quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Estou de olho nesta bananeira




Marcovaldo não diria, mas eu conto: um grande cacho de banana desponta na praça do comerciante. Estou de olho. Eu e a molecada.

Trinta e duas bananas. Ou bolo de banana do sítio


Aproveitei o mel de jataí que ganhei dos amigos Rui e Mariângela e reguei o pedaço de bolo - redondo aqui por força de um cortador de biscoito (sobre cerâmica também do Rui Gassen).
O chato é que elas não são programáveis. Quando resolvem amadurecer, são todas de uma só vez. Em câmaras de climatização as bananas do comércio são expostas ao gás etileno para apressar o amadurecimento. Mas, deixadas seguindo o rumo natural, as bananas liberam muito etileno especialmente durante o verão, quando já estão no ponto e foram colhidas, e amadurecem rapidamente.
Meus pais trouxeram uns três cachos destas bananinhas pequenas, feiinhas e super doces. E a maioria sobrou pra mim. Um doce feito com elas, bem apurado, é gostoso, a Ananda adora e sempre ganha da avó um vidro, que chega com um quê defumado do fogão de lenha. Mas acho um bolo mais útil, porque congelo em pedaços grandes que descongelam bem e rápido e vou tirando aos poucos ou quando chega uma visita inesperada. Agora mesmo ofereci com mel de jataí e cafezinho pra minha irmã que esteve aqui.
Fiz uma massa simples de bolo branco e espalhei numa forma bem grande para que por cima conseguisse colocar o máximo de banana possível e que no final a proporção de banana fose maior que a de massa. Mas, se quiser, você pode inverter isto variando o tamanho da forma e a quantidade de fruta. Consegui enfileirar bem ajustadas trinta e duas bananas pequenas, maduras mas não molengas. Joguei por cima uma farofa de cuca que ajudou a absorver a umidade da banana e nhac.



Bolo de banana
5 ovos
2 xícaras de açúcar
3 xícaras de farinha de trigo
1 xícara de leite aquecido com 100 g de manteiga
1 colher (sopa) de fermento em pó
32 bananas nanicas pequenas ou quanto couber na sua forma
Para a farofa
1 xícara de farinha de trigo
1 xícara de açúcar
100 g de manteiga
1 colher (sopa) de canela em pó
Raspinhas de um limão rosa
Na batedeira, bata os ovos até ficarem homogêneos. Junte o açúcar aos poucos e bata até formar uma espuma bem fofa e volumosa. Junte alternadamente o leite com a manteiga derretida e a farinha com o fermento. Despeje numa assadeira grande untada e enfarinhada. Ajeite por cima as bananas inteiras e cubra com uma farofa feita com a farinha, açúcar, manteiga e canela (é só misturar tudo com um garfo). Espalhe por cima casquinha de limão. Asse em forno médio por cerca de 1 hora ou até dourar.
Rende:
40 pedaços

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Cerâmicas e mel de jataí


As tigelinhas foram torneadas pelo Rui Gassen e esmaltadas por mim. Tem colheres para farinha e até uma furada, para kefir.
Mariângela e Laurinha a esta hora estão se divertindo em Vitória. Mas antes fizeram conexão em São Paulo, igual ao ano passado, e marcamos de nos ver, ainda que por poucas horas, no aeroporto. Primeiro porque estava com saudade e depois porque não sou boba nem nada e não poderia deixar de receber meus presentes que eu já sabia que viriam (eu iria de qualquer forma, claro!).
As cumbuquinhas o Rui torneou e eu mesma esmaltei quando estive em Porto Alegre, com a ajuda da Mariângela, mas não tinha dado tempo de queimá-las. Embora todo o mérito da beleza das peças venha da modelagem e do esmalte preparado pelo próprio Rui, gostei do resultado do meu atrevimento. E o Come-se ficará menos repetitivo na produção.

