segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O Château Margaux da Marina

Marina, à direita, com a amiga Antônia

Ele é o tal

Não entendo muito de vinho, mas sei que 1990 foi um ano lendário para o Chateau Margaux. E também para a Sofia Carvalhosa e para o Josimar Mello, afinal nasceu Marina, a filha deles que amadureceu lado a lado com o Bordeaux, comprado em sua homenagem. Ontem, com o Ipê do quintal florido e a Marina linda, na flor da idade, o vinho foi aberto num ritual simples, num almoço quase europeu, com direito à mesa no jardim, sob um céu azul de inverno ensolarado e companhia de super toscanos. O Josimar decantou o vinho e distribuiu entre os presentes: Nina Horta, Marie Therese Arida, Ana Verônica Mautner, Roberta Malta, Ricardo, irmão do Josimar, Marina, Marcos, Antonia, Sofia, Mari e eu. O combinado era este. Abrir o vinho na maturidade, dele e da Marina. Outro motivo de comemoração é a presença no Brasil da Mari Hirata, que vai fazer um jantar concorridíssimo na quarta feira no Studio 768, da Carla Pernambuco e Carolina Brandão. Há exato um ano ela esteve aqui e eu tive a sorte de passar um dia aprendendo seus truques, na casa da Maria Helena Guimarães. Ontem fiquei emocionada por participar de um momento único e ainda com gente especial. Se o vinho estava bom? Bem, não precisava comida nem nada. Era daqueles pra ser tomado de jejum e assim permanecer até o outro dia se nutrindo de retrogostos tânicos, frutosos, floridos, macios e desvendando segredos. Ainda bem que para acompanhar havia o pão maravilhoso da Mari, feito com fermento natural de 15 anos nascido às custas de leveduras de figos secos. E um queijo da Serra cremoso antes da sobremesa, para comer de colher acompanhado de vinho do Porto. E ainda sobremesas trazidas pelo Ricardo, da doceria do Fabrice Lenud. Porque a comida mesmo não estava lá estas coisas: polenta com ragu. Fiz o que pude e o clima ajudou. Ufa!

Sofia, está registrada a promessa: como não vamos ter mais a desculpa dos 18 anos, teremos que comemorar a cada inverno a florada do Ipê.

O super pão da Mari com fermento fresco de 15 anos, na mesa com folhas e pétalas amarelas de Ipê.

Imagine se ela ficaria de fora: a Maria Helena Guimarães ligou pro Josimar e falou com todo mundo para alegrar ainda mais a festa.

Nina Horta e Marie Therese Arida


Roberta Malta, Marie Therese escondida, Josimar, Anna Verônica escondida, Marcos, Nina, Mari e Sofia.

Mari e seu charuto. Ela pode.
Um dia antes ....



Sofia apareceu na feirinha de orgânicos da Água Branca, no sábado, pra comprar as flores do almoço. Eu estava lá pra reunião do Slow Food e também pra comprar a salada do mesmo almoço. Mara Salles também apareceu para comprar legumes para seu bufê de domingo no restaurante Tordesilhas. Pura coincidência num sábado agradável.




sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Pão de abóbora



Motivada pela Mariângela (a amiga do post anterior) que me perguntou se tinha uma receita de pão de abóbora, procurei um pane di zucca atraente para me basear e achei este no blog L´Ape Maia. Fiz cá minhas modificações, é lógico. Aumentei a abóbora e, consequentemente, a farinha e acrescentei uvas passas. Ficou muito fofo, com crosta bem fininha e macia. A textura, a cor e o sabor adocicado sugerem recheio de queijo fresco sem sal ou mole, tipo quark ou cottage, e uma pitada de geléia vermelha. Aí vai a minha receita:


Pão doce de Abóbora

1 xícara de água
30 g de fermento fresco
100 g de açúcar
1 colher (chá) de sal
500 g de polpa de abóbora madura - de pescoço ou japonesa (cozida no vapor, sem casca, amassada)
50 ml de azeite de oliva
750 g de farinha (a quantidade é apenas indicativa, pois pode variar de acordo com o grau de umidade da abóbora)
½ xícara de uvas passas
1 ovo batido

Numa tigela grande, misture a água com o fermento e metade do açúcar. Espere 15 minutos ou até espumar. Junte então o açúcar restante, o sal, a polpa de abóbora amassada e o azeite. Misture bem. Aos poucos, vá colocando a farinha de trigo e mexendo com colher de pau. Quando começar a ficar difícil de mexer a massa, passe-a para uma superfície enfarinhada e vá amassando, juntando farinha devagar, até formar uma massa lisa e homogênea. Junte as uvas passas e amasse até incorporá-las. Volte a massa para a tigela, cubra com pano e espere até a massa crescer (caso não tenha experiência com pães, coloque uma bolinha da massa num copo de água fria – quando a bolinha subir, a massa estará crescida). Passe a massa para a superfície enfarinhada, divida em 3 e molde os pães em bolas e coloque-os afastados em uma assadeira grande, untada e enfarinhada. Ou coloque-os em forma de pão. Cubra com pano e deixe crescer por mais meia hora ou até voltar a crescer novamente. Pincele a superfície dos pães, com carinho, com um ovo batido (qualquer batida na forma ou pressão com o pincel pode levar a massa a perder volume, portanto, muito cuidado nesta hora). Se quiser, faça cortes com lâmina afiada (bisturi, estilete ou gilete). Leve ao forno preaquecido médio (220 ºC mais ou menos) e deixe assar por cerca de 50 minutos ou até que fiquem bem dourados. Esfrie sobre uma grade e resista a comê-lo inteiro, quentinho, com manteiga.

