segunda-feira, 11 de maio de 2009

Jacatupé é o que é. Ou feijão-macuco. Ou jicama.



O leitor Gratão, lá de Tocantins foi o primeiro a responder e o único a matar a charada do post anterior. Jacatupé!
Na semana passada a Maria Eugênia (venezuelana, mulher do cônsul do México) me disse toda contente que havia encontrado jicama no bairro da Liberdade. Arregalei os olhos porque sabia que então ali estava o jacatupé que procuro há tanto tempo. São primos muito próximos. Peguei com ela minhas duas hallacas que estavam congeladas e prometidas (falo sobre isto depois) e rumei para a Liberdade com a indicação precisa de onde a encontraria. É uma loja que já freqüento a despeito do mau atendimento e má vontade. Perguntei pra mocinha qual o nome das batatas. “Batata chinesa” foi a resposta seca. Como se usa? "ah, coisa de chinês". Já para a Maria Eugênia disseram “batata d´água”. Que chineses e tailandeses usam a batata, eu sei. Mas de que forma, em que pratos bons, tenho curiosidade. Se alguém souber, diga aí.
Os nomes em várias línguas, começando por português de Portugal, do Brasil, espanhol... Paquirrizo, feijão-batata, feijão-macuco, jacatupé, jacutupé-jicama, ahipa, judia-batata, jiquima, Wayaka yam bean, Mexican yam bean, yam bean, Mexican turnip, chop-suey bean, manioc bean, three-lobed-leaved yam bean, four-lobed-root yam bean, singkamas, dolique bulbeuse, pois patate, pois manioc, pais patate, knollige bohne, yambohne, yamsbohne, fagiolo patata, dolico bulboso, sankalu, mishrikand, sinkamas, sakalu, pre myit, fan-ko, sha ge, sha got, sha kot, dou shu, liang shu, tu gua, bai tu gua, fan ge, yamsbønne, bengkoewang, hoewi iris, hoewi hiris, mame imo, pe'kuëk, man ph'au, bengkuang, kacang sengkuang, mengkuwang, sengkuang, sengkuwang, besusu, jacatupé, jacutupé, jocotupé, bangkowang, bangkooang, iguama, tani uttan kai, man kaeo, huapaekua, man lao, köklü böyrüce, curdau, san, cu san.
O fato é que há anos conhecia jacatupé apenas de literatura (Globo Rural) e procurei por todo canto. Nem meus pais conheciam. É intrigante saber que uma leguminosa em vez de cumprir sua vocação de nos dar feijões, nos oferece batatas – a raiz tuberosa. Mesmo porque sementes maduras e folhas são tóxicas (contém rotenona – aquela substância também encontrada no timbó, planta usada para paralisar peixes e facilitar sua captura). Já as vagens jovens podem ser consumidas como legumes. Mas para produzir boas batatas, as vagens devem ser descartadas – caso contrário, os nutrientes vão para o desenvolvimento do feijão e a raiz tuberosa fica à míngua. Se bem nutrido, o tubérculo é doce, rico em amido e proteínas. Aliás, o amido é vendido em alguns lugares da Ásia como fécula de ótima qualidade.
Por aqui nunca ouvi falar da extração do amido, mas sei que a planta é cultivada pelos índios da bacia amazônica desde tempos remotos. O nome jacatupé é mais conhecido no Sul (em vez de feijão-macuco) e vem do tupi yakatu'pe, que quer dizer ... (quem souber, estou aceitando ajuda).
São conhecidas algumas espécies de Pachyrhizus, com características muito parecidas, com nomes muitas vezes intercambiáveis: a nossa, Pachyrhizus tuberosus, originária das cabeceiras do rio Amazonas; a mexicana, Pachyrhizus erosus chamada de jicama; e a Pachyrhizus ahipa, encontrada no Peru, Argentina e Bolívia. Hoje, uma ou outra é cultivada como legume na América Central, no Caribe, Ásia Oriental e Sudeste asiático.

