

Até hoje só encontrei uma pessoa que conhece jiquiri além da minha família. É a Nira, paranaense que trabalhou aqui durante um tempo e que nunca mais viu a plantinha. E eu ainda não paguei a promessa de dar a ela umas sementes, que já estão aqui guardadas.
Minha mãe, Olga, e irmã, Fátima, lidando com a plantinha espinhenta
Minha mãe sempre disse que quando criança comia o refogado da erva que crescia espontaneamente na roça. Que era feito um refogado com alho e servido com angu temperado com banha. E que era uma delícia, tinha saudade, embora fosse daquelas comidas trabalhosas para dias menos abastados. Para mim, este tal de jiquiri era um fantasma pois nunca tinha ouvido sequer a palavra da boca de ninguém nem tampouco soube de alguém que comesse a tal iguaria.


Em mutirão, o trabalho é rápido Mesmo quando meus pais se mudaram para o sítio, em Fartura, continuei achando que isto tudo era invenção. Nunca achei sequer em livros. Mas, assim que resolvemos construir uma casa lá no alto do morro, notei a plantinha espinhenta tateando o pé de gueroba. Minha mãe logo a identificou como o tal do jiquiri. Esperamos crescer e sempre ficamos de prepará-lo num dia em que eu estivesse lá. Nunca dava certo, já que a oferta de comestíveis de gostosura certa por lá é de tanta fartura que sobra pouco espaço para os gostos duvidosos.
Afinal, o que levou o homem a identificar aquela planta de aspecto repelente e nada amigável como comestível? Talvez a fome. Ou talvez seus lindos frutos atrativos. Só que, ao contrário do que se poderia pensar, os frutos rajados de verde e branco como pequenas melancias (cerca de 3 centímetro) são horríveis como juás bravos para se comer (sim, eu tentei), cheios de ácido oxálico, que é como morder uma almofada de agulhas. Já as folhas, são protegidas por espinhos não só nos galhos mas nas próprias nervuras e elas, sim, são comestíveis e gostosas. Eu já havia provado, mas pouca coisa. Meus irmãos desconheciam. Gostaram muito, mas não conseguiram descrever o sabor erbáceo. Tem um quê das solanáceas como folhas de batatas ou de tomate. As folhas tornam-se aveludadas com o calor úmido. Mas o gosto é mesmo de jiquiri. Quem não tem por perto a planta dificilmente vai ver algum dia no mercado, pois a danada é difícil no trato. Vai enroscando em tudo, nos dedos e nos panos. Tem que usar luvas e tesouras e talvez por isto tenha desaparecido das mesas. Mas, no fim, achei que todo o trabalho valeu a pena. Depois de cozido, seus espinhos se abrandam e os dos brotos já são naturalmente macios. E o sabor é, sim, delicioso, como dizia minha mãe.

Foto dos frutos: Inês Correa. Os frutos são lindos e rudes Agora, como esta planta nasce por aí espontaneamente é que é o mistério. Quem será que consegue se alimentar daquele fruto enganador e rude? E a casca não é fininha com a do tomate, por exemplo, para que um pássaro consiga bicar facilmente. Mas em algum momento, algum bicho come e descome, se não não nasceria assim sem ser semeado.
Foto dos frutos: Inês Correa. Os frutos são lindos e rudes Agora, como esta planta nasce por aí espontaneamente é que é o mistério. Quem será que consegue se alimentar daquele fruto enganador e rude? E a casca não é fininha com a do tomate, por exemplo, para que um pássaro consiga bicar facilmente. Mas em algum momento, algum bicho come e descome, se não não nasceria assim sem ser semeado.
Desta vez aproveitei que o pé estava cheio e vistoso e a presença das irmãs para fazer um mutirão e cortar folhinha por folhinha com tesoura. E também agora sei um pouco mais sobre a planta. Sobre o Jiquiri Solanácea como o jiló, a jurubeba, a berinjela, a planta é nativa das áreas de floresta das Missões na Argentina, além do Brasil (Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo) e Paraguai (Alto Paraná, Canindeyú, San Pedro). Diferente das parentes citadas, esta é trepadeira. Em latim, é Solanum alternatopinnatum Steud (sinonímia botânica: Solanum juciri Mart. ex Sendtn.). Outros nomes: pode ser chamado também de Juciri e no Paraguai responde por yuá pará. Para saber mais, leia AQUI. Segundo o dicionário do Houaiss: Juciri ■ substantivo masculino
Rubrica: angiospermas. trepadeira (Solanum juciri) da fam. das solanáceas, nativa do Brasil (RJ a SC), com folhas compostas, flores brancas e bagas globosas; caruru-de-espinho, jequirioba, jiquirioba, juá, juqueri [As raízes são us. como desobstruentes e calmantes.] Etimologia segundo Nascentes, do tupi yusi'ri; JM identifica o el. inicial tupi yu 'espinho'; cp. juquiri. Fiz a receita simplória seguindo as orientações da dona Olga.
Jiquiri com mingau de fubá
Ingredientes
4 pratos cheios de folhas e brotos de jiquiri
2 colheres (sopa) de óleo ou azeite
6 dentes de alho finamente picados
1 colher (chá) de sal
2 xícaras de água quente
Para o mingau de fubá (angu)
2 xícaras de fubá
3 litros de água
1 colher (chá) de sal ou a gosto
1 colher (chá) de banha de porco
Modo de fazer: lave bem as folhas e brotos de jiquiri (tirados com tesoura). Escorra e reserve.
Numa panela coloque o óleo, junte o alho picado e leve ao fogo. Deixe dourar. Junte 1 colher (chá) de sal, mexa e junte, em seguida, a água. Junte o jiquiri, mexa, tampe a panela e cozinhe por cerca de 10 minutos ou até as folhas ficarem bem macias. Prove o sal e corrija, se necessário.
À parte, faça mingau ou angu. Dilua o fubá em 2 xícaras de água e leve o restante ao fogo alto. Quando ferver, junte o fubá diluído e mexa bem até engrossar. Junte o sal e a banha, abaixe o fogo e deixe cozinhar por 1 hora. Deve ficar bem cremoso e aveludado. Sirva em prato fundo com o jiquiri por cima.
Rende: 6 porções
Notas Se quiser aproveitar esta receita e não tiver o jiquiri, substitua-o por folhas de mostarda, serralha, catalonha, dente de leão, almeirão (não que tenham sabor parecido, mas o modo de preparo pode ser o mesmo e também funcionam com o mingau).
Se gostar, pode servir também com uma colherada de feijão e pimenta-cumari.
E para deixar o prato mais completo, momentos antes de desligar o fogo, despeje sobre o mingau, com cuidado, 1 ovo por pessoa. Não mexa para que ele não se quebre.
Com feijão e pimenta
Pedido: vou adorar ter mais notícias sobre esta erva na cozinha. Na sua, da sua mãe, da sua avó... Quem aí conhece jiquiri?



