segunda-feira, 4 de abril de 2011

Fruto do baobá

A polpa é seca, mas amolece na boca, revelando-se feculenta, docinha e ácida
Lá em Dakar, na feira de produtores, vi de longe sacos grande com bolotas disformes e brancas e pensei que fossem pipocas. Fui conferir de perto, perguntei, li o rótulo, pain de singe, bouye, e continuei na mesma ignorância. Só depois me contaram que era baobá - no primeiro dia no Senegal já havia tomado suco da fruta que me fez lembrar uma mistura de suco de tamarindo com maçã. Depois que descobri a identidade, vi pães de macaco por todo canto. Comprei um saco e a polpa seca servia de petisco quando tinha fome no quarto do hotel e tinha preguiça de sair. Você começa a comer, não encontra muita graça, que no entanto vem chegando devagar, e aí não consegue mais parar, só restando as sementes marrons chupadas até o osso.
Folhinha que trouxe da Ilha de Goré, digitata, com cinco pontas
O nome científico do baobá africano (há o outras espécies de baobás) é Adansonia digitata, em homenagem ao botânico Michel Adanson (1717 - 1806), que o descreveu depois de passar alguns anos no Senegal catalogando espécies. Embora seja considerada a árvore símbolo do Senegal, vi poucas em Dakar, mas há exemplares gigantescos e centenários na Ilha de Goré, de onde trouxe uma folhinha. A árvore que ameaçava o pequeno planeta do pequeno príncipe, que parece ter raízes de pernas peladas para o ar, guarda em seu tronco bojudo lendas e mistérios como seria de se esperar de uma planta longeva e que se incendeia sozinha depois de velha (muito velha).
Também conhecidos em língua portuguesa como embondeiros, imbondeiros ou calabaceiras, os baobás são originários da ilha de Madagascar (a maior parte das espécies do gênero Adansonia), África e Austrália.
Em Dakar, um ou outro pode ser visto ao longo das estradas
Na linda Ilha de Goré, perto de Dakar, eles são fartos, velhos e testemunhas presenciais de uma história de tristezas (desta ilha saiam os navios de escravos)
No Senegal há sucos prontos e pós para misturar à agua

Por aqui, a polpa que me sobrou rendeu um suco fraquinho, mas refrescante e ligeiramente ácido. Para preparar, forte ou fraco, tem que juntar à polpa um pouco de água morna e deixar até que ela amoleça. Aí é só juntar mais água, açúcar e gelo a gosto.


Produto em pó da
Yakaar Niani Wulli Federation, que trabalha com produtos agroecológicos. Como o nosso jatobá, que tem polpa seca, imagino que para conseguir o pó, basta peneirar.





Pain de singe, bouye, mukua etc - os nomes africanos são infinitos. Tem o tamanho de um cupuaçu, lembra a nossa fruta com sua polpa esbranquiçada e suculenta, com a diferença que o baobá é seco, sem sumo, quase até crocante. A árvore, durante grande parte do ano, fica assim, pelada de folhas. As flores, exuberantes, são fétidas para garantir o exato polinizador e duram apenas uma noite, mas os frutos são cheirosos e duram uma viagem sem estragar. É como uma matula concentrada de nutrientes para viajantes, crianças, idosos, cristãos e muçulmanos, gente pobre e gente rica. Além de servir de alimento, os frutos são tidos como remédio para muitos males, incluindo a malária.


No Senegal há uma espécie de mingau doce feito com seu suco combinado com cuscuz de milhete, pasta de amendoim, baunilha, canela, água de flores e passas. O Ngalakh é o prato típico do fim da Quaresma quando cristãos o oferecem aos seus vizinhos muçulmanos para fortalecer os laços de fraternidade e reforçar a tolerância de credos. Mas dou a receita depois (para isto fiz aquela manteiga de amendoim)

16 comentários:

Anônimo disse...

HUMMMMMMMM!!!!!!!! Deu agua na boca nunca comi , nem tomei o suco mas que deu agua na boca ha isso deu. Beijos Denise

Gina disse...

De acordo com o Pequeno Príncipe, "um baobá, se a gente custa a descobri-lo, nunca mais se livre dele".
Talvez por isso você não tenha conseguido parar de comê-lo...rs!
Já falei do baobá no Naco e a alusão ao P. Príncipe é inevitável.
É um fruto cheio de histórias.
Boa semana, Neide!

angela disse...

