sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Queijo da Canastra na fazenda do Zé Mário e Waldete

Um jantarzinho simples (verdadeiro luxo)

Cozinha da Valdete e do Zé Mário
Banana três-quinas que Mara Salles usou para fazer purê
No dia da mudança da casa do Zé Pão para a do Zé Mário, o Fernando, que trabalha na Cooperativa de Crédito com o Joãozinho, foi nos buscar de carrão. Estávamos com as malas prontas quando o quatro por quatro estacionou. Bem que Fernando nos apressou, com toda a calma do mundo - o tempo estava armando pra chuva. Mas no último instante nos lembramos que não havíamos comprado queijos. Fomos à casinha buscar, embalar, pagar. E trocar promessas de reencontro e notícias, abraços, beijos, lágrimas de despedidas, de modo que a chuva nos pegou no caminho. Assim que o carro embicou no ladeirão que leva à Fazenda do Zé Mário, as rodas começaram a escorregar sem controle. Olhei pro Fernando e ele estava assustado, tentando domar o carro. Mara deu muita risada, depois,  quando se lembrava da minha cara de pavor ao perguntar: você está deslizando, Fernando? Estou! Com a maior prudência do mundo, ele não teimou em continuar e conseguiu parar o carro atravessado na estrada antes que ele se esborrachasse na próxima curva, lá embaixo, segundo minhas próprias e delirantes previsões. Saímos do carro rapidamente, colocamos tocos e pedras embaixo da roda e ficamos no tempo. Felizmente meu celular deu sinal para podermos ligar pedindo ajuda. Por outra estrada chegaram, em outro carro do mesmo tipo, Joãozinho e outro funcionário da Cooperativa com prática neste tipo de situação (Fernando recebeu muitos elogios nossos ao admitir que não tinha experiência nem com o carro  tracionado nem com aquele tipo de terreno de sabão).  Entrem aí, vamos embora!  Não, não, não, obrigada, respondemos. Ficamos paradas na chuva até que o carro chegasse de escorregador até embaixo. Eu teria tido um enfarto se tivesse dentro dele. Preferia ir de bunda no barro, mas não entrava no carro naquela descida. No final, deu tudo certo ou não estaria aqui pra contar a estória. A única sequela foram as botas enlameadas - isto não é um jeito muito elegante de se chegar de visita na casa dos outros. 

Mara e eu
Na claridade que nos restava do dia, depois que o tempo esteou um pouco, aproveitamos para conhecer a fazenda, as plantações de café, milho, arroz, feijão, a horta, o gado, a queijaria, a cozinha, o fogão de lenha, a despensa, o galinheiro, o trator, a máquina de triturar, de beneficiar arroz, o fusca azul tinindo, o forro de tela e o forno de barro. 


Enquanto Valdete queria nos mostrar comidas na cozinha, Zé Mário estava louco para nos apresentar a fazenda de vinte hectares. Um modelo de organização, que só vendo. 

Diferente do Zé Pão e Romilda, cujos filhos crescidos cuidam de suas próprias queijarias, o casal conta com ajuda das crias -  dois jovens, Carlos e Euder, homens feitos e responsáveis - na queijaria que é toda estruturada nos conformes da legislação sanitária, incluindo o cuidado com as vacas que são ordenhadas mecanicamente, a estrutura do curral, a higiene dos utensílios etc.  Esta ajuda dá a eles a possibilidade de deixar de vez em quando o trabalho aos cuidados dos meninos para dar atenção às visitas. E no pouco tempo que estivemos lá nos sentimos paparicadas pelos dois. 


