terça-feira, 6 de outubro de 2009

Ovas de curimatã

Adriana Lucena é líder do Convivium do Slow Food em Natal e produtora de pimentas. No nosso encontro em Pirenópolis, no meio do ano, ela levou estas ovas de curimatã para preparar para o grupo. Mas a programação foi tão intensa que não sobrou tempo. E, sorte, sobrou pra mim um pacote fechado e congelado. Ela não queria levar de volta e eu, claro, não podia recusar o presente que, juro, não pedi.
Estas ovas a que se tem chamado de "caviar do sertão" são consideradas iguarias no Rio Grande do Norte (em algum lugar mais?) e são preparadas com leite, temperos e nata, segundo Adriana. Foi o que fiz.
Sobre o peixe: curimatã é a designação comum a várias espécies da família Prochilodontidae e gênero Prochilodus, com características bem semelhantes. Estes peixes podem receber denominações como curimba, curimbatá, curimatá, grumatã ou curimatá. Em comum, têm o corpo prateado, achatado mas não fino, com escamas grandes. Eles são comuns nos açudes, barragens, pesqueiros e rios. São robustos, prolíficos e longevos (chegam a viver 10 anos). A boca tem forma de ventosa, com lábios carnosos, que guardam dentes atrofiados em fileiras. Ou seja, aparelho apropriado para raspar e chupar barro no leito dos rios.
A carne: aliás, o seu hábito alimentar de chupar o lodo – é onde ele encontra matéria orgânica essencial para o seu desenvolvimento, composta por sementes, protozoários, insetos, algas e microorganismos - é responsável pela característica da carne, saborosa, mas, às vezes, algo lodosa, como a da carpa. Por isso, assim como outros peixes de mesmo hábito alimentar, é chamado também de “papaterra”. Sabe-se, porém, que o gosto de barro se dá pela presença de um óleo chamado geosmina produzido por cianobactérias presentes entre os detritos. Daí que sua carne é mais saborosa quando vêm de lagos e rios mais arenosos, sem muito lodo. Cortada em tirinhas, empanada e frita, a carne é bem gostosa. Agora, o must são mesmo as ovas, pelo menos entre potiguares.
Pesca legal: nos açudes potiguares são pescados com aproximadamente 3 kg. Já nos mercados da região Norte, chegam a 12 kg. Podem alcançar 60 centímetros de comprimento ou até mais, mas costumam ser capturados com cerca de 38 centímetros, que é o comprimento mínimo permitido para sua pesca legal.

Defeso: a partir do final de novembro ou começo de dezembro as fêmeas começam a ovar e esta fase pode ir até junho. É, então, na primeira metade do ano que as ovas são acumuladas e congeladas para abastecer o mercado durante o ano. Porém, ainda neste meio tempo há o período de defeso da piracema (quando as fêmeas estão no auge da desova, frágeis e cansadas e poderiam ser capturadas mais facilmente), determinado por lei para proteger a espécie e garantir renovação do estoque. Este período pode variar, mas, neste ano, a proibição, regulada pelo Ibama, foi de 1º de dezembro de 2008 a 31 de março de 2009.
Preocupada com a origem da mercadoria que tinha hoje em mãos, liguei para o Bazar do Sertão, onde foram compradas estas ovas - segundo o rótulo, em data permitida. Falei com Senhor Joaquim que me garantiu que tudo o que vende é legalizado, tem nota, controle do Ibama e só compra ovas fora do período de defeso. Congeladas, podem durar no freezer até 18 meses, me garantiu. Ah, bom.
Fiz do jeito que a Adriana ensinou, mas não tenho nenhum parâmetro para saber se o prato ficou melhor ou pior que aquele preparado por ela. Mas gostei bastante. É claro que não vou fazer das tripas coração para mandar trazer estas ovas do Rio Grande do Norte, mas espero um dia poder comê-las lá em companhia da Adriana. Enquanto este dia não chega, fica aqui a receita dela.

