terça-feira, 9 de setembro de 2008

Geléia de mocotó


Deixei as casquinhas na gelatina para enfeitar, mas na hora de comer, é só lamber e dispensar. Enfeitei com laranja pera, lima-da-pérsia, tangerina e limão siciliano.


Quase terminando o assunto mocotó, só mais algumas coisinhas.

Minha mãe aprendeu a fazer geléia de mocotó com minha avó Maria, paterna, a vó gorda. Que deveria se chamar gelatina de mocotó - a gelatina primordial. Nem meu pai nem minha mãe nem ninguém da minha família conhecia outra coisa chamada geléia que não fosse este tipo. Não era coisa de caboclo da roça que falasse em nhengatu e não tivesse ascendência européia muito próxima. Com as frutas, no máximo saíam umas compotas e doces em pastas - que, no entanto, é herança de portugueses. O melhor mesmo era comer fruta no pé, porque, uma ou outra, sempre havia.

Ora, meu pai era caipira e só conhecia a tal geléia de mocotó, que se comia bem temperada com casquinha de limão, canela e suco de laranja. Em porções individuais, em copos, de colherada. Minha mãe nunca a desenformava. Então, na primeira sexta-feira depois do primeiro salário bom como operário de uma multinacional, quis fazer um agrado à família. Nas sextas de pagamento o mimo costumava ser doce de bar - de abóbora, batata doce roxa e amarela em forma de coração, maria-mole, doce de leite, pé-de-moleque, embrulhados em papel cor de rosa. Mas aquele era um dia especial. Passou no supermercado e viu lá uns copos de vidro. No rótulo, desenho de frutinhas e nome de geléia. Destas geléias comuns - apenas fruta e muito açúcar. Nada de mocotó. Só que ele não sabia. Pensou: se geléia de mocotó com laranja já é bom, sô, imagine estas com frutas todas. Seu Toninho comprou um sabor para cada um. Cinco filhos, pai e mãe, sete copos diferentes. Uva, morango, laranja, amora, goiaba, jaboticaba e maçã ou coisas assim. Acho que da Cica. Depois da janta, cada um pegou seu sabor predileto, catou uma colher, correu para a sala, se espremeu no sofá, com a boca cheia de doce esperando a novela acabar. Na primeira colherada, hum, nham, nham....; na segunda, han?; na terceira, argh. Um a um, copos e colheres açúcaradas foram deixados na mesinha de centro. Caras de entojo, barrigas curvadas e tanta sede. Como minha mãe nunca guardava nada que tivesse sido contaminado por “colher-de-boca”, que azeda, mais de quilo de geléia foi ao lixo no outro dia. Foi nossa primeira coleção de copos de geléia.
Que troço mais arrepiante, mais doce – e olhe que gostávamos de tudo bem melado. Todos nós agarramos aquilo como um copinho individual qualquer de iogurte com frutas. Ou, como meu pai pensou inicialmente, uma geléia (de mocotó, como ele conhecia) com sabor. Pois enjoamos de geléia e de doce de um tanto que, nem que estivéssemos com as tripas grudadas no espinhaço de fome, encararíamos coisa parecida. Só algum tempo depois descobrimos que geléia de mocotó era uma coisa - pra comer de colherada - e geléia de frutas era outra - pra passar uma pontinha de faca no biscoito que acompanha o chá. Mas demorou.

Tamanho grande, com gomos de laranja dentro da gelatina.

Geléia de mocotó

1,5 kg de mocotó ou pé de boi
1 pitada de sal
1 cravinho
1 pauzinho de canela
1 xícara de água ou mais (se necessário)
1 xícara de açúcar ou a gosto
Casca de 1 limão (rosa, siciliano, tahiti ou misturados)
2 xícaras de suco de laranja (ou meia de suco de limão e o restante de água)

Lave bem o mocotó com água e umas gotas de suco de limão. Coloque numa panela de pressão grande e cubra com 3 litros de água. Junte uma pitada de sal e o cravinho. Tampe e leve ao fogo alto. Quando a válvula começar a chiar, abaixe o fogo e cozinhe por cerca de 1 hora e meia. Desligue o fogo, espere acabar a pressão e abra. Veja se o colágeno (o mocotó) está se soltando dos ossos. Neste ponto estará bom. Se quiser, cozinhe em panela comum, controlando a água e o ponto. Cerca de 3, 4 horas. Passe tudo por peneira. Recolha o líquido. Separe o mocotó dos ossos e reserve para fazer com favas ou em caldinho (receita no próximo post ou a de Mocofava, do Mocotó, adaptada). Deverá restar cerca de 900 ml de caldo. Leve à geladeira e espere cerca de 5 horas ou até a gelatina solidificar e a gordura sobrenadar. A gelatina deve estar bem firme. Se estiver mole, é porque precisa ser reduzida ainda mais e não precisará levar mais água. Como a extração de gelatina não é uniforme, pode ser que a quantidade de líquido que vai usar seja um pouco diferente da minha. Ou acertará na próxima receita. Com uma colher, tire toda a gordura e reserve (poderá usar para farofas, refogados, assados ou para fazer sabão). Com um paninho de algodão limpo e molhado ou um papel toalha tire todo e qualquer resquício de gordura. Leve a gelatina ao fogo com um pauzinho de canela, a água, o açúcar e as casquinhas de limão. Deixe ferver por 2 minutos. Desligue o fogo, junte o suco de laranja (ou água e suco de limão ou só suco de limão, se a gelatina já estiver no ponto certo), mexa bem e passe tudo por pano fino. Junte mais casquinhas de limão novas ou as mesmas, prove o açúcar e corrija, se achar necessário. Distribua em forminhas individuais ou em uma grande umedecida com água.