Rende: 3 pães de 10 fatias
Nota: Pode ser amassado numa máquina de pão, no modo "massa" - aquele ciclo de 1 hora e meia, que só amassa e faz crescer. Desde, é claro, que a sua máquina suporte este peso de massa. Deixe a tampa aberta porque cresce além dela. Depois de crescida, tire a massa do recipiente, divida e o resto é igual ao explicado na receita.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O moinho que não faz cuco


Moinho de pedra da marca schnitzer



Veja também
Porto Alegre - a viagem
Porto Alegre, parte 2 - dourado
Porto Alegre, parte 3 - noite do waffeln
Porto Alegre, parte 4 - cogumelo do eucalipto
Porto Alegre, parte 5 - cueca virada
Porto Alegre, parte 6 - araçá e feijoa

Há uma passagem de nosso passeio a Porto Alegre que já ia ficando no esquecimento, até que ontem a Mariângela me escreveu reclamando que adoraria fazer os pães alemães de um livro de receita que ganhou da amiga, mas pedem ingredientes raros (“negócio é que o povo lá, na Alemanha, é muito especializado em pães e são muito gostosos, tão divinos quanto na França. Daí que mais da metade das receitas do livro é composta de pães cujos ingredientes simplesmente não existem por aqui; e pior, eu conheço estes ingredientes dos tempos que morava lá e sei como ficam os pães então......que triste! Tem até pão de "capim dos alpes").
Aí me lembrei e disse a ela que ao menos poderia fazer pães com grãos de diferentes granulações, já que tem um moinho de pedra, elétrico, lá em cima do armário juntando pó. É fantástico, da marca alemã Schnitzer. Quando ela me contou, o Rui se apressou em tirar de cima do armário, mostrar o funcionamento e contar a história. O casal teve que negociar. Ela acabou convencendo-o que um moinho poderia ser mais útil que o relógio cuco com que sonhava. O cuco do Rui ficou no sonho, calado. Já o moinho não sai do armário. Do que uma mulher é capaz, hem? No outro dia, compramos trigo no Mercado, estreamos o moinho e fizemos chapatis. Todos ficaram felizes, até o Rui sem seu cuco. E eu, claro, mais ainda, não só por ver o moinho trabalhando a todo vapor, mas pela generosidade do Rui e da Mari por nos ter dado a oportunidade de viver um momento único e especial de estréia do polêmico moinho de pedra que, por sonhar ser mais útil do que é, ganhou, certo dia, a batalha contra um relógio-cuco, mais romântico que utilitário.

Email de Mariângela para mim
Neide, pois é, quando adquiri este moinho estava numa fase totalmente natureba da minha vida, era vizinha de uma padaria orgânica e de um mercado natureba, conhecia todo mundo, ia às compras sempre ali. O Rui queria o cuco, um trambolhão sem muita utilidade na minha opinião, mas quem sou eu para julgar o sonho dos outros? Ele também se deu conta... porém, escuto esta reprimenda até hoje. Trouxe o moinho, nunca usei. A fase natureba se foi, ficando apenas o essencial daquele período, sem radicalismos. Não vejo muita diferença no sentido "utilitário" da palavra entre um moinho que mora em cima de um armário e um passarinho abrindo a porta para gritar "cuco" a cada hora. Os dois foram esquecidos e graças à tua vinda, o moinho foi ressuscitado. Quem sabe um dia, caso a gente volte mesmo a morar na Alemanha, por aquelas bandas ele poderá ir até a Floresta Negra, o lugar onde estes cucos são confeccionados, e adquirir um. Nunca é tarde!


Para os chapatis, pretendíamos usar apenas a farinha integral, mas não conseguimos ajustar o ponto certo do moinho para uma granulação mais fina. Das pedras que se roçavam chuviscavam grãos quase tão grossos como triguilho. Não conseguimos liga só com ele. Foi necessário juntar a mesma quantidade de farinha branca para que formasse uma massa modelável. Então foram as duas farinhas, em igual quantidade, 1 pitada de sal e água fria até conseguir formar uma bola unida. Aí foi só formar um rolinho, dividir em porções e abrir com rolo para formar discos finos. Numa frigideira de ferro sem untar, bem quente, os chapatis foram cozidos. Depois foram chamuscados no fogo, dos dois lados. Para comer com nata, manteiga e tomatinhos. Tri gostoso.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Este pudim é da lata!



Não, não é mais. Nada de lata. Porque agora minha mãe tem forma de pudim com banho-maria acoplado, coisa moderna. Mas quando não tinha, arrumou um jeito de improvisar o recipiente usando uma lata de sorvete. Fechava bem e cozinhava na panela de pressão, com um pouco de água. Com o tempo e auto-estima de pobre, acabou convencida de que o melhor pudim e o mais chique era aquele feito com leite condensado. Está certo que este da lata, feito com farinha, era apenas uma forma de aumentar o poder espessante dos ovos, o ingrediente mais caro de um simples pudim de leite que, além de ovos, não precisa mais que um pouco de leite, açúcar e talvez uma favinha de baunilha ou outro item que perfume. Aquele com farinha, cremoso, mas denso, tampouco se assemelha, na textura e no sabor, à delicadeza do pudim clássico. O problema é passar da rusticidade do pudinzinho da lata para o sabor massificado e extra-doce dos pudins de leite condensado, como se este fosse o único e indispensável ingrediente de sobremesas do gênero. Bem, minha mãe já não anda tão convencida assim das virtudes do leite condensado desde que nós, os filhos, passamos a querer sempre o velho e bom pudim da lata. E, neste dia dos pais, minha irmã Biba e eu a convencemos de que o pudim de leite condensado não está com nada, é doce demais, igualzinho demais, previsível demais. Que o bom mesmo é o da lata. Queremos o da lata. Com ou sem lata. E a vontade foi feita. Bem geladinho, impregnado com o gosto do caramelo.

PUDIM DE LEITE

Para forrar a forma
½ xícara de açúcar

Para a massa
4 ovos
2 xícaras de leite
1 xícara de farinha de trigo
1 pitada de sal
1 xícara de açúcar
Raspinhas de limão ou de laranja para perfumar (cerca de 1 colher de sopa)

Modo de preparo
Numa forma de pudim, coloque o açúcar e leve ao fogo alto, mexendo com uma colher de pau. Segure a forma com um pano porque começa a esquentar. À medida que o açúcar vai derretendo, vá espalhando com a ajuda da colher sobre a superfície da forma. Se quiser bastante calda, aumente um pouco a quantidade de açúcar. Se não tiver forma, derreta o açúcar numa panela e passe, quando estiver derretida, para uma lata alta, com tampa.

Para a massa, bata todos os ingredientes no liquidificador, menos as raspinhas que devem ser adicionadas depois que a mistura foi batida. Despeje na forma caramelada, tampe bem e cozinhe em banho-maria, no forno quente ou no fogão, por cerca de 1 hora, ou até sentir que a superfície do pudim está cremosa. Deixe esfriar e desenforme.