No sábado já era dia de ir embora, por isto nossa sexta-feira foi espichada ao máximo. Ficamos conversando depois do jantar até tarde. Já estávamos indo dormir, lá pelas onze, com a promessa de nos levantar as cinco no sábado, para aproveitar cada minuto com eles,  quando a Dete me aconselhou a colocar a toalha úmida no varal lá fora para que secasse bem até o outro dia. Se eu não fosse tão escandalosa, toda a produção de queijo fresco e os já maturados que estavam na queijaria não teria se salvado.  Meio no escuro, de chinelo, só senti umas picadas do pé e comecei a gritar chacoalhando as pernas, passando a mão, sei lá, sem conseguir falar.  Dete, Zé Mário e Mara correram pra ver o que era e quando acenderam a luz viram o chão preto de formiga-correição. Foi um pega pra capar atrás das danadas. E se atacam os queijos, Zé?, perguntou Dete.   Zé Mário não perdeu tempo. Pegou a lanterna e iluminou a parede de fora da casinha. Preta, pretinha de formiga fazendo o trilha do queijo. Dete correu pra lá e elas já estavam por todo canto. Quase meia noite e Dete, paramentada, como sempre está quando entra naquele ambiente, lá espantando formigas, lavando o chão, limpando os queijos. Zé Mário acendeu um pedaço de algodão para que a fumaça ajudasse a espantar as invasoras. Mara e eu demos assistência do lado de fora, pisoteando multidões. Quando atacam sem que ninguém veja, estas formigas põem toda a produção a perder, pois cavocam o queijo como garimpeiros, deixando crateras. A produção diária não é grande, cerca de 8 queijos normais, com cerca de 1 quilo, e 8 pequenos, tipo merendeiro, com mais ou menos 600 gramas, mas ali havia produção de vários dias que ficam nas prateleiras maturando. O prejuízo teria sido grande porque, felizmente, aquele queijo tem bom preço de mercado  - nada de atravessadores. 

Apesar de tudo, nosso plano para o dia seguinte se manteve e nos levantamos em pleno sábado às cinco para acompanhar a ordenha e o feitio do queijo. O interessante é que neste tipo de atividade não há sábado nem domingo. Vaca não sabe o que é isto, não. E lá pelas seis, os meninos,  que foram pra festa na sexta e dormiram na casa que a família tem na cidade, chegaram para a lida, de cara boa, íntegros, sem olheiras, com sorrisão na cara. 

Taioba do quintal, que fiz refogada
Eles fazem atividade pesada pela manhã, mas à tarde estão livres, sossegados. O casal vai  passear na casa dos amigos, jogar cartas, beber uma pinguinha, prosear, comer e comer,  naquele eterno merendar. Zé Mário se sente muito feliz ao olhar sua fazenda verdinha lá de cima da colina e fica muito bravo se alguém sente dó dele achando que aquilo é trabalhoso demais. Quer vida melhor?, pergunta. Não tem trânsito, não tem bandido, não tem estresse?  De fato, não tem porque querer outra vida.  


O feijão que come é o que cultiva quase na porta da cozinha e depois conserva na argila - passa o feijão na argila diluída, que argila ali também tem, deixa secar e conserva por mais de ano sem carruncho. O arroz, planta, colhe, limpa numa máquina pequena de beneficiamento. As latas são cheias de banha do porco que criam. Usam pra cozinhar e pra conservar as carnes dos próprios animais. E ainda sobra pro sabão. O café também vem da roça - tem só uns 200 pés, para o gasto. Galinhas, ovos, alho, cebola, verduras da horta, mandioca, milho, de tudo tem para o gasto.   Para o bolo tem o fubá de milho, que fazem ali. Para os pãezinhos tem o polvilho que Dete mesmo faz com a mandioca farta. Havia pelos menos uns cinquenta quilos deste polvilho artesanal naquele pote grande que ela me mostrou na despensa. Por isto não fazem nada com farinha de trigo. Disseram até que o trigo não lhes cai bem. Dete perguntou se no jantar de sexta queríamos um suco, que ela poderia fazer, que tinha um pozinho que o genro gostava - achando que gente da cidade gostava deste tipo de suco. Foi motivo para eu fazer suco de limão rosa com capim santo que adoraram e disseram que vão convencer o genro a beber sucos naturais que podem fazer com o que tem plantado na fazenda.  Fora isto, o sal e o açúcar, não compram quase nada, nem sabão. Tudo limpo, sadio, sem agrotóxicos. 


Zé Mário, além fazer o queijo que ganhou o primeiro lugar no último concurso estadual de queijo artesanal mineiro, é inteligente e criativo. Em toda a fazenda há pequenas obras de engenharia inventadas por ele. Até para abrir e fechar o galinheiro, que é afastado de casa, ele criou um jeito que faz as vezes de um verdadeiro portão automático. Sem precisar sair no barro nem no escuro, depois que as galinhas entram, basta soltar a corrente do prego, que o portão se fecha. Para abrir, engancha-se a corrente e o portão permanece durante todo o dia aberto. Tudo isto com um elástico forte, um pedaço de arame e outro de corrente e um prego. Este é só um exemplo.  E ele entende também das coisas da natureza. Quando me explicou o jeito certo de plantar as manivas da mandioca que me presenteou, falou da lua, do respeito que tem por suas fases no que se refere a tudo que planta e colhe: "Planta dois dias antes ou dois dias depois da lua cheia. A lua domina a gente, Neide. Faz parte do corpo". Frases assim ele solta o tempo todo.

