando maduras e secas, caem e se abrem espontaneamente liberando as castanhas cobertas com uma fina paina que se solta facilmente num esfregar entre mãos. Já o cerne comestível é protegido por uma camada mais firme me flexível, quase como uma castanha portuguesa - porém, depois de seca e torrada, pode ser quebrada com a pressão dos dedos. Podem ser comidas cruas ou torradas. Eu preferi cruas, com textura de amendoim ainda verde e sabor do mesmo. Tostadas no forno (deve-se cortar uma pontinha com a tesoura para que não estourem) ganham um sabor amendoado, mais suave que o amendoim.
A planta é
parente também de outra espécie muito parecida, a Pachira aquatica, que recebe os mesmos nomes populares, além de macuba, e também tem as sementes comestíveis. Porém seus frutos são de cor terrosa e as flores tem pontas vermelhas, diferente da Bombacopsis, que tem flores frutos verdes e flores brancas. Lembro ter visto muitas destas no Parque do Flamento, no Rio. Mas ainda não comi.
Li num artigo que o amendoim-de-árvore pode ser uma boa alternativa como fonte proteica e de ácidos graxos (como quase todas as sementes comestíveis), na África, onde a árvore cresce abundantemente. Não encontrei referências culinárias sobre pratos feito com ele, mas quando chegar a safra prossigo na pesquisa. Enquanto isto, se alguém souber de algum preparo com este ingrediente, qualquer informação é bem-vinda.
Lembrando: é hoje lá na Livraria Cultura, às 18 horas. Apareça!