sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Banquete milenar - o jantar coreano

Porcelana trazida da Coréia especialmente para o jantar. Assim como os talheres (colher e palitos) de prata
Até parece que o Consulado da Coréia ouviu minhas pragas ao dono do restaurante na Rua José Paulino. Há cerca de um mês estava por lá com a Ananda quando bateu a fome e decidimos subir as escadas de uma galeria em busca de um falafel bom e barato que comi lá certa vez com minha amiga Silvinha. Só que o faláfel estava fechado. Andei uns passos e dei de cara com um restaurante coreano, e eu amo comida coreana. Ananda também. Nas mesas, só olhinhos puxados. Nas paredes, o cardápio em ideogramas. Tentei travar uma conversa educada com o dono:
O senhor tem cardápio em português? / Non, non, só coreano!/ Mas como faço então para escolher?/ Non, non, qui só comida coreana!/ Eu sei, mas queria escolher uma comida coreana, então./ Non, non, qui restorante coreano, só pra coreano./ Mas eu só quero almoçar, moço./ Non, non, muito pimentada/ Mas eu gosto de pimenta, amo pimenta/ Mas muito pimentada pa brasilero/ Se eu quiser, posso comer?/ Pode, mas non tem cardápio português/ E como faço então pra pedir a comida?/ Olha na parede o cardápio/ Mas eu não entendo. O que está escrito?/ Porco! Carne! Galinha!/ E só??/ É, só isso, restorante coreano, só pra coreano/ Mas o senhor sabia que precisa ter cardápio em português?/ Non, non precisa. Só pra coreano/ Precisa, sim senhor/ Non, non precisa, é só pra coreano/ Precisa!/ Non precisa!/ Precisa!/ Non Precisa...

Se você não é coreano, não adianta ir
Não preciso dizer que saí de lá bufando. Senti falta do meu coreano (o Korea House, na rua Galvão Bueno, 43, Liberdade, Tel: 3208-3052.), onde sempre como o tradicional churrasco, já uma comida íntima e confortável para mim. Sentei no boteco vizinho e pedi uma cerveja para espumar os pensamentos. Tirei a única arma que tinha na bolsa e voltei lá pisando firme. Pá, pá, pá, tirei fotos com flash na cara dele, agora pasmo e assustado - e o medo da vigilância sanitária?, e voltei pra comer a contra-gosto o contra-filé com fritas. Quando o que eu só queria era um kimchi bem apimentado.

A história ainda estava fresca na memória, embora não a tivesse tornado pública (o que adianta?), quando chegou um convite do Consulado da Coréia para um jantar no Hotel Renaissance: Gastronomia da Coréia para o Mundo. Estava até me sentindo culpada. Deixei de ir ao Mesa Tendência, não fui ver o Ferran Adrià que já deve estar a caminho do Norte, deixei de encontrar amigos, tudo por falta de tempo. E agora me dispunha a gastar uma noite só por uma comidinha coreana? Mas vamos lá ver o que me espera. Mais para me livrar da má impressão. Marcos foi comigo. O encontro, que teve também uma apresentação de música coreana no fim da tarde (neste não fui), foi organizado pela Korea Fondation, Consulado Geral da República da Coréia em São Paulo, pela empresa KwangJuyo (que fez a chapa de ferro onde foi servida a carne) e a KFCS.
Jantar Coreano
Marcos gostou dos vinhos. E da comida, nem se fala. Foi com ele que conheci a comida coreana nos anos 80, pelas mãos de seus amigos coreanos da faculdade de medicina

Era tudo lindo. A começar pelo vídeo que ficava rodando na espera com Champanhe, no Hotel Renaissance. Enquanto todos bebiam e conversavam, Marcos e eu, que temos outros tempos para conversar, aprendíamos a fazer kimchi; a fermentação láctica e sua importância para a saúde; descobrimos até que existe na Coréia um centro de pesquisa do Kimchi e tanta coisa a respeito desta conserva milenar, feita principalmente com acelga e pimenta (mas também pode ser feita com outros vegetais).
O jantar para 70 pessoas foi para apresentar aos brasileiros uma comida coreana milenar com traços ocidentais. A equipe de chefs e cozinheiros veio toda a Coréia. E pensam que vieram depois ao salão para serem cumprimentados e aplaudidos como costumamos ver por aqui? Não. Cozinharam perfeitamente, como se fosse o mais simples exercício de humildade e obrigação. E saíram naquela discrição oriental. Assim que terminei a sobremesa, corri à cozinha com a assessora do Consul para tirar foto da brigada e cadê? Só ficou o jovem sorridente e simpático Ki Soo Bang para contar história. Todos já tinham ido embora.