Deixe na geladeira até gelatinizar (cerca de 4 horas)

Rende: 8 porções

Nota 1: se quiser, junte gomos de laranja na gelatina ainda líquida. Ou outras frutas frescas como uvas, morangos, maçãs, peras, bananas. Não use mamão, abacaxi, kiwi ou figo crus, pois contêm substâncias proteolíticas, papaína, bromelina, actinidina e ficina, respectivamente, que quebram a proteína e impedem a gelatinização. Se cozidas, podem.

Nota 2: O mocotó é constituído basicamente de uma proteína chamada colágeno, que, apesar do que dizem, não é bem aproveitada pelo nosso organismo, porque lhe falta um equilíbrio de aminoácidos. Ou seja, não vai adiantar muito se pensarmos nele como repositor do colágeno perdido com a idade. Para esta função, melhor consumir alimentos ricos em vitamina C, esta sim usada na formação interna do colágeno que vamos aproveitar. Ainda assim, esta gelatina é mais saudável que qualquer pozinho colorido que venha em caixinha.

Nota 3: junto com o colágeno, presente na pele e nos tendões, vem junto um tanto de gordura do tutano e abaixo da pele. De 1,5 kg de mocotó, extraí 150 g de gordura. Se quiser fazer um caldo de mocotó mais leve, tem que desengordurar o caldo, como mostro nas figuras. E o colágeno restante ficará quase que totalmente sem gordura e poderá ser usado em sopas, com ou sem o próprio caldo desengordurado.




Olhe o tanto de gordura. O que está embaixo é colágeno puro.


Tire a gordura sobrenadante do caldo gelatinizado, raspando bem. Pesei só pra saber a porcentagem - no mocotó que usei, 10% era gordura.
Como deixei um pouco a gordura em temperatura ambiente (enquanto a gelatina ainda estava sólida), pude separar também a gordura saturada da insaturada (ou moninsaturada), líquida em temperatura ambiente - a parte amarela, mais saudável.



Quebre o caldo gelatinizado e coloque numa panela que será levada ao fogo para derreter. Neste momento é que o caldo vai ser temperado e adoçado.




O óleo sólido em temperatura ambiente foi separado, através de um chinois, do óleo líquido. O sólido, guardei para sabão e o líquido, o amarelo, vou usar no feijão.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Delícias do Mocotó

Este crostine não existe no Mocotó. Foi invenção da Nina Horta, a partir do petisco de linguiça, só para minha foto (linguiça artesanal, cebola roxa, tomate cereja, cebolinha e pimenta-biquinho)


Aqui, outras delícias do Mocotó. Para comer lá, pois não tenho as receitas. Deste maxixe, vou ver se consigo, porque era uma coisa do outro mundo, de tão bom. Em compensação, veja nos posts anteriores receita da Mocofava, de Baião-de-dois, Atolado de Bode, Torresmo, Musse de chocolate com cachaça e Pudim de Tapioca com calda de coco queimado. Cedidas gentilmente pelo Chef Rodrigo Oliveira para o Come-se.


Maxixe com molho de leite de coco e creme de leite
Feijão de corda bem temperado
Ambrosia, que chegou à mesa quentinha. Feita pela mãe do Rodrigo, dona Lurdes.
Farofa

Sorvete de rapadura (com pedacinhos) e calda com redução de catuaba (a calda veio depois da foto)

Petisco com linguiça artesnal

Chips de mandioca
MocotóAvenida Nossa Senhora do Loreto, 1100 – Vila Medeiros
Tel. (11) 2951-3056
www.mocoto.com.br

Receita do Mocotó, continuação – Pudim de tapioca com calda de coco queimado


Continuando, as receitas do Mocotó. Veja também receita da Mocofava, de Baião-de-dois, Atolado de Bode, Torresmo e Musse de chocolate com cachaça

Pense numa sobremesa bem gostosa, pra comer em dias de festa. É esta. Não sei se vamos conseguir fazer o coco queimado do jeito do Rodrigo, crocante, aromático, mas não custa tentar.
Pudim de Tapioca com Calda de Coco Queimado
(do chef Rodrigo Oliveira)

Ingredientes
75 g de tapioca granulada
375 ml de creme de leite fresco
200 ml de leite de coco
2 ovos
2 gemas
100 ml de leite
1 lata de leite condensado

Calda para a forma
200 g de açúcar
70 ml de água

Calda de Coco Queimado
500 g de açúcar
Uma pitada de anis-estrelado em pó
100 ml de água
100 g de coco fresco ralado
200 ml de leite coco

Comece o preparo do pudim: hidrate a tapioca com o creme fresco e o leite de coco por pelo menos duas horas..

Calda para a foma: coloque numa panela a água e o açúcar e leve ao fogo, mexendo devagar até formar uma calda caramelizada. Espalhe numa forma para pudim e reserve.

