quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Turu


A sopa e o caldo com leite de coco

Puxando o turu a gancho, para variar embarco num dos temas do caderno Paladar de hoje (que está ótimo, sobre vinhos de verão e muitos textos do meu amigo Luiz Horta). Já estava pra escrever sobre ele desde que voltei do Marajó. Mas e tempo? Agora, vamos lá, já que tinha tudo pronto, só faltava juntar lé com cré e o empurrão do Paladar. Não fui quem ligou o fogo, mas o prato ainda está quente.

Já há uns 10 anos, quando estive em Soure, na Ilha do Marajó, provei o bicho e gostei. Desta vez, fiz mais. Fui para a cozinha com dona Jerônima (minha amiga e dona da Pousada São Jerônimo, citada no Paladar) tão logo chegou o balde cheinho de turus recém catados. Os moluscos crescem protegidos no interior de madeiras caídas no mangue. E manguezal não falta na fazenda São Jerônimo. Os moluscos são compridos e brancos como tentáculos de lula sem pele e têm consistência de ostras com sabor que também sabem a elas, sendo, no entanto, mais suave, delicado. Quando se mastiga - não gosto de engolir inteiro-, sente-se um certo adocicado alegre. Os catadores costumam comê-los crus ainda no mangue com sal e limão. Muito agreste para o meu gosto. Prefiro comer devagar como se estivesse me deliciando com ostras. Ainda no manguezal, ele é limpo e lavado na água salobra. Tira-se a concha que é uma estrutura pequena, como uma cabeça com dentículos raspadores, afinal, precisam ir escavando túneis na madeira. A tripa é puxada com um pauzinho, quase como limpamos o camarão. O que sobra é 100 % aproveitável.

Os moluscos são assim, delgados e alongados.

Quem é ele?
Embora os turus ou teredos (Teredo sp – são várias espécies deste gênero no Brasil, todos comestíveis) sejam cosmopolitas, preferindo águas mais quentes, não tenho notícias de que sejam consumidos em outros países que não o Brasil e a Austrália (numa tabela de composição australiana o molusco aparece como “mangrove worn”, alimento consumido pelos aborígenes – veja dados lá embaixo). Mas certamente o são, pois chamam a atenção pelos prejuízos que podem causar perfurando o casco de embarcações. São como cupins de madeira molhada.
Valor nutricional
Fora os estragos que pode causar, o turu é um alimento e tanto. Além de ser apreciado como afrodisíaco, de novo como a ostra – não descobri qual substância referenda a fama-, ele é riquíssimo em cálcio, talvez porque tenha que secretar esta substância para “cimentar” o túnel calcário onde se aloja. Só para se ter uma idéia, a ostra tem 6 mg de cálcio/100 g ante 153 mg do turu. O leite, melhor fonte deste mineral, tem 113 mg por 100 g. Sem falar no ferro. Apesar de branquinho como leite, nunca vi alimento algum com tal quantidade de ferro - 55 mg por 100 g (o fígado de boi cozido tem 6,29 mg/100 g). Se a tabela está certa e me pareceu fonte segura, que botem turu na merenda escolar para acabar com a anemia infantil. É claro, tem que estudar biodisponibilidade e tal, mas, num primeiro momento, o dado é convidativo. E quer mais? Baixíssimo valor calórico e quase nada de gordura. Idéia para aqueles cardápios do tipo "perca 7 quilos em uma semana" com turu!

RECEITAS COM TURU

Ceviche de turu



Já que todo caboclo marajoara gosta do molusco com sal e limão (a bem da verdade, muita gente no Marajó torce o nariz para o molusco), experimentei deste jeito, mas logo em seguida já pensei num prato como ceviche. Fiz com o que tinha às mãos. Piquei turu, temperei com sal, azeite, cebola roxa, pimenta-de-cheiro, coentro, limão e limão-de-caiena (Averrhoa bilimbi Linn.), azedo como um limão de verdade. Não medi quantidade, mas pode usar qualquer receita de ceviche, que dá certo. Por acaso estava na pousada um amigo da família que dizem ser especialista em turu. E foi aprovadíssimo por ele. Não sobrou turu para contar história.

