sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Doce de mamão verde com garapa



Estas imagens são de momentos diferentes, lá no sítio, mas os gestos continuam os mesmos
Lá em Fartura, quem mais gosta de fazer doce é meu pai. Só que ele faz uma bagunça danada. Minha mãe o expulsa das duas cozinhas da casa e ele some pra outro galpão onde tem pia, fogo improvisado para tacho grande, moedor de cana entre outras quinquilharias. E lá ele é autorizado a fazer o forfé que quiser. Foi lá que ele passou a manhã fazendo este doce comum na zona rural, que tanto ele quanto minha mãe comiam na roça quando crianças. De mamão ou do pau do jaracatiá. Quando açúcar branco era coisa rara.

Doce de mamão do Seu Toninho

Ele vai à roça com roupa de batente e facão na mão. Vai assobiando como sempre faz, em melodia desconexa. Come qualquer fruta madura que cruze o caminho dele. Corta a cana sem machucar a mão calejada de trabalho. Amarra o feixe, coloca nas costas e volta assobiando. No barracão, lavas as canas com mangueira, raspa com o facão e mete na moenda. Encheu um balde de 10 litros de garapa que coou sobre o tacho. Antes já tinha acendido o fogo ali no chão, numa trempe improvisada. Se você é daqueles que não tem paciência para fazer fogo em lenha, que bota álcool e taca fogo com fósforo antes de correr, precisa fazer um curso com meu pai. Ele vai tirando lasquinha da madeira seca e alimentando uma chaminha que começou do nada. Senta ali perto, seja no fogão de lenha de manhã antes de fazer o café ou do lado de uma fogueira qualquer, e faz aquilo como quem tem todo o tempo do mundo. E, lasquinha por lasquinha, o fogo se faz duradouro nas toras secas. Bem, voltando à receita, o tacho fica ali sobre o fogo apurando o caldo. Enquanto isto, ele elege um dos tantos pés de mamão caipira espalhados pelo sítio, pega a cesta surrada e saí à coleta, assobiando, claro. Traz 5 frutos graúdos, mas ainda bem verdes. Lava bem, descasca e rala. O fato de tirar a casca, já tira o amargor, mas ainda assim, lava e escorre bem o que foi ralado para não ter dúvida. Quando o caldo virou um xarope grosso, coloca o mamão ralado, mexe de vez em quando e deixa cozinhar até ficar bem apurado, bem cremoso. Aí, quando as filhas chegam, ele vem todo exibido e assobiando oferecer o doce e fazer inveja pra dona Olga que prepara um frango com polenta imbatível. Não teve quem não elogiasse. E naquele dia tenho certeza que dormiu feliz.
Rendimento: pra muita gente


Cana de Fartura
Ah, o Dória fala de doce com garapa lá no
blog dele a propósito do livro Comidas Tradicionais Indígenas do Alto Rio Negro

16 comentários:

Mariângela disse...

daria tudo por este doce do seu Toninho.A mãe faz dois tipos de doce de mamão verde,um que ela chama "espelhinho" pois o mamão é cortado tão fino que dá para enxergar do outro lado,e o outro,que ela passa o mamão pelo moedor e cozinha junto com côco fresco ralado,os dois deliciosos e doces da minha infância.Beijo!

Santo Isaac disse...

Esse doce me lembra o furrundum do Vale do Paraíba... só falta a cidra.

Larissa disse...

Um doce de sobremesa, hein? Bjs!
Obs: fui digitar a palavra de verificação para postar o comentário e adivinhe a palavra: "mel"sverb hahahaha!

Neide Rigo disse...

Mariângela,
este com coco fresco é de dar água na boca!

S.Isaac, lembra mesmo.

Larissa, bem, devo dizer que este doce fica um mel. Bem doce, mas delicioso.

Um abraço, n

Anônimo disse...

Neide,
Seu texto me emocionou profundamente. Me levou diretamente para a cozinha da minha mãe, e me envolveu no carinho que ela sempre me dava por meio das delícias que preparava junto com meu pai para agradar e mimar os filhos...Pude sentir o doce sabor da garapa e, consequentemente, do amor. Pena que a distância que agora me afasta da minha amada mãe é intransponível... Obrigada, Silvia

Dricka disse...

Neide não sei o que é mais delicioso, o doce ou a história.Seus posts sempre são carregados de emoção e faz a gente amar aqueles a quem vc ama.
Bjs

Gina disse...

Ai, Neide, ando com tanta vontade de comer doce de mamão verde...
Vejo na casa de uma pessoa, por onde passo diariamente, mas não a conheço, caso contrário, pediria um, faria o doce e levaria um pouco para ela, claro!
Infelizmente, não se encontra mamão verde para vender... Como não tenho o pé, fico aqui relembrando o doce da minha mãe.
Bjs.

Neide Rigo disse...

Silvia,
eu te entendo. Por isto, aproveito cada minuto com eles.

Dricka, obrigada!

Gina, deixe disso. Peça mesmo. A pessoa vai adorar.

beijos, n

Margot disse...

Ai Neide, fiquei tao emocionada com seu texto e fiquei tambem super fa do seu Toninho. Bateu nostalgia, saudades do doce de mamao verde da minha avo, com cheiro de cravo, que a gente comia a colheradas. E, saudades de estar perto da familia!!! De uma certa forma, atraves do seu texto passei pela historia dos seus e fui lah na memoria emotiva reencontrar os meus. Beijo grande.

Claudia disse...

Neide,

faz mil anos que eu não como doce de mamão verde, era doce que minha avó fazia e minha avó se foi e junto foi o doce de mamão verde.

Usar garapa é uma coisa mesmo tradicional, colonial até, há referências na literatura religiosa dos primeiros séculos da colônia sobre o uso do suco de cana para fazer compotas, uma alternativa mais simples e mais rápida que o melado, melaço ou rapadura.

Ainda, por que se chama mamão caipira? Aí voltou aquela coisa na minha cabeça: caipira, criolo ou nativo? Diferentes mas semelhantes.


Adorei o rendimento da receita, viva a fartura...

C.

Edvani disse...

ô delícia Neide! Que bom ter acesso a estas maravilhas! Quando estiver por estas bandas, você me convida para um ´lanchinho´feito no fogão à lenha?! Feliz de você(s) que pode(m) dar um escapadinha num cantinho assim...
Bjos

Carmen disse...

Ah, cómo me hizo gracia el rendimiento: "para mucha gente" ya con esa explicación no necesito más.
Saludos Neide

Neide Rigo disse...

Margot,
fico emocionada também em saber disto.

Claudia, de certa forma, como o açúcar vem daquele mesmo processo, é mais fácil usá-lo no meio do caminho, sem precisar bater, já que será derretido novamente. Era o caminho natural, né? E o
mamão caipira é este mamão não cultivado comercialmente, que cresce no meio rural muitas vezes espontaneamente (semeado por pássaros). Mas, claro, a variedade deve ter um nome. Eu é que não sei e o chamo pelo nome pelo qual é conhecido na região.

Edvani, também me acho uma sortuda!

Carmen, é que quando cheguei o doce já ia pela metade ... Obrigada.

Um abraço, N

Sofia disse...

nao me ajudou em nada

Neide Rigo disse...

Sofia, e de que ajuda está precisando neste momento? É só dizer.

Anônimo disse...

Neide caiu um pé de de mamão na minha casa hoje e inventei de me atualizar na rede o que eu não sabia e que choraria tanto com uma receita de doce de mamão . Uma coisa e certa você e ótima redatora