Rende: 10 porções
Nota: minha mãe faz sempre o pudim a olho, mas desta vez, anotamos. Ela usou copos de requeijão e 3 ovos. Como usei xícaras padronizadas, de 240 ml, aumentei o ovo. Ela costuma também polvilhar coco ralado em cima do caramelo, enquanto ele está molhado, mas não precisa.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Um bitelo de um taro (inhame)


Por aqui, vai ter taro até acabar a batatona de dois quilos e meio. A vantagem é que taros (antes, conhecidos como inhames) duram uma eternidade fora da geladeira, em local fresco. É um ótimo recurso energético que substitui o pão no café da manhã (cozido, com manteiga) e as batatas nos cozidos, inhoques, purês, bolinhos, sopas, gratinados. Assim como a mandioca, pode fazer escondidinhos, pães macios, sopas, suflês e que tais. E em comparação com a batata, além de durar mais, não é tóxico quando começa a brotar, diferente daquela que, em poucos dias brota, fica esverdeada e vira uma bomba de solanina, um componente tóxico aumentado nestas situações. Outra coisa boa é que taros são rústicos no cultivo – estes, de Fartura, crescem no brejo, sem cuidado algum. E, mesmo os vendidos no mercado levam muito menos ou nenhum defensivo químico. Já as batatas.....

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Sexta-feira é dia de sopa


Fui para Fartura (SP) na sexta-feira bem cedinho, para o dia dos pais. E por causa dele, era dia de sopa. O costume começou para dar alívio à cozinheira, minha mãe, de tantas panelas para lavar. Nos outros dias havia sempre cinco pratos, contando com a salada. É que meu pai, durante um tempo, levava marmita para o trabalho. O jantar, portanto, tinha que ser substancioso e sólido o suficiente para ir na marmita sem vazar. Como no sábado ele não trabalhava, o jantar da sexta poderia ser líquido, cremoso, pastoso e ainda ocupar uma panela só. Mas nunca foi muito leve. Eram sempre sopas completas com massas curtas ou espaguetes quebrados, ervilhas, lentilhas, feijões, legumes, mandioca, folhas de couve e carnes, de preferência com osso para dar mais sabor. Nada de creminhos lisos e lights ou caldinhos transparentes. Eram minestrones, sopas pedaçudas perfumadas a alfavaca e cheiro-verde, com caldo denso e cheio de sabor. E ainda cabiam uns nacos de pão caseiro e bastante pimenta-do-reino. O tempo de marmita do meu pai acabou, mas, felizmente, a tradição da sopa às sextas continuou e perdura até hoje. A deste dia levava macarrão ave-maria, carne de braço e ingredientes da horta: ervilhas frescas, cenouras docinhas, alfavacas e pimentas. Estava frio. Comemos perto do fogão de lenha com uma dose de vermute. Eta vidinha besta. Bem boa.

SOPA DE MACARRÃO AVE-MARIA COM ERVILHAS FRESCAS

Ingredientes
2 colheres (sopa) de óleo
3 dentes de alho amassado
400 g de sete cortada em cubos (esta carne, parte do braço, é também chamada de raqueta ou raquete, tem fibras longas e saborosas, que ficam muito macias quando cozidas)
1 colher rasa de sobremesa de sal
1 colher rasa de sobremesa de colorau (urucum socado no fubá)
2 cenouras médias picadas
4 batatas médias picadas
1 xícara (chá) de ervilhas frescas
1 tomate maduro picado
1 cebola pequena picada em cubinhos
1 pimenta dedo-de-moça sem sementes picada em 4
8 folhinhas de alfavaca ou manjericão
2 xícaras (chá) de macarrão ave-maria
2 colheres (sopa) de salsinha e cebolinha picados na hora de servir (opcional)

Modo de fazer
Na panela de pressão coloque o óleo, o alho, a carne e o sal. Deixe fritar a carne até ficar bem sequinha, sem deixar dourar. Junte o colorau e mexa. Adicione 2 xícaras de água quente, tampe a panela e deixe cozinhar por 15 minutos em fogo baixo (contados depois que a válvula começou a chiar). Desligue o fogo, espere acabar a pressão e abra a panela. Acrescente a cenoura, a batata, a ervilha, o tomate, a cebola, a pimenta e a alfavaca. Deixe cozinhar por cerca de 5 minutos. Junte mais 5 xícaras de água quente. Espere voltar a ferver. Junte o macarrão e deixe cozinhar por mais 10 minutos. Acrescente mais água se for necessário. Prove o sal e corrija, se precisar. Se for usar, polvilhe salsa e cebolinha (esta sopa são não tinha o cheiro-verde porque lá fora chovia muito e ninguém quis enlamear o pé para ir até a horta). Sirva com pão.

Rende: 4 porções
Ervilhinha na horta - o pé estava feio porque choveu granizo

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Meu amigo Celso e seu pernil dourado


Ele é meu amigo desde o tempo em que estudávamos jornalismo na PUC, no começo dos anos 1980. Foi através dele que conheci o Mercadão e o que ele tinha de novidades em frutas. A uvaia, foi ele quem me apresentou. Tinha um pé dela na frente na nossa sala de aula e, no intervalo, ele subia na árvore e jogava de lá umas azedinhas para chuparmos. Disse que deixava quirerinha de molho pra fazer mingau e que inventou um doce de cenoura que eu nunca vi. Também levava de lanche jaca madura que comprava no mercadão. Inteira! Em cima do banco, sobre um jornal, partia a jaca e junto com nossa amiga Kátia Brito (aquela do Marajó), comíamos todinha. Hoje, com tanta importância que se dá aos prazeres das papilas, já seria muito estranho esta nossa merenda. Naquela época, então, quando discutir semiótica ou poesia concreta só rimava com cerveja e cigarro de todo tipo, este deleite era considerado quase como um desvio burguês. O fato é que eu mudei de curso – fui fazer artes plásticas, antes de nutrição. O Celso se formou e acabou na editoria de gastronomia da Folha de São Paulo (tem até agradecimento a ele no livro Não é Sopa, da Nina Horta). Como sempre gostou de arte, mudou para esta área e trabalhou durante muitos anos como crítico e editor de arte na mesma Folha. A esta altura já era um colecionador de arte contemporânea. Hoje mal dá pra entrar no apartamento dele, uma verdadeira galeria. Edita o Mapa das Artes, que muita gente já deve ter visto por aí nos museus e galerias. Mas uma coisa que nunca deixou de fazer foi apreciar uma boa comida e ir pro fogão inventar umas delícias. Toda vez, por exemplo, que volta da Ilha do Marajó, vem com a mala cheia e convida os amigos para um jantar com bife marajoara, moqueca de aratu, lasanha de jacaré e outras maluquices que ele inventa. Sempre deliciosas, é claro. E como nunca devolvia os tapawere que levava quando vinha jantar aqui, passou a trazer os próprios recipientes, que costuma levar cheios. E temos intimidade para isto. Agora anda dizendo que está cansado das artes, quer voltar para a gastronomia e vai plantar mandioca no Marajó (e isto é sério).

