quinta-feira, 29 de maio de 2008

Rocambole da dona Angelina



Talvez a ninguém mais interesse esta receita que às minhas irmãs, pois faz parte da nossa memória afetiva de uma infância recheada de comida gostosa, mas também de alguns mitos. Dona Angelina com sua receita de rocambole era um deles. Uma dama das mais requintadas que morava num morro da periferia, tinha uma casa bonita com móveis clássicos e reluzentes de madeira escura, toalhas de crochê engomadas, tapetes fofos e pano de linho branco para deitarem os cachorros, tratados a cremes cheirosos. Não tinha filhos. Os cabelos uniformemente brancos eram azuis de anil bem aparados e ela estava sempre bem vestida e adornada com brincos e colar. Eu lá hoje talvez não achasse nada disto e também não estou com disposição para checar com minha mãe e, quem sabe, desmontar a fábula. Fica o que ficou. Só queria a receita.
Meus pais alugavam o cafofo vizinho à casa do casal. Foi dona Angelina quem comprou na feira um frango de granja quando viu minha mãe grávida no quintal chorando desacorçoada lágrimas de menina grávida com desejo do franguinho caipira, do sitio farto e do pai, que deixou pra trás ao se casar e vir tentar a sorte na aspereza da cidade grande. O frango pálido, cozido em espiriteira, atenuou a vontade, mas a saudade dos pais de uma e a falta de filhos da outra, fez com que a jovem e a senhora se apegassem com amor fraternal. Com ela minha mãe aprendeu a lidar com as coisas urbanas.
Logo os dois jovens juntaram seus caraminguás, compraram um terreno e construiram um casa no mesmo bairro, morro abaixo. Quando me dei por gente, o nome da mulher já era só uma citação. Conheci-a de longe, ela descendo ou subindo a ladeira. Pois as duas ficaram sete anos sem se falar. Dona Gilina, dizia minha mãe (só bem mais tarde descobri o nome certo), era a mulher mais limpa da face da terra, inspiração para nos obrigar toda semana a limpar o chão com palha de aço, passar cera de joelhos e a dar lustro nos tacos com escovão, além de outras tarefas árduas como arear o alumínio até virar prata para secar ao sol. Era um tal de dizer faça de novo, imagine se a dona Gilina visse isto, este chão está brilhando como a casa da dona Gilina ou nem os cachorros da dona Gilina achariam isto limpo, que a mulher não saía nunca da nossa casa. Era dona Gilina pra cá, dona Gilina pra lá. E tudo era dito com certa melancolia, pois a amizade tinha ficado na barraca de frutas do passado. Haviam rompido por causa de uma mexerica polcã, recém-surgida nas feiras. As duas se encontraram na banca de laranjas e uma disse que aquela tangerina era uma verdadeira enganação, que era casca grossa e ar, ao que a outra discordou. Não sei quem falou uma coisa e outra. Só sei que romperam relações. Um dia, não me lembro porque, eu já era grandinha, as duas reataram e foi uma alegria ter a fada por perto. Ela sempre passava perto de casa para ir à feira das terças e muitas vezes eu a ajudava a puxar o carrinho cheio de mexericas pelas ruas íngremes. Num dos meus aniversários ela me gratificou com uma corrente cor de ouro com pingente de chifrinho imitando marfim e um anel brilhante de pedra de plástico verde-limão. Amei ganhar presente sem utilidade aparente, que não era roupa.
Na presença ou na ausência da amizade das duas, nosso lanche da tarde era pontualmente às 15 horas - como o da dona Gilina, que tomava chá com limão e biscoitos com geléia todos os dias no mesmo horário. E de quando em quando nossa broa de fubá ou bolinho de chuva davam lugar ao rocambole aprendido com a dona Angelina, para acompanhar o chá mate ou chá de chocolate bem docinho. E a lenda sentava-se conosco. A vida era boa. Minha mãe visitou até há pouco tempo a mulher que padeceu sozinha, viúva, sem cachorros ou receitas de rocamboles num asilo por coincidência perto de Fartura.

Não me lembro de tê-lo comido no lanche da tarde depois dos 14 anos, quando comecei a trabalhar. Desta vez, em Fartura, pedi à minha mãe que fizesse, aproveitando as bananas e o meu desejo de registrar, mais pela carga de significados destes sabores esquecidos – embora seja uma delícia com chá, vinho de sobremesa ou com uma bola de sorvete. Fiquei sabendo coisas novas como a de que o recheio pode ser feito também com amendoim triturado e adoçado e que nunca levou canela, embora fosse dela o cheiro que me vinha na lembrança.