É igualzinho ao do pequeno principe!
Eu queria tanto saber como é que se faz água de rosas, se é das rosas comuns como as vermelhas que tenho ou não.. como assim, água de flores?

Vou te dar uma caneta nova. A sua está falhando!

Neide Rigo disse...

Denise, é pra dar mesmo!

Gina, é a pura verdade. Esqueci de dizer que temos alguns exemplares por aqui - rio, recife etc. Vou lá no Naco ver.

Angela, depois eu te conto - já escrevi sobre isto para a Caras, mas já adianto que a água de rosas é obtida por destilação de uma espécie híbrida(Rosa x damascena Mill). Usei água de rosas, mas poderia ter sido de flor de laranjeira. Minha caneta falhando? Ah, quando acho uma falhando já está bom demais pois costumo perder todas - firmes ou falhantes.

Um abraço, N

Pratos de Ouro disse...

Antes de mais, obrigado por ter publicado este meu comentário que humildemente vem divulgar o meu novo blog. A vida é uma correria, mas se por momentos nos dedicarmos nem que seja um pouco há cozinha, as coisas podem tornar-se muito mais fáceis. É um homem que escreve este blog, um homem que se viu na necessidade de cozinhar para si. Pratos simples que sejam, são como eu gosto de comer. Um blog para partilhar com todos os que gostam da arte de cozinhar, uma arte de faço e garfo. E agora, já vai uma garfada?

http://pratosdeouro.blogspot.com/

Kenia Bahr! disse...

Nossa, quando vi as fotos, pensei que eram paineiras! São parecidas com as barrigudas, mas achoq eu sem espinhos, né?

bjs

Kenia

Neide Rigo disse...

Kenia, são parecidas, sim, da mesma família. Mas não vi nenhuma com espinhos.

Abominable Brasil disse...

Neide, aqui na minha cidade (Natal-RN) tem dois pés de baobá e como sempre ouvi falar por aqui, foi plantado pelo próprio Antoine de Saint-Exupéry. Um fica no meio da cidade e o outro em uma cidadezinha aqui perto (Nízia Floresta).
O baobá de Natal fica em um terreno particular, mas é protegido por contrato. O dono é obrigado a conserva-lo.
Nunca reparei se dão frutos aqui. Na verdade até me surpreendi ao saber que essa arvore dá frutos.
Abraço.

Neide Rigo disse...

Abomin, então fique de olho pra ver se dão frutos. Um abraço, N

Kenia Bahr! disse...

Ahhhhhhhhhh bem que achei parecidas demais! Qdo for a algum desse lugares hei de procurar os baobás! :)

Maria das Graças disse...

Neide, antes de ler o texto, pelas fotos me lembrei do jatobá, embora sejam de cores diferentes. O jatobá é bem mais amarelo. Quando criança eu também comia a polpa do jatobá até o osso, como voce disse. Hoje, aqui no hortifruti perto de casa, uma bandeja com umas 3 bajas é vendida a preço de ouro.

EduLuz disse...

Pô, que viagem legal.
Você faz sempre estes cadernos de anotação? Parecem scrapbookings!
Você deve ter material pra vários livros.
O tupinambur está uma beleza.
Abs.

Neide Rigo disse...

Kenia, depois me conte.

Maria das Graças, aqui perto de casa, numa praça, também temos um pé de jatobá, mas ninguém liga pra eles. E no mercado o preço é mesmo um absurdo.

Edu! Eu faço mais ou menos, sem método nem disciplina rss.
Também trouxe tupinambour de Paris, mas o meu os bichos comeram antes de brotar.

um abraço, N

ana disse...

tenho um pé de baobá em casa no mato grosso do sul até hoje so deu um fruto mas não conseguimos velo amadurecer pois os animais comeram antes.........

Cris disse...

Tomei o suco de calabaceira em Cabo Verde e até hoje tenho saudades!

Anônimo disse...

Ótimo bom .Você começa a comer perde a vontade de comer , de por experiência própria .sou cabo verdiana vivo em Natal RN até hoje minha família me manda de cabo verde. Acabei de fazer um suco que está delicio. Mas aque no Brasil vi sim na cidade na prodente de moraes na esquina do prédio da Oi.tinha até frutos .muito bom.