Carne de lata na banha (na manteiga, como dizem)


Lobozó

Angu, taioba, feijão, banana assada

Zé Mário e Waldete lendo o livro da Mara 
Dete também respeita a lua e me deu uma receita de sabão de limão, ressaltando que devo fazer na lua minguante, senão restam grumos, desanda. Zé me ensinou ainda a fazer sabão de coada, também na minguante. Dete também quer mostrar como se faz lobozó (um viradinho com jiló, abobrinha, queijo, ovos e farinha, delicioso), me dá receita de ameixa de queijo, do bolo de fubá e assim passamos deliciosas horas, sem querer ir embora. Ô tristeza danada na hora de dar tchau.  

Zé Mário e Dete aparecem no filme "O Mineiro e o Queijo".  Querendo visitar a fazenda deles e comprar queijos, é fácil achar, é só perguntar na cidade de São Roque de Minas, que todos conhecem.  Para saber mais sobre esta viagem, veja posts anteriores, como o de ontem

Veja mais fotos no album: 




quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Na casa do Zé Pão e da Romilda

O nome dele é Zé Pão porque era gordinho quando criança. Mas hoje quem faz pão é Romilda. De queijo canastra quilômetro abaixo de zero, afinal sai da casinha pra cozinha a passos de ré. Quem se dá bem é João Vitor, o temporão boa praça que não aprecia muito cuidar de vaca, não. Mas gosta de tecnologia, usar roupas bonitas,  fotografar e ouvir música no celular. E, é lógico,  de sonhar desejos como qualquer criança de onze anos.  Já o neto Pedrinho, de quatro, anda sempre descalço, monta cavalo sozinho, gosta de empinar sua égua chamada Princesa, abraça os cachorros no chão e conhece todas as vacas pelo nome. E que ninguém mexa com ele, que ele capa. - Eu capo ocê! Capo memo, com aquele serrote ali ó!,  mostra a parede com o queixo e movimento de olhinhos arteiros ao mesmo tempo que faz gesto de capar com as mãos, como quem segura um salame com uma e com a outra passa a faca afiada para tirar uma fatia. 

Enquanto as crianças se divertem, Zé Pão e Romilda estão na lida desde às cinco da matina. Ou até antes. Quando Mara e eu encontramos Zé Mário na cooperativa de crédito, conforme contei ontem, ele disse que não botava muita fé que conseguiríamos resistir muito tempo nas duas casas, não - na casa do Zé Pão e na dele. Que era tudo muito simples, que a gente da cidade devia de estar acostumada a uma vida mais de conforto etc. Previu que a gente ia chegar, dar bom dia ou boa tarde e logo cascar fora, boa noite. Tanto é que no dia seguinte lá estava ele, com seu fusquinha azul impecável,  na casa da sobrinha Romilda, que é filha da irmã da sua mulher Valdete, para conferir se ainda estávamos lá e se iríamos mesmo pra casa dele no outro dia. Mal sabia Zé Mario que aquilo era tudo o que queríamos, que trocaríamos qualquer hospedagem em hotel cinco estrelas por aqueles dias de acolhimento sincero, de educação, gentilezas, fartura de comida boa, de dignidade, de paz, de silêncio, sem internet, sem jornal e TV que não faz papel de membro da família.  No fim da tarde, até a noite, só conversa, comida e um golinho de cachaça, que ninguém é de ferro. 