O favo, o pólen, a própria abelhinha Jataí que veio junto e o seu mel já extraído
Outro presente de emocionar foi o vidrão de mel de jataí que o Rui extraiu das oito caixas que mantém na casa da mãe, em Santa Rosa - RS. Amassou com as mãos, e coou sobre um pano de algodão. O sabor está incrível, com acidez ligeira e um leve sabor de polén que foi amassado com o favo. Se não bastasse isto, mandou ainda um pedaço de favo inteiro com compartimentos enxarcados de mel e outros cheios de pólen. Já usei as tigelinhas para comer um macarrão no almoço e o mel para regar o bolo de banana da sobremesa - postagens seguintes.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Pão com amêndoas e caponata ou berinjelas ao forno


A grama estava verdinha, mas ainda molhada da chuva do dia anterior; as crianças, animadas e o sol colaborou. A toalha com forro impermeável resistiu bem. Já minha bermuda branca....
Em vez de tomar café em casa, a ideia é carregar tudo e fazê-lo na praça. Ver post anterior. A
Veronika inouvou e, em vez de cestinha de piquenique que não dá pra nada, veio caminhando com seu carrinho de feira. Eu havia pensado o mesmo, já que vamos a pé. Mas meu carrinho é da pior espécie e atravessamos a rua com tudo no ombro, de cadeiras de praia a garrafa térmica e pães quentinhos.
Aos poucos foram chegando frutas, bolo de chocolate, sucos, tortas e todo mundo come o de todos. Eu já estava animada um dia antes e na noite de sábado resolvi amassar um pão para assá-lo pela manhã, enquanto assistia ao globo rural. O fermento, já tinha reformado mais cedo.
Ninguém pediu, mas deixo aqui a receita para mim mesma. E da caponata, que fiz também à noite, para estar fria e curtida de manhã. Queria que meus pais levassem pra Fartura (eles vieram para o baile de formatura da Ananda, na sexta-feira) e se animassem a fazer algo assim por lá, porque as berinjelas estão sobrando e meu pai reclama que minha mãe não faz porque não gosta. Sendo só ele a comer, diz que corta em pedacinhos a berinjela, coloca no microondas por três minutos e ela fica molinha. Aí bota sal e azeite e nhac. Mas uma caponata consegue dar cabo de muitas berinjelas ao mesmo tempo e pode ser guardada por vários dias na geladeira, para ir comendo aos poucos de várias formas, com salada, com pão, sobre o arroz branco.
Já fiz um dia caponata com receita, mas hoje misturo a olho alguns ingredientes e boto no forno. Desta vez, anotei. Se alguém quiser protestar que isto não é caponata nem aqui nem na bota, tudo bem, eu aceito. Que seja, então, berinjelas com legumes agridoces ao forno. Mas que ficou boa, ficou. E também deixo registrada aqui a receita nem que seja pra mim mesma.

Pão com amêndoas
2 xícaras (500 g) de esponja de fermento natural *
1,5 xícara de água fria (360 ml)
2 ovos
3 colheres (sopa) de açúcar mascavo
1 colher (sopa) de sal
1,5 xícara de farelo de trigo
Aproximadamente 800 g de farinha de trigo
1/2 xícara (100 g) de manteiga
1/2 xícara de amêndoas picadas grosseiramente
Coloque numa tigela a esponja, a água, os ovos, o açúcar mascavo, o sal. Misture bem com batedor de arame (se quiser, use o liquidificador ou a máquina de pão). Junte o farelo, deixe hidratar por 10 minutos. Adicione cerca de 3/4 da farinha de trigo aos poucos, mexendo bem. Junte a manteiga e o restante da farinha, aos poucos. Sove bem até formar uma massa firme - se precisar, junte mais farinha. Adicione as amêndoas e incorpore-as à massa. Faça uma bola, cubra com plástico e deixe fermentar até dobrar de volume. Faça 4 pães, deixe crescer novamente, polvilhe com farinha de trigo, faça risco em cima com uma lâmina fina e leve para assar em forno quente pré-aquecido. Diminua a temperatura depois de 10 minutos e asse por mais 50 minutos em forno baixo ou até ficar bem dourado.
Rende: 4 pães
* Se tiver em casa fermento natural, reforme-o 12 horas antes adicionando mais farinha e mais água até conseguir uma bola firme com peso superior ao que precisa (para que uma parte fique guardada como isca). Se não tiver, dilua 1 pacotinho de fermento biológico em pó ou 2 tabletes de fermento fresco em 100 ml de água e junte 200 g de farinha. Amasse bem para que fique uma bola firme. Cubra com filme plástico e deixe virar uma esponja. Desta forma, será muito mais rápido e, dependendo da temperatura ambiente, em 1 hora a mistura já estará levedada. Você terá os 300 g de que vai precisar - se quiser, faça um pouco mais e guarde este fermento como isca. Ou então, comece o seu fermento do zero. Veja aqui (ultimamente tenho mantido meu fermento mais condensado - nesta proporção de água e farinha aí em cima).
Caponata ou berinjelas e legumes agridoces ao forno
5 berinjelas médias picadas
3 talos de salsão grandes, cortados
4 abobrinhas italianas picadas
1 pimentão verde picado
1 pimentão vermelho picado
2 cebolas picadas
1/2 xícara de uva passa preta e 1/2 da branca
1 xícara de nozes picadas
1 colher (sopa) de sal
1 xícara de vinagre
1 xícara de azeite
3 colheres (sopa) de áçúcar
2 colheres (sopa) de orégano seco
Folhas de alfavaca ou manjericão a gosto
1 colher (sopa) de pimenta em pó ou a gosto
Misture tudo (reserve metade do azeite) e leve ao forno médio por cerca de 2 horas, mexendo de vez em quando, até ficar tudo macio. Deixe esfriar e regue com o azeite restante. Tampe bem e guarde na geladeira por até uma semana. Coma como antipasto. Com pão ou com macarrão pode virar um prato único.
Rende: esqueci de pesar ou medir o rendimento, mas acho que dá para mais que 40 porções

