
Achei intrigante minha mãe ter mandado de Fartura uma única laranjona embrulhada num saco plástico. Meio toranja, meio sem-cheiro e sem-graça, ainda mais sendo apenas uma. Tudo que vem do sítio, costuma vir em fartura, dúzias, pencas, cachos. Por isto liguei para perguntar. Que negócio era aquele de me mandar uma única laranja, com casca meio esponjosa ainda por cima? "Ah, veio do vizinho, é fim de temporada, mas consegui salvar uma para você experimentar". E que gosto tem, perguntei desconfiada. "Ah, você vai ver, é uma coisa única, maravilhosa". Corri pra cozinha e comecei a tirar a casca grossa e leve. Já começou aí a surpresa: um aroma de limão-cravo se desprendia a cada volta da faca. A cor da polpa é de laranja-lima e o sabor, um mix de tangerina com laranja-bahia. O nome talvez se refira à cor, mais clara que a maioria das laranjas. E o tamanho é o de uma grapefruit, mais de meio quilo. Comi a metade com o bagaço macio e fiz suco com o restante. Foi difícil aceitar a realidade de ter que comer apenas uma laranja, ainda que sendo grande. O sabor é mesmo único como resumiu minha mãe. Incrivelmente doce e super perfumada. Fui pesquisar e descobri que é uma variedade híbrida de laranja-bahia com tangerina-cravo, como notei, desenvolvida pelo IAC (Instituto Agronômico de Campinas). Finalmente um alento para os comedores de laranjas, saudosos das doces seletas e fragrantes bahias. E se tivesse mais delas, talvez ousaria um sorbet, uma musse, uma gelatina, um recheio, quem sabe um coquetel. Fica para a próxima safra ou para quando ela aparecer no mercado. Se a virem por aí, me avisem, pois virei fã.