Mara e eu acordamos bem cedo nos dois dias em que ficamos ali e acompanhamos a ordenha e todo o trabalho com os queijos. O casal trabalha numa harmonia incrível, sem estresse, sem ranhetices, sem estupidez nem alterações.  A única alteração é no volume da voz na hora de Romilda chamar as vacas: Saracura, Saracura, Saracura! Numa multidão de vacas que esperam o encontro com seus bezerros,  que em outro grupinho esperam ansiosos, cada uma sabe seu nome. Saracura pede licença e vem vindo devagar. O bezerro, ao ouvir o nome da mãe, também se põe de alerta. Se está deitado, já se levanta e vem salivando de vontade de mamar. Só pra tirar a fissura, o bebezão mama um pouco enquanto a vaca come um tantinho no cocho. Logo os dois são apartados para que Zé Pão faça a ordenha manual. Romilda é quem amarra as pernas da vaca, quem vai organizando a fila - não descobri o critério para se chamar a Saracura, a Malhada, da Sete Copas, a Negona, a Librina, a Mateira, a Gaúcha etc. São quase cinquenta. Zé Pão não esgota as tetas; deixa um pouco pro bezerro que vai andando com a cabeça embaixo da barriga da mãe. Assim os dois saem de cena e terão até depois do almoço para ficarem juntos. Zé Pão não reclama do trabalho de apartar bezerros nem o de ordenhar, que parece cansativo demais. Diz que não vai trocar a técnica manual por ordenha mecânica, e que se for obrigado a trocar prefere parar de produzir queijos. 

Lá pela metade do tempo, Romilda aparece com a merenda: pães de queijo e uma caneca de alumínio com café doce. O leite vai sair quente e com pressão direto da teta da vaca. Era assim nossa merenda. Delícia. 

Os pães de queijo, Romilda fez no dia em que chegamos, para comer com café - um eterno merendar por aquelas bandas. A receita é a mesma daqueles que aparecem no final do filme  O Mineiro e o Queijo e faz todo mundo suspirar.  Usa pouco queijo e ainda assim os pães são deliciosos, crescidos, trincando.  Praticamente não usam farinha de trigo por lá. Tudo o que se come à guisa de pão é feito com derivados de mandioca e milho: biscoitos, bolachas, roscas, broas, pães de queijo. Os ovos são das galinhas do quintal, assim como a gordura vem dos porcos que comem tudo o que sobra, incluindo muito soro de queijo. Soro que alimenta também os cachorros,  que também comem os ossos das galinhas que botaram os ovos.  Quase nada é comprado fora a não ser sal e açúcar.  Lixo espalhado não há. 


Ao fim da ordenha, o leite tirado segue pra casinha, é coado em pano, coloca-se o coalho e o pingo, espera-se mais ou menos uma hora e corta-se o soro para começar a moldar os queijos. Espreme, molda, passa sal, vira, recolhe o soro.  São poucos por dia, uns 16, que são vendidos para o queijeiro que passa ali da caminhão (melhor não dizer por quanto vendem).  Mas isto ocupa o dia todo. 

Está certo que Mara e eu ajudamos na cozinha, inventamos coisas, fizemos o trivial, mas gostoso mesmo era comer a comida da Romilda, com aquele cardápio todo colorido, feito com simplicidade, com o sabor de temperos comuns como o alho que ficava pendurado sobre o fogão e o cheiro-verde da horta. Mas aquele frango, aquela carne de lata na gordura de porco (carne na manteiga, como dizem por lá), aquele milho verde, o chuchu, a abobrinha, nem precisavam de tempero. Tudo tão fresco. 

No último segundo dia fomos pra cachoeira do Nego, um encanto protegido no meio do paredão da Serra da Canastra. Romilda não se lembrava da última vez que tinha tirado uma tarde assim, pra se divertir, embora nunca reclamasse do trabalho que ocupa o casal de domingo a domingo. Só a vi reclamando uma vez e não foi do trabalho, mas da falta de serviços de saúde na cidade, do aproveitamento financeiro dos médicos em cima do sofrimento alheio, do abandono do SUS etc. Fora isto, ela é feliz vivendo naquele sossego incrementado com o barulhinho da torneira que nunca se fecha bem na porta da cozinha. É muita água e quem não gosta dela quando só faz verdejar o pasto?  Saímos de lá e começou a chover muito.  Pelo telefone, quando voltei pra São Paulo, fiquei sabendo que o excesso de água quase levou a pontinha sobre um belo rio que passa pela fazenda. Não levou esta, mas outras três ao redor. E hoje, me contou Romilda, um carro estava lá encravado em frente à sua porta da sala. Atolou. 



Mara Salles não se aquietou enquanto esteve lá. Usou macaúba no arroz e fez testes com o soro do leite: para cozinhar ovos pochê, talhado com limão, fermentado sobre o fogão, no suco do maracujá.  Eu inventei de colocar cúrcuma, que ninguém usa,  na galinhada que a Mara improvisou com as sobras do frango e fiz sucos de manga verde, pura e com hortelã, que adoraram. 

