terça-feira, 10 de junho de 2008

Cará-do-ar, cará-moela ou inhame-do-ar, inhame-moela?


Em dois ou três meses já pude comer estes bulbos que nasceram na minha cerca.

Como canta nosso Tom Zé, “tô te confundindo, pra te esclarecer”. Já falei aqui sobre a confusão de nomes de carás e inhames que afetou até meu autor preferido Câmara Cascudo. Mas acho que agora finalmente a padronização é para valer. Pelo menos todos os artigos científicos que tenho lido sobre isto já registram o nome Taro para o Colocássia esculenta, o ex-inhame, aquele redondo, marrom com toques arroxeados, de folhas como as da taioba, de polpa cremosa e lisa, e Inhame para o Dioscorea spp (D. alata, D. bulbifera, D. cayenensis, D. dodecaneura, D. dumetorum e D. rotundata), aquele que em São Paulo conhecemos como cará - grande, marrom, com polpa branca ou roxa, úmida, viscosa e algo granulosa e outras espécies como este da foto. A padronização da nomenclatura foi decidida na Assembléia Geral do I Simpósio Nacional sobre as Culturas do Inhame e do Cará, realizado em Venda Nova do Imigrante, em abril de.2001, atendendo ao que prevê o Código Internacional de Nomenclatura Botânica. De modo que agora cientistas, órgãos do governo e quem quer dar nome certo às coisas, devem atender à determinação. Vejam aí:


“Assim sendo, ficou estabelecido que os órgãos governamentais, universidades, empresas de pesquisas e de extensão rural, Sociedade de Olericultura do Brasil e demais entidades ligadas ao setor agrícola, oficializem e divulguem, no âmbito técnico-científico nacional, a nova nomenclatura, onde "inhame" (Colocasia esculenta) passa a ter a denominação definitiva de "taro" e as Dioscoreáceas (Dioscorea spp.), chamadas popularmente no norte/nordeste brasileiro de "carás" e "inhames", passam a ter a denominação definitiva de "inhame". As espécies de "carás" cultivadas, serão consideradas como variedades de inhame”.

Marney Cereda e outros. Uso de nomes populares para as espécies de Araceae e Dioscoreaceae no Brasil. Hortic. Bras. vol.20, no.4, Brasília, Dec.2002.
Artigo completo aqui.


Carás-do-ar (inhames) do sítio em Fartura-SP e do meu quintal (o arroxeado).


Talvez agora isto gere mais confusão ainda, mas daqui a algum tempo não vamos mais ler textos traduzidos do inglês que falam dos super poderes do inhame quando na verdade estavam se referindo ao cará, yam. De agora em diante o cará vira oficialmente inhame, como sempre deveria ter sido e todo mundo entenderá que inhame ou yam é do gênero Dioscorea e não Colocasia. Claro, que deve ser sempre acompanhado do nome científico. E quando alguém disser para comer inhame porque é bom pra menopausa, estará mesmo falando do inhame Dioscorea.

Falar em menopausa, um detalhe sobre a pílula: algumas espécies silvestres de cará (agora inhame) contêm substâncias tóxicas, mas essas mesmas substâncias tornaram-se úteis ao homem quando, por volta de 1940, descobriram-se que as saponinas esteróides destes bulbos podiam ser usadas na fabricação da cortisona e de hormônios sexuais. Em 1956 o uso farmacológico da Dioscorea ganhou mais notoriedade quando foi anunciado que o esteróide diosgenina tinha a capacidade de impedir a concepção. Até aquele momento os esteróides preventivos da concepção tinham que ser tomados por injeção. Com a nova descoberta passou a ser possível a administração oral. Nasceu, assim, a pílula - que hoje é quase que inteiramente sintética. Recentemente novas pesquisas vêm testando os componentes estrogênicos do cará (agora inhame) na terapia de reposição hormonal, mas não há evidências de que se possam obter os mesmos efeitos comendo o cará, pois esses compostos são extraídos dos carás silvestres e mesmo assim teriam que ser comidos às toneladas.

Se não há comprovação de que comer cará possa substituir os hormônios sintéticos, ao menos sabe-se que é bom comê-lo porque é saboroso e nutritivo. É ainda um ingrediente versátil na cozinha além de se conservar fresco por vários dias. Ele pode ter os mesmos empregos que a batatas - rocamboles salgados, sopas, pães, purês, suflês e pratos doces como pudins e bolos.