Mônica, a assessora do consulado explica tudinho. E a coreaninha menina sorridente vestia roupa típica de festa.
Sorte que se sentou à nossa mesa, Mônica, a assistente consular atenciosa que nos explicou prato por prato. Ah, e os pratos? Coisa mais linda, cerâmicas e porcelanas vindas diretamente da Coréia para o jantar. No final, ainda ganhamos uma tacinha. E na hora de servir, as mesas eram assaltadas por garçons, todos juntos, um por comensal. Colocam a comida tampada e, numa “coreagrafia”, destampam todos ao mesmo tempo. E vinho, muito e bom vinho! Não se sabe quem fez a harmonização, mas para mim ficou perfeita. Ou pelo menos ninguém brigou na minha frente. Pratos e vinhos numa convivência pacífica e feliz na visão desta ignorante na matéria.

Os garçons abrem os pratos ao mesmo tempo - "coreagrafia"
Quanto aos pratos coreanos, nota-se uma preocupação com o caráter funcional de cada ingrediente. É o exemplo maior do que hoje se costuma chamar hoje de alimentação funcional (odeio este termo, sorte que eles não costumam usar). É claro que todos os ingredientes comestíveis têm mesmo alguma função além daquela de satisfazer o paladar. Mas uma coisa tem a ver com a outra e vice-versa. E na cozinha coreana esta é uma preocupação milenar, não inventaram nem cunharam o termo agora - desde cedo, por exemplo, as crianças são incentivadas a comer este ou aquele alimento de acordo com suas características. Mas o resultado na panela é tão apetitoso que mantém discreta esta intenção, como deveria sempre ser.
Os pratos foram servidos sequência

Salada de haliote
– dizem que este molusco é fortificante, afrodisíaco. Tem consistência de mocotó al dente. De tudo, foi o de que menos gostei. O sabor é bom, mas a consistência muito dura. O tempero e os outros ingredientes da salada eram muito bons. O molusco foi condimentado com sae woo jot – pequenos camarões conservados em sal (no vídeo que passou vi as cavernas onde são fermentados) e assado. E as folhas foram perfumadas com vinagre de makgoli – uma bebida fermentada à base de arroz. Acompanhou um Catena Zapata Chardonnay, super frutado e concentrado em aromas.
O kimchi nunca falta numa autêntica refeição coreana


A cerâmica Hoechung Sanggam. O prato vem à mesa coberto
Jon de camarão - esta fritada era a coisa mais deliciosa do jantar. Com carne de camarão e de caranguejo (rica em quitosana que fortalece o sistema inumológico) e o camarão (que ajuda na recuperação d..... deixa eu parar com isto que está ficando chato). O fato é que as carnes são temperadas com pimentas vermelhas e verdes, além de cebolinha. Tudo ligado com clara de ovo. A delícia foi servida numa porcelana Hoechung Sanggam linda de morrer, que veio à mesa tampada.

Panqueca de trigo mouro com galeto – o recheio de coxa de galeto também foi temperado com sae woo jot (os camarões conservados no sal). O galeto, quente, é yang; o trigo mouro, frio, é Yin. O molho à base de raiz forte é picante e refrescante, perfeito para as panquequinhas.

Jabtché na lagosta – prato típico da Coréia, servido em banquetes. Não é comum servir com lagosta, mas aqui ela só acrescentou e seu sabor suave equilibrou o sabor marcante dos cogumelos, vegetais e macarrãozinho de amido de batata doce. A função da lagosta era também agradar o olhar. Tudo pensado para a moldura do prato de cerâmica rústica.

Kimchi branco com pera asiática. Combinação inusitada e surpreendentemente boa

Assado de costela bovina – a carne estava muito macia com molho adocicado. Grelhada no carvão natural, conserva o sabor de churrasco com os temperos coreanos – especialmente o molho de soja (feito apenas com soja fermentada). Servida junto com um kimchi branco (sem a pimenta vermelha) num caldo aromático com uma rodela de pêra asiática. Sensacional.