Trouxemos queijos pra maturar e depois vou testar na receita do pãozinho que Romilda nos ensinou. Na hora de vir embora, muita choradeira e a promessa de voltar. Que cascar fora o quê!  Queremos mais é cascar dentro. 


João Vitor na hora da merenda no curral

Leite da teta da vaca para a merenda

Mara Salles chega com sua canequinha com café

Ô trem bom, sô!

O Perigoso, dia e noite de guarda nesta escada

Os queijos recém-moldados

Zé Mário veio conferir: ô Romilda, elas ainda não cascaram fora? 


Zé pão tira leite de quase 50 vacas, todo santo dia
Se for a São Roque de Minas, e eu recomendo, vá conhecer o casal Zé Pão e Romilda - na cidade qualquer um saberá informar. Mas é bom agendar antes: 37 9985-5295. E aproveite para comprar vários queijos que poderá deixar em casa maturando,  mas diga que quer pagar preço de turista, preço justo, por favor! 


Veja mais fotos:


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Chegando a São Roque de Minas, na Serra da Canastra

Seu Toninho, taxista de Piumhi: Tel. 37 9988 9906
Para quem chega agora, estou aqui contando uma novelinha, que começou em Belo Horizonte, dois posts atrás. E se quer saber o que fomos fazer lá, foi assim: Mara Salles, chef do Tordesilhas, aqui em São Paulo, quis ir conhecer a região porque vai fazer um evento em seu restaurante sobre queijo Canastra (falo mais deles nos próximos posts) e seria importante visitar produtores, conhecer a fabricação do queijo e as ambiências. Vamos?, perguntou. Tô indo, respondi.  


Nosso amigo Rusty Marcellini participou da produção do O Mineiro e o Queijo como pesquisador (veja no blog dele as lindas fotos derivadas deste trabalho)  e fez a ponte  com alguns produtores do queijo da Canastra que aparecem no filme. E lá fomos nós na cara de pau: oi, podemos dormir na sua casa? 


Chegamos em Piumhi de ônibus e não achamos a viagem de 4 horas cansativa. Isto porque fomos, Mara Salles e eu, conversando quase o tempo todo, apreciando a paisagem ou aproveitando uma dormidinha. Teria sido mais prático ir direto de São Paulo para Piumhi, mas queríamos passar em Belo Horizonte. A simpatia mineira já começou com o taxista, Seu Toninho. Porém, de início achamos um pouco caro a corrida para São Roque de Minas a 90 reais. É o preço, mas quem sabe poderíamos ir mesmo de ônibus que sairia em pouco tempo, afinal são apenas 60 quilômetros, e com o economizado poderíamos comprar mais um ou dois queijinhos. E não é que seu Toninho teve uma boa ideia quando uma outra turista o consultou e também achou caro? Veio atrás da gente pra ver o que achávamos de rachar a conta com a moça. É claro que topamos, trinta reais por cabeça, todos ganhamos e ele não perdeu a viagem de preço justo. Antes, quis saber se tudo bem passar na casa dele pra pegar a marmita. Cidade pequena, era caminho, claro que não.  Encostou o carro, a mulher trouxe a marmita quente e cheirosa - carne de porco, couve, abobrinha, chuchu, tentei advinhar. E com este gancho fomos conversando de comida e coisas da terra até lá. Cruzamos a ponte sobre o rio São Francisco, que corria ali ainda jovem - nasce do Parque da Canastra -, mas já encorpado, barrento das chuvas e apressado. O milharal estava verdinho e molhado, contrastando com a Serra da Canastra verde forte e céu azul e algodoado. Por nós passaram também corridos pés de pequi carregados na beira da estrada e isto foi motivo para Seu Toninho dar a receita do seu doce. Já comeram doce de pequi? Eu não e você, Mara? Também não.  Como é? Uai, é só colocar na panela 3 lide leite, 20 miolos de pequi e de 3 a 4 copos de açúcar e levar pro fogo. Cozinha em fogo baixiquinho com pires dentro da panela, que é pra não entornar o leite. Vai apurando, apurando, até o pequi começar a se desmanchar. Raspa bem a polpa pra dendo leite, joga o caroço fora e deixa o dosdi leite cozinhando mais um tantico até virar puxa. Aí é só bater um pouco e despejar num tabuleiro polvilhado de fubá. Quando secar, corta em quadradinhos e come com queijo. É bom demais sô. 

