segunda-feira, 4 de maio de 2009

Tamuatá, o peixe do mato

"[...] tamuatá [...]. A carne tenra e muito saborosa." Jean de LÉRY. Viagem à Terra do Brasil (1555-1557). São Paulo, EDUSP/ Biblioteca Histórica Brasileira. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Martins Editora, 1972. p. 119 (com referência aos peixes de rio que servem de alimento aos Tupinambás)




Os tamuatás, suas ovas e fígados, aferventados para tirar a armadura e, depois, já despidos e prontos para o preparo.
Pois é, muita gente acertou e isto me deixa feliz. A resposta da charada do post anterior é mesmo tamuatá (cascudo, para alguns). Já tinha mostrado aqui, quando falei de Belém e dei a receita de tamuatá no tucupi. Na semana passada comprei duas vezes o peixe no Mercado da Lapa. Na plaquinha lia-se "caboge", mas não foi difícil reconhecer ali o mesmo tamuatá que comi no Norte - com a diferença que lá a carne era mais colorida. Não é sempre que tem por aqui, por isto aproveitei.
Da espécie Hosplosternum littorale, o tamuatá não é exatamente um cascudo, mas em alguns lugares é chamado assim. E que assim seja. É que as cerca de 250 espécies de cascudos encontrados no Brasil pertencem à família do loricarídeos que agrupa vários gêneros, entre eles Loricaria, Plecostomus, Ancistrus, Xenocara, Otocinclus, Farlowela e outros. Já o tamuatá pertence à família dos calictídeos. Cascudos também apresentam revestimento de placas ósseas, são vegetarianos e têm boca com espículos (ou dentes pontudos) adaptados para raspar a microvegetação de pedras. O tamuatá, que pode ser chamado ainda de tamboatá, camboatá, tamatá, tamoatá, tamutá, caboge, caborja, soldado (basta ver a armadura) ou peixe-do-mato, se alimenta de microorganismos e detritos orgânicos encontrados nos fundos dos rios e lagos. Na Bolívia, é buchere; na Colômbia, hoplo
Imagine um peixe resistente se arrastando pelo mato, pelo mangue, em busca da próxima poça de água. É engraçado, mas acontece com soldadinho tamuatá (que quer dizer peixe bonito). Nas secas, ele se desloca pulando em busca de água. Para isto dispõe de nadadeira peitoral com o primeiro raio duro e forte, em forma de espinho, que ajuda na sustentação. Ou se enterra no lodo durante a seca até a próxima chuva. Isto porque algumas espécies apresentam respiração dupla: aquática e aérea.
Pode ser encontrado em todo o Brasil, mas não é um peixe comercial. Tem importância econômica insignificante, considerado mais como pesca de subsistência. Mesmo nas regiões Norte e Nordeste, onde é mais apreciado, não é unanimidade. Senti isto quando estive em Belém e, no mercado, diante da carne salmão exibida pelos vendedores, alguns faziam cara de nojo e outros de delícia. Alguns preparam com a barrigada por causa do fígado, apreciadíssimo. Foi assim que comi. Gostei muito, mas preferi eviscerá-lo.