Caldo de carne e Bibimbab - O caldinho que não aparece na foto lembra um missoshiro, mas não leva shoyu e sim um caldo de carne clarificado e aromatizado com nabo. Traz junto um pedacinhos de carne e tofu (dubu). Delicado, delicioso. O arroz com legumes e carnes, vem arrumadinho com os vários ingredientes coloridos por cima. Na verdade, são cinco cores que representam os cinco ponto cardeais, representando a Coréia na sua totalidade. Na hora de comer, temos que temperar com molho de pimenta muito cremoso e aromático (gotchujang é feito com soja fermentada, arroz e pó e pimenta) e misturar bem. Come-se de colher para sentir ao mesmo tempo todas as nunças de sabores e texturas.

Sorvete de ginseng com frutas e tók – não conhecia o sabor do ginseng e me lembrou café, doce, levemente amargo. Deliciosa a combinação com frutas. Uma perfeita sobremesa tropical. A variação de texturas também funciona bem aqui. De repente você passa do crocante da melancia para o macio do bolinho de arroz. Servido numa porcelana Hoechung Sanggam, produzida artesanalmente.
Hwayo - um tipo de saquê, com 41% de álcool. É pra se tomar pouco

Nesta tacinha com chocalho na base. O barulho é como o tilintar das taças - neste caso para brindar e agradecer ao anfitrião.
Para finalizar, um gole de uma só vez de Hwayo, uma bebida fermentada e deslilada à base de arroz, com 41% de álcool. Muito aromática, frutada. E a tacinha de cerâmica tem uma base fechada, oca, arejada por janelinhas que deixam vazar o barulho de chocalho quando se a movimenta. E isto deve ser feito depois de virar a taça de uma só vez, em sinal de agradecimento ao anfitrião – que, neste caso, ainda nos deu a tacinha pra levar pra casa. Isto já era quase 1 da manhã de hoje.

Depois deste jantar, é claro que a má impressão causada por apenas um coreano da Zé Paulino não continuará me abatendo. E ainda tenho o Korea House.

O australiano Heartland Ben Glaetzer Shiraz 2006 acompanhou o churrasco
O chileno Tabalí Reserva Cabernet Sauvignon 2006 esteve junto com as panquecas e Jabtché
Ki Soo Bang - o único que ficou para contar história. Ficou envergonhado de dizer o nome pois disse que da cozinha do mestre era apenas o caçula. Então, Bang, que leve nossos agradecimentos ao chef e toda equipe, porque a comida estava impecável.

14 comentários:

Gourmandise disse...

Sou apaixonada pela cozinha coreana. Tenho uma aluna coreana que sempre me leva frutas e flores secas da terra dela.
bjos

Fer Guimaraes Rosa disse...

Neide, nao tenho muita experiencia com a culinaria coreana, tambem por trauma. Ha muiros anos, fomos a um coreano em Berkeley, que se recusou a trazer talheres pro Uriel--que pediu uma colher pra tomar a sopa [que ultrajante!]. Eu nao me lembro muito da comida, mas lembro que gostei, apesar do lugar ser meio sujinho. Depois disso nunca mais me aventurei. Mas esse jantar no consulado foi o fino do fino! Nada perto dos botequinhos coreanos da esquina. Adorei a ceramica, lindas, lindas! beijao,

Elena sem H disse...

Amei o post! E os comentários sobre o valor de cada alimento - não achei que estava ficando chato não... Adoro aprender lendo seus posts.
As fotos ficaram ótimas também.
Azar foi do coreano da Paulino... perdeu uma ótima oportunidade de divulgar sua cultura.
Bom fim de semana!

Mariângela disse...

Neide,mas este jantar foi um banquete de verdade,quando tu disseste que iriam não imaginava que seria tudo isso ,nem pelas poucas fotos que já havia visto,super beijo para vocês!

Lisiane disse...

Neide,
adorei, adorei!

Liliane de Paula disse...

Não conheço nada dessa cozinha. Mas, suas fotos estavam apetitosas.
Liliane

Bergamo disse...

Desse eu fiquei de fora....que tristeza...rsrsrs...
Que jantar maravilhoso hein?
Abraços,
Bergamo

Pedrita disse...

eu praticamente desconheço a comida coreana. ótimo post, belas imagens, ótimo texto. adorei. me senti passeando com vc em busca de um restaurante que me aceitasse :) beijos, pedrita

Anônimo disse...

