quarta-feira, 23 de abril de 2014

Mandacaru é nosso, ao vosso reino nada

Mandacaru plantado em Piracaia - SP
Mandacaru de Uauá - BA
Com a recente estiagem aqui no sudeste, o melhor que tenho a fazer é começar a plantar espécies do semi árido. No sítio temos um pedaço onde começaram a se concentrar cactos que estão indo todos muito bem. Recentemente me deparei com este fruto da foto, igualzinho ao que fotografei lá em Uauá - BA.  Não cheguei a comê-lo. Deixei para os pássaros.

Já falei do mandacaru neste post:  http://come-se.blogspot.com.br/2011/01/resposta-charada-fruto-do-mandacaru.html. E não vou ficar me repetindo.

Plantação de cacto sem espinhos em Canudos - BA
O que não conhecia naquela época era o cacto sem espinho, uma versão encontrada naturalmente em alguns lugares e que agora a Embrapa selecionou, melhorou e está começando a disseminar pelo sertão. Uma grande vantagem para uma planta de difícil manejo como é a variedade espinhosa. Este sem espinho pode ser cultivado com facilidade, melhorando a qualidade da alimentação dos animais e assim preservando a caatinga e os cactos nativos. Em Uauá e região, já há alguns produtores. Os frutos são comidos mas não representam grande interesse. A parte de interesse é mesmo o cacto inteiro, que vai quase todo para a alimentação animal, mas também é usado localmente em produtos cosméticos.

Agora, quando você vir por aí produtos de beleza e perfumes de marca famosa à base de mandacaru, não se iluda. Desconfie como Riobaldo. A julgar pela quantidade que uma empresa francesa conhecida compra da Coopercuc, em Uauá, que é tão pouca, se de fato a polpa entra na composição dos produtos, para justificar a propaganda do rótulo e da campanha publicitária, ela não será mais que um grão de areia no sertão nordestino. E, dizer que uma porcentagem da venda do produto volta para a comunidade da caatinga como contrapartida pela exploração do nome do bioma e da planta-símbolo, também é balela - doze reais foi, por exemplo, o que a famosa empresa francesa pagou à Coopercuc no ano passado referente a esta tal de porcentagem anual para investir em projetos da comunidade. Doze reais num ano!  Mas, ah, sim, tem o valor da venda dos mandacarus, você poderá argumentar. Pois saiba que esta cooperativa vendeu num ano (e não se tem notícias de que tenham comprado de outros produtores da caatinga) nada mais que um tronco de cacto a preço de mercado. Não sei quando custa  um dedo de cacto, mas não será muito mais que a tal da contrapartida social. Não ia dizer isto, mas já disse e, pronto, falei. É só pra gente ficar atenta quando quer dar a maior força a uma empresa que diz que tal projeto beneficia esta ou aquela instituição, uma comunidade, este ou aquele "pequeno produtor" (aliás, o que tem de gente ou empresa louca para se atracar a um pequeno produtor para poder chamá-lo de seu, já reparou?).  Mais que saber a porcentagem - não quer dizer muita coisa quando sobre a qual podem incidir taxas não entendemos do que se trata -, temos que saber efetivamente quanto de dinheiro isto representa.

O mandacaru de espinhos domina a paisagem em certos trechos da
caatinga


6 comentários:

Claudia disse...

Adoro passar por aqui e sair sempre cheia de ricas informações...nem sempre se tem tempo para deixar comentário, mas a parada aqui é fantástica! parabéns...tenha um bom dia!

Unknown disse...

Acabei de voltar da Bahia com a receita do cortado de palma e umas mudinhas pra plantar... toda gostosa, valente, polivalente e cheia das propriedades nutricionais. Vc bem podia falar dela pro aqui!

Neide Rigo disse...

Unknown (qual o seu nome?),
eu já falei bastante de palma (ou nopal) aqui. É só ver aí na caixinha de busca. Cortado de palma é típico da Chapada Diamantina. Foi lá que comeu?
Um abraço,n

Cristina Pavani disse...

Oi, Neide!
Dos deliciosos frutos de mandacarus (de-vez) que colhi com foice no verão, higienizei e congelei as suculentas cascas.
Agora faço suco verde com elas: varrem os intestinos e possuem sabor super leve.

Um abraço.

Unknown disse...

Oi! Fio na Chapada Diamantina sim! Já vi mta pelo sertão tb, mas o aproveitamento culinário aprendi na Chapada.
Desculpe o furo, sou nova por aqui, nem me ocorreu fuçar o blog antes de perguntar pela palma...
e desculpe o furo 2: eu sou a Taís, não sou a Unknow...
beijo!

Daniel Lopes disse...

Na Zona da Mata de Minas Gerais, estas cactáceas são geralmente vistas em jardins, e raras vezes em ambiente rural (nesses casos, acho que como planta introduzida por gente ou pássaros). Sua floração ocorre aqui principalmente entre janeiro, fevereiro e março, mas nem todas as plantas florescem e frutificam. Seus frutos tem mesmo gosto de comida de passarinho. Talvez as cascas, por sua textura, possam revelar boas surpresas em compotas.