sábado, 9 de janeiro de 2010

Os dadinhos do mocotó


Adoro estes dadinhos que o Rodrigo faz lá no Mocotó. Aqui ele dá a receita e mostra o segredo. Só não ensina o molhinho do restaurante que não é um de pimenta simplesmente. É um molho agridocepicante que eleva a delícia às alturas. Mas a gente pode improvisar misturando molho de pimenta, açúcar, tamarindo, alguma geleia, sei lá. Mas vou pedir a receita pra ele.

De uma vez que fui lá!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Um dia bom em São Luiz do Paraitinga

Juntei umas imagens de um dia bom que passei em São Luiz do Paraitinga, em agosto do ano passado, com minha irmã e cunhado. Quando o ipê estava florido; o mercado, ensolarado, com cantores e mulheres fazendo fuxico; as águas eram calmas e alguém plantou ali na margem uma roseira. Quando as abóboras se apoiavam na porta do mercadinho e vó Nira, na janela, pra ver a rua passar. Alguns dos lugares retratados, se não todos, estão hoje em ruínas. Por isto estou muito entristecida, mas certa de que conseguirão reerguer a cidade. Relatei um pouco da visita neste post. E agradeço aos músicos de ocasião, Zé Gambá e Tide (Aristides Telles), pela canja que serve aqui pra animar e matar a saudade da cidade de Elpídio dos Santos, tão musical.

Piquenique para São Luiz e para adular São Pedro


Conforme combinado no último piquenique, e também para estrear minha toalha com forro impermeável que ganhei da Ananda, mantemos nosso encontro na praça Senador José Roberto, na Lapa, neste domingo.
Então quem estiver nas proximidades, está convidado. É só aparecer com o que quiser levar para comer e beber. Meio café da manhã, meio almoço, aquilo que a gente conhece como brunch ou desjejoço, médio-almoço, o que queira. E seria legal levar crianças, cordas, bolas, bonecas, petancas e petecas.
Mas também me ocorreu agora que poderíamos aproveitar para juntar algumas coisas nossas para mandar pra São Luiz do Paraitinga. Tem a Chus, amiga e leitora do Blog, que tem casa lá e poderia levar. E também o Guilherme, do Estadão, amigo da Janaína do Paladar, que está recolhendo doações, já que seus pais são de lá. São Pessoas de confiança que certamente darão bom destino às doações. Não tenho ideia de como faremos pra juntar tudo, mas como todos moramos perto, a gente dá um jeito. Eu já separei roupas, lençois, travesseiros e toalhas emergenciais. E livros para uma segunda fase da reconstrução. E a Veronika, que ainda não sabe do plano, logo saberá e passará para a sua lista de contatos. Tenho certeza que conseguiremos colaborar com a reconstrução da cidade que ainda sofre os efeitos da aguaceira.
Por falar em aguaceira, o convite para o piquenique vale se não chover. Do contrário, vamos adiando e pedindo pra São Pedro parar com mágoas. Lás pelas 9, 10, 11, meio dia. A hora que você acordar! E vamos tentar não levar descartáveis!