Aliás, a dificuldade maior é limpar, porque as placas no lugar de escamas não saem facilmente. É preciso passar em água fervente. Mas o processo é rápido. Outra coisa chata – não para mim - é que, sendo um peixe pequeno (6 a 7 unidades por quilo), os peixeiros do mercado da Lapa não limpam. A vantagem é que podemos separar fígados e eventuais ovas para recheios. No sábado, quando comprei mais um quilo no mercado, encontrei outra admiradora com seu marido comprando o mesmo peixe. Marilu e Marcelo. Ela, maranhense; ele, mineiro. Ela prefere o peixe no leite de coco; ele, frito. Quanto às ovas, concordaram: uma delícia para misturar ao recheio e fritar. No caso do molho com leite de coco, o procedimento é o mesmo que já mostrei na receita da Naza. Para fritar, o peixe é mergulhado inteiro, com placas e tudo, no óleo quente. E, neste caso, o peixe deve ser limpo através de um pequeno corte no pescoço. É mais difícil, mas o recheio fica protegido. Para fazer em molho, a barriga pode ser limpa em campo aberto. E tudo fica mais fácil, inclusive para tirar ovas e fígados.
Bem, a informação do casal veio se somar ao pouco que já sabia e, então, comemos tamuatá dos dois jeitos neste feriado de muito trabalho. Tudo bem, afinal lagosta também dá o mesmo trabalho, custa dez vezes mais e ninguém reclama. Tá certo, a lagosta é superior no sabor, mas o tamuatá não fica muito atrás, não. Os dois jeitos ensinados pelo casal foram aprovadíssimos. O tamuatá no leite de coco, servi com cuscuz de farinha ovinha. O frito, com purê de banana-da-terra e mandioca. O preço? 4 reais o quilo.



Tamuatá no leite de coco


4 tamuatás (cerca de 700 g)
2 colheres (sopa) de óleo de urucum ou azeite
2 dentes de alho picado finamente
1 cebola picada
2 colheres (sopa) de folhas de coentro
1 tomate sem pele picado
Meio pimentão verde picado
2 pimentas vermelhas e ardidas sem sementes picadas
¼ de xícara de água
Sal e pimenta-do-reino a gosto
2 xícaras de leite de coco
Suco de limão
Limpe bem os tamuatás, abrindo-os pela barriga e retirando todas as vísceras (separe eventuais ovas e fígados para usar em recheios). Corte as nadadeiras e os barbilhões com uma tesoura. Se quiser, mantenha a cabeça. Eu não quis. Deixe de molho por cerca de 1 hora em 2 litros de água e meia xícara de vinagre. Escorra bem. Numa frigideira, afervente 2 litros de água com 1 colher (chá) de sal. Coloque os peixes quando a água estiver borbulhando. Conte um minuto e vire. Conte mais um minuto e tire do fogo. Tire as cascas, empurrando-a com a ponta de uma faca ou com os dedos. Reserve.
Numa panela, aqueça o óleo de urucum. Doure o alho. Junte a cebola, o coentro, o tomate, o pimentão e a pimenta. Junte a água e deixe amolecer. Tempere com sal e pimenta-do-reino a gosto. Junte o peixe e cubra-o com um pouco do molho. Despeje metade do leite de coco e deixe cozinhar por cerca de 15 minutos ou até o peixe ficar bem macio. Junte o leite de coco restante e deixe ferver. Confira o sal e corrija, se necessário. Antes de servir, espalhe por cima ervas frescas – coentro, cebolinha e salsinha. Se gostar, acrescente umas gotinhas de limão. Sirva com farinha ou arroz branco.

Rende: 4 porções

Nota: se quiser, antes de tirar a casca, cozinhe por mais tempo, separe o peixe em dois filés, empane e frite. Ou ainda, desfie a carne e use em bolinhos, tortas e casquinhos.

Com jambu. Este, fiz parecido. Só que usei água no lugar o leite de coco. E, no final, juntei folhas cozidas de jambu, que tenho plantado no quintal. Também ficou muito bom.

Tamuatá frito recheado com suas ovas
2 tamuatás (380 g)
Sal e pimenta-do-reino a gosto
Suco de meio limão
2 xícaras de óleo para fritar
Recheio
Ovas de 2 tamuatás
2 colheres (sopa) de farinha de mandioca fina
1 colher (sopa) de coentro picado
1 colher (sopa) de salsa e cebolinha picadas
1 dente de alho finamente picado
Meia cebola picada
1 pimenta dedo-de-moça vermelha, sem sementes, picada
¼ de colher (chá) de sal
Limpe o tamuatá por uma abertura no pescoço. Corte as nadadeiras e os barbilhões com uma tesoura. Lave bem a cavidade e deixe de molho em água com vinagre (ou limão, ou um pouco de álcool) para tirar o cheiro forte. Enxágüe, escorra. Tempere o peixe por dentro com sal, pimenta-do-reino e suco de limão. Misture todos os ingredientes do recheio até formar uma farofa úmida. Recheie com esta farofa a cavidade dos peixes e faça fritura de imersão em óleo quente. Deixe até dourar dos dois lados. Antes de servir, tire a casca, afastando-a com a ponta de uma faca. Servi com purê improvisado que ficou muito bom. Receita abaixo.
Rende: 2 porções

