terça-feira, 24 de março de 2015

As flores podem mudar as pessoas. Nunca pra pior.

Quando começamos a melhorar aquele espaço a que demos o nome de horta, e que para sermos corretos estaria mais para um jardim de utilidades, fomos falar com os vizinhos do muro verde. Eles autorizaram a limpar mas não imaginavam que pegaríamos na enxada pra valer e pra deixar o espaço realmente mudado. Quando perceberam a movimentação vieram reclamar. Disseram que se plantassem árvore iriam cortar e que não deveríamos plantar absolutamente nada grudado no muro deles. Argumentei: mas e se plantássemos capim santo (sempre ele, santificado seja)? Não, vai juntar lixo, vai tapar a saída d´água. - Mas e se plantarmos então hortelã que é rasteirinha? - Deus me livre cheiro de hortelã no nariz, não gosto nem de quibe. - Mas, mas, mas... Não teve acordo.

E aí, aos poucos os cosmus da horta foram dando flores, sementes. Aos poucos fomos mantendo aparada a grama beirando o muro ao mesmo tempo que eu ia, como quem não quer nada, como se fosse coisa espontânea, espalhando sementinhas de cosmus bem rentes ao muro. Aos poucos foram abrindo florzinhas e mais florzinhas. E o hoje torna o caminho tão agradável.

Antes era assim. Veja o canteiro onde hoje plantamos capim santo - foto lá em cima
(era tomado de braquiária em moitas)
O caminho hoje. E os vizinhos não reclamaram mais. 
Com o boato de que havia moradores contra a horta, tomei coragem, chamei minha vizinha de parada e lá fomos nós bater na casa do muro verde para saber se estava tudo bem, se estávamos incomodando, se estavam chateados com a horta. Qual foi nossa surpresa quando a moradora disse que não, que estava tudo certo, não incomodava em nada. Ufa! Só tinha um problema.. Putz, lá vem. - Vamos reformar o muro e talvez tenhamos que mexer um pouco nas flores, mas o pedreiro já disse que vai dar pra protegê-las com plástico. Saímos de lá aliviadas, felizes.

O poste com a lixeira e o caminho que não havia
O poste com a lixeira (escondida) e cisterna e o caminho com grama e flores



Outra situação: cheguei em Euclides da Cunha, Bahia,  para dar oficinas para as merendeiras e a primeira coisa que vi foi um jardineiro capinando todas as flores. Comecei a fotografar e achei o homem com cara de bravo. Parei de tirar fotos e fui conversar com ele. - Eu só estava tirando fotos porque acho tão bonitas estas flores. Por que está arrancando? - Não é flor, não. É mato. - É mato, mas tem flor e é tão bonita, tem tanto dela por aqui. Acho linda. - Ié? ele indagou. - Embeleza a escola, disse eu. - É, até que é, mas pediram pra tirar e eu obedeço, né? - O senhor podia deixar ao menos um canteirinho... - Não, pediram pra deixar o terreno limpo.

Este páteo era forrado de flores que foram substituídas pela nudez escancarada
E ele continuou a capina por todo o período em que estive lá. No dia seguinte, quando estava na cozinha, alguém me chamou. - Estão chamando a mulher. É o jardineiro. Fui até a porta e o jardineiro, fiquei sabendo que se chamava Pelé, já foi cumprimentando e contando a novidade feliz. - Ó, eu falei com o homem que a mulher gostava das flozinhas e ele deixou ficar este canteirinho. E não é que ficou bonito mesmo? - Fiquei emocionada, claro. 

O Pelé começou a achar bonitas as florzinhas de Turnera subulata, que em Uauá é conhecida como "malva branca",  e em Euclides, de mato. Todas as merendeiras a conheciam como mato.

Pelé disse que achou bonito o canteiro que conseguiu deixar graças ao meu pedido

Perguntei pra elas a diferença de flor e mato. - Mato é a planta que não tem nome, igual pé de pau.  Em alguns lugares é chamada também de chanana. Expliquei que toda planta tem nome e sobrenome, o que acontece é que às vezes a gente não sabe.

Arrumei o beiju com as flores de mato e o café antes de começarmos os trabalhos




segunda-feira, 23 de março de 2015

Capim Santo da Discórdia. Por que é tão difícil fazer uma horta comunitária?