Em São Roque, paramos primeiro na Cooperativa de Crédito Saromcredi, que funciona como um banco, para falar com seu presidente, João Carlos Leite, que não estava mas indicou seu gerente de comunicação corporativa, Fernando Silva, para nos acompanhar no almoço. Seu Toninho estava inseguro. Não querem mesmo que eu espere? Vão ficar aqui mesmo de mala e cuia? Onde vão dormir? 

João Leite ou Joãozinho é também um produtor e aparece no filme O Mineiro e o Queijo.  O prédio da Saromcredi se destaca na cidade pela arquitetura moderna, de fino acabamento e pela grandeza com seus mais de mil metros quadrados. Mas se destaca muito mais pela importância social que tem para a cidade. Até uma escola a cooperativa criou. Logo João chegou e ninguém diz que ele é presidente de um banco. E a cooperativa funciona sim como um banco, com a vantagem que os cooperados são donos. É um empreendimento exemplar para uma cidade em que banco algum teve interesse em montar uma base, nem o banco do Brasil.  Graças à cooperativa, a cidade prosperou (estive lá há cerca de 15 anos e era tudo muito diferente), os cooperados entram e saem da agência sem detector de metal, o presidente fica numa salinha no andar térreo protegido apenas por biombos abertos, com livre acesso a qualquer associado e tudo o que o prefeito não faz na cidade é ao Joãozinho que vão reclamar. E, embora ele seja de família de fazendeiros ricos, é um homem simples, carismático e trabalhador, e  todos sabem que realmente podem recorrer a ele, que serão ouvidos, venham de gravata ou de chapéu. 

Valdete, Zé Mário e Joãozinho
E foi de chapéu que, enquanto conversávamos, por coincidência chegou Zé Mário com a mulher Valdete, que também aparecem no filme do queijo. Foi nosso primeiro contato. Três dias depois estaríamos em volta do seu fogão de lenha, comendo do seu queijo. Mas conto na ordem, por enquanto, falo do João. Sabe como ele teve ideia de fundar esta cooperativa? Veja aqui.  E para saber mais sobre o empreendedor social João Carlos leite que, segundo ele, prefere administrar dinheiro a dívidas e por isto jamais pensou em ser político, clique aqui

Agora, quer o melhor? João Leite, que além de presidente de banco é agrônomo de formação, também faz queijo da Canastra, com leite cru. Ele nos levou à sua fazenda, bem perto da cidade,  onde cultiva café e milho e tem a queijaria - um pequeno mimo. No pasto, separado por piquetes, as vacas vão comendo alternadamente só as pontas do mato verdinho. E mudam de lugar a cada dia para dar tempo ao pasto comido de um dia se recuperar. Não sei se é por isto, mas o sabor do queijo do João é bem diferente dos demais - parece mais cremoso. Leite mais gordo talvez.  A ordenha é mecânica e as vacas são poucas, mas o queijo é de muita qualidade. Todos os dias é feito apenas um Canastra Real, um queijo que, depois de maturado, fica com 6, 7 quilos, com casca amarela abaulada, massa lisa, cremosa e bolhas brilhantes por dentro. 

Para comprar os queijos do João, é só chegar na cidade e perguntar onde fica a fazenda do Joãozinho. Vale o passeio. Se quiser ir de taxi, é só chamar o Baltazar, lá mesmo de São Roque, vizinho por acaso do João (Tel. 37 9964 1360). Próxima parada: Fazenda do Zé Pão e Romilda.

Abaixo, fotos da fazenda e queijaria do João. 