O recheio tem ser cremoso, mas não mole, para não vazar

O pano ajuda a enrolar


Rocambole da dona Angelina

Recheio
4 bananas grandes amassadas ou picadas
2 maçãs vermelhas médias, sem pele, picadas
½ xícara de açúcar (90 g)

Massa
4 xícaras de farinha de trigo (480 g) ou mais, se necessário
1,5 xícara de açúcar (270 g)
1 colher (sopa) de fermento químico
1 colher (café) de sal
6 ovos pequenos (300 g)
Raspas de um limão
1/2 xícara de manteiga sem sal em temperatura ambiente (100 g)

Cobertura
2 colheres (sopa) de açúcar cristal
Água ou suco de limão

Recheio: numa panela misture a banana, a maçã e o açúcar e leve ao fogo, mexendo sempre para não grudar no fundo, até adquirir consistência pastosa. Não pode ficar molengo. Deixe esfriar.

Massa: sobre uma tigela, peneire a farinha, o açúcar, o fermento e o sal. Junte os ovos, a manteiga e as raspas de limão e mexa primeiro com uma colher de pau e depois com as mãos, só para misturar, até formar uma massa homogênea. Se precisar, junte um pouco mais de farinha, mas a massa não deve ser nem dura nem elástica, mas macia e flexível. Faça uma bola, divida em duas partes e, com um rolo de macarrão, abra cada uma delas sobre um pano limpo e enfarinhado, até formar um retângulo de 30 por 17 centímetros. Se for preciso, polvilhe farinha no rolo.

Divida o recheio em dois e espalhe-o sobre as massas, deixando uma pequena borda. Vá levantando o pano, para enrolar a massa como um rocambole. Coloque numa forma untada e enfarinhada, com a emenda virada para baixo e leve ao forno médio. Quando começar a dourar, depois de uns 30 minutos, pincele por cima a cobertura (o açúcar umedecido com o líquido) e deixe corar mais um pouco. Corte em fatias ainda morno e sirva frio.

Rende: cerca de 40 fatias

Dica: ele fica bem crocante e sequinho, de modo que pode ser guardado num vidro por alguns dias – a dona Angelina guardava numa lata.

7 comentários:

risonha disse...

Neide........ isso deve ser uma verdadeira maravilha!
fiquei com água na boca.

Laurinha disse...

Que delícia de post!

De um tempo onde sempre ouvi 'o que o fulano vai dizer, ou, já pensou se beltrano fica sabendo, ou, imagine se ciclano ouve isso'...
Até o desarcoçoada, fazia tempo que não ouvia.....
Nada de melancolia, simplesmente memória!
Aliás minha filha diz que meu português é muito estranho, 'ninguém usa essas palavras que vc usa, mãe, nem sei o que isso significa...' :DD

Enfim, adorei o rocambole da D.Gilina!

Beijinhos

Bia Belliard disse...

adorei a receita e todas as lembranças trazidas por ela ! bjs

clau disse...

A receita me parece MUITO boa.
Mas pecado ter acabado a sua descriçao, que nos levou a ela...!
Pq quase parecia uma fabula ou mm uma daquelas maravilhosas reminiscencias da nossa infancia que se trasformam em mito, com o passar do tempo.
E que se revestem de um encanto, ou mm, uma magia, particulares.
Pq imagino que todos nòs temos estas recordaçoes que permanecem no fundo de nossa memòria e eu adorei a sua!
Bjs!

Anônimo disse...

que bom... No mundo virtual não há passado, nem futuro... há o agora.
2008 voce escreveu, agora em 2009 estou lendo como se tivesse sido escrito ontem.
Como parecem ter sido ontem os escovões a palha de aço, os gatos no tapete, o croche e as Gilinas que preencheram, cada qual, aos seus modos, nossas vidas.
Um abraço, do rocambole quiz só ficar com o cheiro de outros meus tantos rocamboles.
Voce escreve bem. parabens

Rose Fávero disse...

Oi Neide, "ouvir" vc falar da Dona Gilina foi uma delícia. Me levou voando à minha infância, onde havia a Dona Vina, que fui saber muito tempo depois que era dona Jovina. Ela também ajudou minha mãe e muito. Só que eu tive o privilégio de conviver com essa mulher por muito tempo. Suas palavras me fizeram relembrar daquele tempo em que as comadres se sentavam na calçada pra conversar e trocavam receitas. Que saudade do simples, do puro sem presa. O rocambole deve ser muito bom mesmo, hora dessas vou me aventurar. Obrigada pelo texto tão lindo.

Neide Rigo disse...

Rose,
estas donas nos trazem mesmo boas lembranças. Acho que todo mundo tem na memória algumas gilinas e vinas. beijos, n