terça-feira, 20 de setembro de 2011

Bolinho de cará-moela ou cará-do-ar

Sou apaixonada por cará-moela. Não especialmente pelo sabor quase a alcachofra ou pela textura de batatas,  mas pela rusticidade e durabilidade. Já tem mais de um mês que um tanto deles foram colhidos do quintal e ficaram numa cesta. Alguns, dei de semente, outros comi na sopa. Guardei alguns para replantar e eles já começam a lançar brotos.  Se quiser saber mais sobre esta espécie, é só procurar aí do lado, na caixa de buscas. Já falei bastante no Come-se sobre eles.

Diferente das batatas que apodrecem logo, que lançam brotos e verdejam as cascas tornando-as impróprias para o consumo por causa da solanina,  os carás moelas dificilmente apodrecem ou germinam antes da hora (na primavera, aí sim!). Ficam imutáveis como pedras durante meses. E são rústicos também no cultivo. É só jogar um na terra e ele se arranja, logo lançando descendentes.

Bolinho de cará-moela: como tinha alguns carás sobrando, resolvi fazer bolinhos inspirados naquelas coxinhas de batata de Limeira, aproveitando que sobrou também um pouco de pernil assado de ontem. Foi só cozinhar os carás - do branco e do roxo,  em água com um pouco de sal até que ficassem molinhos. Escorri, espremi ainda bem quente e pesei (deu 130 g). Juntei então 1 colher (sopa) de farinha de mandioca bem fininha e gomada, baiana. O fato de o cará estar bem quente é fundamental para que cozinhe um pouco a farinha e ajude a dar liga - por isto cozinhei sem as peles. Temperei com sal e amassei bem. Se a sua massa ficar um pouco seca, é só juntar um pouco de leite. A minha não precisou. Dividi em bolas de 35 gramas e recheei com o pernil assado bem picado e temperado com mais salsinha picada.  Abri cada bolinha com os dedos, como se faz para rechear coxinha ou quibe, coloquei o recheio, selei bem e ajeitei com as mãos para que os bolinhos mantivessem o formato esférico.  Fritei em bastante óleo bem quente e ...

Nhac!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Pão de abóbora com nozes


Ontem foi dia de piquenique e achei por bem usar a moranga cabochá que tinha aqui. Se recheio de abóbora com nozes fica bom em massas, um pão com as duas coisas não deveria ficar ruim. Foi o que fiz pra levar e como acho que ficou bom - pelo menos não considero meus amigos mentirosos, deixo aqui a receita antes que ela fuja para o arquivo morto.  Do piquenique, falo depois. 

Os pães crus

Pão de moranga cabochá e nozes 

1 envelope de fermento biológico seco (10 g)
1 1/2 xícara de água morna 
1 colher (sopa) de sal 
3 colheres (sopa) de açúcar 
500 g de abóbora japonesa (moranga, cabochá) cozida, fria, sem a casca - cerca de 2 1/2 xícara da polpa amassada 
1 ovo 
Farinha de trigo - cerca de 1 quilo 
100 g de manteiga em ponto de pomada
200 g de nozes picadas

Numa tigela, misture o fermento com um pouco da água. Deixe dissolver até formar um creme. Junte o restante da água, o açúcar e o sal e misture bem. Adicione a abóbora em purê e o ovo e misture bem. Se quiser, passe esta mistura pelo liquidificador para ficar bem lisa. Vá juntando farinha de trigo aos poucos. Quando ficar difícil de mexer, junte a manteiga e as nozes - reserve metade da quantidade para polvilhar sobre o pão. Passe a massa para uma superfície de trabalho enfarinhada e comece a trabalhar com as mãos, juntando farinha à medida que amassa, até formar uma massa homogênea, lisa, modelável, que se solte das mãos. A massa deve ser colocada novamente na tigela, coberta com plástico ou um pano. Espere crescer até dobrar de volume (caso não tenha experiência com pães, faça uma bolinha com a massa e deixe num copo com água em temperatura ambiente – quando ela subir à superfície, a massa certamente estará no ponto). Divida a massa em três ou quatro e molde os pães compridos ou redondos.  Umedeça os pães com água e role-os sobre as nozes picadas reservadas.  Coloque-os numa assadeira grande, untada e polvilhada, deixando espaço entre eles. Deixe crescer novamente por cerca de meia hora ou até os pães dobrarem de volume. Faça cortes com lâmina afiada, leve ao forno preaquecido bem quente (280 ºC) e deixe assar por 10 minutos. Abaixe o fogo para 230 ºC e deixe assar por cerca de 50 minutos. Os pães devem ficar bem dourados. Se preferir, polvilhe os pães com farinha e use apenas 100 g de nozes na massa. 
Rende: 3 a 4 pães 



No piquenique, com carne louca da Chus. Nhac! 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Come-se em Ribeirão. Zio Totó!