Agora já não sei mais como chamar nosso cará-do-ar (Dioscorea bulbifera). Será inhame-do-ar, inhame-moela? Bem, seu caráter sei que não muda. Ele produz bulbos aeréos arredondados ou em forma de fígado ou moela. O aspecto lembra algo assim. Na África, essa espécie pode alcançar até 2 kg. Diferente do outro, o Dioscorea alata, mais comum, que dá o tubérculo embaixo da terra e é a espécie mais difundida no Brasil, o cará-do-ar tem textura menos granulosa e um ligeiro amargo característico muito bom. De resto, é mais cremoso depois de cozido, menos viscoso e a polpa pode ser esverdeada ou arroxeada. Ah, e pode ser plantado em qualquer pedacinho de terra desde que lhe dê uma cerca pra trepar.

Hoje o Brasil é produtor e consumidor principalmente de batatas e mandiocas (esta, mais na forma dos subprodutos). Mas carás e inhames ou inhames e taros já tiveram sua importância na culinária regional e sei que no Vale do Paraíba e do Ribeira ele é usado em pratos com carne de porco e outros à moda das batatas.


Vamos ao que fiz com ele:




Cará-do-ar (inhame-do-ar) e mangarito no vapor com especiarias na manteiga

300 g de cará-do-ar (inhame) branco e roxo e mangaritos (na proporção que quiser)
2 colheres (sopa) de manteiga
2 dentes de alho bem picados
1 pimenta dedo-de-moça sem sementes picada
1 colher (chá) de sal
1 colher (chá) de grãos de coentro ligeiramente socados
1 colher (chá) de cominho
2 colheres (chá) de cúrcuma fresca ralada
Folhas de alfavaca a gosto

Corte em dois cada cará sem descascar e leve para cozinhar na parte de cima da cuscuzeira ou panela de vapor com água na parte de baixo. Deixe no fogo, com a panela tampada, por cerca de 10 minutos ou até ficar macio, mas ainda firme. Coloque o mangarito com casca, bem lavado, sobre o cará e deixe cozinhar por cerca de 3 minutos ou até ficar macio. Espere amornar, descasque o cará e corte em pedaços do tamanhos dos mangaritos - estes devem ser descascados puxando a pele com os dedos, que sai muito facilmente. Numa frigideira antiaderente aqueça a manteiga e junte o coentro e o cominho. Espere começar a pipocar. Junte, então, o alho e refogue até começar a dourar. Coloque a pimenta picada e mexa por meio minuto. Acrescente o inhame e o mangarito, tempere com o sal e chacoalhe a frigideira para envolver tudo com o tempero. No final, junte as folhinhas de alfavaca, misture e sirva.
Rende: 4 porções




Carne com cará-do-ar (inhame)

1 colher (sopa) de óleo
2 dentes de alho
500 g de coxão duro
1 colher (chá) de sal ou a gosto
2 folhas de louro
2 tomates sem pele picados
2 xícaras de água fervente
1 cebola picada
½ pimentão verde picado
1 pitada de pimenta-do-reino
4 carás-do-ar (inhame) descacados e picados
2 colheres (sopa) de salsinha

Numa panela de pressão aqueça o óleo e junte o alho socado. Quando ameaçar a dourar, junte a carne com o sal e vá mexendo até começar a fritar. Junte as folhas de louro e o tomate e mexa delicadamente. Despeje por cima a água fervente, tampe e deixe cozinhar em fogo baixo por cerca de meia hora, marcada a partir do momento em que a válvula começou a chiar. Desligue o fogo, espere acabar a pressão e abra. Confira se a carne está macia. Se não, cozinhe por mais um pouco. Junte a cebola, o pimentão, a pimenta-do-reino e o cará (inhame). Deixe cozinhar por cerca de 15 minutos ou até o cará ficar bem macio, mas não mole. Confira o sal e corrija, se necessário. Reitere a pimenta se quiser. E polvilhe com salsinha picada.
Rende: 4 porções


Basta enterrar um bulbo que logo ele brota. Este brotou mesmo fora da terra. Plantado, rendeu as batatinhas vistas na primeira foto.