Lichia no pé



O tempo que quiser para ficar ali comendo lichia
Tenho um lindo pé de lichia no quintal da minha casa no sítio que sempre me espera com frutos no Natal. Um ano mais ralo, outro, carregado. Este foi um ano de fartura. Mas, sabe-se lá se por causa do clima ou de qualquer alteração de polinizadores, a exuberância não me esperou. Chegou antes para todos os pés da redondeza. No final de novembro já precisaram começar a olher. Meu pai conseguiu salvar algumas e guardou na geladeira para quando eu chegasse; deixou outro tanto no pé, na esperança de eu chegar a tempo. Qual nada, as abelhinhas arapuás (ou irapuás) não quiseram acordo. Furaram os frutos, sugaram seu nectar e devem ter feito delicioso mel escondido nos corticinhos por aí. Infelizmente o mel desta abelha pode ser tóxico e também um pouco nojento já que ela pode fazer sua colmeia com excrementos de gado, quando há pastos por perto. E é o caso. Portanto, eu é que não vou atrás.
Tenho também uma pitombeira, mas os frutos ainda estão imaturos, com gosto de feijão cru.
Mas vi no jornal da cidade que um sítio ainda tinha lichia e estava ofertando todo o pomar, self service, a R$ 2,00 por pessoa, para o tempo que quisesse passar ali comendo. Corremos pra lá. Atravessamos a fronteira do estado e, nos primeiros quilômetros do Paraná, lá estava à nossa espera um pomar com 130 árvores ainda carregadas, com frutos de sobra pra gente e irapuás. Se bem, que uma árvore inteira estava com tela para proteger de insetos. Não de gente. Entramos lá, eu e meu pai, e nos fartamos.
Bem, acho que compensou porque devo ter comido uns dois quilos sem muito esforço e sem saber qual árvore produzia a melhor lichia. Íamos de uma a outra árvore como abelhas tontas. E todo mundo sabe o prazer que é comer a fruta direto do pé. Por fim, ainda levei 1 quilo para comer em casa - estas, já colhidas, saem por R$ 5,00 o quilo. Um jeito esperto que os pequenos proprietários descobriram de aproveitar a produção e dar cabo dela localmente. Todos saem ganhando.
As Sapindáceas
A lichia (Litchi chinensis), o rambutão (Nephelium lappaceum), a longana ou olho de dragão (Dimocarpus longan), o pulasan (Nephelium mutabile), o mamoncillo (Melicoccus bijugatus) ou o Akee (Bliglia sapida) são todas frutas exóticas da família das Sapindáceas, muito bem adaptadas por aqui. A pitomba-do-norte (Talisia sculenta) é uma representante nativa da família.
Algumas são mais difundidas, outras nem tanto, como o Akee, de origem africana, que encontrei plantada na Estação Experimental de Fruticultura Tropical, em Conceição de Almeida - BA, e da qual se come o arilo cozido da fruta madura (verde, é tóxica). Algumas têm muita polpa como a lichia e o rambutão. Outras, nem tanto, como a nossa pitomba nativa, que é docinha e meio ácida, gostosa, mas que só faz vontade, porque é muito caroço para pouca carne.
O Akee, em Conceição de Almeida - BA
A pitombeira. Esta, também no sítio do Iwao e Helena
Para comer lichia à vontade na safra. Ou para passar alguns dias no campo (há duas casas para temporada), vá até o Sítio Santa Helena, de Iwao e Helena, que estão investindo também em turismo rural. Fica a 9,3 km da ponte de Fartura (que separa São Paulo do Paraná), no municípío de Carlópolis. Tel. 43-3566-1320, cel. 43-9162-3979.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Quanto vale um pé de cumari?