Prepare a calda de coco: caramelize o açúcar e junte o anis, a água e o leite de coco. Cozinhe até obter o ponto de fio grosso. Reserve. Aqueça o coco ralado em uma frigideira, mexendo sempre até dourar. Junte à calda, misture e reserve.
Continue o preparo do pudim: misture os ovos, as gemas, o leite e o leite condensado. Mexa bem, coe numa peneira fina e junte à tapioca hidratada.
Coloque a mistura na forma untada e asse em banho-maria a 150º por 40 minutos ou até firmar. Resfrie o pudim e sirva com a calda quente.

Rende: 8 porções
Mocotó
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Receita do Mocotó – Mousse de chocolate com cachaça


Continuando, as receitas do Mocotó. Veja também receita da Mocofava, de Baião-de-dois e Atolado de Bode e Torresmo.

Para aproveitar bem esta sobremesa deliciosa - acho chocolate com cachaça melhor que com rum-, vá com calma na mocofava e no torresmo. Não foi meu caso. Mas mesmo assim provei e recomendo.


Mousse de Chocolate com Cachaça (do chef Rodrigo Oliveira)

Ingredientes (do chef Rodrigo Oliveira)


300 g de chocolate meio amargo picado
5 claras
45 g de manteiga derretida
100 g de cachaça artesanal envelhecida em bálsamo
75 g de açúcar
5 gemas
250 g de creme de leite fresco

Para decoração
Chantilly de cachaça (450 ml de creme, 50 ml de cachaça branca e açúcar a gosto – tudo batido na batedeira ou preparada no sifão).
Raspas de chocolate
Calda de chocolate

Modo de preparo
Derreta o chocolate em banho-maria e mantenha-o aquecido.
No liquidificador, coloque as claras e bata. Com o aparelho ligado, adicione o chocolate, a manteiga, a cachaça e o açúcar. Reserve e deixe esfriar completamente.
Numa tigela de inox leve as gemas ao banho-maria batendo até ter um creme fofo e brilhante. Tome cuidado para não coagular as gemas com calor excessivo. Reserve e deixe esfriar completamente.
Bata o creme de leite bem gelado até firmar e, aparentemente, triplicar de volume. Junte gentilmente as gemas batidas e, por último, o creme de chocolate. Misture com cuidado até obter um creme homogêneo.
Despeje no recipiente escolhido ou distribua em taças e leve à geladeira até firmar.
Decore com o chantilly de cachaça, raspas e calda de chocolate.

Rende: 10 porções

Mocotó
Avenida Nossa Senhora do Loreto, 1100 – Vila Medeiros
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Receita do Mocotó, continuação – Torresmo



Continuando, as receitas do Mocotó. Veja também receita da Mocofava, de Baião-de-dois e Atolado de Bode.

O torresmo do Mocotó carrega um sabor defumado muito delicado. E não tem uma só pururuca borrachenta. Todas super crocantes. O problema é que você tem que ter um defumador ou um fogão de lenha onde possa pendurá-lo. Para quem tem, a questão está resolvida. E, para nós que não temos, o problema não é tão grande assim, afinal nos resta o consolo de ir comer lá. O grande problema mesmo é resistir bravamente e não atacar a sua porção e a do vizinho. Eu tive que disputar os meus crocantes com a Nina Horta e Ana Soares.
Ana Soares e Nina Horta disputando torresminhos

Torresmo defumado (do chef Rodrigo Oliveira)

Ingredientes
5 kg de barriga de porco com carne entremeada
350 g de sal grosso
75 g de bicarbonato
3 litro de água
Óleo para fritar

Modo de preparo
Faça uma salmoura com o sal grosso e o bicarbonato e mergulhe nela a barriga cortada em tiras de 3 centímetros. Deixe repousar na geladeira por uma noite ou cerca de 8 horas. Escorra e pendure no defumador por 6 horas a 60 °C. O próprio suco da carne em contato com o aquecedor vai produzir uma leve defumação no torresmo. As tiras de barriga ficarão rígidas e douradas. Retire as pontas e corte em pedaços de 5 centimetros. Frite por 20 minutos a 150ºC e depois a 200ºC, para pururucar.

Rende: 12 porções

Nota do Come-se: controle-se ou este número de porção poderá reduzir drasticamente.

Mocotó

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Receita do Mocotó, continuação – Atolado de bode ou atolado de cabrito


Continuando, as receitas do Mocotó. Veja também receita da Mocofava e de Baião-de-dois.


Atolado de bode ou atolado de cabrito (do chef Rodrigo Oliveira)

Ingredientes

Para a marinada
6 dentes de alho picados
80 ml de azeite
40 ml de vinagre de maçã
40 ml de cachaça artesanal
10 g de colorau
2 folhas de louro
1 colher (chá) de cominho moído
1 colher (chá) de grãos de coentro moido
1 colher (café) de pimenta-do-reino branca moída
Sal a gosto
Para o cabrito
½ cabrito cortado em pedaços pequenos (peça ao açougueiro)
Azeite
50 g de extrato de tomate
4 cebolas grandes picadas
1 pimentão grande em rodelas

Para a montagem
Mandioca cozida
Tomate cereja
Cebola pérola
Cheiro-verde (coentro)
Azeite a gosto

Modo de preparo
Numa tigela de vidro, misture todos os ingredientes da marinada. Junte o cabrito, tampe e deixe repousar por uma noite ou cerca de 8 horas, na geladeira.
Aqueça uma panela de fundo grosso, acrescente um pouco de azeite e doure uniformemente os pedaços de cabrito. Reserve em outro recipiente.