Empenho coletivo para o bem comum - nem sempre bem aceito
Quando comecei com vizinhos da rua a cuidar do espaço a que demos o nome de horta comunitária não imaginei que isto pudesse causar tanta indignação, tanta contrariedade. O que fizemos, de início, foi limpar um espaço abandonado, tirar o lixo, o entulho, resto de podas, pratos com água empoçada, pedaços de computador etc, e substituir a braquiária alta por manjericão, boldo, capim santo, alecrim, flores, pimentas etc.
A Juliana se mudou pra nossa rua no sábado e no domingo já era uma hortelã

Com isto, os vizinhos da minha rua passaram a participar, passamos a nos conhecer melhor. Mesmo quem não participava dos mutirões levava mudinhas, enchia a cacimba de água e aos poucos o grupo foi ficando maior e mais animado, a ponto de atrair amigos de outros bairros para ajudar na construção de um local gostoso dentro de uma cidade quase sempre hostil. Fizemos canteiros baixos e abertos para que todos pudessem entrar e colher ervas aromáticas e medicinais, instalamos uma cisterna para que os vizinhos depositassem ali água de lavagem de verdura - a cisterna é, na verdade, um galão de água com tampa. Deixamos do lado um funil e um regador. Quando a terra está seca qualquer um pode ir lá, pegar o regador, abrir a torneira do galão e regar a horta. E levei pra lá minha caixinha de abelhas jataís.

Instalamos também uns tocos que encontramos jogados em outra rua para que as pessoas pudessem usar como banco. Antes não havia calçamento na parte de cima e as pessoas tinham que passar pela rua. Abrimos espaço, plantamos cosmus e hoje passam por uma passarela de grama com flores. Achamos que a satisfação entre os moradores do bairro era geral.

Mas tudo isto começou a incomodar (como os bancos da praça também incomodam) e ficamos sabendo que havia denúncia da horta no Ministério Público (como se não houvesse mais nada com que se preocupar nesta cidade).  Não sei com que argumento. A gota d´água foi quando resolvemos plantar capim santo no meio da calçada num espaço de terra que já existia, todo quebrado e tomado por braquiária. Alguns vizinhos da rua de baixo que sequer passam por ali começaram a implicar - mesmo não tendo quebrado nada. O que fizemos foi expor a calçada mal cuidada. Ou seja, só trocamos capim braquiária por um capim mais útil (já que o capim santo é a erva mais colhida na horta, a ponto de terem acabado com a muda). Pensamos que se plantássemos bastante, teríamos capim santo para todos sem risco de acabar, até para os vizinhos da rua de baixo. Fiz várias mudas de capim santo com as moitas que ganhei da amiga Juliana, de Holambra, como mostrei aqui: http://come-se.blogspot.com.br/2015/02/capim-santo-para-plantar.html.  No local da calçada que estava quebrado nós fizemos um mosaico de placas de concreto para que o lixeiro tivesse melhor acesso. E plantamos no que havia de terra.

Nossa surpresa foi quando neste sábado a primeira página do jornal de bairro, editado por uma vizinha da rua de baixo, estampava a horta com o canteiro de capim santo com a seguinte legenda-crítica:  CALÇADA VIRA HORTA NA CITY LAPA - Alguns moradores usam area (sic) verde da Rua Barão de Itáuna com João Tibiriçá para plantio de chás e ervas. Nem a calçada escapou. O grupo plantou até no meio do passeio no momento de debate de mobilidade urbana. Nunca tinha visto isto no jornalismo, mas a foto ocupava a maior parte da capa sem, no entanto, remeter a matéria alguma dentro do jornal, deixando a entender que havíamos quebrado a calçada para plantar. Sorte nossa que tenho mania de fotografar tudo.

A amiga Maria Helena e o canteiro abaixo,
com braquiária, provando que não quebramos
nada
Mas ontem encontrei a editora e fui querer entender a birra e o que ela diz, como editora do jornal e membro da associação de moradores, é que há muitas reclamações sobre a horta. Como não há nenhum argumento contra a melhoria do espaço, a briga agora é por causa do capim santo que pode "espetar" a perna de quem passa. Você já sabe o tamanho que pode atingir uma touceira de capim santo? me perguntou a editora.  Claro que sei e tudo depende de manejo.  Isto num momento em que a prefeitura preconiza a implantação das calçadas verdes. Isto, sem perceber que no fim da calçada não há rebaixamento para cadeirantes. Isto sem notar que na parte de cima nem calçada há - a passagem que agora é usada pelos pedestres é sempre mantida com grama baixa por nós. Antes, passavam pela rua.