Neste sábado passado foi seu aniversário. Estava sem tempo pra nada, atolado como sempre em trabalhos. Então escolheu fazer uma coisa simples, que não lhe desse trabalho. O importante era comemorar. Temperou um pernil, botou pra assar lentamente e serviu com um molho agridoce de cebola e pãozinho francês. Além de alfaces. E cerveja. Tudo o que tivesse além disso, seria excessivo. O pernil estava super perfumado e cheiroso. Nunca vi enfiar kabu (aqueles nabinhos redondos) no pernil. Mas ele faz o que quer. E não é que ficou bom? Não que o nabo tivesse contribuído com o pernil, mas o contrário aconteceu e os legumes ficaram impregnados com o sabor da carne suína. Tudo muito bom, pedi a receita. Aí está.


Pernil do Celso Fioravante

Ingredientes

1 pernil inteiro (cerca de 9 kg)
Suco de 3 limões tahiti

Para enfiar no pernil (à vontade)
Erva doce em talo
Cenoura pequena (inteiras)
Kabu (nabinho redondo)
Cebola (uns pedaços em cunha, grandes)
Alho (dentes inteiros)

Molho agridoce com figo
4 kg de cebola
6 dentes de alho
2 colheres (sopa) de sal
2 colheres (sopa) de açúcar
500 g de figo seco

Modo de preparar
Fure o pernil com um garfo e esfregue sobre ele umas 3 colheres (sopa) de sal misturados com suco de limão. Faça isto à noite. No outro dia, pela manhã, faça uns furos fundos no pernil com a ponta de uma faca em vários pontos e introduza os legumes. Jogue por cima do pernil o caldo da marinada de limão para que o suco penetre nos furos com o recheio. Envolva o pernil e a assadeira com papel alumínio e leve para assar em fogo baixo por cerca de seis horas. Retire o papel alumínio e asse por mais uma hora ou até o pernil dourar.

Molho
Pique as cebolas e o alho e coloque pra cozinhar em fogo baixo, sem água, durante cerca de 30 minutos, mexendo de vez em quando. Acrescente o sal e o açúcar na metade do tempo. Junte o figo seco picado e cozinhe por mais cerca de 15 minutos. Sirva à parte, sobre o pernil fatiado no prato ou em sanduíches.

Rendimento: bem, apareceram por lá uns 100 marmanjos e todos saíram satisfeitos.

Bom pra chuchu


Cambuquira, chuchu pretinho e chuchu comum


O caderno Paladar de hoje, do jornal O Estadão, é todo dedicado ao chuchu, este parente da abóbora, do pepino e do melão. Falam que ele é o quarto estado da água: sólido, líquido, gasoso e e chuchu. Outros dizem que tem quatro vitaminas: A, B e C, a saber água, bagaço e casca. Pois eu gosto de chuchu até sem sal. Minha mãe cozinhava para salada, eu não resistia: comia um pedaço sem tempero nem nada. E pensava: não sei porque se reclama tanto de comida sem sal. Chuchu é saboroso e adocicado quando recém-cozido. Prefiro sempre cozinhar no vapor para preservar mais o sabor (de 10 a 15 minutos ou até ficar macio, mas firme), mas quando cozinho na água, divido em quatro ou em cunhas menores, descasco e junto um fio de óleo ou azeite e 1 colher (sopa) de sal para cada litro de água. Assim, fixa mais o sabor.

A reporter Giovana Tucci e o fotógrafo Felipe Rau estiveram aqui esta semana pra fotografar e saber mais sobre métodos de preparo. Conclusão: fiquei aqui com um monte de chuchu que eles deixaram e ainda com os que meu pai mandou, do tipo pretinho, mais escuro, mais denso, mais adocicado. Aí o jeito foi criar também umas receitinhas. As minhas são aquelas caseiras, para o dia-a-dia. Mas, se quiser mesmo impressionar, compre o Paladar e veja só o que os chefs de verdade são capazes de criar.






Salada de chuchu em fitas

1 chuchu com casca cortado em fatias longitudinais de 1 centímetro (separe a parte mais fina e use para outra coisa – por exemplo, ralado grosso e misturado ao arroz branco)
Meia cebola roxa pequena, picada finamente
Tirinhas de ¼ de pimenta dedo-de-moça

Molho
½ colher (sopa) de gergelim preto tostado
3 colheres (sopa) de vinagre branco
1 colheres (sopa) de óleo de milho
1 colher (chá) de açúcar
¼ colher (chá) de sal ou a gosto
1 fatia fina de gengibre ralado

Com as fatias de chuchu faça fitas usando o descascador de legumes. Jogue-as em água fervente salgada (1 colher (sopa) de sal para 1 litro de água) e afervente-as por 1 minuto. Escorra bem e jogue-as em água com gelo. Escorra bem. Misture com a cebola e a pimenta dedo-de-moça. À parte, misture bem todos os ingredientes do molho e junte ao chuchu. Misture bem, guarde num recipiente tampado na geladeira e sirva depois de 3 horas (pode servir na hora, mas o sabor fica melhor depois de curtido um pouco). Corrija o sal, se achar necessário.

Rende: 2 a 3 porções



Salada de chuchu de Fartura (a salada que minha mãe costuma fazer)

2 chuchus de 400 g descascados
4 tomates orgânicos
Meia cebola picada
Sal a gosto
1 pitada de pimenta do reino
1 colheres (sopa) de azeite
Suco de ½ limão rosa
2 colheres (sopa) de salsinha picada

Cozinhe o chuchu cortado em pedaços longitudinais no vapor polvilhado com 1 colher (chá) de sal, até que fique bem macio, mas ainda firme. Enquanto ainda está quente, regue o azeite sobre ele e espere esfriar. Quando estiver frito, junte os outros ingredientes e misture com as mãos para não quebrar os pedaços. Prove e corrija o sal, se necessário. Se possível, espere algumas horas antes de servir.

Rende: 4 porções




Conserva de chuchu de Fartura (receita do meu pai)

½ xícara de azeite extra-virgem
2 chuchus descascados e picados
4 pimentas dedo-de-moça inteiras, mas sem sementes (tire através de um corte longitudinal sem destruir a forma da pimenta).
10 dentes de alho cortados ao meio
1 cebola cortada em quadrados
1 galho de alecrim
2 colheres (sopa) de sementes de mostarda
2 colheres (chá) de sal
4 xícaras de vinagre de vinho branco

Reserve o azeite e coloque todos os outros ingredientes numa panela de inox . Leve ao fogo e quando começar a ferver desligue o fogo. Espere amornar e coloque num vidro aferventado. Cubra a conserva com o azeite e conserve na geladeira por até um mês. Sirva como aperitivo ou como ingrediente de saladas e recheios de sanduíches. O caldinho pode ser usado para temperar saladas.