João e Mara Salles

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Bar do Zezé em Belo Horizonte

Mara, Rusty, Lorena, Vanessa, Zezé, Luiz e eu
Chegamos em Belo Horizonte na terça-feira e mal deixamos as malas no apartamento dos amigos da Mara Salles,  e agora meus também, Luiz e Vanessa, ligamos para o amigo Rusty Marcelinni, do blog e do programa Trilhas do Sabor, da Rede Minas (quem não conhece, veja lá cada programa interessante) e, por indicação dele rumamos todos, com a Lorena, sua mulher,  para o Bar do Zezé. O trem lá tava moendo, tanta gente alegre, comendo, bebendo. Gente de todo tipo, com carrinho e com carrão, afinal o local, que já foi uma mercearia e ainda conserva uns litros de kiboa e uns rolos de papel higiênico nas prateleiras, é um tipo de Mocotó mineiro, longe do circuito de bares, com cozinha familiar,  pratos suculentos feitos com a ajuda da mulher e preços que não afastam  gente mais simples nem gente complicada, afinal o que todo mundo quer é comida com cara de comida, bom atendimento e cerveja bem gelada. Isto tudo lá tem de sobra. Falar em mulher, em Belo Horizonte parece que quem trabalha em cozinha de restaurantes é mulher. E da cozinha da bar do Zezé sai muito jiló (tema do última edição do Comida di Buteco do qual foi ganhador), carne de panela, angu, folhas de mostarda, feijão, torresmo e bolinhos (o de milho fresco com bacalhau é um espetáculo). Zezé se sentou conosco e a prosa se esticou até as mesas começarem a se esvaziar de mansinho.   Luiz e Vanessa e Rusty e Lorena não poderiam ter nos dado melhor recepção e ainda nos acompanharam na visita ao mercado no final da viagem. Saímos de lá satisfeitos e felizes. No outro dia muito cedo partimos de ônibus para São Roque de Minas. E amanhã continuo a saga que, assim, contanto aos poucos, consigo dar uma alertadinha na memória.


Para conhecer melhor o Zezé, veja entrevista dele no you tube. E, se você mora em BH e não conhece ou se vai para lá a passeio ou a trabalho, não deixe de conhecer o boteco. Vale a pena! 








Zezé pura simpatia, entre os fregueses fieis
Bar do Zezé
Rua Pinheiro Chagas, 406, bairro  Barreiro de Baixo
Telefone: 31 3384-2444

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Mala prenhe de Minas Gerais

Como adiantei no post anterior, fui para Minas Gerais, especificamente para Serra da Canastra, passando por Belo Horizonte. E como não podia deixar de ser, no razoável do esperado, voltei com a mala abarrotada e o corpo, digamos, cheinho. 


Mara Salles e eu nos hospedamos em três casas diferentes. Do amigo Luiz, em Belo Horizonte, na ida e na volta e, em São Roque de Minas, na casa de duas famílias de produtores de queijo que aparecem no filme O Mineiro e o Queijo, de Helvécio Ratton: a do Zé Pão e Romilda e do Zé Mário e Dete. Quem pensa que tomamos muita chuva,  engana-se. Quase nenhum pingo, só alguns escorregões no barro liso. A chuva veio chegando no nosso rastro ou no nosso anúncio, mas quase nunca não na nossa presença - sorte, sei lá. Enquanto isso, só uma pinguinha aqui, outra ali, uma caneca de alumínio areada com leite espumoso e quente direto da teta da vaca sobre café docinho acolá, muita comida boa feita na banha, prosa esparolada com repertório apreciável e pão de queijo da melhor qualidade. Mas prometo contar tudo com calma. Chegamos ontem à noite e hoje pela manhã tive um curso, de modo que não pude ainda organizar as fotos. E os relatos vão ficar muito mais interessantes acompanhados das imagens, que, a despeito da falta de técnica de quem vos fala, são fantásticas pela própria natureza. 


Na mala prenhe, muita história. De compra na Canastra, só os queijos de três diferentes produtores, um melhor que o outro. O resto é presente pra plantar em Piracaia: da Romilda e do Zé Pão, os alhos que repousam amarrados em buquê sobre a fumaça do fogão de lenha, bons pra replantar e também pra comer - algo defumados, o broto de bambu verde-e-amarelo, as sementes de cabaça e os coquinhos macaúba; da Dete e do Zé Mário, as manivas de uma mandioca branca e cremosa, muda de banana três-quinas, feijão rajado protegido com argila e rizomas de cúrcuma. Fora isso, algumas compras no Mercado de Belo Horizonte: ninhos de passarinho, requeijão de raspa, doce de mocotó, frutos de pequi e pimentas. Mas, vamos lá, tudo ao seu tempo, amanhã começo a contar.  

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Minas, Piracaia, volto já!