A aparência lembra uma batata doce, só que achatada e lobulada. Pelo menos a nossa, já que algumas variedades podem se alongar como cenouras. A textura úmida e crocante, assim como a brancura, fazem lembrar o nabo ou a batata-da-serra, da Chapada Diamantina, mas as semelhanças param por aí, pois não tem a pungência do primeiro nem a timidez da segunda.
O sabor é marcante, muito doce, como o yacon. E à primeira mordida vem à memória um sabor infantil ancestral. Meu amigo Carlos Colombo, que é agrônomo e pesquisador no IAC (Instituto Agronômico de Campinas), dividiu comigo a primeira mordida e as primeiras impressões. A gente conhecia aquele sabor. O que era, o que era? Depois de muito tempo, descobrimos: feijão-cru-de-molho. Não sei porque a gente tem este sabor no arquivo, já que não comemos os grãos crus, mas é fácil reconhecer (do broto de feijão, talvez) e, apesar de gosto de feijão cru ser desagradável, neste tubérculo passa a ser gostoso e instigante. Queria fazer mais testes, mas será da próxima vez, pois o Carlos levou um para plantar no IAC; comemos uma inteira como fruta; guardei uma para plantar no sítio (pode ser reproduzida por sementes ou pelo tubérculo) e usei a derradeira nesta salada, inspirada numas mexicanas que andei vendo por aí. Ah, ainda cozinhei uma fatia em água e sal - ficou gostosa, com textura firme como um nabo cozido. Imagino que deva ficar boa em cozidos. E crua, em saladas de frutas.
Onde encontrar
Mercearia e Bomboniere Towa - Praça da Liberdade, 113 - Liberdade. Tel. 11 3105-4411

Salada de jacatupé

1 batata de jacatupé (feijão-macuco) – cerca de 250 g, descascada
1 abacate mini, tipo Hass
1 tomate maduro e firme, sem sementes
Meia cebola roxa
Algumas folhinhas de coentro rasgadas
2 cebolinhas picadas
1 pimenta dedo-de-moça vermelha, sem sementes picada em rodelasMeia pimenta dedo-de-moça verde, sem sementes picada em rodelas
Suco de um limão Taiti
3 colheres (sopa) de azeite
Sal e pimenta-do-reino a gosto
Pique todos os legumes e o abacate em cubinhos e misture com as ervas e as pimentas picadas. À parte, misture o suco de limão, com o azeite, sal e pimenta-do-reino. Misture bem para emulsionar e despeje sobre a salada. Mexa com as mãos para misturar bem sem quebrar o abacate.
Rende: 4 porções
Clique & Amplie. Algumas referências.

29 comentários:

Afrika disse...

Minha nossa Neide, infelizmente há muita gente por ai assim , falta de profissionalismo e de atenção, principalmente quando trabalham pra o publico... mas enfim! Vamos ao que interessa, adorei o que escreveu, mas li de olhos arregalados que falou de HALLACAS meu Deus! como eu adoro Hallacas, a minha mãe faz o mais próximo possível daquelas que fazíamos na Venezuela, por época do natal, pois falta ingredientes crioulos, as folhas vão se encontrando a venda mas algumas em muito mas condições por dentro, já que vêem importadas de América Latina.

Beijinho

Naomi disse...

Neide,
Este sabor de feijão-cru-de-molho não seria parecido com gosto de moyashi?
abs,
Naomi

Adrina disse...

Amo este blog, apesar de nunca ter comentado. A paixão que aparece nos posts me convida a querer experimentar tudo isso aí. Abraços.

Daniel Brazil disse...

Uau, que aula!

Daniel disse...

Puxa, como é bom conhecer o nosso Brasil, uma senhora me falou sobre uma tal batata chamada jacatupé, então vim na internet saber do que se trata. Parece mesmo um incrível tubérculo. Posso pegar a foto?
Abraçs

disse...

queria ver o pé de jacatupé, uma foto da planta e nao so do tubérculo.
Bom, pelo menos parece um tubérculo.bjo

Neide Rigo disse...

Sá, eu também queria! Quando conseguir, postarei aqui.
Um abraço,
n

Anônimo disse...