Saí da discussão sem entender o porque da implicância. Cheguei a perguntar se ela sabia quem se incomodava e um senhor (acho que é o marido dela) se adiantou com arrogância e disse: Eu me incomodo! Como guardiões da moral e do bom costume legalista do bairro, disseram que deveríamos ter uma autorização oficial da prefeitura (e só temos a palavra do sub prefeito de um ano atrás concordando, e temos isto gravado). Sorte que eu estava acompanhada do grupo de vizinhos da minha rua que se revesa e se junta nos cuidados da horta. Mas foi um bate-bocas infrutífero que me deixou triste, muito triste.  Gostaria que eles se juntassem a nós, que participassem do mutirão, que ficassem felizes por estarmos cuidando de um espaço que pertence a todos, que tomassem bastante chá de capim santo para abrandar as tristezas, curar as invejas, banir as coisas ruins da alma. E quem sabe até o que falta não é botar a mão na terra, resgatar um pouco da humanidade.

Eu sei que toda minha rua e todos os amigos de longe nos apoiam, mas às vezes algumas poucas vozes contra têm um peso muito grande. Dá uma vontade de largar tudo e ficar em casa meditando, dá uma tristeza imensa, uma vontade de chorar. Mas eu sei que não é o melhor caminho. Vamos continuar a cuidar do espaço. E vamos pegar assinaturas de apoio.  Quem quiser se engajar no apoio, será de grande ajuda.

Se um dia chegar uma notificação do Ministério Público ou da subprefeitura para desmanchar tudo, vou chamar os amigos, armar cadeiras em volta e assistir à destruição. Voltaremos a ter perto de nossas casas (das nossas e da deles) o velho ponto viciado para descarte de entulhos, restos de poda, de sofá e geladeira, cocôs de gente e de cachorros, pratos de trabalhos para santos com água empoçada escondidos no mato da esquina (coisa que tiramos quase toda semana) e sem nenhuma graça, nem capim santo. Por que, meu Deus, por que tanta intolerância, num mundo com tantos outros inimigos em comum?











No começo era assim, com mato alto, entulhos e sem espaço para passar. Aqui,
as vizinhas Ana Cristina, Rose e a outra Ana.
Dona Leda, outra vizinha que nos apoia


Nunca mais vimos entulho na calçada. Estamos todos os dias presentes

O matagal que era quando resolvemos limpar

Os primeiros mutirões - onde está o mato no meio é agora uma passarela verde 

Hoje a passarela tem flores
Mais de 1,20 m de calçada
A Dendê visita a horta comido todos os dias 

Bernadete, a vizinha da frente da horta, também nos ajuda 





sexta-feira, 20 de março de 2015

Oficina com as merendeiras do sertão do São Francisco. Macarrão, por que não?

Ei-las orgulhosas do feito, com a massa quentinha. De Euclides da Cunha - BA
Não tinha a mínima vontade de incluir o macarrão entre os preparos da oficina para merendeiras. Mas isto foi ainda no ano passado antes de visitar algumas escolas em Uauá e redondezas. A aí me lembrei também das bacias com macarrão que vi em Acrelândia. A massa era colocada nos pratos das crianças como um grude, retirada com outro prato como se fosse uma pá que tinha que ser batida pra soltar a pasta. Nenhum dos macarrões que vi até hoje nas escolas tinha um aspecto apetitoso. 

E macarrão é prato apreciado em todo o Brasil, muitas vezes servido como mistura para o arroz e feijão. Nos lugares do sertão por onde andei não é diferente. Nos restaurantes populares sempre há macarrão como acompanhamento. Quase sempre frio, grudento e apenas colorido de vermelho. Como sardinha em lata também sempre há na merenda. E como molho de tomate quase ninguém sabe fazer. E como manjericão quase nunca é usado como tempero.. Achei que estas combinações dariam bom assunto. E deu. 