Gosto de passar o ano como um dia após o outro sem nenhum estrondo e nenhuma promessa ou desejo mirabolante e impraticável. Só peço um mundo melhor, saúde para continuar fazendo o que quero e que eu siga fazendo o que quero ao lado de quem gosto de estar para continuar tendo saúde. Uma tacinha para beber estrelas, tim tim e vamos em frente. Mas uma coisa desejei ao voltar do Senegal. Que neste ano eu pare mais em casa, fique mais tempo com meu amor, minha filha e meus amigos e que possa dedicar mais atenção ao nosso projeto em Piracaia. A não ser que a viagem seja irresistível, como sempre é. Neste caso, quando voltar, é só reforçar os laços do desejo. 

Nestes poucos dias entre natal e ano novo fomos duas vezes a Piracaia para acompanhar as obras para a casa do caseiro e bastou um pouco de chuva para avivar a cor do que antes era terra pelada. A primeira coisa que fiz depois de pegar as chaves da chácara, no começo de outubro, foi espalhar ao redor da casa algumas sementes sem me importar em preparar a terra que estava careca ao redor da casa e tomada por braquiárias no restante do terreno. A terra sem vegetação era batida e inóspita, parecia pobre. O que fiz foi plantar uns grãos de feijão guandu, enterrar uns rizomas de cúrcuma, taioba e espalhar sementes de milho, feijão, abóboras, tomates, tagetes, tudo o que encontrei aqui, sem ao menos afofar a terra. Faço isto depois, pensei.  Comprei também um tanto de girassol na casa de comida para pássaros no mercado da lapa e espalhei na lateral da casa - feia, velha, não vale a pena mostrar por enquanto. O que vingar é lucro, pensei. Marcos achou besteira começar assim, mas acho que plantar flores ou qualquer outra coisa logo de início é como começar a arrumação de uma casa estirando a roupa de cama ou a toalha da mesa. Tudo aos poucos começa a parecer mais organizado e agradável, dando ânimo e alegria para o trabalho que vem pela frente. Em pouco mais de dois meses já colhi abóbora madura daquela que plantei e os girasois já giram pra lá e pra cá, emoldurando o cenário de água e colinas. Já posso fazer um pesto com a enorme quantidade de manjericão, os tomatinhos já amadurecem e até a azedinha faz companhia para cogumelos. A caminhada até a represa não é longa e aproveitamos o dia morno de quinta para apreciar a prainha deserta de águas límpidas onde os meninos João e Chico nadaram sob olhar atento dos amigos Veronika e Ricardo que nos deram a alegria da companhia num dos últimos dias do ano, antes que partam para Barcelona (o segundo casal de amigos próximos em menos de um ano!).  

Bem, deixo aqui alguma fotos de Piracaia. Mara Salles e eu vamos a Minas Gerais conhecer alguns produtores de queijo que aparecem no filme O Mineiro e o Queijo. Esta será uma viagem irresistível uai! Voltamos no dia 09. Até lá e um ótimo ano para você! 

Algumas fotos de Piracaia: 



quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Presentes gourmets

Eles chegaram dispersamente, presentes de comer, de plantar para comer, de cozinhar pra comer, de temperar pra comer, de abrir e abocanhar. De amigos queridos e até de quem nunca vi pessoalmente, como o excelente livro do Francis Mallmann com dedicatória e tudo, Setes Fogos, à venda na Livraria Cultura. Está aqui ao meu lado desde que chegou. Cada dia dou uma bocada, sonhando com as delícias. 


Azeite de argan, ganhei dois, um da amiga Mônica Manir e outro do Pedro Henrique, que sempre me trazem mimos de suas viagens. O sabor amendoado deste azeite é incrivelmente bom. 


Panforte também ganhei dois, um da Tanya Volpe e outro da Neka, que me mandou também granola. Ainda bem que ninguém vai me perguntar qual panforte é o melhor. Vai dar empate. 


A Janaína, do Aliás, me mandou feijões (alubias maragato) que trouxe da Espanha. Um tanto já cozinhei e o que sobrou, advinhe se não vou plantar em Piracaia. É para lá que vão também os mangaritos que Mara Salles acabou de me trazer, todos já em brotos. A colheita no próximo ano será boa. 


Talvez volte amanhã. Se não, meu muito obrigada aos mais de três mil leitores que passam por aqui todos os dias e àqueles mais assíduos que fazem comigo este blog através dos comentários, críticas e sugestões. A todos,  meu desejo de um mundo melhor e um ano novo de saúde e alegrias!