Deixei o garfo de lado, dobrei a tapioca sobre o recheio e nhac
OVA DE CURIMATÃ (receita da Adriana Lucena)
As ovas são super simples: liquidificar 3 dentes de alho, uma cebola grande, um punhado de coentro, pimenta do reino moída na hora com 1 litro de leite de vaca e sal a gosto. Há quem coloque colorau e tomate, mas prefiro desse jeito aqui, mais simples. Levar ao fogo e, quando começar a ferver, colocar as ovas e ir mexendo para desmanchar os gruminhos que vão se formando. Você irá observar que a mistura vai secando e ao mesmo tempo aparecendo água. Acrescente mais leite sempre que necessário e não esqueça de mexer porque gruda na panela. Estará pronta quando não observar mais "água" e ficar um creme (uns 45 minutos). Desligue e acrescente duas a três colheres generosas de nata batida, corrija o sal e finalize com hortelã miudamente picada.
Obs: 1. você também pode colocar um galho de hortelã na metade do cozimento. 2) se quiser utilizar como recheio (tapiocas, torradinhas, tortinhas), deixe secar um pouquinho e use morna. 3) Ah! já ia esquecendo! uma pimentinha faz toda diferença - um bom molho ou umas rodelinhas de dedo-de-moça.
Bem, usei no total 1,5 litro de leite. O prato rendeu 1,8 kg, que vou usar para fazer farofas, frigideiras e o que me vier à cabeça, afinal é ova pra chuchu. Cozinhei até secar a água que realmente se formou. Cozinhei em fogo baixo durante 45 minutos. Usei hortelã picada só no final.
Assim como juntei só fim também as últimas gotas do melhor molho de pimenta surgido por aqui nos últimos tempos, que combina vários tipos aromáticos e ardidos e não faz feio frente a nenhum Tabasco (ah, a marca: Quinta da Aroeira, produzida pela própria Adriana). Comi com tapioca e uma colher de nata. Um prato de salada e pronto, foi meu almoço.
Molho de pimenta "Quinta da Aroeira" e pacote com ovas de curimatã do Bazar do Sertão
Bazar Do Sertao
Tel: (84) 3201-5878
Rua Antônio Nesi, 1815
Nova Descoberta - Natal - RN

9 comentários:

Juliana disse...

Adriana minha querida Chef Pimenta...voltando a Brasília pode "esquecer" umas ovas de curimatã aqui em casa tambem!!
Neide,olhando as fotos e a aparente gostosura fica parecendo que vc já fez essa receita milhões de vezes!

Heguiberto disse...

Muito interessante qdo criança me lembro que as ovas eram jogads fora....que desperdício né?
Mas havia o estomago do curimbatá, acho eu, de cor avermelhada, longo com espessura de uma caneta +- 15 centímetros. Minha mãe os limpava temperava com sal, alho, pimetna e os grelhava na chapa do fogão à lenha. Muito bom! Uma delicatesse!
;)
Heguiberto

Alessandra disse...

Adoro! Mas lá onde eu nasci, Santarém-PA, a gente não faz com leite. Vc pode assar na brasa, dentro da barriga da curimatá[com acento agudo pra gente]. Ou vc tira da barriga do peixe, tempera com limão, sal e bastante cheiro verde [coentro, cebolinha, alfavaca]. Poe na panela com um pouco de azeite, dá uma refogada e põe um pouco de farinha de mandioca. Depois de pronto, ponha em um prato, jogue um molho de pimenta [no tucupi de preferência]e aí pode sorrir pra vida. Eu amo isso.

Neide Rigo disse...

Pois é, tive sorte, né Juliana! É mesmo uma gostosura.

Pôxa, Heguiberto, fiquei curiosa. Será que não é o próprio saquinho de ovas?

Alessandra, obrigada pela receita. Deu vontade também de sorrir pra vida.

Um abraço,
N

adriana lucena disse...

Passei 8 dias na Quinta da Aroeira e longe também da net. Só agora estou vendo essa maravilha que você fez, Neide!
Vi também a preocupação com o defeso e então esclareço mais alguma coisa sobre isso: Aqui no RN a Curimatã foi introduzida nos grandes açudes da Região do Seridó e depois em açudes menores e em outras regiões.Como também é muito prolífico e aqui nos açudes não pode realizar sua migração natural, superpovoa os açudes. Daí veio a pesca da curimatã ovada para evitar que esta destruísse os demais peixes dos açudes e os super-povoasse. Mesmo assim, tudo é controlado e respeitado o período previsto. Joaquim, do Bazar, é muito cuidadoso com tudo que comercializa, por isso sou cliente fiel dele. Quando você vier ao RN iremos lá ( no Bazar e no Seridó).
bjs, com carinho

Anônimo disse...

Ola Sra Neide
Sou filha de Joaquim do Bazar do Sertão.
Aproveito o espaço para convida-la--- quando vier a Natal-RN-- venha conhecer a nossa loja....
Abraços
Alyne Severiano

Neide Rigo disse...

Oi, Alyne!
Pode apostar que vou mesmo.
Obrigada pelo convite. Um abraço,
n

renata disse...

Li tudo o que você escreveu sobre o dilicioso peixe chamado curimatã. Coincidentemente, hoje (14 de dezembro de 2009) eu comi curimatã ovada, que meu pai pescou em açude da cidade e Patos (PB). O peixe, realmente, é delicioso. Fui criado em Patos comendo curimatã todos os dias. Moro em João Pessoa, mas meu pai, todos os anos, me traz ovas separadas (cinco a oito quilos), além de curimatãs com as ovas dentro delas. É uma delícia.

Adelson Barbosa

Neide Rigo disse...

Oi, Adelson,
pena que eu só conheça as ovas. Agora fiquei com vontade de comer o peixe. Obrigada pelo comentário.
Um abraço,
N