Rendimento: 20 porções
Nota: a acidez faz o verde perder o brilho. O magnésio da clorofila é substituído por dois átomos de hidrogênio na presênça de ácidos fracos como o oxálico ou o acético. Vira feofitina, com cor verde-oliva a marrom-oliva. Mas fica crocante e gostoso. Em compensação, em contato com substância básica, o verde fica mais vivo. Veja o doce em calda, lá embaixo, feita com cal, alcalina.






Sopa de chuchu com frango

½ peito de frango caipira com osso
1,5 litro de água
1 colher (chá) de sal
1 colher (chá) de feno-grego
1 colher (chá) de grãos de coentro
3 ramos de salsa
1 chuchu cortado em cubinhos
2 colheres (sopa) de salsinha fresca picada

Numa panela grande coloque o peito de frango inteiro com a água, o sal, o feno-grego, o coentro e os ramos de salsa. Leve para ferver em fogo baixo até o frango estar macio. Escorra e reserva o caldo, que deve render mais ou menos 1 litro (se precisar, complete com água). Separe o frango e corte sua carne em fatias.
Numa panela, coloque o caldo (deve render 1 litro – sem não, complete com água) e os cubinhos de chuchu. Cozinhe em panela tampada e fogo baixo até ficarem macios (cerca de 20 minutos). Junte as fatias de frango e espere voltar a ferver. Corrija o sal, se necessário, e sirva polvilhada de pimenta-do-reino e salsinha.

Rende: 4 porções



Sopa creme com mandioca e cambuquira de chuchu

1 chuchu de 400 g, com casca, cozido no vapor
200 g de mandioca cozida bem macia
4 xícaras de leite
1 colher (sopa) de cebola finamente picada
1 colher (sopa) de azeite
1 colher (chá) de sal
1 pitada de noz moscada
1 xícara de cambuquira de chuchu picada (os brotos novos e gavinhas, como a da abóbora)
1 colher (sopa) de manteiga
Pimenta-do-reino

Bata no liquidificador o chuchu com a mandioca e o leite. À parte, em fogo alto, refogue a cebola no azeite, só até murchar. Junte o creme batido, o sal e a noz moscada. Deixe ferver, mexendo sempre. À parte refogue a cambuquira na manteiga até murchar. Junte uma pitada de sal e junte à sopa. Polvilhe pimenta-do-reino e sirva.

Rende: 4 porções




Chuchu empanado

1 chuchu de 400 g com casca, cortado em fatias de 1 centímetro e polvilhado com 1 colher (chá) de sal
½ xícara de farinha de trigo misturada com 1 colher (sopa) de gergelim preto e uma pitada de sal
1 ovo batido com 2 colheres (sopa) de leite e uma pitada de sal
½ xícara de farinha de rosca
1 xícara de azeite para fritar

Cozinhe as rodelas no vapor por cerca de 13 minutos ou até ficarem macias, mas firmes. Espere amornar. Passe-as pela mistura de farinha de trigo, pelo ovo e finalmente pela farinha de rosca. Frite aos poucos no azeite quente.

Rende: 4 porções




Fiz uma receita igual à compota de abóbora que fiz há alguns dias. Só mudei o tempero da calda.

Chuchu em calda

600 g de chuchu picado em cubinhos de 1,5 centímetro
1 colher (sopa) de cal virgem
2 xícaras de açúcar1 xícara de água
Sementes de 3 vagens de cardamomo
2 galhinhos de menta

Numa tigela de vidro, deixe o chuchu de molho por 1 hora em dois litros de água com a cal virgem dentro de uma trouxinha. Escorra, jogue a trouxinha fora e enxágüe bem o chuchu. Numa panela coloque os ingredientes restantes e leve para ferver junto com o o chuchu. Quando formar uma calda rala e os cubinhos estiverem macios (crocantes por fora, macios por dentro), está pronto. É só esperar esfriar e servir puro ou com creme. Rende: 6 porções
Nota: a cal virgem é produto da calcinação das rochas e é responsável por deixar a superfície dos cubos crocantes, enquanto o interior fica macio - pode ser comprado em casa de festas)


quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Ovos felizes e fritada de chuchu





Comprei estes ovos na feira de produtores orgânicos no Parque da Água Branca, aqui em São Paulo (todos os sábados pela manhã). Se comparados com ovos comuns, são caros (R$ 8,50 a dúzia), mas se pensarmos como são produzidos e o quanto alimentam, são baratos. Ovos azuis de galinha lilás, ovos ocres de galinha vermelha, ovos brancos de galinha desbotada. Ou tudo trocado, afinal entre galinhas caipiras tudo pode acontecer. E elas gostam de botar no ninho onde já tenha algum ovo. E também, como não são de raça definida, podem cruzar entre si, ter cardápio variado e botar ovos de cores incoerentes com a raça a que parecem pertencer. Na verdade, são as sem-raça-definida. Mas o que importa não serem iguais às milhares de galinha granja, de cores monótonas, dietas monótocas, sufocantemente infelizes? Criadas soltas no terreiro, podem ciscar e escolher entre variedades de insetos, brotinhos de ervas e larvas. Mas o que valem mesmo nestes ovos são a qualidade e o sabor. Já viram a dificuldade para encontrar ovos frescos nos supermercados? Eles vão abastecendo com os que estão pra vencer. E se você reclama, apontam: veja aí, minha senhora, está dentro do prazo de validade. Tá, mas eu quero saber quando foi embalada. É isto que deve ser levado em conta. Afinal, como aqueles ovos que ficam em temperatura ambiente têm que durar 30 longos dias? Já abriram um ovo de 30 dias de supermercado? Ele cai no prato como uma lágrima de desculpas. Estes não. São densos, viscosos, a gema lá no meio, redondinha, brilhante, cor forte. A bolsa de ar sem ar, grudada na casca. Ovos dos bons. E, claro, se são produzidos no Sítio da Felicidade, só podem ser ovos felizes.
Ovos azuis, da casa da Nina Horta, em Parati.
Fritada de chuchu com os ovos felizes


Ingredientes
1 chuchu orgânico de 300 g
¾ de colher (chá) de sal ou a gosto
1 pitada de pimenta-do-reino
3 colheres (sempre rasas) de farinha de trigo
3 ovos caipiras e felizes
3 colheres (sopa) de salsinha picada
1 pedaço de pimenta dedo-de-moça picado em dadinhos
2 colheres (sopa) de queijo parmesão ralado
3 xolheres (sopa) de azeite de oliva para fritar.