Mais sobre carás, inhames e mangaritos

Cará de Fartura

27 comentários:

Eduardo Luz disse...

Neide, sabe que as vezes o Come-se parece um blog de ficção científica ! Legal, está cada vez melhor !
Dúvida : plantei numa floreira uma echalote,ela cresceu e está com umas folhas bonitas ! Elas são comestíveis ?

Neide Rigo disse...

Oi, Eduardo! gostei do "ficção científica' rss. Mas aqui o documentário é tudo verdade.

Qualquer folha da família das cebolas é comestível. Deve lembrar nirá, uma delícia. Bom proveito!

Um abraço,
Neide

Neide Rigo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
fezoca disse...

Neide, acho que estou ficando repetitiva aqui, mas vou dizer--que bacana tudo isso! :-)

Eu adoraria saber identificar as coisas comestiveis. Conheco um cara aqui, que so consome o que ele planta, caça, pesca, e acha no meio do mato. Estavamos num lugar cheio de plantas/mato e ele ia identificando--isso eh otimo refogado, essa dah uma salada legal, etecetera.

Eu nao sei se comeria esse cará flutuante, se nao tivesse uma pessoa expert, como voce, me guiando! Um dia, quem sabe! ;-)

Super beijo,

Mariângela disse...

Neide,pois o que trouxeste ainda não brotou,acho que está em repouso por conta deste frio que anda fazendo,ficaram apetitosos os pratos,beijo!

Pedrita disse...

ah, vou perguntar ao meu pai. beijos, pedrita

Regina disse...

Olá Neide. Gostaria de saber onde encontrar mudas deste cará! O cará-do-ar!

Meu e-mail: artevital@illumino.pro.br

Um abraço,

Regina

Anônimo disse...

Ola Neide hoje vi a sua sugestao sobre cara moela quero diser q o conheço desde a minha infancia pois eramos pobres e minha cozinhamuitos deles para nos
beijos
Aissar

Anne Marly disse...

Neide faz muito tempo que já tive um pé deste cará, mas me mudei e nunca mais vi um exemplar desta especie, onde posso conseguir? Se souber mande a resposta para o meu e-mail: annemsp@ig.com.br

Jorge disse...

ola neide , gostaria de saber como arrumo para plantar . esses cara-moelas ou inhame-moela

Neide Rigo disse...

Õi, Jorge, se tiver como vir buscar, eu ainda tenho uma batatinha para doar. Estou em São Paulo. Escreva no neide.rigo@gmail.com. Um abraço,N

diamantina disse...

NEIDE,
gostaria de saber se o cará moela ou cará do ar serve para a próstata. Um amigo domeu marido disse que o chá feito com o cará é bom para a próstata. Fiquei preocupada de ser tóxico, pois nunca havia falar e aqui encontrei explicações sobre ele. Este amigo do meu marido tem uma plantação de cará moela em Guaratiba aqui no Rio de Janeiro. Será que voce sabe alguma coisa sobre isso?

Por favor, responda-me antes que o homem resolva se intoxicar.
Abraços

Neide Rigo disse...

Oi, Diamantina,
eu não sei nada sobre ser bom para próstatas, mas sei que não é tóxico e ele pode consumir à vontade, que mal não faz.
Um abraço,
N

Anônimo disse...

OI Neide, eu tenho um pé de cará-moela e gostaria de saber quando os frutos estão prontos para serem consumidos?!

Obrigado......Alex

Neide Rigo disse...

Oi, Alex,
os frutos podem ser consumidos em qualquer fase, mas continuam a crescer até o pé secar.
Um abraço,
N

Sandra Vasconcelos disse...

Oi Neide, acho que sou analfabeta funcional. Não consegui entender ainda. Estou há pouco tempo no nordeste e aqui inhame e marrom e comprido e cará é redondo como batata, mas ambos sãos marrons e nunca roxos. Todos são gigantes e brancos por dentro. Pode me ajudar, por favor? Tenho fotos.

Neide Rigo disse...

Oi, Sandra,
provavelmente os dois a que se refere são tipos da mesma espécie Dioscorea. Por aqui os dois se chamam cará. Mas a proposta é que agora eles passem a ser chamados de inhame em todo o Brasil. Este que mostro é um tipo da mesma espécie, mas só que com os bulbos aéreos. Se quiser, me mande as fotos. neide.rigo@gmail.com
Um abraço, n

Neide Rigo disse...