Olhe o tamanho! Aprumando o arbusto frágil tombado no carreador pelo peso das pimentas - mais de dois metros.
Já tinha visto pé de cumari carregado, cheio, pesado. Mas deste tamanho, foi a primeira vez. O peso era tanto, que o arbusto se debruçava sobre o carreador de café. Estas pimentinhas, cujo centro de origem é o Brasil, são comuns na região sudesde e nascem espontaneamente, semeadas por pássaros que quase não nos deixam as sementinhas vermelhas - comem todas, a menos que se cubra o pé com telas ou a área seja degradada, sem pássaros. Mas também, sem semeadores, não haverá plantas espontâneas aqui e ali debaixo de árvores, na sombra do cafezal. Neste caso, terão que ser plantadas pelo homem. Então, que comam as vermelhas os pássaros, que nos contentamos com as verdes que conseguimos colher e que também são deliciosamente picantes e perfumadas.
Desde 1983 a cumari deixou de ser uma variedade da Capsicum baccatum (Var. praetermissum), e passou a ser considerada uma espécie separada, Capsicum praetermissum, pelo Centro de Recursos Genéticos das Capsicum, ligado à UN/FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations). Difícil de colher, hoje deve ser a pimenta mais cara do mercado (cerca de R$ 70,00 ou R$ 7,00 por 100 gramas, para não assustar).


Aqui, a família Gassen. Mariângela e Laurinha na labuta e Rui, vigiando a pimental
Bem, colhemos de alguns galhos caídos - o mais fácil é carregar um galho, se sentar sossegadamente em algum canto de onde se possa ouvir conversas ou dela participar e esquecer do tempo- , e quem destacou as pimentinhas desta vez foram o Marcos e o cunhado Darly, quase em silêncio meditadivo, diferente das mulheres. O importante é que o resultado com conversa ou com silêncio é quase o mesmo (em silêncio se presta mais atenção para tirar o pedúnculo sem machucar os frutos).
Darly e eu preparamos três vidros de conserva do jeito que já mostrei aqui, mas juntamos algumas poucas pimentinhas vermelhas e malaguetas que meu irmão trouxe de algum lugar. E umas especiarias, uns pedaços de alho e umas florzinhas de manjericão. Elas foram bem lavadas, secas no forno quente e misturadas com a salmoura com vinagre. Depois que a pimenta chupou um pouco do líquido, jogamos azeite por cima para cobrir. E só.
Já tive um pezinho aqui no quintal, mas ela seca depois de um tempo. Se não me engano, é anual. Agora trouxe outra mudinha que resiste verde.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Andando por ai. Hoja santa, capeba, caapeba, na Lapa

Toda vez que tenho que sair de casa para algum trabalho ou reunião, já aproveito para resolver outras coisas e vou com aquela sensação de que deixo em casa muita coisa por fazer e de descrença no aproveitamento de muitas preciosas horas que vão escoar improdutivas no deslocamento pra lá e pra cá.
Nada é tão fácil nesta cidade. Sem falar que quem trabalha em casa e não tem rotina pra sair todos os dias gasta muito mais tempo no preparo da saída pois lembra que tem base velha na unha que não foi lixada, que as bolsas desarrumadas precisam ser resumidas, que não carregou o celular e muitas coisas mais que o costume do dia-a-dia teria agilizado. E de fato gasto o dia todo.
Mas, não sei se por milagre ou boa vontade, apesar do cansaço, volto motivada por ter descoberto alguma coisa nova e por ter aproveitado o tempo mais do que imaginei.
Primeiro, porque em casa quase nunca tenho sossego para ler várias páginas de um livro numa só tacada, coisa que acontece no trem. Depois, porque a cada saída não rotineira observam-se elementos que no dia-a-dia passam despercebidos.
Por exemplo, hoje voltando de uma reunião, aproveitei para passar na Abril e tomar um café com a amiga Kátia. Na estação Pinheiros, resolvi entrar no Acessa São Paulo, onde se pode acessar a internet de graça por meia hora mediante cadastro que vale para várias outras estações. Agora sei que poderei aproveitar o tempo nas estações respondendo algum email quando vejo que o meu trem acabou de passar e terei que esperar alguns minutos pelo próximo - em 10 minutos se resolve bastante coisa.
Antes disso, porém, me distraí lendo e passei do ponto - tive que descer na estação cidade universitária e voltar. Perda de tempo? Nem tanto, afinal descobri ali um lindo pé de tangerina já carregado de frutinhas. E daí tive algumas ideias. Pode isto não ter importância alguma para a maioria das pessoas, mas para mim salva o dia.
Hoja Santa: depois de passar no mercado da Lapa e vir a pé para casa, pelo caminho de sempre e passando pelas espécies vegetais cuja localização já conheço de cor, me deparei com um pé de caapeba, capeba ou hoja santa dos mexicanos.
Quando o chef Alejando Ruiz esteve em São Paulo eu o guiei no mercado da Lapa e ele ficou surpreso quando mostrei que ali, na banca de ervas medicinais, havia epazote e hoja santa (erva-de-santa-maria ou mastruz e caapeba). Por aqui, usamos mais como medicamento, mas no México ela é usada como tempero para tamales, guiso, pozóle além de envolturas para queijo oaxaca, para peixes e tamales.
É uma piperácea, como a pimenta-do-reino, então sua folha é rica em óleos essenciais que pode lembrar uma combinação de temperos. Imagino que a variedade mexicana seja muito mais perfumada e maior, mas a nossa também é gostosa. Tanto que arranquei um galho para plantar, com algumas folhas, e de pedacinho em pedacinho comi duas folhas grandes no caminho. O bom é que sei agora onde está o pezinho, no fim da rua Albion, e sei que é uma planta perene, de modo que voltarei depois para buscar mais e mostrar como se prepara. Agora o dia acabou.