Purê de mandioca com banana da terra e cúrcuma

400 g de mandioca
160 g de banana-da-terra
½ colher (sopa) de cúrcuma em pó
1 xícara (chá) de leite de coco
½ colher (chá) de sal
2 colheres (sopa) de manteiga

Cozinhe à parte mandioca e banana, ambas sem casca, com água que cubra e uma pitada de sal (cerca de 30 minutos a mandioca e 15, a banana). Deixe a água quase secar. Descarte os miolos duros da mandioca, junte a banana e homogeneíze com mixer. Junte a cúrcuma, o leite de coco e o sal. Bata bem e leve ao fogo. Deixe começar a ferver. Apague o fogo, junte a manteiga, misturando bem. Prove o sal e corrija, se necessário. Para servir com o peixe.

Rende: 6 porções

22 comentários:

clau disse...

Neide,achei a sua "aula" super interessante.
E no meu imaginario o tal do bicho era enorme!!
Em verdade achava que fosse um "alien" comestivel que vc tinha achado por ai, rss.
Com todos estes "pensamentos" pela testa, nao creio que conseguiria abocanhar esta iguaria assim tanto esquisita, nao...
Mas valeu: achei tudo meio que do tipo "mitologico"!
Bjs!

A DONA DO MUNDO disse...

DEMAIS, FIQUEI SEM SABER SE É O MSMO CASCUDO QUE TEMOS AQUI, MAS ESTOU EM MORRETES ESSES DIAS E VOU LÁ FOTOGRAFAR O PEIXE
VC ME ENSINOU A MATAR MINHAS CURIOSIDADES
SEU BLOG TÁ DEMAIS
BEIJOKAS

Zé Carlos disse...

Olá Neide,
Já vi algumas vezes este peixe aqui no mercado São Pedro em Niterói, nunca comprei por ter a impressão que ele tem aquele gosto de barro, característico de peixes que vivem no fundo dos rios. Bobagem minha?

Neide Rigo disse...

Oi, Zé Carlos,
incrível, mas ele não tem gosto de barro (como carpas, tilápias e pacus criados em tanques. Depois de limpo e deixado de molho em água com vinagre, a carne fica bem suave e gostosa. Teste e me conte.
Um abraço,
N

Heguiberto disse...

Oi Neide, Esse peixe lá nas minhas Minas Gerais se chama Cascudo como vc descreve no seu post. O sabor era muito bom, minha Mãe dizia que por vezes o peixe tinha gosto de barro por morar no fundo das lagoas e se alimentar lá por baixo rs. Havia outro também que chamava se Quitéria também feioso de carne branca, creio eu da mesma família do bagre, catfish inda não pesquisei. Ah tenho notícias, inspirado por vc acabo de criar um blog sobre comida e drinques, inda estou aprendendo como lindar com background do site mas já está apresentável. Está em em Inglês por agora mas mais tarde devo traduzí-lo p/ o Português. Dá uma olhadinha qdo puder: http://weirdcombinations.com/ e se puder me ajudar a divulgá-lo também com a sua audiência seria bótimo! Heguiberto Souza - San Francisco - CA - email: heguiberto.souza@gmail.com

gasparzinha disse...

Que peixe cascudo!!
O Brasil é mesmo um mundo. :)

Aline disse...

Nossa!!!adorei suas receitas e recomendo a todos q provém .Vale a pena.Ë um manjar do Deuses.Pode confiar.Sou paraense e nao em engano com qualquer peixe.

percival disse...