Oi, Sandra,
provavelmente os dois a que se refere são tipos da mesma espécie Dioscorea. Por aqui os dois se chamam cará. Mas a proposta é que agora eles passem a ser chamados de inhame em todo o Brasil. Este que mostro é um tipo da mesma espécie, mas só que com os bulbos aéreos. Se quiser, me mande as fotos. neide.rigo@gmail.com
Um abraço, n

Idries disse...

olá Neide, que legal este blog, meus carás brotados estão saltitanto de alegria, pois nunca se viram tão mencionados num unico lugar! Fico maravilhada com eles, suas formas, tive um pesando em tornode 800g, uma maravilha da natureza , parecendo a escultura de uma borbolea gigante.Sabe o que fiz com eles devido a fartura é dificil eu conseguir usá-los e meus vizinhos não se inteessam nem um pouco, esta coisa de gostam de plantas exoticas para eles é loucura. Então eu tive que arrumar um jeito de usá-los. o que eu fiz então? Farinha!!!!!! deixei aas fatia cortadas quase trnasparentes do cortado de legumes e deixei secar até ficarem crocantes. Bati no liquidificador e guardei a farinha num vridro e usei para fazer pão, na proportação de l para tres de outras farinhas. ficou muito bom se alguem mais quiser experimentar!!!!!
parabens

Idries disse...

oi Neide , desculpe mais minha 9internet hoje está demais porisso peço mandar resposta ao meu comentario sobre os meus caras saltitantes para mariacaramori@yahoo.com.br

abraços

maria

Neide Rigo disse...

Olá, Idries!
Que excelente ideia fazer farinha. Alem de nutritiva, deve ficar muito gostosa. Parabens. Beijos, N

Carminha disse...

Oi Neide,
Sei que a matéria é antiga, mas só agora conheci o cará-moela e quando resolvi procurar na net achei o seu blog! Que bom.
Estive sábado passado num sítio onde a proprietária me apresentou essa delícia. Eu troxe para casa para plantar. Não tenho muito espaço de terra, mas tenho vários temperos plantados em vasos e floreiras. Pergunta: Posso plantar numa floreira próxima ao muro para que o cará-moela rame?

Anônimo disse...

Oi Neide,eu ganhei duas caramoela e plantei. em um vasinho ela esta agora.20cm vou levar para, o meu citio não vejo a hora de crecer logo, só que vc falou que o pe seca. para platar novamente precisa estar madura? e como vou saber que ja esta madura? espero a sua resposta mil bjsssssssssssssssss marina

valdoirtosta disse...

boa noite neide.
desde criança que não vejo essas variedades de caras, la em MGerais , nos tinhamos no quintal. Aqui no RJ, não consigo encontrar.Pergunto se seria possível o envio por sedex das duas variedaades para mim aqui no Rio? Gostaria muito de receber duas "batatas", para plantar aqui em Niteroi.

Grato ficarei em receber uma resposta sua. Obrigado.
Valdoir F Tosta
Estr.da Conceição 1106- Mutuaguassu- SGonçalo.RJ

Anônimo disse...

obrigada pelas informações sobre o cará-do-ar. Tenho um pé que ganhei de brinde em uma floricultua. Fiquei surpresa e encantada quando vi a quantidade que produziu... Eu e minha família estamos em dúvida quanto o nome e se era comestível. Agora sabemos que podemos não só adimirá-los mas cosumí-los também. Valeu Neide!

Hamilton Lima de Moraes disse...

Oi Neide tudo bem? não nos conhecemos, mas desde já agradeço a DEUS,por ter encontrado vc na internet.A anos venho procurando essa planta maravilhosa, que eu nem sabia o nome,ela lembra meu passdo, meus avós, por favor se puder, mande informações atravéz de e-mail, onde comprar e se consigo mudas, meus agradecimentos. hamilton.moraes_lima@hotmail.com

Anônimo disse...

Eu tenho plantado cará do ar aqui no meu canteiro e ele está cheio de frutos, se caso alguém se interessar entrar em contato.
marianaluciagomes@hotmail.com