Lave bem o chuchu e rale em ralo grosso com casca, integralmente. Polvilhe com o sal, a pimenta-do-reino e a farinha. À parte, bata ligeiramente os ovos, junte o chuchu, a salsinha, a pimenta e o parmesão. Misture bem. Frite em pequenas porções numa frigideirinha antiaderente com um pouquinho de azeite. Vire naquele movimento de virar panquecas (às vezes eu erro; das 6, errei 1) ou com a ajuda de um prato. Use fogo baixo e uma tampa para abafar, para que dê tempo de o chuchu cozinhar sem queimar por fora.

Rende: 6 fritadas individuais


Com uma saladinha verde!

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Abóboras - abóbora assada e compota de abóbora



Estas são aquelas abóboras de antes da viagem, com que fiz curau e bolo. Pasmem, isto mesmo! Mais de duas semanas cortadas, guardadas na geladeira. Não fossem ganhadas da Veronika e da Silvia, que colheram elas próprias de seus quintais orgânicos, acharia que eram transgênicas, longa-vidas. Lá da Itália escrevi para o Marcos: "Por favor, tem dois pedaços de abóboras na geladeira – prepare e coma ou congele". Quando voltei, fuçando a geladeira, achei lá os dois pedaços perdidos atrás das folhas, inteiraços. "Ué, você não preparou a abóbora?" / "Não, preferi congelar"/ "Congelar? Como, se os pedaços estão aqui?"/ "Congelei um troço de abóbora que estava aí na geladeira". Fui conferir, e o que ele tinha guardado no freezer era uma bela de uma sopa da abóbora que jazia esquecida há mais tempo que os pedaços na geladeira, quase podrita. Aqui em casa ninguém nunca sabe quando a podridão é intencional. Minha faxineira disse não saber mais o que é estragado e o que não é. Como posso exigir dela que jogue fora um tomate trincado, babento e fungado se digo que aquela pasta tailandesa de camarão fedorento ou aquele gorgonzola que chega a estar azul de tanto mofo estão bons para comer? Então ela prefere não jogar nada, nem que a coisa já tenha perdido a forma. Vai que é experiência ou esquisitice desta gente? Na dúvida, pró réu. Permanecem todos, os bons e os maus, na geladeira até que eu os descubra. Mas, voltando às abobrinhas, a sopa de abóbora não denunciou escancaradamente sua podridão. E os pedaços bons, honestos e ainda frescos das abóboras antigas conseguiram se safar do congelamento forçado. Sorte. Viraram compota e fatias assadas com especiarias, que fiz a olho, mas anotei. Aí vão:


Assim, macia e temperada, vai vem com salada de folhas bem crocantes

Com caranguejo do Marajó. Os dois têm a mesma textura

Abóbora assada com especiarias

1/2 colher (chá) de sal
1 colher (chá) de açúcar mascavo
1 colher (chá) de mel
1 pitada de pimenta-do-reino moída na hora
1 colher (sopa) de suco de limão
1 colher (sopa) de menta picada
Raspas de um limão Taiti (raspadas no microplane que ganhei da Fernanda, do Chucrute com Salsicha)
2 colheres (sopa) de azeite.
5 fatias do pescoço da abóbora madura, com casca (280 g)

Faça uma mistura com os temperos e lambuze bem cada fatia. Espalhe numa forma e leve para assar em forno médio (200 ºC) por meia hora. Sirva assim, puro, como acompanhamento ou use como base para um refogado de carne de caranguejo e camarão.

Rende: 5 fatias (claro!)

Doce de abóbora em calda (foto lá em cima)

600 g de abóbora madura picada em cubinhos de 1,5 centímetro
1 colher (sopa) de cal virgem

2 xícaras de açúcar
1 xícara de água
1 pedaço de raspa de limão
1 anis estrelado
Sementes de 3 vagens de cardamomo
1 pedaço de canela
5 cravinhos

Numa tigela de vidro, deixe a abóbora de molho por 1 hora em dois litros de água com a cal virgem dentro de uma trouxinha. Escorra, jogue a trouxinha fora e enxágüe bem a abóbora.
Numa panela coloque os ingredientes restantes e leve para ferver junto com a abóbora. Quando formar uma calda rala e os cubinhos estiverem macios (crocantes por fora, macios por dentro), está pronto. É só esperar esfriar, tirar as especiarias, se preferir, e servir puro ou com um tantinho de creme.

Rende: 6 porções


Nota: a cal virgem é produto da calcinação das rochas e é responsável por deixar a superfície dos cubos crocantes, enquanto o interior fica macio - pode ser comprada em casa de festas.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Frutas que você encontra em São Paulo


Você quer saber qual o nome científico da canistel, egg fruit ou sapota amarela? Abra a página 18 do livro Frutas que você encontra em São Paulo, do Cloves Vasconcelos e veja lá. Como se chama mesmo aquela frutinha em formato de disco que eu vi no Mercadão? Folheie atentamente o livro e na página 23 vai reconhecê-lo pela foto e descobrir que é um cambuci ou Campomanesia phaea. Joá de capote, cabeludinha, ingá, mamei, cereja do rio grande, camu camu, uva-japonesa, azedinha, grumixama, uvaia, calabura, maracujá gulupa, abricó do pará, cubiu, pêssego chimarrita, pêssego paraguayo, amora taiwan, moranguinho silvestre, laranja champagne, dekopon, toranja, cruá, pitanga, gravatá, tucumã, macaúba, caimito.... Só para citar algumas. Tudo o que algum dia apareceu aqui em São Paulo, o Cloves comprou, experimentou, fotografou e pesquisou nomes vulgares e científicos. Semana passada ele esteve aqui pessoalmente para me trazer o livro. Foi uma surpresa e eu poderia simplesmente ter guardado o livro com as centenas de outros que tenho aqui. Mas desde então já o consultei várias vezes.
As fotos das frutas partidas e inteiras são lindas e, ao lado de cada uma, as informações fundamentais para se começar uma pesquisa mais aprofundada. E para isto temos o Scholar Google, além, é claro, de mercados municipais, feira de produtores, Ceagesp, calçadas, praças e o quintal da vizinha (a minha tem uma jabuticabeira linda).