Aqui em Santa Albertina, SP - no rio grande chamamos ele de "caborja" tem carne vermelha igual o cascudo, pega bastante onde os córregos desaguam no rio... abraço.

Edmilson disse...

Neide,fiquei satisfeito por você
ter gostado do tamoatá e mostrar
para o nosso Brasil e o mundo da
delicia que é.Fiquei com agua na
boca,pena que aqui no DF,não en-
contrei.Ele é encontrado em de-
terminado periodo nas feira li-
vres de Belém.

mulher disse...

ADOROOOOOOOOOOOOOO!
É UMA DELICIA!
OBRIGADA POR PUBLICAR EM SEU BLOG COISAS QUE SÃO MAIS CONHECIDAS NO NORTE...
Teka - Macapá-AP

Anônimo disse...

Aqui em Sergipe esse peixe, o CABOGE, não muito apreciado, apesar de sua carne saborosa, ele é famoso por ter uma capacidade impressionante de respirar fora d´água. Ele é capaz de se locomover grandes distancias a procura de alimentos e costuma comer carniças as vezes são encontrados sob carcaças de animais em estado de decomposição.

Anônimo disse...

ACHEI MUITO INTERESSANTE ESTAS MANEIRAS DE PREPARO DO CABORJA, VOU ESPERIMENTAR COM CERTEZA. AQUI EM CAMPO GRANDE/MS, TEMOS FACILIDADE EM ENCONTRAR, POIS É VENDIDO EM CASAS DE ISCA PARA PESCA EM NOSSA DIVERSIDADE PANTANEIRA. RICARDO FRANCO.

marcio tavares disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
marcio tavares disse...

em 1996 que este peixe subiu pra minha região, aí apareceram tantos nomes pra ele: cascudim, joãozim, verdoso, margoso, tripa-seca, sô madruga, daí um senhor lavou eles com agua fervendo e fritou e comeu com casca, imaginem pra sair depois, surgiu aí o verdadeiro nome dele aqui até hoje: RASGACÚ . valeu, abraços

Anônimo disse...

Aqui no norte é Tamuatá, já ouvi no nordeste chaamrem de Sete Léguas ,mas o que mais importa é que de qual quer jeito o bicho é delicioso.
Segundo informação é exportado até para a França, onde é muito apreciado.

cristal disse...

Tamuatá é delicioso,nós,os paraenses,apreciamos no tucupí(caldo da mandioca brava),com um pirãozinho de farinha d'água e uma pimenta de cheiro,pronto é comer e ser feliz.

Lidia Maria de Melo disse...

Minha mãe sempre fala sobre o Caboge, o peixe que sai do rio, em época de seca, e percorre trechos de terra em busca de água. Faz parte das memórias dela de infância. Ela é alagoana, mas viveu até a adolescência em Sergipe, antes de mudar para São Paulo. Aqui, as pessoas não conhecem esse peixe. Mostrei seu post para ela. Abraço.

Neide Rigo disse...

Lídia, obrigada pelo depoimento. Um abraço, N

Antonio Junior disse...

olá, sou Paraense e tenho uma criação desse peixe de aparencia prestorica conhecido no norte como Tamuatá, eles são ótimos para reproduzirem, pois vivem com minimo de oxigenio na agua, tenho cerca de 600 unidades adutas e 2000 filhotes em tamque. E sem bem preparados são deliciosos.....

Anônimo disse...

ganhei esse peixe , e fiz ensopadinho com bastante cheiro verde cebola tomate e molho de pimenta malagueta, e simplesmente uma delícia.

Anônimo disse...

Eu particularmente cresci comendo esse peixe maravilho, ha alguns anos não como, mas irei ao Pará em dezembro e já anunciei aos familiares que quero comer novamente. fico com agua na boca só de pensar. amo demais.

Vilanir - Manaus

Anônimo disse...

Vi algumas receitas, só uma sugestão, o peixe no cozidão com pirão de farinha branca também cai muito bem. Vilanir - Manaus