sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Caju na cidade de São Paulo



No aniversário de São Paulo li sobre os cajus no blog do Dória, nas palavras de 1587 escritas por Gabriel Soares de Sousa. E pensei nos poucos cajueiros que conheço do meu bairro, City Lapa. Ano a ano observo suas flores miúdas e rosadas que despontam no fim da primavera, que atraem centenas de abelhas, talvez até as minhas jataís, e que depois melam com as chuvas de verão para cairem todas em seguida. Mais alguns meses e folhas vermelhas surgem e logo vêm as flores que melam, murcham e caem. E o ciclo assim se faz sem nunca vingarem frutos.

Mas, ontem, resolvi voltar do curso a pé, sob chuva forte, quando as árvores ficam ainda mais bonitas e limpas, e,  como que por magia por ter pensado neles, avisto o pequeno arbusto carregado de cajus em formação, vingadinhos, já no ponto de maturi. A vontade era ficar ali pajeando, fotografando e pintando aquarelas até a chuva passar, até que a perinha crescesse mais que a castanha, ficasse suculenta, vermelha, doce, perfumada. E nhac! No mesmo dia, à tarde, quando andava com a Dendê, arrastei-a à força sobre o mato molhado de uma outra praça para conferir se naquele outro cajueiro também vingaram cajuzinhos. Qual nada, tudo igual, ano após ano. Restos de flores murchas era o que havia.

Em São Paulo não há caju porque não é seca e quente o suficiente, já tinha aceitado isto como verdade. E agora me ponho a pensar: o que terá acontecido àquele pequeno cajueiro que, assim, do nada, resolveu perpetuar a espécie mesmo em condições adversas. Um mutante que vale a pena multiplicar. Espero conseguir ao menos uma semente do dito cujo, ops, dito caju.



Agora, veja como o fruto foi descrito pelo viajante holandês Johann Jacob Nieuhof:

"Nada é tão procurado entre os brasileiros como o caju, espécie de maçã selvagem que lhes proporciona ao mesmo tempo alimento e bebida, pois que é muito suculento [...]. A árvore produz um fruto duplo, que consiste em uma maçã e uma castanha. A maçã tem formato oval e é muito suculenta; sua polpa é esponjosa, cheia de caroços e de gosto picante [...]. Prepara-se a castanha torrando-a em cinza e depois quebrando-se a casca com martelo. Come-se a polpa cujo sabor é melhor que o da castanha comum e conserva-se perfeita durante vários anos. Os brasileiros gostam tanto dessa fruta, que chegam a brigar por sua causa [...]" NIEUHOF, Johann. Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil (1640-1649). São Paulo, Martins Editora, 1942. p. 299-300


Alguém conhece outro cajueiro que dê cajus na cidade de São Paulo? Fiquei curiosa.