Na mesma panela, acrescente o extrato de tomate e refogue até caramelar levemente. Em seguida, junte a cebola e o pimentão e deixe até que amoleçam.
Retorne à panela a carne e o líquido da marinada e adicione água até cobrir. Cozinhe lentamente, em fogo baixo, até a carne quase soltar do osso. Confira o sal e corrija, se necessário.

Sirva com mandioca cozida, tomate cereja, cebola pérola, cheiro verde e bastante molho. Finalize com um fio de azeite.

Nota do Rodrigo: uso cabrito, mas pode ser bode que é o mesmo bicho adulto – neste caso, poderá levar mais tempo para cozinhá-lo.

Rende: 8 porções

Nota do Come-se: lembre-se que uma porção de boteco serve mais que uma boca.

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Receita do Mocotó, continuação – Baião-de-dois




Continuando, as receitas do Mocotó. Veja também receita da Mocofava.

Baião-de-dois (do chef Rodrigo Oliveira)

5 dentes de alho
30 g de manteiga-de-garrafa
1 kg de arroz
2 litros de caldo de galinha ou legumes caseiro
3 folhas de louro
5 g de colorau
Sal a gosto
100 g de toucinho defumado em cubos
100 g de lingüiça defumada em cubos
200 g de carne-seca cozida e desfiada
1 cebola-roxa em cubos
1 pimentão verde em cubos
2 tomates em cubos
1 kg de feijão fradinho cozido e escorrido
100 g de queijo-de-coalho em cubos
Coentro fresco a gosto
50 g de manteiga-de-garrafa

Modo de preparo
Numa panela grande, frite o alho na manteiga-de-garrafa e, antes de dourar, junte o arroz e mexa bem. Junte o caldo fervente, o louro, o colorau e deixe cozinhar com a panela tampada, fogo baixo, até os grãos ficarem macios. Reserve.

Frite o toucinho em sua própria gordura e, quando começar a dourar, junte a lingüiça e a carne-seca mexendo por mais alguns instantes. Passe para um tigela e reserve.
Na mesma panela, aqueça rapidamente a cebola, o pimentão e os tomates.
Misture todos o arroz e as carnes reservadas, o feijão fradinho e o queijo de coalho. acerte o sal e finalize com o coentro e a manteiga-de-garrafa.

Sirva com vinagrete de cebola-roxa e pimenta-fresca.

Rende: 8 porções.
Nota do Come-se: lembre-se que uma porção de boteco serve mais de uma boca.
A cerveja Indica, de Ribeirão Preto, fez bonito com o arroz. De alta fermentação, ela leva muito malte, lúpulo e....rapadura. Combinação irrepreensível.

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Receitas do Mocotó - Mocofava



Felizmente para todos nós, o Rodrigo do Mocotó me mandou as receitas todas bem explicadinhas. Acho que já dá para começarmos a arriscar (hoje, antes de ele me mandar, eu já tinha ousado minha versão sem carne seca). A mocofava dele é delicada, suculenta, cremosa e bem temperada. O coentro com o limão refresca a untuosidade do prato. Acho que com a fórmula que ele dá, podemos chegar perto do sucesso. Mas lembrando que o melhor mesmo é comer lá.

Mocofava (receita do Chef Rodrigo Oliveira)
Ingredientes
1 kg de fava-manteiga nacional
200 g de bacon picado em cubos
1 pé de boi (mocotó) em pedaços
500 g de carne-seca dessalgada
300 g de lingüiça calabresa
3 colheres (sopa) de manteiga de garrafa para refogar
2 dentes de alho socado
1 cebola picada
1 pimentão verde picado
3 tomates picados
1 colher (chá) de colorau
Suco de 1 limão
Sal e pimenta a gosto
Cominho moído a gosto
Coentro a gosto
Cebolinha verde a gosto

Modo de fazer
Lave bem a fava, deixe de molho por cerca de 8 horas, escorra, coloque na panela de pressão junto com o bacon, cubra com o dobro do volume em água e leve ao fogo alto. Assim que a panela começar a chiar, abaixe o fogo e cozinhe por cerca de 20 minutos. Espere acabar a pressão e confira o cozimento. Caso as favas ainda estejam duras, leve de novo a panela ao fogo e deixe cozinhar sem pressão, até que elas fiquem macias. Se precisar, junte mais água fervente. Querendo controlar melhor o ponto de cozimento, cozinhe em panela comum, sem pressão. Vai demorar mais, porém é mais seguro (para não passar do ponto e as favas estourarem). Reserve.

Lave bem o pé de boi e coloque na panela de pressão, coberto com bastante água. Leve ao fogo alto. Quando a válvula começar a chiar, abaixe o fogo e deixe cozinhar por aproximadamente 50 minutos ou até a carne começar a desprender dos ossos. Corte os pedaços maiores de "carne" (o colágeno) e coloque de volta no caldo, descartando os ossos. Junte as favas e reserve.

Cozinhe em água a carne-seca já dessalgada e a lingüiça inteira, separadamente, até ficarem macias. Descarte a água que sobrou. Corte a carne e a linguiça em cubos e junte ao mocotó com as favas.

Numa panela, coloque a manteiga de garrafa e refogue os seguintes ingredientes, nesta ordem: o alho, a cebola, o pimentão e os tomates. Junte tudo ao caldo de mocotó.