Não posso nem dizer que conheço Jaboticabal, onde estive antes de ontem para dar uma palestra no Senac. É que desta vez tive que optar entre conhecer uma nova cidade ou rever velhos amigos. A decisão foi óbvia. Rosa e João moram em Ribeirão Preto, que fica do lado, e eu estava morrendo de saudade. Podemos ficar anos sem nos ver, o que não é bom quando se trata de amigos tão queridos,  mas é como se estivéssemos sempre por perto. Somos amigos desde a faculdade, quando morávamos no Crusp (o conjunto residencial da USP) nos anos 80.  Os dois casais já tinham filhos. Marcos e eu, Ananda;  Flora e João, a Flora (depois vieram Estela e Gabriel). Já naquela época, os dois largaram tudo por aqui e foram viver em Ribeirão Preto, onde Rosa tinha família que tocava uma trattoria (a Zio Totó), aberta pelo pai siciliano autêntico, Dom Calógero Provinzano. 


Os dois abriram a própria pizzaria Zio Totó e trabalharam muito para torná-la o sucesso que é hoje. A trattoria continuou nas mãos da família, comandada hoje pela Rosana, outra filha do Dom Calógero. O filho, Rômulo, também abriu sua pizzaria por perto. De modo que Zio Totó (o nome é uma homenagem carinhosa ao tio italiano) está presente em três endereços em Ribeirão, como exemplo de dedicação familiar.


Eu posso ficar anos sem ir pra lá, mas sei sempre o que vou encontrar e tenho saudade daquelas pizzas de massa fina e crocante, bem ao modo do povo do norte italiano, contradizendo propositalmente a origem siciliana de Dom Calógero, que já morreu (a pizza de massa grossa é mais comum no Sul).  João faz pessoalmente as compras de ingredientes frescos todas as madrugadas. Assim, pizzas de brócolis, abobrinhas e escarolas não escondem o frescor quando combinadas com queijos de ótima qualidade que eles fazem questão de usar (nada daquelas mussarelas feitas de batata). 


Os dois amigos foram comigo para Jaboticabal e na volta, já tarde da noite, passamos na pizzaria - o momento mais aguardado.  Para os de casa, além da pizza, um pouco de comida de brigada.  Naquela noite, por sorte, teve  jiló refogado com bastante salsinha. Divino. E salada farta. Nada que desviasse o desejo da pizza que chegou dourada, perfumada e muito quente sob a tampa que brilha prata. As minhas preferidas: de brócolis, de abobrinha grelhada (receita da Rosa, impecável) e de alho poró. Se ficasse mais uma noite, também teria a de escarola. Como diz o Marcos, eu gosto de pizza de mato.  João abriu um vinho e terminamos a noite assim. 


Quando estiver em Ribeirão, dê uma passada na pizzaria da Rosa e do João, que fica na Rua Marechal Deodoro, 16. A pizza é muito boa, o lugar é lindo, com jardim iluminado e mesas ao ar livre, com preços bem camaradas quando comparados com São Paulo e ótima acessibilidade para cadeirantes.  Os dois estão toda a noite por ali, quase sempre no caixa ou no salão. E se faltar garçom, João não se faz de rogado - veste o avental e vai te servir.  


Veja também os endereços dos irmãos Rosana e Rômulo: www.ziototo.com.br 

Jiló, só para os da casa. Sorry!


A de brócolis. Nhac!

Fiquei impressionada com o brilho do alumínio areado, como prata.

Desta vez,  Jaboticabas só estas da casa dos amigos. Mas, Jaboticabal, um
dia eu volto com tempo pra te conhecer melhor! 