Ah, outra novidade foi descobrir, depois de 13 anos que moro aqui, uma casa quase igualzinha à minha, incluindo a cor amarela e janelas brancas com tela de mosquiteiro, apenas 16 casas distante (a da direita, num detalhe de uma foto da minha amiga Inês Correa). Isto prova que tenho que observar mais não só as espécies vegetais mas também as materiais.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Comidas em Fartura



Por isto escrevo todo dia. Se paro, não quero mais voltar, perco o costume, fico a me perguntar pra que serve isto tudo. Dá um desânimo e uma preguiça desgramada, ainda mais quando volto da minha casa em Fartura, onde viver parece tão mais simples. Depois, mesmo sem respostas, tudo passa.
Havia alguns anos que não passava o Natal e também o Ano Novo em Fartura, em família, e de jeito tão calmo. Ninguém estava estressado, as comidas foram as de sempre, quase todas criadas, cultivadas e colhidas no próprio sítio ou na região e todos os dias foram festivos.
E o que não faltou mesmo foi assunto para o dia inteirinho, com todo mundo falando ao mesmo tempo ao redor do fogão, principalmente quando estão juntas as quatro irmãs. As prosas foram sobre a melhor conserva de pimenta (sempre se gasta algum tempo antes das refeições para se falar de pimentas, isto é comum?); sobre as abelhas arapuás que devoraram as minhas lichias que neste ano amadureceram antes do tempo; da galinha que está criando 18 pintinhos; do bezerrinho que não quer desmamar; do ninho com sabiazinhos perto da janela; do torrador de café que trabalha sozinho; das artes da nova cachorrinha Cristal; do excesso de berinjelas na horta; do pé de tomate de árvore que caiu com os ventos; do gato do mato que come as criações; do pato que quer comer a galinha ou dos perus que foram embora.
Aliás, achei que comeria peru, embora prefira frangos e angolas, mas minha mãe achou mais vantajoso vendê-los, o que não foi uma má ideia. Na véspera de ano novo, jantamos cedo, com brinde e tudo, mas nem me lembro direito o que comemos - certamente alguma comida de roça da minha mãe, excelente como sempre. Ah, sim, fiz lentilhas e panetone para forçar um costume, mas não precisava mesmo.
Fomos dormir cedo, de modo que não ouvimos os fogos nem artifícios da cidade na virado do ano. Acordamos já na manhã ensolarada do ano seguinte sem nenhuma sensação de perda. E todos os dias queríamos comer porco ou frango com muitos legumes, verduras e frutas - felizmente era o que tinha. Como pés, costelas, asas e cabeças de frangos sobravam sempre na panela, foram estes os meus pequenos exageros nestas festas, além dos gostosos mamões amarelos. De resto, foi subir e descer muito o pasto íngreme (minha casa fica bem no alto e a da minha mãe, no vale), às vezes no escuro atropelando vacas deitadas.
Se tenho visitas, cozinho em casa. Se não, mal acabo de tomar café e alguém lá embaixo já grita que o almoço está pronto. Alguns passos e tropeços morro abaixo, a visão da fumaça na chaminé e a imagem do repertório provável de comida fresca e cheirosa para o dia (minha mãe não fica inventando, em compensação os pratos que faz foram aperfeiçoados ao extremo com a repetição), fazem o apetite reaparecer rapidinho. E foi assim, lá fiquei internada só saindo um dia pra comer lichia no pé num sítio próximo e comprar arroz cateto direto da máquina, em Carlópolis, no Paraná, que faz divisa com Fartura-SP. E desta vez mais comi que fotografei. Pura pregui.
Chuchu refogado da dona Olga não pode cozinhar demais para não perder a cor. E com ovo, para o cunhado Darly.