Tempere com o colorau, o suco de limão e os outros temperos à gosto. Deixe ferver por uns 15 minutos. Se precisar encorpar o caldo, bata um pouco da fava no liquidificador e devolva à panela. Fora do fogo, junte bastante coentro e cebolinha. Sirva com limão e pimenta à parte.

Nota do Rodrigo: Essa receita é uma adaptação do nosso tradicional Mocofava, que é feito da combinação do Mocotó com a Favada preparados separadamente. Contudo, isto é inviável para se fazer em casa. Por isto, nesta versão, é feito como um prato único. Mesmo assim, essa é uma ótima receita para reunir os amigos e servir acompanhada de uma boa cachaça ou uma caipirinha.

Nota do Come-se: segundo Rodrigo, a mocofava é invenção do seu tio Tino, da casa do Norte “O Mocofava”, também na zona Norte desde 1976 (Rua Iris Leonor, 237, Parque Mandaqui, Tel. 11-6231-9044).
Comprei fava-manteiga no Mercado da Lapa – várias bancas têm. Verifique se elas têm tamanho iguais e se não há algumas meio enrugadas. Elas devem estar uniformes para cozinhar em tempos iguais. Às vezes estão misturadas favas jovens com outras mais velhas e na panela é um sufoco – enquanto umas já estão derretendo, outras ainda estão duras.
Mocotó
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quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Comida visceral e de extremidades

Quando existimos sem consideração ou agradecimento, não somos homens, mas bestas.”
MFK Fisher.

O mocotó ou a canela do boi, depois de limpo e branqueado com água clorada, fica assim. Já o ossobuco fica acima do joelho. Na infância, comi muito gelatina de mocotó com suco de laranja, cravo e canela. Muito melhor que as gelatinas coloridas, de caixinha.

Enquanto as receitas do Mocotó não vêm (só vou publicar quando resolver umas dúvidas minhas que também podem ser sua, mas o moço é ocupadíssimo), aproveito o gancho sempre jogado pelo caderno Paladar, que hoje fala de sangue como ingrediente e que aparece em peso no bodin noir, na morcela, no chouriço, no frango ao molho pardo e no sarapatel. Recomendo, corram comprar o jornal O Estadão, se é que ainda dá tempo - não consegui publicar antes. Desculpe.

A versão original desta figura é a última foto - ia publicar só esta, manipulada, para não chocar, mas vamos jogar limpo, né?

Minha mãe poderia ser doutora em economia doméstica e bom senso por ter conseguido alimentar decentemente cinco filhos com o salário de operário do meu pai e a ninharia que recebia como costureira, trabalhando em casa. Prova disto é que nunca fui ao médico a não ser para as vacinas e quando furei a goela num acidente doméstico. E nunca, nunquinha, faltou uma fonte protéica no almoço e no jantar lá em casa. Além, é claro, de verduras, legumes e frutas – banana ou laranja era a sobremesa de todo dia; maçã, só uma metadinha quando tinha. A gente sabe que dentre os três grupos de macro nutrientes, que inclui carboidratos e gorduras, as proteínas são as mais caras e difíceis de se obter, pelo menos nos dias de hoje. O segredo da Dona Olga: vísceras e tudo o mais que um boi ou porco pudesse dar. Bucho, fígado, miolo, rim, coração, mocotó. E tudo com tempero muito bom. Era nosso banquete, com arroz e feijão sempre frescos. Mas também ela veio da roça, onde os bichos que nos alimentam são quase abençoados e nenhuma parte deles é desperdiçada. No dia de matança no sítio de meus avós, cada um lidava com uma coisa. O sangue era aparado e virava chouriço temperado com o redanho; a gordura era picada e derretida no tacho; o couro com alguma carne era limpo e fumado no fogão de lenha; as tripas, lavadas no rio e viradas pelo avesso com o tal do pau-de-limpar-tripa, para se transformar em lingüiças pedaçudas; a fissura era picada para o refogadinho de pacuera ou para a buchada (a buchada de porco da minha avó era especial, explico a seguir), o lombo virava carne de lata, coberta de banha, o nosso confit tupiniquim. E assim, o trabalho ia até a noite. Por isto, parecia ser uma coisa banal minha mãe comprar de vez em quando uma cabeça inteira de porco, às vezes só a metade, assar com a melhor marinada de limão cravo e alho, e botar na mesa sem cerimônias. Eu via isto com naturalidade e apetite e nunca me importei de comer olhos, cérebros e tutanos. Mas gostava mesmo era da bochecha do bicho. E de cérebro de galinha. Com o perdão da rima, um bicho não deveria morrer em vão, por sua porção de filé mignon. É o que pensa também o autor de Nose to Tail Eating, do inglês Fergus Henderson, cuja entrevista está lá no Paladar de hoje, na qual ele responde sobre seu interesse em trabalhar com órgãos e sangue: “Não é algo delicioso, mas parece injusto não usar o animal inteiro. Parece uma indelicadeza, uma infantilidade não fazê-lo”.

Pois é, um porco não é só lombo; um boi não é só filé e um frango não é só peito. Só peito, é chester. Frango que cisca tem asas, pés, moelas, fígados e cabeça. Todos têm proteínas, ferro, vitaminas e sabor.

Nunca vi abate de bois, mas dele também tudo se aproveita. Em pequenas propriedades, o porco ou o cabrito/ bode têm tamanho familiar ideal especialmente na era pré-geladeira.