Neide, Como eu sou aquela chata de plantao, fa de carteirinha de qualquer orgao de defesa do consumidor, faço-lhe a pergunta que nao quer calar: voce tomou ou pretende tomar alguma medida com relaçao ao resaurante coreano que, no Brasil, nao tem cardapio em portugues, logo, impede a entrada de quem nao é coreano?
Um beijo
Gabriela (Italia)

Silvia disse...

Como a Gabriela, penso que se está neste país não dá pra ele servir só para coreano. Vai ver que está irregular. O povo coreano, do pouco que conheço pareceu-me sofrido e arredio. Quem sabe com algum contato que fez poderia saber o que se passa antes de levar a queixa adiante.

Eu também gostei dos comentários sobre a funcionalidade e lamentei quando voce interrompeu.

Nestes pratos não havia gosto de aji-no-moto, não é? Não tolero o glutamato, aquilo não sai da minha boca por horas.

Neide Rigo disse...

Gabrielae Silvia,
eu também sou bem chata e briguenta. Mas ando tão sem tempo e estas coisas aqui no Brasil são tão demoradas, que resolvi deixar pra lá.
Beijos,
N

lilli disse...

Neide, eu amo seu blog, assino o feed do seu blog e nunca comento, só leio e aprendo. Sou filha de coreanos e moro em São Paulo há dois anos. Já fui a muitos restaurantes aqui com a minha mãe (inclusive o da foto!) e esse nem vale tanto a pena. O Korea House também... é bem mais ou menos. Tem dois outros no Bom Retiro que são muito mais amigáveis e gostosos do que esses. Ambos ficam na Correia de Melo, na última quadra (onde a rua se encontra com a ribeiro de lima e rua da graça). Um se chama Dare (não sei se tem escrito em português do lado de fora) mas é fácil de identificar: fica quase ao lado da goody, e tem uma logo quadrada e vermelha. O outro chama seok jeong e fica algumas casas adiante. São baratos e muito bons, igualzinho aos coreanos que fui em seul; só tem coreanos comendo, mas nos dois restaurantes os garçons são brasileiros e o cardápio é traduzido. Se você puder, experimente a anchova gui no dare, é um grelhado de anchova com acompanhamentos deliciosos.E o dolsot bibimbamp no seok jeoung, q é o bibimbap servido na pedra quente, q queima o arroz, deixando umas partes crocantes.

Ana disse...

Gostaria de ter provado essa comida, mas me divertiria mesmo vendo você no embate da Rua ZéPa.

Um beijo.

CARLOS T. disse...

Neide, sei bem o que vc passou nessa budega coreana,já que não dá pra chamar aquilo de buteco.Porém tem-se que lembrar esse "comerciante"coreano que o Brasil tem lei e se ele quiser cozinhar somente para coreanos, que abra a porta da casa dele somente.Os coreanos um povo sofrido como qualquer povo.
O que vc poderia fazer alem de sacar sua "arma" é registrar queixa contra o estabelecimento por não oferecer cardápio na língua portuguesa(obrigatório) e ainda por cima registrar queixa por discriminação racial pois como ele mesmo falou, só atende a fregueses coreanos.
Sei que pode ser moroso ou complicado o sistema judicial no nosso país mas um tribunal de pequenas causas já adiantaria.Temos que mostrar aos estrangeiros que o Brasil é um país sério e que não aceita calado desrespeitos como esse.Os estrangeiros de um modo geral vêem o nosso país como um lugar onde eles podem fazer e desfazer.
Quanto ao jantar no consulado, realmente lá seria servido o fino do fino pois eles querem vender a imagem de um país respeitável e onde vc poderia lançar mão disso, mostrando que um conterrâneo deles estava "sujando" a imagem da Coreia,porém sei que a ocasião pra vc era pra coisas melhores.
Moro no Japão e sei bem que muitos restaurantes daqui não aceitam a entrada de estrangeiros,alguns até colocam cartazes "ONLY JAPONESE".
Mas é o país deles e isso eu respeito pra evitar estresses, mas no Brasil não aceitarei de modo algum esse tipo de tratamento!
De mais a mais , seu blog é muito bom e se eu estiver com fome fica até difícil de acompanhá-lo..rsrs...mas ao contrário de muitos blogs o seu está muito bem organizado e bonito...e gostoso em fotos e receitas.

abraços de Carlos e Sandra!