As receitas abaixo são da dona Jerônima Brito:

Caldo de turu simples

Separe 1 litro de turu e corte em pedaços de 2 centímetros. Tempere com sal e espere 5 minutos. Enquanto isso, refogue num pouco de óleo 2 dentes de alho bem socados, meia cebola cortada em quadradinhos e 1 folha grande de cipó-alho. Junte 1 pitada de pimenta-do-reino com cominho e 2 xícaras de água. Quando ferver, junte o turu e cozinhe por 1 minuto (no máximo 2, para não ficar borrachento). Desligue o fogo e acrescente um fio de azeite de oliva e cheiro-verde a gosto (chicória-do-pará, alfavaca e coentro).

Rende: 6 porções

Caldo de turu no leite de coco

Separe 1 litro de turu e corte em pedaços de 2 centímetros. Tempere com sal e espere 5 minutos. Enquanto isso, refogue num pouco de óleo 2 dentes de alho bem socados, meia cebola cortada em quadradinhos e 1 folha grande de cipó-alho. Junte 1 pitada de pimenta-do-reino com cominho e 2 xícaras de leite de coco de verdade – não industrializado. Para não talhar, mexa devagar até ferver. Junte o turu e cozinhe por 1 minuto (no máximo 2, para não ficar borrachento). Desligue o fogo e acrescente cheiro-verde a gosto (chicória-do-pará, alfavaca e coentro).

Rende: 6 porções

Sopa de turu



Separe 1 litro de turu e corte em pedaços de 2 centímetros. Tempere com sal e espere 5 minutos. Enquanto isso, refogue num pouco de óleo 2 dentes de alho bem socados, meia cebola roxa cortada em quadradinhos e 1 folha grande de cipó-alho. Junte 1 pitada de pimenta-do-reino com cominho e 2 xícaras de água. Quando a água ferver, junte o turu, 1 tomate cortado miudinho e 3 pimentas doces verdes, picadas. Tampe e cozinhe por 2 minutos. Desligue o fogo e acrescente folhinhas de manjericão e um fio de azeite. Se quiser, use os cheiros típicos: chicória-do-pará, alfavaca e coentro.

Rende: 6 porções

Abafadinho de turu
Separe 1 litro de turu e corte em pedaços de 2 centímetros. Tempere com sal e espere 5 minutos. Numa frigideira, refogue num pouco de azeite 2 dentes de alho bem socados, meia cebola cortada em quadradinhos. Junte o turu escorrido e 1 pitada de pimenta-do-reino com cominho. Tampe e cozinhe por 2 minutos. Na hora de servir, junte cheiros à vontade.

Turu à milanesa
Corte os turus do tamanho que quiser, passe na farinha de trigo, no ovo e na farinha de rosca. Frite até ficar crocante. Se quiser, passe apenas na farinha de trigo e frite. Ou misture queijo ralado à farinha de rosca.

Para saber mais

Composição nutricional em 100 g de Teredo sp (mangrove worm ou shipworm)

Description: Wild harvested Australian indigenous food.
Group: Indigenous Foods
Derivation: Analysed
Sampling Details: Sample collected in the wild prior to 1990.
Reference: Brand Miller, J., James, K.W. and Maggiore, P. (1993) Tables of Composition of Australian Aboriginal Foods. Canberra: Aboriginal Studies Press.
Edible Portion: 100%

Calorias – 24
Proteínas – 4,4 g
Gordura – 0,7 g
Cálcio – 153 mg
Cobre – 0,20 mg
Ferro – 55 mg
Magnésio – 71 mg
Potássio – 117 mg
Sódio – 229 mg
Zinco – 0,4 mg
Tiamina (vit. B1) – 0,04 mg
Riboflavina (Vit. B2) – 0,25 mg
Vitamina C – 3 mg
Veja também:
Tabela de composição de alimentos autralianos
Sobre frutos do mangue: Ong Novos Curupiras

14 comentários:

fezoca disse...

Neide, como a possibilidade de eu fazer alguma receita com turu eh bem remota, fiquei mesmo fixada nos pratos de barro das fotos. Sao tipicos da Ilha do Marajo? Que coisa mais linda! um beijo,

Marizé disse...