Aqui, os destinos das partes do porco abatido no sítio dos meus avós. Fotos no Mercado da Lapa, tiradas na semana passada.


A fressura ou pacuera inteira: língua, traquéia, pulmões, fígado.




Pode ser comprado assim, picado, incluindo sangue coagulado e rim. Mas entendidos preferem a fressura inteira e outras peças separadas, para picar em casa.

Fressura ou pacuera: pulmão, traquéias, fígado, língua e coração. Minha mãe chama o pulmão de pacuera mole e língua, de pacuera dura. O rim também entrava, embora não faça parte da fressura. O nosso refogadinho de pacueras não era exatamente como o sarapatel nordestino, que pode levar sangue. Este não levava. Mas tudo era picado e refogado com temperos. Lava-se bem, aferventa cada peça inteira em água e sal para não ficar molenga e facilitar o corte. À medida que cada peça cozinha, tira da água e pica em cubinhos. Depois, basta fazer um refogado com banha, bastante cebola, alho, gordura, pimentão, pimenta vermelha ardida, pimenta-do-reino, cominho, colorau e muito cheiro verde. Como as carnes já estão cozidas, basta refogar tudo. O cheiro-verde, só no final.
Pacuera vem do tupi piaku´er ou “entranhas já tiradas”.




Bucho ou dobradinha ou estômago: primeiro deve-se lavar bem, pois têm cheiro forte e depois esfrega-se com fubá e limão para tirar o visgo que há nele (os do mercado são lavados com água e um pouco de cloro para clarear). Com ele minha avó fazia a buchada, que também é diferente da buchada de bode como se conhece. Ela recheava com o refogado de pacuera, só que era tudo passado na máquina. Costurava o bucho e fritava em pouca banha, virando sempre na frigideira até ficar dourado. Depois era só cortar em fatias, ficava como um embutido bom e lindo.



Passarinha (baço): Como ninguém gostava, esta era o prêmio do cachorro. Mas também se come. Uma vez comprei e fiz uma espécie de curry africano, com muito cominho. De sabor ficou bom, só que foi difícil trabalhar com ele – muito sanguinolento e escorregadio. Mas, segundo Eliana, uma baiana que está trabalhando aqui em casa, na família dela se faz assim: aferventa para firmar, depois é só fatiar, temperar e fritar. Ficou de fazer dia desses.

Sangue coagulado para o sarapatel

Sangue: minha avó temperava com sal, grãos de erva-doce, alho picadinho, salsinha e bastante cebolinha. Juntava ainda o redanho picado, que lhe dava textura aveludada e sabor indescritível . Embutia em tripas, amarrava e cozinhava. Era frágil e tinha que ser consumido em pouco tempo. Frita inteira e fatia.

Lombo cheio: explicação da minha mãe: “ué, é só fazer um corte no lombo como uma cesariana, encher de carne moída, costurar e fritar”. Insistindo, ela explica melhor: o lombo foi antes temperado com limão cravo, alho, sal e imenta-do-reino e deixado no tempero por umas 5 horas. A carne moída leva temperos como sal, pimenta, alho e colorau e também fica umas horas em repouso para pegar o tempero. Depois, frita-se bem em banha, numa panela de ferro, pingando água para cozinhar bem por dentro. Quando está bem cozida e dourada, corta e guarda na lata, imersa em banha. Antes de servir, é só tirar da lata e aquecer.

Couro – chamamos de courinho; secava no fogão de lenha e usava em quadradinhos no feijão.

Torresmo – usava só a gordura com alguma carne entranhada, sem o couro (não era torresmo a pururuca). Para prensar e extrair a banha ou comer com sal e mandioca cozida sem sal.

Pé, rabo, orelha, focinho – minha avó cozinhava com feijões, favas, ervilhas ou grãos de bico.



Estas fotos de redanho são antigas

Redanho: usava para embalar bolinhos de carne moída ou picada, como fonte de gordura para lingüiças e chouriços.



Partes do boi


Duas partes do estômago dos ruminantes, no caso o boi: o da esquerda é o bucho casinha de abelhas, mais macios e desenhado em alvéolos.
A outra parte: Omaso, folhoso ou 60 folhas - é uma das divisões do estômago dos ruminantes. É onde ocorre a absorção do excesso de água do bolo alimentar - as folhas aumentam a superfície de contato e potencializa a função. Já comi dele em restaurante chinês, frio, como entrada. Muito bom. Ao contrário do que se imagina não é a parte terminal do intestino.
Coração

Língua e coração
Língua limpa
Rabo ou rabada
Tripas
Foto chocante: não ia mostrar, sorry, mas o faço como licença didática - o mocotó genuíno na feira de São Joaquim - Salvador/BA. Depois de limpo e branqueado, à base de cloro, fica com a cara daqueles da primeira foto ou como encontramos no mercado.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Fui ao Mocotó

Caju com sal e boa cachaça, costume nordestino. Combinação perfeita.