E R 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Cuscuz de milho com carne moída. Baixaria, mixaria ou quinta sem trigo 34

Esta é minha versão atual : Mixaria (cuscuz de fubá, bem soltinho, com
carne moída refogada, servido com vinagrete)

Desculpe pelo adiantado da hora, mas acabo de voltar justamente de uma viagem para Jaboticabal, onde estive para dar uma palestra sobre "Cozinha local e sem gluten", no Senac (Veja a programação das outras unidades aqui). Falei das possibilidades de pratos sem glúten, para quem tem doença celíaca, usando pratos regionais e ingredientes comuns, que costumávamos usar como fonte de carboidratos antes do uso difundido do trigo. E me lembrei do cuscuz com carne moída que comi Rio Branco - AC, que responde pelo nome nada elegante de "baixaria". 


Entre as delícias do café da manhã acreano que inclui tapioca e vários tipos de mingaus, o prato de cuscuz é o mais emblemático no Mercado do Bosque, em Rio Branco.  Eu comi no Mercado Novo (que já está velho enquanto o Mercado Velho é novo, pois foi totalmente reformado) e,  tão substancioso que é, serviu de almoço.  Hoje pode ser encontrado em todos os mercados. 

O que era antes um prato para trabalhadores e aqueles que faziam a feira logo pela manhã, no lugar do pão, passou a ser comida de resistência especialmente de madrugada para os notívagos e desgastados pela folia, antes de irem para casa dormir o sono do justos e baladeiros. Ou, seja, pode ser a primeira ou última refeição do dia, um prato completo para toda hora.  

Desde que voltei de Acrelândia, quando estou sem tempo de cozinhar, em vez de fazer um macarrão ao sugo, que também é rápido e gostoso e é como se fosse meu miojo, dispenso o trigo e mando uma baixaria no almoço ou jantar.  Basta fazer um cuscuz de milho e servir com carne moída refogada, ovo frito e cebolinha. Por aqui já virou outra história, que eu passei a chamar de "mixaria", pois, como não sou pessoa exaurida pela folia, acho demais duas proteínas no mesmo prato e substituo o ovo por um vinagrete mais caprichado com cebola, cheiro verde e tomate. Às vezes couve refogada. 

Comecei fazendo o cuscuz com flocos de milho como fazem por lá. Mas agora prefiro o cuscuz de fubá que fica como o marroquino, bem soltinho. Veja como fazer aqui. E comecei a mudar também o jeito de servir. Para que não digam que mexi demais na tal da baixaria, que eu respeito, adoro e quero que continue como sempre foi, para eu comer de novo quando for a Rio Branco, insisto que esta "mixaria" é por minha conta. Se quiser, invente a sua, mas vá por este caminho - cuscuz e carne moída molhadinha, que dá muito certo. 



Este é imitação do original, que fiz em Acrelândia, logo depois de ter
provado o prato em Rio Branco



Este é o que comi no Mercado Novo (o velho)



Um dos inúmeros que já fiz por aqui - com flocos de milho, já sem ovo

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Brotos na garrafa de coca-cola

Para um trabalho de pesquisa comprei uma garrafa de coca cola light plus (super, mega, hiper... que mais?) e, antes de aproveitar seu conteúdo para limpar o ralo da pia, enchi um copo para mim e outro para minha amiga Silvinha que, como eu, não costuma tomar refrigerantes. Eu até que acho coca-cola normal gostosa, mas não tomo. Achamos este light plus muito doce e enjoativa, me atrapalhou o jantar e fiquei sentindo um retrogosto persistente.

Se tem uma coisa que faço muito bem é dormir. Não consigo ler uma página de livro, pego rápido no sono e não acordo por nada deste mundo antes do meu horário natural, que é por volta das 7 horas (às seis me levanto porque o Marcos me chama e eu gosto de tomar café com ele). Mas naquela noite fiquei rolando na cama, com o coração palpitante. Depois de um tempão rolando na cama, consegui dormir um pouco e acordei depois de meia hora. Dormi mais uma meia hora e acordei de novo. O sono não vinha. E assim foi a noite inteira, mais acordada que dormindo.

Pela manhã, perguntei à minha amiga Silvinha se tinha dormido bem e fiquei sabendo que não, que tinha sido como eu. Como nunca tomamos coca-cola, a relação foi imediata. A propaganda do produto, que vi no cinema antes do filme,  mostra uma mulher ativa, que trabalha o dia inteiro e ainda consegue dar show na balada à noite. Imagino que tenha mais cafeína que as outras, não sei.  Poderia testar com outros tipos em nome da ciência, mas quem merece uma insônia daquelas? Tô fora. Para hidratar, melhor água e frutas, que eu adoro.