Olá Neide.
Meu avô utilizava o feijão macuco no combate de pragas.
Foi uma das únicas alternativas orgânicas no controle de pragas que comprovei ter efeito imediato contra lagartas, pulgões, cochonilhas e percevejos.
Graças à rotenona, uma substância biodegradável que facilmente se decompõe na presença do ar e da luz, características muito desejáveis em um pesticida e inseticida.
Infelizmente tive que mudar de cidade e meu avô com o passar dos anos ficou com a saúde debilitada, tendo que vender o sítio e se mudar para cidade.
Nunca mais encontrei essa leguminosa.
Mas falando em leguminosa, vou postar um link (foto) de uma leguminosa que encontrei; graças ao blog consegui descobrir e identificar uma variedade diferente que encontrei da (lablab) orelha de padre. Tem uma foto com as duas variedades para comparação.
Encontrei na beira de uma estrada, por acaso, quando pegava algumas frutas (Ingá), próximo a Serra do Mar no Litoral Norte de São Paulo.
As fotos não estão boas, minha câmera é do século passado.
http://img153.imageshack.us/f/83480239.jpg/
Abraço.

Neide Rigo disse...

Anônimo (como é seu nome?), seu avô usava as folhas, né? (parece que é onde tem mais rotenona). Obrigada pelas fotos da orelha-de-padre. Outro dia também comprei desta variedade roxa, no bairro da Liberdade. Além de gostosa, as flores são lindas.
Um abraço, N

Anônimo disse...

Olá Neide.
Meu avô utilizava toda parte aérea da planta, principalmente os frutos quase maduros, onde se encontra a maior concentração de rotenona.
Na maceração meu avô utilizava uma parte do vegetal para três partes de água sem cloro. E realizava a aplicação a 1% do extrato bruto dissolvido em água sem cloro. Sempre nos horários mais frios do dia.
Se necessário repedia a operação no dia seguinte, dependendo da infestação.
Dependendo da praga (cochonilha) ele utilizava 3% dissolvido em água sem cloro.
Meu avô conseguiu esses resultados com dosagens crescentes.
O feijão macuco é uma espécie considerada venenosa, porém este efeito apenas se verifica sobre animais de sangue frio. A rotenona é tóxica para mamíferos, sendo absorvida através da pele, porém relativamente inofensiva quando utilizada adequadamente. Mesmo tendo baixa toxidade e curta permanência no ambiente é aconselhável não aplicar o inseticida na semana que for colher os alimentos.
Um abraço - Lucas de Paula

Neide Rigo disse...

Lucas, obrigadíssima pelas informações.
Um abraço, N

Anônimo disse...

"Jacatupé ou Jacutupé como conheci quando criança, meu pai plantava muito na região de Itumbiara/GO. Minha mãe fazia doce da polpa da batata e eu gostava muito também de consumir a polpa crú. A última reportagem que li, foi na Universidade de Viçosa em MG.

Anônimo disse...

Neide,completando a informação do JACUTUPÉ,a Universidade de Viçosa MG, fez uma pesquisa profunda do mesmo e descobriram coisas fantástica desta batata. Na época em um jornal de Goiânia/GO, fêz a manchete PLANTA FEIJÃO E COLHE BATATA. Como lhe disse antes, meu pai plantava muito e a família inteira adorava o doce da batata ralada, além do consumo dela crú.
Vale a pena divulgar essa riqueza desta
planta. Eurides 62 32103004

Neide Rigo disse...

Eurides, obrigada pela dica. Vou tentar. Você tem a receita do doce?
Um abraço, N

Anônimo disse...

Neide,quanto a receita do doce do Jacutupé, lembro de alguns ingredientes,pois quando criança preocupava apenas em comer o doce. Côco ralado,canela em casca,cravo, as vêzes substituia o côco pela castanha de gariroba picada (tínhamos muito) e corante. Fazia no tacho de cobre em fogão de lenha (era na fazenda, na década de 60). Fazia também em ponto mais forte, tipo rapadura de cana. Um abraço,Eurides.

Neide Rigo disse...

