Não me assusta pensar em comer carne de cavalo desde que fosse um hábito cultural entre nós, mas não é. E também não me impressiona esta prática da indústria, mais comum do que imaginamos. Se fazem análise sensorial e verificam que ninguém sentirá a diferença de sabor e ainda economizam, porque não usar a carne de cavalo que também é comestível (vá lá, pode não ter sido criado com esta finalidade, pode não ser cultural, mas é comestível). Afinal, também a quantidade do principal produto alegado na embalagem geralmente é tão ínfima, que ninguém vai perceber. Estamos acostumados a ser enganados. É bebida com cara de iogurte que não tem iogurte, é um tal iogurte grego que não tem nada de iogurte nem de grego, um biscoito com recheio de goiaba que não tem fruta, um néctar de frutas que é água temperada e açucarada, um leite em pó que é uma miscelânea de aditivos para se dar a crianças, etc. Por fim, podendo enganar a indústria nos engana, com algumas exceções.
Dificilmente eu comeria carne de cavalo no lugar da de boi a não ser que sejam muito parecidas no açougue do box 20 do Mercado da Lapa, onde costumo comprar. Mas eu vejo chegarem os quartos e não me parecem ser de cavalo. Não compro hambúrguer, almôndegas, molho a bolonhesa. Acho fácil fazer em casa e ficam muito mais gostosos. Agora, raviolli de carne não é tão fácil de fazer. Ainda assim, não compro e por isto raramente como. Mas o de queijo me pareceu uma boa alternativa num dia em que estava sem tempo e com vontade de comer capeletti com um caldo de pato que tinha aqui. Era uma coisa menos suspeita, pensei. Imagine, um recheio de queijo para capeletti é simples, não pode ter enganação - é só esmigalhar o queijo. Ou os queijos, no caso do 4 queijos. Ora, se são 4 queijos, são 4 tipos de queijo misturados e só. Dada a pressa, nem li rótulo. Chegando em casa, aqueci o caldo e me esforcei para enxergar as letras míudas. Ingredientes: farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico, água, farinha de rosca, ricota, fécula de mandioca, preparado alimentício tipo 4 queijos, sal, gordura vegetal, ovo em pó pasteurizado, amido modificado, aguardente de cana, aromatizante, fibra de trigo, corante natural (óleo de soja, cúrcuma e urucum), glicerina, realçador de sabor glutamato monossódico e conservantes sorbato de potássio, propionato de cálcio e ácido ascórbico. Não comi.
Fui ao mercado conferir os ingredientes de outras marcas de capeletti queijo ou 4 queijos e é tudo mais ou menos a mesma coisa. O que vem a ser, afinal, preparado alimentício tipo 4 queijos? A empresa que usa carne de cavalo poderia declarar algo como "preparado alimentício tipo carne de boi" e tudo estaria resolvido. O que a gente não pode é engolir o que a empresa alimentícia quer nos enfiar goela abaixo. Talvez não possamos viver sem ela, mas podemos consumir alimentos industrializados o mínimo necessário. Assim poderíamos ter menos empresas gigantescas como a Nestlé e mais empresas pequenas escrupulosas, que conseguissem vender aos supermercados produtos de qualidade.
Por isto vi com alegria a notícia dada pela Cintia Bertolino no caderno Economia de antes de ontem sobre a abertura de uma Eataly aqui em São Paulo. Fiquei encantada com o mercado/livraria/restaurante/escola que vi em Turim. Foi lá que comprei aquelas peras maravilhosas. É possível encontrar lá vários produtos da arca do gosto do Slow Food e vários outros de produtores locais, além de iogurtes de ótima qualidade feitos por empresas pequenas, massas artesanais, vinhos e tantas outras perdições.
Para saber mais sobre a carne de cavalo e o Eataly em São Paulo, aqui vão os links
http://economia.estadao.com.br/noticias/negocios+geral,fornecedor-do-jbs-nega-culpa-em-escandalo-da-carne,144477,0.htm