O engraçado é que agora nem mais podemos dizer que se trata de "caloria vazia", afinal esta coca-cola não só é vazia de caloria como ainda traz um menu de vitaminas (é como você tomar refrigerante e uns comprimidos de complemento nutricional). E, como é o caso do sucrilhos e de tantos outros alimentos vitaminados, das duas, uma:  ou você se entope de vitaminas arcando com os prejuízos da superexposição ou você está pagando por um complemento que vai todo para o ralo. Eu tenho mais medo do primeiro caso, mas o segundo é também um crime contra a economia popular pois está pagando por algo que não aproveita.  E ainda tem a questão de ser muito doce. Tanto faz com açúcar ou adoçante, o excesso de doçura faz com que nosso paladar seja forjado a achar que um suco de laranja mereça uma colherada de açúcar (pode reparar nas lanchonetes). E o fato de ser adoçante, tanto pior, afinal ninguém pensa quando está tomando um refrigerante em somar tudo o que consome com adoçante ao longo do dia para saber se está ainda dentro da faixa segura de consumo. E ao longo dos anos? Lembremos que ainda não houve tempo para estudos de longo prazo. Pode ser tarde demais quando se conseguir provar os malefícios mesmo nas quantidades ditas seguras de  adoçantes e outros antes, especialmente para as crianças e adolescentes que começam a ter acesso a tudo isto tão precocemente. Antes, prefiro evitar.

Aproveitei a garrafa para produzir brotos. Foi só furar para escorrer a água. O resto é igual ao que mostro aqui.  

Um pouco dos brotos usei para refogar em alho e juntar a uns pedacinhos de carne de porco que sobrou do almoço. Juntei ainda a sobra de arroz e fiz um prato único.


terça-feira, 13 de setembro de 2011

Mercado Municipal de Curitiba


Estive no Mercado Municipal de Curitiba em ótima companhia - com as amigas Ana e com a Gina, que me mostraram tudo.

Até agora este foi o mercado municipal brasileiro mais arrumadinho e limpo que já conheci - mas gosto também daqueles mercados com muvucas e bancas antigas. O espaço permanente de orgânicos (parece que é o primeiro e único no Brasil, em mercado municipal, deste porte) é quase asséptico e se destaca pelos produtos industrializados, carnes bovinas e de aves, além de lanchonetes, restaurantes, loja de tecido e de cosméticos. Havia pouca opção em frutas e hortaliças in natura.

Curitiba já teve centrais públicas  de abastecimento  desde o século 19, mas este mercado como se vê hoje, neste local, foi inaugurado apenas em 1958. E as reformas atuais têm deixado o espaço com cara de shopping center. Tirando o setor dos orgânicos, ele tem tudo o que um bom mercado deve ter - bancas de peixes, carnes, frutas e verduras, grãos, vinhos e produtos gourmets. Há tantas frutas como o Mercado Municipal de São Paulo (o da Cantareira), incluindo as exóticas e amazônicas, mas uma coisa que chama a atenção é o número de boxes de produtos orientais, atentos à grande colônia japonesa de Curitiba. E tem ainda um excelente espaço para eventos, onde sempre acontecem cursos de culinária gratuitos. Mas tem também lojas que poderiam estar no shopping, como joalheria, confecções, salão de beleza, barbearia, artesanatos de Bali, farmácia etc.

Curitiba estava meio vazia por causa de dois feriados consecutivos no meio da semana. Acho que teria gostado mais se visse o mercado cheio, com mais vida, que deve ser o caso no dia a dia e especialmente no sábado. De qualquer forma, estava em ótima companhia e quero voltar depois.

Veja também a postagem da Gina sobre nossa visita ao Mercado. Deixo aqui algumas fotos.


Debulhando ervilhas


Escolhendo tomates


Tomates escolhidos


Compotas mineiras


Doce de pau de mamão com leite (feito com o caule do mamoeiro)


Há uma loja só com produtos de minas, como estas compotas acima


Frutas como as que encontramos no Mercado de São Paulo


Inusitado: um ovo de avestruz para omelete familiar


O setor de orgânicos


A área de alimentação do setor de orgânicos


Uma das entradas do Mercado

Mercado Municipal de Curitiba
http://www.mercadomunicipaldecuritiba.com.br/

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Um passeio por Curitiba

Não podia deixar de comer em Curitiba: Barreado. Este, à moda da Lapa.
Curitiba, só conhecia de passagem, embora tenha vivido todas as férias de infância no Paraná. Mas era no norte do Paraná, especificamente no sítio dos meus avós. E Paraná tinha para mim um certo efeito libertador. Minha mãe começa a fazer as malas vários dias antes, costurava roupa nova para as crianças e esta preparação toda já ia produzindo em mim uma euforia sem igual. Íamos primeiro de ônibus, depois de trem e, finalmente, de aero-willys azul marinho que agrupava cinco crianças sem cinto no banco de trás.