Onde encontrar: Saraiva, Siciliano, Livraria da Vila, Casa Santa Luzia.
Preço: em média, R$ 30,00.


quinta-feira, 31 de julho de 2008

Jantar Slow Food - Sbav com produtos regionais harmonizados com vinhos orgânicos

Entrada: olhem a farinha ovinha aqui.
As malas, minha e da Roberta de Sá, coordenadora dos projetos do Slow Food no Brasil, foram cheias para o encontro da Comissão Internacional da Arca do Gosto, em Scandicci, na Toscana. Roupas supérfluas deram lugar a pinhões de Santa Catarina, mangaritos de São Paulo, farinha d´água do Seu Bené e farinhas tantas outras, incluindo a ovinha de Uarini. Sem falar nos saquinhos de licuri salgado que todo mundo queria beliscar. Trata-se de um coquinho com gosto de coco, é claro, só que mais suave. Salgado e tostado é um petisco crocante tentador.

O fato é que nem todo licuri que me foi enviado pôde embarcar, afinal levaríamos apenas pequenas amostras para o pessoal da Itália ver. Um tanto ficou aqui em casa. E um destino pra ele não tardou a ser descoberto. Usaríamos no jantar Sbav/ Slow Food que nosso Convivium estava organizando junto com a Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho. Não deu outra: o coquinho foi um sucesso. Deu crocância e casou bem com o sabor amendoado do arroz vermelho do Vale do Piancó.
Aliás, como conseguir o arroz vermelho com greve do correio? Junta um pouco daqui e outro dali e conseguimos reunir 2 kg. O meu, tinha conservado dentro da geladeira. A Cênia Salles, líder do nosso Convivium, tinha outro tanto. Deu tudo certo no final. E a parceria arroz vermelho+licuri deu o que falar. Arroz deste tipo, integral, com a película vermelha rica em antocianinas - como o vinho, pode ser encontrado em mercados municipais ou em lojas de produtos naturais, vindo de diferentes lugares, mas o objetivo era usar este arroz específico protegido pela Arca do Gosto do Slow Food. O objetivo do jantar era divulgar e valorizar os pequenos produtores e produtos de qualidade - bons, limpos e justos - relacionados com os projetos do Slow Food no Brasil.
Seu João Lino, por exemplo, produtor que resgatou a cultura do mangarito aqui em São Paulo, estava lá pra aplaudir o talento do chef Newton Figueiredo, que soube transformar as batatinhas miúdas, mesmo sem nunca tê-las visto antes, num purê perfeito: liso, dourado, delicioso, que acobertava nacos suculentos de carne seca no seu Escondidinho, que acompanhou nosso arroz crocante. Antes disso, o chef Newton já havia surpreendido com a entrada à base de legumes grelhados – berinjela e abobrinha – com farinha ovinha do Uarini, que trouxemos de Manaus. De novo, mesmo sem nenhum contato prévio com esta farinha iguaria que lembra grãos de cuscuz marroquino, o Newton se saiu bem na técnica: hidratou os grãos com caldo de legumes e serviu com os legumes ladeados por cubos de queijo coalho grelhados e cobertos com mel de abelhas nativas de florada de limoeiro (néctar ou natimel, do projeto Abelhas nativas da Amavida - Associação Maranhense para a Conservação da Natureza, à venda no site da ong Central do Cerrado).
De sobremesa, um perfumado creme de cupuaçu, delicado, com pouco açúcar, azedinho e muito sabor.
Os vinhos escolhidos pelo diretor cultural da Sbav, Edecio Armbruster, combinaram perfeitamente com os pratos salgados – degustamos duas versões de brancos com a entrada e duas de tintos com o prato principal para comparar qual seria a melhor escolha. Se entre eles houve ganhos e empates, no caso do vinho de sobremesa aconteceu a incompatibilidade total: a parceria Riesling e cupuaçu não funcionou. Os dois estavam deliciosos, fortes, dinâmicos, cheios de personalidade, mas não se bicaram. São como aqueles amigos que você adora separadamente, mas não ousa apresentá-los. O bom é que, um de cada vez, nenhum deles se podia desperdiçar. Ao final, taças e pratos vazios, óbvio.

Entre um gole e uma garfada, Edecio Armbruster deu uma verdadeira aula de harmonização de comida brasileira com estes vinhos orgânicos e/ou biodinâmicos. Dos brancos que acompanharam a entrada, o alemão Iphöfer Kronsberg Silvaner Kabinett trocken 2005 – da Francônia, Alemanha, era mais complexo, encorpado e tinha um toque de açúcar ideal para fazer companhia para os grãos delicados e ligeiramente ácidos da farinha ovinha de Uarini e mais ainda com o queijo coalho com o mel, que também traz certa acidez além da doçura.

Já os dois apresentados para ver qual o melhor casaria com o arroz crocante com escondidinho brigaram pela liderança. Ficaram no empate principalmente quando se provou separadamente o arroz ou o mangarito com carne. Enquanto o espanhol Rioja, Ijalba Múrice Crianza 2003, biodinâmico, mais amadeirado, andava bem com o sabor de coco do licuri, o francês Crozes-Hermitage Les Meysonniers 2006 – Rhône, estendia as mãos firmes para o purê com carne. Os dois, absolutamente equilibrados.

E da deliciosa sobremesa com o estupendo Riesling alemão Wachenheimer Rechbächel, já falei. Eles não querem conversa.

Arroz vermelho do Vale do Piancó com escondidinho de mangarito e carne seca.

Creme de Cupuaçu com Riesling: não se bicaram

O Menu
Entrada
: Legumes grelhados com cuscuz de farinha ovinha de Uarini, cubos de queijo coalho grelhados ao néctar de abelhas nativas
Prato principal: Escondidinho de mangarito com carne seca e arroz vermelho com crocante de licuri
Sobremesa: Creme de cupuaçu

Vinhos degustados
Avondale Sauvignon Blanc 2006 - África do Sul
Iphöfer Kronsberg Silvaner Kabinett trocken 2005 - Francônia, Alemanha
Crozes-Hermitage Les Meysonniers 2006 – Rhône, França
Ijalba Múrice Crianza 2003 – Rioja, Espanha
Wachenheimer Rechbächel Riesling Auslese – Palatinado, Alemanha

Contato com os produtores
Arroz Vermelho do Vale do Piancó, Paraíba
Coordenador da Comunidade José Soares Filho
Telefone 83-3485-1080

Mangarito
Sr. João Lino. Telefone 11-5561-0120 ou celular: 11 7152-6585
www.mangarito.blogspot.com/


Licuri
Produtores do Piemonte da Diamantina (polígono das secas)
Coordenadora da Comunidade: Josenaide Souza Alves
Telefone 74-3651-0225 ou celular 74-199 8569
josenaide@coopes.org

Mel de abelhas nativas
Central do Cerrado – produtos ecossociais
http://www.centraldocerrado.org.br/


Informação sobre os vinhos
Sbav – Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho
http://www.sbav-sp.com.br/


Cenia Salles, lider do Convivium Slow Food de São Paulo (eu, vice-lider, estava sentada comendo, bebendo, fotografando..)