O mangarito ainda não deu batatinhas, mas as folhas macias podem ser preparadas como as de taioba.


Fomos comprar arroz cateto em Carlópolis-PR, para fazer com suã.


Desta vez meu pai fez o doce de mamão verde com rapadura (receita a partir da garapa, veja aqui), temperado com canela e gengibre. Abelhas e abelhinhas, atacar!


Salada de catalonha com suas lindas flores azuis.

Um mar de pimentinhas cumaris voltadas para o céu.

Três espécies no mesmo espaço: moranga, jiló e berinjela.
Em menos de 20 minutos o jiló da horta virou um refogado com ovo.
A costela de porco veio do açougue.

O amarradinho de feijão paquinho veio do sítio vizinho, pra semente.
O milharal tem rendido: pamonha, cural, bolo e mingau salgado pra comer com frango caipira e quiabo (o melhor é feito assim, com o milho verde ralado para que apenas a parte mais molinha da pele dos grãos passe pelos furos do ralador, dando aspecto granulado). E pimenta, muita pimenta!

Abóboras de pescoço e morangas: sorte que elas duram meses

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Gluglu-gluglu. Come-se em férias coletivas!

Come-se de tudo em Fartura nas festas de fim de ano: porcos, galinhas e até peru gluglu. É pra lá que eu vou! Mas volto no começo de janeiro.

Agradeço a todos o carinho e o respeito de sempre e me desculpo com quem falhei (esquecendo de responder comentários, visitando pouco blogs amigos ou não correspondendo às expectativas ao meu respeito).

Boas festas com muita abundância (para não repetir fartura), alegrias e saúde para todos os fieis leitores deste blog!