Eurides, super obrigada pela explicação. Acho que entendi.
Um abraço, n

Anônimo disse...

(Doce de Jacutupé) Neide, tinha me esquecido de um ingrediente importante,"o leite de vaca' para cozimento. Água só da batata do jacutupé e o açucar. Tudo na medida certa. E por ventura você irá se informar mais na Universidade de Viçosa/MG o estudo que fizeram do mesmo?
Um grande abraço. Eurides

Anônimo disse...

Neide, hoje é 8.12.2010, estou digitando a minha autobiografia. No momento em que comentei sobre o Jacatupé que meu pai me mostrou quando eu tinha 12 anos, ficou para sempre o nome e o gosto. Não sei hoje, mas naquele tempo, eu achei delicioso. Morava em uma roça perto de João Monlevade, MG. Você está me ajudando a enriquecer o meu texto. Deixei nele o endereço desta página. João Nery de Araújo, 75 anos, psicólogo, professor, residente em Ipatinga.MG.

Neide Rigo disse...

João Nery,
fico feliz de saber que este post contribuiu para as suas memórias. Um abraço, N

Agostinho disse...

Tinha curiosidade em tal leguminosa pois, ouvi muitas vezes meus pais falarem, mas nunca conheci o tal jacatupé. Como faço para conseguir sementes.

Anônimo disse...

Agostinho comprei sementes de jacatupé da Tabutins Sementes lá do RS. URL:http://www.tabutinssementes.com.br/sementes.php?cat=4.
José Antonio

FRADE ONLINE disse...

Nossa,fiquei emocionado ou ver esta aula sobre esta planta magnifica.
Me deixou sem palavras para descrever algo que estou sentindo neste momento.Mas vou tentar contar minha história com relação esta planta.
No sítio onde nasci e vivi minha adolescência,em Mutum-MG, meus avôs e meu pai (ambos in memoriam) cultivavam esta planta para utilizar a batata (na escassez de água) para matar a sede.
Lá na região de Mutum ela era chamada de Jatopé acredito que seja um erro de pronúncia.
Me lembre que existia duas variedades, uma preta que era mais doce que a branca,era bem parecida com uma beterraba,engraçado o sabor se feijão cru rsrs,era exatamente o que eu sentia quando meu raspava aquela batata com o canivete e mandava a gente sorver a poupa suculenta e doce a vontade de beber água desaparecia imediatamente.
Gostaria muito que meus filhos conhecesse esta planta,mas lá ela foi extinta,e aqui em Angra-RJ onde moro ninguém conhece.

Adorei o post muito parabéns.

Neide Rigo disse...

Frade, obrigada. Adorei saber sua história. De fato, o jacatupé é muito aquoso, bom pra matar a sede. Um abraço, N

Anônimo disse...

Olá! Adorei a matéria!!
Morei um tempo no México e adoro Jícama, realmente é o mesmo sabor??

Anônimo disse...

Depois de muito tempo consegui as sementes, agora tenho algumas plantas de Jacatupé, e ja tenho sementes quase mauras. Antonio Carlos

Anônimo disse...

Baixe o livro abaixo no site da Unicamp(é necessário fazer o cadastro)

http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000063250&opt=1

Na página 78 desse livro há uma descrição do jacutupé.

Quando você tiver umas sementes dele, você poderia vender para mim?

hereditarios@gmail.com

Obrigado,

Visite: http://hereditarios.livreforum.com/forum

Neide Rigo disse...

Anônimo, também estou atrás de sementes, pois perdi.
Obrigada pelo link.
Um abraço,n

Chico Amieiro disse...

Oi Neide, A anos que frequento o seu blog. Mas esse negócio de não poder copiar as receitas, realmente achei esquisito. Sei lá!!
Bem.. Ainda adoro e não vou deixar de frequentar, tá..heheheh
Beijão.

Neide Rigo disse...

Chico, quando quiser algo, é só me pedir. Estava tendo muito plágio - de textos inteiros e fotos - e publicados em outros sites como se não fosse de minha autoria. Infelizmente nem todos os que passam por aqui tem a mesma índole.
Um abraço,n