A tal da lei seca que vigora em São Paulo serviu para dar mais trabalho pelo menos para uma categoria profissional – os motoristas de vans. Quem se arrisca a ir a um boteco e voltar dirigindo? A nossa se chamava Bala de Prata. Nossa bala seguiu lenta, mas chegou ao alvo. Cruzou São Paulo no horário de pico, o que já foi uma aventura, mas ao mesmo tempo um programão. Da próxima vez, sabendo que se pode passar até duas horas no trânsito, o melhor é levar cestinha de piquenique e começar o come-e-bebe ali mesmo. Eu cheguei verde de fome ao Mocotó. Estávamos em dez: Mari Hirata, suas duas irmãs e cunhado; Ana Soares, marido e filha; Betty Kövesi, Nina Horta e eu. Fomos conversando e rindo e nem vimos o tempo passar (só minha barriga reclamou). Eu conheci o Rodrigo no evento do Caderno Paladar, mas não o seu palco, que é um verdadeiro sucesso na zona norte, num bairro fora do circuito gastronômico – pelo menos por enquanto. Nos fins de semana tem fila de 2 horas para conseguir uma mesa. O lugar é simples e agradável. Logo na entrada, dezenas de reportagens emolduradas, o orgulho da vizinhança. As pessoas chegam a pé para tomar uma cerveja e comer um torresminho, bater uma mocofava ou beliscar as deliciosas lingüiças artesanais tira-gosto com pimenta biquinho.

Ali funcionava, desde 1973, uma simples casa do Norte do Seu Zé como tantas outras que há na Lapa, no Rio Pequeno, na Freguesia do Ó ou vila Nhocunhé. Elas pipocam longe de nossas vistas, acreditem. Mas Vila Medeiros nem é tão longe assim, vá. É pertinho da estação de Metrô Tucuruvi. Um taxi dali até lá deve ser baratinho. Foi dia de jogo, tinha muito trânsito, um homem tentou se matar na torre de energia da Barra Funda, cortaram a luz. Do caos ao paraíso fomos nós, pois chegando lá já saiu uma caipirinha de caju, outra de limão cravo e assim foi (ninguém ia dirigir mesmo), com as melhores cachaças, dentre as centenas do menu. O seu Zé e a dona Lurdes, que trabalham até fechar o boteco, deram sorte grande, que o filho bonitão leva jeito pra coisa. Estudou gastronomia, incrementou as receitas de família e passou a tocar o negócio com o maior carinho. Caiu nas graças do chef Laurent, Alex Atala e de tantos jornalistas e críticos que por ali passam e depois recheiam páginas de renome com elogios.
E, além da comida deliciosa e cuidadosa, não adianta fingir que não vi: o moço é um pitéu. E pura simpatia. Quem faz cara feia pra mocotó (perna e pé do boi), lá come sem reclamar e ainda lambe os beiços que grudam de puro colágeno e prazer.

Comemos, bebemos e adocicamos com tudo o que tínhamos direito. No final, a conta: R$ 37,00 por pessoa! Um nada.

Em vez de ficar me exibindo aqui de ter comido isto e aquilo, atiçando cobiças de quem ainda não foi ou não vai ter chance de ir um dia, vou passar nas postagens seguintes as receitas dos pratos que comemos – só uma pequena mostra da cozinha farta. Elas me foram mandadas gentilmente pelo próprio Rodrigo. Não testei nenhuma, mas ele não é o tipo de cara que esconde o jogo. Já comprei fava-manteiga do Piauí que ele usa na Mocofava e espero arriscar a receita em breve.

Então, amanhã, receitinhas do Mocotó com todas minhas dúvidas esclarecidas, antes que me perguntem detalhes. E depois tem mais e mais.

Mocotó
Avenida Nossa Senhora do Loreto, 1100 – Vila Medeiros
Tel. (11) 2951-3056 www.mocoto.com.br.

Pra não ficar batendo cabeça, no Google maps , digite exatamente como está aqui: Av. Ns. do Loreto
e terá o mapinha das redondezas.

Só elogios!



Rodrigo servindo a Betty Kövesi

Boa comida e boa companhia: A turma da Van Bala de Prata com Rodrigo (atrás da Nina Horta, que se esconde atrás da Betty). Eu, de verde.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Não é lorota, é araruta. Resposta à charada de ontem.

Parece mandioca, mas é outra espécie

Não sei quem me mandou, se foi o Neko, do Mungo Verde, ou se foi o Joselito, da Embrapa. Os dois disseram que estavam postando ararutas para eu plantar em Fartura. Só sei que recebi, sem rementente nem bilhete, cinco desterradas ararutas. Ultimamente tenho tentado em vão comprar a fécula destas raízes. A Laila até me deu esperança quando disse ter encontrado araruta da marca ESCK Furukawa, em Mogi das Cruzes, mas liguei para o vendedor que disse comprar de um revendedor do Paraná como araruta, mas, quando insisti, disse não podia garantir. Ele veria com seu fornecedor e me daria retorno. Em seguida me ligou desolado com a resposta já prevista: era amido de mandioca, vulgo polvilho (claro, todo mundo sabe seus méritos). O problema é que a araruta rende uma mixaria de amido, enquanto na mandioca ele é abundante. Então, é mais vantagem rotular o produto como araruta e vender pelo dobro do preço. Já falei aqui da minha denúncia da araruta do Mercado da Lapa, da marca STIVAL. Pois não é que outro dia saiu uma matéria na Revista Menu falando que a verdadeira araruta poderia ser encontrada no Mercado da Lapa? Liguei lá e perguntei a marca: STIVAL na cabeça. A falsa. E seguem vendendo.
Como extrair o amido
Para descascar: é só ir esfregando as mãos sobre ela e puxando a pele, debaixo da água. Ela vai saindo em camadas, restando uma superfície lisinha e moldada em aneis, como se vê na foto.