Uma unanimidade entre as merendeiras quando se falava de macarrão é que era preciso lavar a massa depois de cozida. Elas reclamavam também que a massa era muito ruim, que se desfazia na água. Então, usamos nas oficinas a massa comum e barata de trigo mole e ovos encontrada nos supermercados.  O segredo é cozinhar a massa em bastante água e cozinhar por último, quando o resto da comida e até o molho já estiver pronto.  Muitas cozinhavam o macarrão em pouca água e com um fio de óleo, lavavam em água fria e o deixava lá no escorredor esperando o molho.  Com todos os truques, ainda virava um grude. Fizemos, então, com bastante água sem óleo, escorremos e já colocamos o molho que esperava a massa, tudo bem quente. As merendeiras se espantaram de ver que não só dava certo, como o macarrão ficava mais apetitoso, soltinho, quente e perfumado com o molho caseiro. 

Aliás, o molho é assunto interessante, pois molho de tomate não é preparo que as mães e avós sabiam fazer, já que não fazia parte dos costumes. E, portanto, não passaram para as filhas, merendeiras.  Então, muitas já aprenderam a usar o molho comprado pronto sem ter a mínima ideia de como poderia ser feito com ingredientes fáceis de encontrar em casa.  Fizemos um molho simples, refogando cebola em óleo, adicionando tomates picados e, como tempero, apenas manjericão. Disse a elas que poderiam usar o urucum caso precisassem incrementar a cor. Algumas estranharam a presença do manjericão, erva mais conhecida como remédio. Mas a maioria gostou muito do tempero inusitado.  A sardinha em lata, opcional, presente como fonte proteica na merenda escolar, foi juntada no final. Em alguns casos, colocamos verduras como o bredo ou rúcula no molho, que é um jeito de incorporar verduras à massa. E é assim a receita abaixo. 

Junto com pratos à base de mandioca 
Em nenhuma escola sobrou macarrão para contar história. Até na oficina para mulheres, em Uauá, que era sobre mandioca, tive que fazer o tal do macarrão.  E mais uma vez, foi pouco.  Pelo menos agora, as que não sabiam fazer podem até ensinar. 

Macarrão com sardinha e rúcula 

3 colheres (sopa) de óleo - use o óleo da sardinha em lata, se for possível
1 cebola picada em cubinhos
6 tomates maduros picados em cubos
1 colher (chá) de sal 
350 g de sardinha em lata cortada em pedaços grandes
1 maço de rúcula ou a gosto – as folhas rasgadas
20 folhas de manjericão
500 g de espaguete
Manjericão para decorar 

Forre o fundo de uma frigideira com o óleo e junte a cebola picada. Mexa e deixe no fogo alto até que elas fiquem sequinhas e transparentes, sem dourar. Junte os tomates, tempere com sal, e cozinhe, mexendo de vez em quando até que os tomates fiquem macios, sem muito caldo, mas sem se desmancharem. Coloque a sardinha e a rúcula e cozinhe rapidamente - só o tempo de aquecer bem. Junte o manjericão. Prove o sal e corrija, se necessário. Enquanto isso, cozinhe o macarrão em 5 litros de água fervente com 1 colher (sopa) de sal, escorra e coloque na frigideira com o molho. Desligue o fogo, mexa para incorporar o molho e sirva com folhas de manjericão por cima


Rende: 8 porções 

quinta-feira, 19 de março de 2015

Oficina com as merendeiras do sertão do São Francisco: a tapioca


Bata beterraba com água no liquidificador, coe no pano e despeje sobre a fécula de
mandioca (polvilho doce) ou goma. Espere pelo menos três horas

De início achei muito atrevimento meu incluir tapioca entre os preparos da oficina para as merendeiras. Mas a meu favor tinha a desculpa de que mostraria como tornar tapiocas mais nutritivas, já que é feita basicamente de amido. Queria mostrar que além de coloridas as tapiocas poderiam ficar mais nutritivas, bastando hidratar a fécula com suco de cenoura, de beterraba etc. Porém, para surpresa minha,  muitas das merendeiras já não sabem mais fazer tapioca em casa e as que fazem compram a goma já hidratada. 