Mas minha alegria só estava completa quando chegava ao sítio. Ir ao Paraná tinha este significado para mim: andar pelas roças de café, colher milho fresco para fazer sopa com cambuquira, comer batata doce até passar mal, levar sal no bolso para comer com pepinos que meus primos e eu arrancávamos da horta, quebrar as melancias na pedra e comer a polpa com as mãos, era sumir no meio da mata até não encontrar o caminho de volta e ficar gritando por socorro, era ouvir causos de assombração à luz de lamparina contados pela avó acocorada à beira do fogão de lenha com seu pito de palha, era tampar os ouvidos para não ouvir os gritos dos porcos no dia da matança, era dar milho para as galinhas, levar a caneca com açúcar para encher com o leite espumoso e quente direto da teta da vaca, era virar tripas no riacho. Era tanta coisa.

Mas antes de chegar ao meu parque de diversões (para quem vivia na periferia sem espaço, aquilo era um paraíso interminável), havia uma peregrinação pelas casas de outros parentes. Uma tia em Bandeirantes, uns tios em Maringá, primos em Campo Mourão e assim íamos,  falhando um dia na casa de cada um. Ou mais. E, apesar de adorar meus primos, aquilo para mim, de trocar cidade por cidade,  não tinha a menor graça. Até que um dia me rebelei. Devia ter uns 6 anos e me lembro perfeitamente do piti. Quando percebi que entraríamos na casa de uma tia em Maringá (uma das cidades mais lindas do Paraná), eu comecei a gritar e a espernear com toda a manha que tinha: "eu quero ir pro Paraná, eu quero ir pro Paraná!". E, não sabia porque, em vez de se condoerem com minha angústia, todos davam muitas risadas, só depois entendi,  pela minha ignorância em relação à geografia e isto é motivo de piada na família até hoje.  A cena de nada adiantou, mas deixei ali registrado meu protesto, afinal Paraná para mim era a liberdade do campo e pronto.

Esta rotina de passar as férias no sítio se repetiu até eu começar a trabalhar, com 14 anos. Aí, passei a depender de férias que nunca coincidiam com a dos meus pais. Depois veio o sítio de Fartura, para onde meus pais se mudaram. Não era Paraná, mas quase, já que ficava a 8 km da divisa. Voltei a ter a mesma sensação, agora já mãe de Ananda, que não tem a mesma paixão (ela gosta de água!).  Compramos uma chácara ao lado, construímos casa e passamos bons momentos por lá, naquele ambiente não de sítio de lazer mas de uma terra produtiva.  Graças aos meus pais, claro, porque não entendo muito da lida no campo - mas vou aprender. Agora eles ficaram cansados, venderam o sítio  (nós também, afinal sem eles não teria graça) e o que querem é viver na cidade, perto de uma das filhas, em São José dos Pinhais, ao lado de Curitiba. É uma cidade agradável, mas é cidade, não é o Paraná que habita ainda meus sonhos.  Eles levaram umas galinhas que continuam botando ovos amarelinhos, plantaram  uma  horta, compram leite de uma polaca numa chácara perto, fazem o mesmo queijo de leite cru que sempre fizeram no sítio, e ainda moem na hora os últimos grãos do café que produziam em Fartura. Deu um apertinho no peito, mas é a vida seguindo seu ciclo e não adianta fazer birra "eu quero ir pro Paraná". Eles estão felizes assim.

A comida é quase a mesma. Este foi o último frango caipira que veio
congelado de Fartura e foi feito no fogão de lenha

Só chovia, chovia. Então, Ananda quis bolinho de chuva com ovo caipira

É agora aceitar que estão do ladinho de Curitiba, que é uma cidade bonita e elegante, que conserva ainda um pouco de seus pinheiros e de suas prosaicas casas de madeira que não me deixam esquecer deste passado caipira. Para não me sentir presa numa casa de cidade, quero, todas as vezes que visitar meus pais, passear muito pelos inúmeros parques curitibanos para manter sempre viva a luz paranaense dos olhos meus.