Comida local ou Capiçoba na Lapa



Dispersão inteligente: na foto do meio, o exato momento que uma florzinha de seda se desprende para voar e povoar a terra de capiçobas. Insetos também gostam das folhas arroxeadas
Nira, que trabalhou de faxineira aqui em casa durante uns 3 anos, sempre me falava daquela tal capiçoba que ela comia no interior do Paraná - refogadinha, com arroz, com angu. E continuava comendo em Santana do Paranaíba, onde mora e tinha no quintal a planta.
Como eu nunca tinha visto esta planta no sítio e nunca tinha ouvido falar dela, apesar de meus pais também terem vivido no Paraná, pedia sempre que Nira conferisse nos matinhos e praças daqui de perto para ver se tinha capiçoba. Nada, nunca teve. Só serralha e serralhinha, caruru, dente-de-leão e beldroega.
Fomos ao livro do Harry Lorenzi (Plantas Medicinais no Brasil) para eu ver a cara da planta, folheamos o livro todo vendo fotos e o único sinônimo que aparecia para capiçoba era a Polygonum hydropiperoides ou erva-de-bicho. E, definitivamente, não era esta a ervinha da Nira. Veja sobre a planta, lá embaixo.
Como ela só vinha à minha casa quinzenalmente, sempre acabava esquecendo de me trazer um exemplar ou a semente, que fosse. Até que, depois de muito prometer, trouxe um pouco - cozinhamos, comemos e plantamos no quintal. Rapidamente a planta cresceu, cresceu. Eu ia tirando as folhinhas e comendo na salada ou juntando ao arroz, ao refogado, à sopa. Mas deixava crescer. Até que vieram as flores roxinhas que se abriam em bolinhas de fios de seda voadores que se iam com o vento.
Na estação chuvosa seguinte, aqui e ali, despontaram capiçobinhas arroxeadas. Aos poucos, fui notando nas calçadas próximas a capiçoba lado a lado com as beldroegas e dentes-de-leão. Pelo menos num raio de 200 metros da minha casa já são dezenas de pés. Ainda não chegaram às praças, um pouco mais longe, mas, por enquanto, estão nascendo em qualquer fresta de calçada da vizinhança. Com esta chuvarada, elas iam bonitas por aí e fui deixando crescer (as dos vizinhos!) para ter um maço grande e vistoso que se juntaria às folhas das minhas plantas que também crescem selvagem aqui no quintal, junto com tanchagem e matos diversos.
Antes e depois do ataque da lagartona
No começo da semana, porém, quando resolvi fazer uma catança pela redondeza, pelo menos três antes gordas calçadas agora estavam asseadamente carecas prenunciando o espírito do Natal que pede gavetas arrumadas, paredes pintadas, chão sem matos e graminhas aparadas. Sorte que eu tinha aqui no quintal, que nasceu espontaneamente no vaso do limão kafir, um pé vistoso e comprido. E a lagartona aqui fez uma rapa. Mas deixei as flores para povoar a Lapa e fornecer mais comidia local, quem sabe ainda nesta estação das trovoadas.
O quintal matagal está tomado de capiçoba e tanchagem
A planta
Segundo o livro "As Ervas Comestíveis", de Cida Zurlo e Mitzi Brandão, ela é uma Erechtites hieracifolia. Da família das Asteráceas, é parente do dente-de-leão, da losna ou absinto, da serralha e serralhinha, da margarida, da calêndula, da camomila, da alcachofra e de todas estas plantas inofensivas com flores em capítulos, caracterítica importante nesta família.
De verdade, não são flores comuns. São inflorescências - o capítulo é um agrupamento de flores pequenas que se assentam num mesmo receptáculo, normalmente plano. As flores das bordas podem simular pétalas, com um parte prolongada e são chamadas de lígulas (as pétalas da margarida são lígulas). E tudo isto é rodeado por brácteas que são folhas modificadas.
Complicado? Basta lembrar que é como aquelas bolinhas que soprávamos quando criança. E a função destas flores é esta mesma, para facilitar a dispersão da espécie - elas se soltam do receptáculo quando os frutos estão maduros e os leva por aí ao sabor do vento, até que a calmaria o fixe numa terrinha úmida e a semente germine.
Desde a América do Norte até a América do Sul a capiçoba pode ser encontrada como erva daninha, que nasce sem ser semeada. Não sei se há mundo afora cultivo comercial. Por aqui, nunca vi.

Na panela
Parece que em Minas Gerais é mais comum - todas estas folhinhas que podem ser cozidas e comidas com angu. Eu faço refogada no azeite ou cozida com um pouco de alho e bacon fritos e encharcados com um pouco de água e sal. Este, que comi com canjiquinha mole e barriga de porco fiz dete jeito - só que sem bacon. Mais ou menos como o jiquiri. Costumo usar como a serralha, por exemplo. É só arrancar as folhas, lavar e mandar pra panela. Não precisa picar. Na salada também vai bem, especialmente se combinadas com outras folhas de sabor mais marcante.
Ela tem gosto de mato. Não vou dizer que é imperdível, deliciosa e de sabor marcante como uma rúcula ou mostarda porque não é. Mas, quem é meio lagarta como eu vai gostar. Eu aprecio folhas mesmo que não tenham gosto especial. Basta que não sejam desagradáveis. E estas do mato, de preferência cozidas. Podem ser amargas e picantes, que eu gosto. Mas capiçoba não é amarga, nem picante. Lembra jambu sem o tremelique. Deu pra entender?
Se encontrar alguma por aí, já sabe que é comestível e além disso é rica em betacarotenos e tem até antocianina, o mesmo pigmento antioxidante do vinho - mais nos talos que nas folhas, que lhe confere um caldinho arroxeado.
Nem lembro mais o que fiz com os ingredientes desta foto de arquivo, mas a capiçoba entrou com outras folhas e carne de porco - me parece.