A tapioca vem sendo substituída pelo pão, mais prático, talvez mais barato. Há várias padarias de fundo de quintal em Uauá, por exemplo. É sempre o mesmo tipo de pão, muito gostoso, mas de farinha branca, com fermento industrial. E fazer pão em casa não faz parte dos costumes. As mães e avós faziam cuscuz e beiju e não pão. Por isto, ninguém sabe fazer além dos padeiros, que, por outro lado,  não sabem fazer fermentação natural - mas isto é assunto para outro post. 

Então foi importante ter trabalhado com a tapioca para que elas pudessem ter a chance de voltar a aprender e a ter vontade de fazer em casa. Algumas poucas sabiam e ajudavam as outras. Mostrei que as tapiocas podem ser fininhas em vez de grossas (menos calóricas, portanto) e que não precisa ficar apertando a goma enquanto cozinha. Mostrei que a goma pode ser peneirada diretamente sobre a frigideira que tem que estar bem quente. E que isto tem que ser feito rapidamente para que os grânulos grudem antes de secar. E que os discos podem ser virados no ar para dar mais graça ao preparo (e isto todas queriam fazer, até aprender). E que as tapiocas prontas podem ser guardadas entre dois pratos para conservar a umidade e flexibilidade até o momento de servir. E que o jeito mais seguro de hidratar a goma é cobri-la de líquido e deixar que absorva quanto for necessário para que a tapioca fique bem úmida e flexível (basta jogar depois de algumas horas a água que ficar acima da goma e enxugar com pano seco, deixando-o para absorver o excesso de umidade até que reste um torrão sem brilho - aí é só salgar e passar os torrões diretamente na peneira sobre a frigideira). 

Já mostrei os dois jeitos de fazer tapioca, hidratando na hora ou com bastante líquido,  aqui e ali. E um vídeo aqui:  

As merendeiras se empolgaram para aprender a virar a tapioca, gostaram de saber das cores e fizeram recheios com o que tínhamos por perto. 

Veja aqui a empolgação quando conseguiam virar. Nos dois últimos vídeos, a merendeira tenta até que consegue.










E seguem fotos do preparo:

Aqui, água de cenoura, de beterraba, de capim santo e água pura

Recheio de banana da terra com queijo de leite de cabra


Com coco ralado fresco molhado com leite de coco e açúcar


Capim santo com recheio de coco

De cenoura com queijo de leite de cabra 

De beterraba com coco fresco


quarta-feira, 18 de março de 2015

Aromas e sabores da Caatinga


Como disse ontem, conseguir ingredientes para as oficinas para merendeiras nem sempre foi muito fácil. A parte mais difícil eram as ervas. Queria mostrar vários usos para elas, já que a maioria das plantas aromáticas são usadas mais para chás curativos que para condimentar.

O tempero verde mais usual é o coentro e mesmo assim, fora dos dias de feira e longe dos produtores, é difícil conseguir. Manjericão, capim-santo, hortelã, manjerona, hortelã gorda e outras ervas têm uso restrito na cozinha - usam mesmo para remédio. Se bem que hortelã gorda é apreciada na carne.

Mas tive a sorte de encontrar merendeiras sensíveis e mesmo não usando as ervas na cozinha traziam as ervas do próprio muro (dizem muro quando se referem ao que entendemos por quintal). As ervas da cesta da foto vieram todas numa grande sacola de plástico que soltou um bafo de perfume quando foi aberta. Não sei se é o clima, mas as ervas parecem ser muito mais fragrantes.

Amburana-de-cheiro nunca tinham ouvido falar que poderia ser usado como tempero e ficaram surpresas com o sabor do arroz doce feito com as sementes. Manjericão no molho de tomate? Coisa estranha, acharam. Mas gostaram.

Velame, o tempero do bode: dizem que a carne de bode de Uauá é super saborosa porque o bicho se alimenta de uma erva chamada de "velame" (Croton heliotropiifolius). A erva é usada também para colocar entre a carne que se vai transportar. Muito velame vem pra São Paulo junto à carne de bode que as mães mandam para os filhos, fiquei sabendo. É para não estragar, não ficar com cheiro forte.  Colhi um pouco na beira da estrada, já que a erva cresce na Caatinga espontaneamente. As folhas são pilosas, ásperas e ninguém usa como tempero. As que trouxe, lavei bem, sequei e guardei. O perfume lembra um pouco a hortelã e o alecrim, por isto pretendo usar para temperar a carne do bode, já que a carne que vou comprar por aqui certamente não vem já temperada com velame, como é o caso da carne de Uauá, realmente muito boa (o único senão é que prefiro carne ensopada e por lá a preferência é por carne frita ou assada até que fique bem sequinha gostosa também).

