segunda-feira, 12 de julho de 2010

Dilênia ou fruta-cofre: Come-se. Resposta da charada


Árvores em Ipeúna-SP
Muitos leitores mataram a charada do post anterior. É a fruta-cofre, dilênia (Dillenia indica) ou tantos outros nomes. Conheci esta fruta há uns quinze anos, durante uma viagem de carro ao Nordeste. Chamou a atenção o formato e colhemos algumas, acho que no Espírito Santo, caídas no chão.
Pretendiamos trazê-las a São Paulo para desvendá-las, mas ainda estávamos subindo rumo a Sergipe, sob sol quente de janeiro. E não deu pra aguentar. Depois de dois dias, antes de chegarmos à Bahia, com dor no coração tivemos que deixá-las numa praia escaldante qualquer, pois o cheiro foi enjoando, enjoando, até beirar o insuportável.
Quem conhece a fruta sabe do que estou falando (veja comentário da leitora Juba no post anterior). Começa com um cheiro agradável de manga ou maracujá, depois desanda pra manga sulforosa, meio cebola meio alho, e a partir daí começa a ficar esquisito demais, a ponto de ter que botar a fruta pra dormir fora de casa, mal comparado ao que acontece com algumas delícias mal-cheirosas como um bom queijo Reblochon. Felizmente, como o queijo, o cheiro não corresponde ao sabor - bem gostoso, azedinho ligeiramente adocicado.
Aqui na Lapa, na Praça Senador José Roberto, onde fazemos os piqueniques, há uma árvore já grandinha, mas por enquanto nada de frutos. Parece que lá pelo oitavo ano ela começa a produzir. Estas frutas da foto colhi durante uma visita, na semana retrasada, a Korin, cujo abatedouro de frangos fica em Ipeúna, em uma fazenda. Havia uma fileira destas árvores com frutos. Pedi duas, mas poderia ter colhido mais já que não usam os frutos pra nada, embora sejam comestíveis.
Sobre a planta
No livro do Helton Josué Teodoro Muniz, Colecionando Frutas, você pode encontrar muitos detalhes sobre a espécie Dillenia indica. Se procurar no Google pelo nome científico, então, vai se perder com tanta informação. Para descobrir receitas, melhor apelar pelos nomes populares que recebe por aí: chulta, hondapara tree, elephant apple ou shoy dillenia, em inglês; chalita e mota-kermal, na Índia; dilênia e hondapara, em Porto Rico. No Brasil pode ser conhecida como maçã de elefante, bolsa de pastor, flor de abril, árvore da pataca, fruta cofre ou dilênia. Segundo o leitor Apício, nas Filipinas, é Katmom (veja comentários do post anterior). Gosto de usar o nome dilênia.
Originária da Ásia Tropical, a árvore está distribuída por toda a Índia, Borneu e Filipinas, mas pode ser encontrada em vários outros países de clima tropical. As primeiras mudas desta espécie foram plantadas no Jardim Botânico do Rio - criado por Dom João VI em 1808 para aclimatação das plantas vindas do Oriente. O presente chegou pelas mãos de Luiz de Abreu Vieira e Silva, assim como várias outras espécies asiáticas.
Origem do nome popular
Fruta da pataca ou fruta-cofre são nomes comuns para este fruto rodeado de sépalas comestíveis. Acontece que quando o flor é fecundada, e o verdadeiro fruto se forma no centro, as extremidades da flor se curvam sobre o fruto para protegê-lo formando uma bola quase compacta, mas que se desfaz em sépalas carnosas. Qualquer coisa que esteja aderida à flor, seja inseto ou moeda, ficará aprisionada no interior da estrutura madura. Dizem que Dom Pedro I colou junto à flor moedas (patacas) para fazer brincadeira com seus conterrâneos, dizendo que por aqui dinheiro nascia em árvores. O truque era usado como uma pegadinha para diversão. Acho que o trote morreu por ali, mas o nome ficou.
O uso na cozinha
Parece que o uso da fruta como espécie comestível também não vingou, diferente de outras espécies asiáticas como a jaca ou a fruta-pão. Talvez pela fartura de outras frutas ou o cheiro forte. O fato é que nos locais de origem a fruta é usada principalmente como ingrediente acidificante. Mordendo um pedaço da sépala tem-se a sensação de estar diante de um pedaço de maçã verde ainda não madura. A textura crocante só é interrompida pelas ínumeras fibras lenhosas - mais lenhosas que as da cana, por exemplo.
Quando os frutos estão mais verdes ou no caso das sépalas mais internas é possível cortar a fruta transversalmente e depois em cubinhos de modo a deixar as fibras quase imperceptíveis, mas o mais recomendado é mesmo cozinhar, bater no liquidificador e passar por peneira para extrair a fibra. O caldo obtido é ácido, só um pouco adocicado e pode ser usado como um suco de tamarindo, para cozinhar carnes, fazer curries, temperar lentilhas, fazer molhos, juntar a outras frutas sem acidez pra fazer geleias etc.
O bom de cozinhar antes de bater é que você pode aproveitar a parte amilácea não fibrosa, que passa cozida pela peneira, para espessar molhos e sopas. A cocção evita que o suco oxide, fato que acontece com o produto cru. Mas é possível também bater os pedaços de sépala crus leite - neste caso vira uma coalhada para ser tomada na hora, antes que escureça.
O miolo ou o fruto propriamente dito, que se forma em gomos, é crocante, translúcido, azedindo e tem sabor de florzinhas de begônia. Como é babento e guarda muitas sementes, joguei à terra, para usar apenas as sépalas.
Fiz com elas algumas receitas baseadas no que pesquisei. Mas publico nos posts seguintes.
Antes, veja o passo-a-passo do preparo




Como você não vai encontrar os frutos em feiras nem em supermercados, fique de olho nos jardins públicos, como na cidade universitária - USP, por exemplo (veja comentários do post anterior, informação da Juba)


Com uma faca pesada, abra a fruta ao meio


Tire o miolo (que, botanicamente, é o fruto verdadeiro) com uma faca ou colher - você vai usar as sépatas


O miolo é comestível, mas não é muito agradável pois tem muito muco pegajoso


Separe as sépalas e lave bem


A parte convexa pode ser descascada com um descascador de legumes


Já a pele da parte côncava pode ser puxada com uma faquinha. Veja que esta sépala, que estava localizada mais internamente, não tem muita fibra e pode ser usada em quantidade pequena, picadinha, como tempero (à moda do tomate, por exemplo)


Um fruto rendeu 273 g de polpa útil


... Que foi cozida por 20 minutos até amolecer, batida no liquidificador com a água de cocção ou um pouco mais e passada por peneira. Veja a quantidade de fibras - como fibras de cana, que não se desfazem com o simples mastigar
O suco obtido pode ser usado para acidular, temperar, alimentar. Veja algumas dicas de uso nos próximos posts. Obrigada a todos os leitores que responderam e parabéns aos que acertaram!


Nos posts seguintes, algumas receitas