Mais uma novidade para mim, fiquei a conhecer turu.

Beijocas

Vitor Hugo disse...

Num dos programas do Mesa pra Dois, a Flavia mostrou o turu. Fizeram caldo verde com turu.

Meio estranho, mas provaria para saber como é. XD

carlinhos de lima disse...

Pois olha, mesmo respeitando á máxima que diz que cozinheiro tem que provar de tudo, eu acho que esse eu "passo".

Vi uma matéria na tv e fiquei assim meio "bolado" com a situação.

Mas reconheço tua bandeira como extremamente bela e tem o meu apoio.

Neide Rigo disse...

Fer,
estes pratos comprei lá de uma ceramista local. O grafismo é bem típico, mas não é o tipo de prato que se use no dia-a-dia, ainda mais para caldos. A cerâmica sem impermeabilização alguma chupa muito o líquido. O ideal seria colocar neles farofas ou coisas assim (mas eu achei que ficariam bonitinhos na foto).

Carlinhos,
todas as matérias de tv que vi até hoje sobre turu são sensacionalistas, querendo passar a imagem do homem marajoara comendo uma coisa nojenta. E não deveria ser assim. É um alimento como qualquer outro, limpo, saboroso, nutritivo. Ninguém acha muito estranho comer ostras cruas e não vejo muita diferença. Tenho certeza que vai gostar quando tiver oportunidade de provar.
Um abraço,

Lili disse...

Adorei a frase: "muito agreste pro meu gosto".
bjs

Lili

carlinhos de lima disse...

Neide, pois ai você tocou numa coisa interessante: também não gosto de ostras...
Mas guardarei na lembrança teus comentários para a hora de experimentar.

Gosto muito do teu espaço pelas coisas que tens me ensinado. Continue firme, assim.

Dhandara disse...

Olá adorei tudo o que foi colocado sobre o turu, parabéns adorei mesmo, e acrescento que o mesmo é uma verdadeira delícia, amo turu,aproveito e incremento com essas receitas bem ai!Parabéns.

bruno² disse...

Olha dono do BLOG: Sou Biologo Marinho e estudo os turus e gostei muito desta postagem. Vale ressaltar que esse animal possui um amplo leque de interesses economicos, ecológicos e até mesmo nutricionais. Identificando-o como poderoso reciclador de matéria orgânica em estudos recentes em florestas, mostrou-se uma ineficiencia em reciclar matéria organica nessas florestas se comparado com florestas de mangue onde se encontram os Turus. São muito importantes em comunidades de pescadores. Segundo estudo do Para os pescadores tem de recolher de 6 em 6 meses as embarcações para manutenção devido ao grande ataque de turus nessa região. Ai vai a dica! bpdecarli@yahoo.com.br

Anônimo disse...

sou apaixonada pelo Marajó, minha familia vive lá, então não poderia deixar de no papel de Biologa demonstrar meu interesse nesse bichinho tão querido na minha cidade de Soure. Dica: experimentem Turu.

Anônimo disse...

Também conheço o TURU e tenho relatos de pessoas muito próximas que além de curar ANEMIA, cura também TUBERCULOSE e CÂNCER, de pessoas já desenganadas por médicos e que os mais idosos aconselharam a dar o CALDO DO TURU todos os dias. Eu como crú e cozido e acho as 2 maneiras apetitosas.

ONG Novos Curupiras disse...

Ei Neide Rigo,
Quanto tempo, né?
Tava "passeando" pela web e reencontrei-te!
2010 será o ano do Turu! Até julho estará funcionando em Soure, Marajó, Pará, a Toca do Turu! Tudo de turu e sobre turu!
O cara aqui em março vai virar "fiscal da natureza" e se mandará pra Soure!
Grande abraço e feliz 2010!
Sucesso!
Carlos Gondim

Lula disse...

Excelente reportagem. Espero ter a oportunidade de comer turu.

Anônimo disse...

Verifique a tirada do turu em: You Tube, fernando19561 - comendo turu em Jutuba.