Chá de flor de catingueira: um dos chás que se toma também por distração, além do efeito medicinal, é o de catingueira ou pau-de-rato (Poincianella bracteosa). Usam tanto as folhas jovens quanto as flores e casca, todos aromáticos. Já foi mais comum como substituto do café, mas hoje está em desuso. Dona Maria Helena tem um barzinho em Bendegó, povoado de Canudos (foi lá que caiu no século 18 o maior meteorito já encontrado em solo brasileiro) e parece ser o único lugar a servir o chá comercialmente. Ela vende a porção em copo de plástico (eu sempre peço o de vidro) por 50 centavos e já vem docinho. É uma delícia. Perguntei se já tinha provado com limão. Disse que não. Provamos na hora, ficou muito bom. Perguntei se já tinha pensado em servir o chá gelado. Ela disse que não, mas ficou curiosa. Ia experimentar. A primeira vez que provei foi na casa de Dona Joana.  Desta vez, trouxe um tanto, higienizei e sequei a 40 graus. Guardei para tomar quando bater a saudade do sertão.


Limãozinho: na cidade de Curaçá, que fica na beira do São Francisco, uma merendeira trouxe uma erva surpreendente não só para mim mas para a maioria das colegas. Tinha folhinhas pontudas, flores minúsculas amarelas e perfume de citronela, melissa, verbena, limão-kafir. Recebe por lá o nome de "limãozinho". Disse que nasce espontaneamente na beira do rio na época da chuva. Todo mundo quis beliscar, sentir o perfume, saber pra quê servia. Claro, é uma erva antes de mais nada medicinal, mas já fiquei imaginando num prato com leite de coco e pimenta. Conservei um galhinho comigo até o fim da viagem e já chegou em São Paulo meio capenga. Ainda assim, plantei e todos os dias vou espiar as folhinhas verdes que restaram, pra ver se a planta desperta.  Pelo menos já fui pesquisar e descobri o nome da preciosidade: Pectis brevipedunculata ou capim-limão-de-flor, chá-de-moça, catinga-de-formiga (lembrando que a cabeça da saúva sabe à citronela) e alecrim bravo - além do nome com o qual é conhecido lá por aquelas bandas: limãozinho. Segundo Kinupp, V. F, e Lorenzi, H. no livro "Plantas Alimentícias Não Convencionais", em Manaus a erva é vendida nas feiras livres e é usado como tempero na região amazônica.

Massala da Caatinga: outra novidade que aprendi foi em Sobradinho com as misturas de especiarias.  As merendeiras me contaram no primeiro dia que era comum por lá tanto a "nove misturas", mais usada como medicamento para infarto, para recuperar ou prevenir, composta por espécies aromáticas e medicinais como pixuri, noz-moscada, mostarda, cominho, etc. Mas fiquei interessada mesma foi no "sete misturas".  No segundo dia,  lá estava eu bem cedinho no Mercado querendo saber mais. Conversei com Seu João que me explicou que sua mãe já fazia o "sete misturas" quando ele era criança e o tempero é composto por cominho, grãos de coentro, noz moscada, pixuri, louro, embiriba e erva-doce. É a verdadeira massala da caatinga. Segundo Seu João, pimenta-do-reino e açafrão-da-terra podem ser acrescentados só se o cliente quiser, porque fica mais caro. Trouxe um pouco, é bom demais. As mulheres disseram que usam na carne.

Catingueira 

O chá que fiz aqui em casa -  gelado com folhas de umbu e polpa de fruto de caxacubri

Exibindo foto.JPG
Dona Maria Helena com as flores que usa para fazer o chá que vende no bar


A primeira vez que tomei o chá de folhas de catingueira, na casa da Dona Joana

Vendedora de Nove Misturas e Sete Misturas no mercado de Sobradinho-BA

Ela trouxe capim santo do seu muro 

E ela, manjericão, hortelã, hortelã-gorda etc







terça-feira, 17 de março de 2015

Oficina para as merendeiras: os ingredientes

Outro dia li que um chef estrangeiro veio aqui, achou tudo lindo, tudo ótimo, mas reclamou da qualidade da cereja.