Pesei 200 g e bati no liquidificador com 500 ml de água e coei.
Menos da metade de amido, na araruta, à esquerda. Aqui, comparada com a mandioca.

Rendimento: 22 g de araruta ante 60 g de polvilho de mandioca (em 200 g de cada raiz)

O que me interessa agora é plantar e reproduzir a planta de araruta. Pois já percebi que seu eu quero eu mesma tenho que produzir minha fécula. Aproveitei para medir a porcentagem de amido que pode ser extraído.
Triturei no liquidificador 200 g da raiz descascada e picada com 500 ml de água: bati com metade da água, coei num pano, voltei o farelo para o liquidificador e triturei mais com o resto da água; coei de novo, espremendo bem. Recolhi o líquido e esperei sedimentar – cerca de 2 horas. Escorri a água. O excesso de umidade do amido sedimentado foi tirado com papel toalha – deixei uma folha dobrada na superfície e ela funcionou como mata-borrão. Poderia ser um pano limpo. Quando virou um torrão úmido, retirei com uma colher, peneirei e deixei no sol até secar bem e virar um pó fino como talco. Rendeu 22 g de fécula de araruta, pronta para usar nas brevidades, nas sopas, nos mingaus e que tais. Fiz o mesmo com a mandioca, que rendeu três vezes mais – 60 g

A brevidade
De mandioca, à esquerda, e araruta, à direita. Praticamente iguais.

Peguei uma receita de brevidade do livro do João Rural (Quitandas do tempo do Fazendão) que leva polvilho doce – 12 ovos, 12 colheres (sopa) de açúcar e 12 colheres (sopa) de polvilho doce. Como sabem, minha araruta rendeu apenas 22 g, então, pelo mínimo múltiplo comum, só pude usar 1 ovo, 1 colher (sopa) de açúcar e 1 colher (sopa) de araruta. Fiz duas receitas iguaizinhas. Uma com araruta e outra com o polvilho, ambos recém-extraídos. Bati em neve a clara, juntei a gema e o açúcar e bati um pouco mais. Juntei o amido e continuei batendo até formar bolhas. Juntei um pouco de casquinha de limão e de laranja, distribuí em forminhas untadas, assei em forno médio preaquecido, 15 minutos ou até dourar.

E, surpresa, não vi muita diferença no sabor. Apenas que os bolinhos com araruta parecem ser mais sequinhos e expandidos (acho que não escolhi uma boa receita, parece mais um pão-de-ló). Diferença pequena, mas existe.
Efeito placebo na cozinha
Durante anos ouvi dizerem “só dá certo com araruta” ou “ah, brevidade com araruta tem outro sabor”. Muita gente diz isto até hoje sem nunca ter provado araruta de verdade, já que há anos ela desapareceu do mercado. E as que conheceram araruta um dia e hoje compram as tantas marcas fajutas por aí, continuam afirmando que “nada como isto ou aquilo feito com esta araruta”. O fato é que polvilho doce e araruta são tão parecidos que os fabricantes trocaram um produto pelo outro sem avisar o consumidor e ninguém notou. Só eles, que ganham muito mais. No próprio Mercado da Lapa encontrei uma mulher comprando araruta fajuta da Stival e dizendo toda cheia de razão que só compra ali, porque aquela era a verdadeira e tal. Mal sabe ela que tem comprado gato por lebre.
Então, araruta para quê?
A questão não é que a araruta seja igual, melhor ou pior. É simplesmente uma outra espécie com teor menor de amido (segundo minhas contas, cerca de 11%, ante 30% da mandioca), custa mais caro e tem mercado - do contrário, não falsificariam. E está certo que não consegui descobrir grandes diferenças, afinal só tinha 22 g para minhas experiências, mas certamente a araruta tem aplicações específicas. Basta descobrir ou redescobrir, já que antes do trigo ela se revesava com o polvilho no preparo de biscoitos, broas e bolos. Sem contar que a raiz in natura têm certo potencial gastronômico por ter sabor peculiar, diferente de qualquer outro vegetal. Por isto, seus produtores deveriam ser incentivados a cultivá-la e também porque quanto maior a biodiversidade, melhor. Se um dia der uma praga na mandioca, pelo menos temos a araruta.
Araruta não é só para amido


Não resisti e cutuquei a araruta, cheirei, belisquei, comi crua, ralei e fritei como beiju e, por fim, cozinhei em panela de pressão, pois me pareceu muito dura e tem umas fibras finas que podem ser cortadas, mastigadas e engolidas sem problemas. Quando cozida, amacia, sem ficar mole como batata. O sabor lembrou um coquinho cozido de pupunha sem cor. Aliás, um blend de pinhão e pupunha, não só no sabor, mas também na textura. O prato mostrado ontem foi só uma brincadeira para não mostrar apenas a raiz nua e crua. Cozinhei em pedaços maiores (aliás, 1 mísero pedaço), em água com sal, cortei em bastõezinhos e refoguei no azeite com alho, tirinhas de pimenta, sementes de mostarda e fitinhas de jambu. Foi só um jeito de mostrar que a raiz esquecida no passado ainda pode ter futuro. Já percebi que dá pra fazer assada, em sopas, bolinhos e qualquer outra coisa que se faça com coquinho de pupunha ou pinhão. Como respondeu a Ana, nos comentários da advinhação, eu também achei parecida com cana, mas só de longe, pois é muito mais macia e as fibras, muito mais finas e quebradiças.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008