Odila Moraes, presidente da Sbav e membro do Slow Food

Edecio Armbruster, diretor sócio-cultural da SBAV-SP e membro do Slow Food

Os vinhos - faltou um


quarta-feira, 30 de julho de 2008

Florença - pane, focacce e altri prodotti da forno

Nosso amigo padeiro: trabalha de camisetão e pernoca de fora

Já falei aqui que minhas duas amigas e eu alugamos um apartamento em Florença em cima de uma padaria. Sorte nossa não sermos carboidratófobas. Muito pelo contrário. No primeiro dia de nossa estadia, eu passava por último pelo corredor que ligava a escada à nossa porta quando, por uma janela aberta, espiei lá embaixo o pátio da padaria. Meia noite, uma da manhã, não me lembro. O flash disparado era em direção a umas caixas de pães recém-assados e cheirosos que repousavam ali, mas cumpriu também a função de chamar a atenção do padeiro que correu para o quintal escuro a espiar que raio era aquele misterioso vindo do céu. Olhou rápido pra cima e se deparou com minha cara sem graçona pedindo desculpas pelo susto. Ele foi simpático, sorriu e perguntou se queríamos pão quentinho. Que era pra eu descer e buscar. Corremos lá, fizemos amizade. O patrão dele era jovem e sonhava conhecer o Brasil. O outro padeiro era argelino. Ele, um vero toscano. Todos simpáticos e conversadeiros, mas não tiravam os olhos dos pães que assavam. Todas as noites encontrávamos com estes trabalhadores da madrugada. De manhã seus pães estavam lá, fresquinhos, numa panetteria pequena, de bairro, com uma vendedora também simpática, que nos ensinou o nome de vários tipos de pães, incluindo o pão toscano que ela fez questão de ressaltar: si, questo é il pane sciocco, il pane senza sale. Lembrando que sciocco, como este pão sem sal também é conhecido em Firenze, quer dizer insípido, bobo.

Pane senza sale
Dizem que o sabor insípido deste pão é toda culpa ou mérito dos pisanos (de Pisa). É que no século 12, o sal chegava pelo antigo porto de Pisa, mas como havia uma rivalidade grande com Florença, Pisa não permitia a distribuição do sal por terras toscanas. Mas os padeiros ao longo do rio Arno não se intimidaram: cortaram o sal do pão. Porém há quem discorde desta versão e diga que a verdade é que o sal era tão caro e raro na Toscana medieval, que a decisão de excluí-lo do pão deixaria de condenar à fome milhares de cidadãos. Ouvi ainda que o pão da Toscana é sem sal simplesmente porque é o alimento que acompanha presuntos e embutidos, itens já suficientemente bem salgados. Um complemento em equilíbrio. O fato é que no começo se estranha, depois de acostuma e no final se deseja este pão feito de farinha branca ou integral, água e levedura. Nada mais.

Aqui mais algumas fotos, incluindo as dos pães do Mercado de San Lorenzo, em Florença:

O padeiro-patrão fiorentino: manda mas também rala. Aqui, cortando schiacciatina. Ele é louco pra vir ao Brasil.
Schiacciatina all´olio morbida: preferem o termo schiacciata a focaccia, mas às vezes usam os dois indiscriminadamente. Esta, com azeite, fica mesmo muito mórbida (macia).

Pane di Montegemoli cotto a legna: a placa antiga decora um box de bebidas e presuntos do Mercado de San Lorenzo. Não sei se era apenas enfeite, pois não vi o pão. O fato é que este é um famoso pão toscano de tradição antiga, cuja receita atual é resultado do resgate do pão artesanal feito no campo antes da revolução industrial. Muito dourado e formato arredondato ou tondeggiante, como se diz, conserva toda a propriedade do grão de trigo integral, moído em moinho artesanal (Antico Molino Artigianale Messerini), fundado no fim do século 19. Montegemoli, nos arredores de Pisa, é famosa pela água rica em minerais, também fundamental para a qualidade deste pão.

Prontos pra virar sanduiches: panini tipo roseta, baguetina ripieno, panini, schiacciatina e, claro, pane toscano. Todo lugar que vende pão, tem também presuntos e que tais e facilmente se consegue aí um sanduíche frio. Agora, panini caldi ou, como se vê aí neste box, sandwich hot não é todo lugar que tem.

Pane puliese cotto a legna, pane toscano cotto a legna a lievetazione naturale (fermentação natural) e bozza pratese: este é um pão (o escuro) integral também de tradição antiga, feito na província de Prato, perto de Florença. Como outros, é um pão toscano sem sal - leva apenas farinha integral, água e fermento. Assado em forno a lenha, é ótimo com sopas ou para o preparo do popular crostini de fígados. É considerado um produto de excelência incluído na lista da ARSIA (a agência regional para o desenvolvimento e inovação no setor agroflorestal da Toscana) - www.arsia.toscana.it.
Bozzette pratesi Schiacciatine all´olio e integrali Frustone Fruste all´olio
Ruote e bozzette: mais pães artesanais de Prato.
Bozzette pratesi, schiacciatine all´olio (lá atrás) e integrali, frustone e fruste all´olio (fruste são estes pães mais compridos, como filões)


Mas também tem o filoncino toscano.

Guanciale semintegrale, pane tipo pugliese e pane siciliano salato. Engraçado que guancia é bochecha de porco e guanciale é o toucinho feito com esta bochecha. Agora fiquei sem saber se este pão guanciale é porque leva gordura deste toucinho, pedacinhos dele ou porque tem o formato de uma bochecha. Alguém sabe? Se não fica como tema de pesquisa para a próxima viagem.. Ah, engraçado também o "salado" do pão siciliano. É que tudo por lá é meio ou completamente sem sal.


E, finalmente, não dá pra sair de Firenze sem um cafe latte com cornetto (este aí tinha recheio de creme, bom demais). Bem, chega de Firenze, sem, contudo sair da Toscana. Ainda tem um dia numa vinícola de Chianti. Aguardem. Enquanto isto, as abobrinhas de sempre.