Claro, as tâmaras não são de Paris, mas estão presentes nas feiras e mercados parisienses frequentados por imigrantes árabes. No Dezoito, em Belleville, em qualquer canto que tenha um árabe, tem tâmaras por perto. São frescas, amarelas e crocantes ou secas no próprio cacho, brilhando de doces e douradas como como carameladas.
A planta: Palmeira originária do Golfo Pérsico, a tamareira (Phoenix dactylifera L.) era considerada como a árvore da vida pelos Caudeus, que comiam os frutos e botões, bebiam a seiva, usavam a fibra para tecer e as amêndoas como combustível. Por causa da grande quantidade de açúcares é muito usada no preparo de geleia, licor, aguardente, vinagre, álcool e as passas, mais comuns por aqui. Da palmeira pode ser extraído ainda o palmito, também usado na alimentação humana.
No Brasil há plantações de tâmaras especialmente no Nordeste, mas embora tenham se adaptado bem ao solo e ao clima, não é ainda uma cultura de relevo. Parece que duas variedades, a medjool e a azahidi, chegam a frutificar aos dois anos, sendo que na região de origem isto só acontece aos oito.Como é bastante rústica no cultivo, a tamareira desenvolve-se bem em terrenos arenosos ou salinizados, alta luminosidade, baixa umidade e temperaturas altas, hoje as maiores plantações de tamareiras situam-se em regiões de pouca chuva como no Irã e Iraque, que são considerados os maiores produtores. E também no norte da África e países de climas desérticos.
Nas regiões de origem há muitas variedades, sendo que apenas algumas poucas são exportadas para a Europa. Os gregos chamavam-na de daktulos (dedos) por causa de seu formato, daí o date do inglês ou dactilylifera do nome latim.

Parêntese 1: Em Paris comprei nesta banca tâmaras frescas e passas, levei pra casa (da Leda, minha amiga e mãe dos meus sobrinhos) e fotografei. Comemos com vinho de sobremesa, as crianças se fartaram, gostamos muito mais das passas, mas guardamos as frescas para amadurecer um pouco mais, já que tinha lá no fundo ainda um certo travo. No outro dia, a Leda foi trabalhar e eu tive vontade de comer as tâmaras frescas. Procurei por todo canto, até no quarto das crianças e nada. Pensei: tudo bem, comeram tudo. Não perguntei no dia porque esqueci. 

No outro dia falamos de tâmaras e me lembrei de perguntar se haviam deixado algumas para mim. A Leda riu e mostrou o altar. Estava lá o cacho inteiro para Buda. Tenho certeza que ele escondia o cacho toda vez que olhava pra ele, porque como posso não ter visto? Eu podia agora comer, mas preferi deixar os frutos ali pra ver se viram passas - aliás, está na hora de perguntar se ainda resistem.

Parêntese 2: Esta tamareira fica na praça perto de minha casa. Não sei quem plantou, mas acompanho ano a ano para ver se frutifica. Até agora, nada.
Parêntese 3: sempre que falo de tâmaras lembro da minha amiga Silvinha. Como não tenho nenhuma lembrança infantil destas frutas que só conheci na maturidade, uso memórias alheias talvez com uma ou outra fantasia. Nesta casa em Castro Alves - BA, que conheci em 2005, morou vovó Diva, como Silvinha se refere a ela - cheia de zelos e baús de enxoval bordado em Paris. O melhor da casa não eram as salas de tábua corrida nem a ducha forte do banheiro grande como sala. Era sim o pequeno pomar no fundo da casa com tudo o que era fruta: sapoti, graviola, carambola, laranja lima e lima da pérsia, pinha, laranja de chupar e de fazer doce, tangerinas, mangas, entre outras. Vovó Diva, mulher das geleias e das compotas, gostava de fazer compota de figo e comer manga carlota, redondinha, muito doce e fiapenta. Silvinha, menina, gostava de manga espada, doce no ponto certo e com um certo azedinho. E sapoti, muito sapoti. Agora, o que fazia mesmo sucesso entre a família toda eram as tamareiras com seus cachos de dedos amarelos, que ninguém tinha paciência de esperar madurar por completo. Adultos e crianças devoravam os frutos doces, crocantes e úmidos. E tudo começou porque um agrônomo, um certo Dr. Heguet, começou ali na cidade um cultivo grande de tâmaras num terreno público. Anos 50 talvez. Foi um sucesso, as tamareiras se sairam bem, mas todas foram derrubadas para dar lugar a um campo de pouso que parece que nunca foi muito usado. Sorte que algumas mudas já haviam se espalhado pelos quintais. Hoje também quase todas, inclusive as da vovó Diva, foram derrubadas - o terreno do pomar foi vendido e o novo proprietário passou o facão. Azar dele.