Lógico, a cereja não é nossa e não encontramos a frutinha dando sopa nos mercados por aí. Se ele soubesse disso, teria trazido a própria cereja ou usado nossa pitanga.

No caso do chef, talvez ele quisesse reproduzir aqui exatamente o que costuma fazer em seu restaurante. No meu caso, não. Eu queria mostrar para as merendeiras que elas podem fazer pratos diferentes usando os ingredientes que elas têm por perto, nos quintais ou nos mercados, apenas mudando a combinação entre eles ou variando a técnica. Assim foi também nas oficinas de Acrelândia. Claro, já tinha conhecimento dos ingredientes encontrados em Uauá e vizinhança porque sempre que vou fuço feiras, quitandas, praças, bosques e quintais. Por isto, pude levar daqui apenas a apostila com receitas sem medo de não encontrar os ingredientes por lá. Também não levei utensílios. Teria que usar o que todas elas tivessem facilidade de encontrar ou ter em suas cozinhas.

Está certo que alguns ingredientes a gente só encontra nas feiras e com os produtores, mas isto também é divertido e faz parte do aprendizado, afinal não é só elas que querem aprender. A troca é fundamental.  Em alguns casos, me vi sem encontrar um ingrediente ou outro, como jiló, abobrinha, hortelã etc, que são comuns nas feiras semanais. Nos dias sem feira as quitandas atendem com alguns itens, mas geralmente não estão em boas condições. Então a saída é procurar fulano ou sicrano pra ver se tem no quintal, ou encomendar dos produtores quando se têm a oportunidade de encontrá-los pela cidade.

Em compensação, a gente vai encontrando ingredientes que não estavam na programação e eles acabam sendo incorporados em receitas de última hora. E aprendendo sobre eles, conhecendo outros.  Em alguns casos chegava para um grupo e explicava como poderíamos fazer e elas rapidamente assimilavam e entregavam o prato pronto com o ingredientes que havia encontrado por acaso. Nada de muito complicado, mas aquelas merendeiras, como já disse aqui, são acostumadas a fazer milagres para sobreviver na adversidade dentro das "cozinhas" escolares.

E assim, antes de cada oficina, era uma verdadeira caçada aos ingredientes. Só na primeira da série tive sorte de pegar dia de feira. Aí foi covardia. Mas, depois, era um tal de pega pimenta com uma, requeijão com outra, tempero com outro. E tudo aquilo que ia aparecendo pelo caminho.

Em Sobradinho, ficamos, Roseli e Eva que foram me ajudar e eu, num hotel à beira da estrada, em cima de um posto de combustível. Faltavam alguns itens para o segundo dia. Havíamos passado no mercado municipal mas não era um local farto em frutas. Já íamos deixando o hotel quando avistei um muro com mangueiras carregadas. Consegui erguer a Roseli, que é magrinha, e ela colheu muitas mangas verdes que usamos para sucos e saladas.

Outro fato curioso é que tanto em Euclides da Cunha como em Sobradinho e Curaçá, as merendeiras trouxeram ervas de suas casas. Quando olhavam a apostila e percebiam que não havia na mesa de ingredientes a erva pedida, sem que eu pedisse,  sumiam e reapareciam com a tal erva nas mãos. Ou, quando falávamos de tempero, alguém já prometia trazer no outro dia. E isto foi fato recorrente. Trouxeram capim-santo, hortelã, hortelã-grossa, limãozinho, manjericão etc.

Mas veja algumas fotos:

Mangueiras para as mangas verdes

Mangas verdes para o suco e salada

Roseli me ajudou bastante. Achava estranho meus métodos, mas se acostumou 

As frutas, ía comprando pelo caminho. Aqui, umbu.
O requeijão foi usado no lobozó
A preciosidade "vinagre de umbu" em garrafas reutilizadas,  ainda com rótulo 
Temperos de todo tipo na feira. Os comuns, indianos, além de pixuri, amburana etc
Melancia para o gaspacho
Dona Margarida cultiva pimentas