Gina, eu e Ana no Mercado Municipal - mas falo dele depois 

Gina é apaixonada por flores. Aqui, à frente do Marcos e da Ananda,
fotografando o jacarandá florido

Foi Gina quem me ensinou que as bolinhas vermelhas do Jardim Botânico
são  frutos da cerejeira japonesa (sakura). Antes de saber, já tinha provado.
Achei uma delícia!
O bom é que além da família, tenho agora amigas blogueiras que conheci pessoalmente, embora a sensação fosse de que já nos conhecíamos há muito tempo. A Gina e a Ana foram ótimas companhias para o passeio ao Jardim Botânico e ao Mercado Municipal e já combinamos  um piquenique para a próxima vez.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Volto na segunda




Estas imagens são do amanhecer em Piracaia, no último domingo, entre 7 e 8 horas da manhã, mas nesta quarta de feriado estou indo para Curitiba e emendo quinta e sexta. Volto então na segunda. Até lá! 

Horta na escola

Que unha feita, que nada. Os professores botaram a mão na terra

A ideia da Jane Reolo, diretora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Antônio Prudente, era de uma conversa com os professores para que fossem motivados a trabalhar com o tema horta junto aos alunos. Como já havia terra nas telhas, o tempo estava bonito e eu levei muitas ervas do meu quintal para ensinar a tirar mudas (veja como aqui), resolvi botar a mão na terra enquanto falava. As professoras tinham unhas feitas do fim de semana, mãos bonitas e macias e então não achei que ficassem animadas a sujá-las.  Comecei eu mesma a mostrar como podemos multiplicar as plantas que temos no nosso quintal ou no vizinho e as ervas que compramos para a cozinha, além de gengibre, capim santo, cará moela, etc. Foi só uma distração enquanto falava e plantava,  e quando vi a turma toda também estava com as mãos na terra (é claro que podem usar luvas, mas eu prefiro sentir a terra).  Em pouco tempo, plantamos tudo, não deixamos espaço para as crianças. Fizemos estufinha com copo plástico em cada muda para não desidratar até que enraíze.  O combinado é que os copos sejam trocados por vidro ou garrafa pet transparente cortada.  Outro acordo é que este foi só o começo de um trabalho coletivo com os alunos para que se sintam estimulados a plantar, colher e comer, que valorizem o trabalho do produtor, que saibam um pouco mais sobre sazonalidade, alimento local etc. Como plantamos ervas perenes, elas poderão ser depois transplantadas para outras áreas verdes da escola, dando espaço para hortaliças, por exemplo. Com as ervas aromáticas os professores poderão trabalhar com oficinas do sentidos, mostrando a diferença de perfumes de cada uma com a planta in natura ou na forma de infusões.  Poderão trabalhar ainda com as ervas como tempero em preparações culinárias simples. E, nisto, se precisarem de mim, estou dentro.

A escola Antônio Prudente fica na vila Brasilândia, um bairro da periferia, onde eu nasci e me criei, por isto aceitei na hora o convite da diretora Jane, ainda mais porque é uma iniciativa independente de quem não fica apenas esperando um grande projeto ser aprovado, uma grande captação de verbas e bla bla (claro, não podemos abdicar da responsabilidade pública).  A Jane pensou e fez acontecer. Ainda que seja uma ação pequena, a gente sabe que mesmo que a terra não esteja adubada o suficiente, ainda que não haja um saco de sementes, é preciso começar a plantar nem que seja uma mudinha que vai enraizar. Suas folhas renovadas vão tornar a terra fértil, seus galhos produzirão novas mudas, suas sementes viajarão com os pássaros e o vento.... E, pronto, comecei a viajar. Mas o importante é que é preciso começar.

Acho que foi nesta hora que me distraí 



A Jane é a diretora sorridente ao lado do menino Nicolas, que  foi o repórter 


O professor de educação física ficou tão animado que retirou da terra uma
amoreira para plantar em local mais adequado
A escola tem até blog:
http://prudenteinforma.blogspot.com/
As fotos, feitas com a minha máquina, são quase todas do Nícolas, o repórter mirim (menos a que ele aparece, que foi tirada por mim).