
Pois é, só a Alessandra acertou a
última charada. Não é ruibarbo, não é tiririca, nem chalotas das roxas e muito menos rabanetes. Mas mesmo assim obrigada aos leitores que arriscaram.
Trata-se da espécie Eleutherine bulbosa, que uma amiga, a Sueli, me trouxe da terra dela, Jacupiranga-SP, no Vale do Ribeira, onde é conhecida como nhambutitana ou jabutitana e é usada para diversos males, mas também para comer de brincadeira. Segundo Sueli, quando era criança, aproveitava para assar no forno junto com batatas-doces, para aproveitar o calor. Ou apenas cozinhava com sal. Mas me contou também que não conhece uma receita culinária em que o bulbo aparece. Não era comida, era diversão. É como ingá ou destas frutinhas que se come pra alegrar a boca. Mas antes de comer, fui atrás de saber mais. Com o nome científico, se tiver curiosidade, vai encontrar no Google Acadêmico inúmeros trabalhos na área de fitoterapia, falando dos princípios ativos - naftoquinonas, eleutherinona, eleuterina, isoeleuterina e eleuterol -, e suas propriedades como antifúngicos, antileishmaniose, antibacteriano, antitumoral etc. No livro "Plantas Medicinais no Brasil - Nativas e exóticas", do Harri Lorenzi e F.J. Abreu Matos, a espécie, conhecida também como marupari, marupazinho, marupá-piranga, palmeirinha, lírio-folha-de-palmeira ou wá-ro, é descrita como herbácea bulbosa e rizomatosa, nativa da América tropical, incluindo os campos secos da Amazônia brasileira. Os autores falam da facilidade de se multiplicar através dos bulbos tornando-se erva-daninha, fala que durante o inverno, nas regiões sul e sudeste, ela perde a parte aérea (quando seca, é hora de colher, segundo a Sueli, e não precisa mais plantar, que sempre sobrarão batatinhas no solo). Dizem que o hábito de usar a planta como medicina caseira vem dos índios - para diarreia, problemas gástricos e vermes, entre outros usos -, e que não tem comprovação científica. Mas não cita o uso do bulbo como alimento, o que me fez buscar outras literaturas.
De fato, você vai encontrar muita bibliografia a respeito desta planta com bulbo escamado como uma pequena cebola roxa (mas as folhas não são como as da cebola, em caninho, e sim retas e plissadas longitudinalmente como as de uma palmeira), mas sempre falando das propriedades medicinais ou do pigmento avermelhado - diferente da antocianina da cebola roxa, que descolore com o calor da cocção, neste caso o pigmento persiste tingindo o caldo em que é cozido num tom lindo rosado. O pigmento já é explorado comercialmente e a planta é cultivada em vários países fora da América.
Se não encontrei referências a ela como alimento, também não encontrei trabalhos dizendo que a planta poderia ser tóxica se consumida. Já estava quase desistindo da pesquisa, quando me deparei como a seguinte informação neste site : Eleutherine bulbosa, Sisyrinchium bulbosum, Galatea bulbosa - Family: Iridaceae - Lagrimas De La Virgen, Yahuar Piripiri - Origin: Central to South America - A low-growing plant (1 ft tall) with plaited leaves and scented white flowers that open in late afternoon. Can be grown in pot or outside in full sun. In Sabah they use it in cooking and pickling. The bulb is like a miniature red onion and spicy.
Tudo bem que era uma site comercial, mas com esta informação, ficou um pouco mais fácil. E saber que em algum lugar do mundo, além do Vale do Ribeira, se come esta planta foi um consolo. Descobri que na Ilha de Borneu (Malásia e Indonésia) o bulbo pode ser usado na cozinha como uma cebola selvagem. O único nome que descobri para ela foi "bawang tiwai", que quer dizer "cebola tiwai". Mas novamente tudo o que achei com este nome tratava do assunto fitoterapia. Imagino que haja outros nomes asiáticos com que possamos encontrar mais referências do ingrediente na cozinha. Uma receitinha que seja.
Enquanto não descubro (e, claro, qualquer informação de leitor será bem vinda), resolvi fazer a primeira coisa que costumo fazer quando alguém me diz que a coisa é de comer - cozinhar em água e sal. A água ficou com uma coloração linda e o bulbo com consistência macia, mas densa sem ser crocante como uma cebola crua nem mole como uma cebola cozida. O sabor é especial, lembra muito de longe uma cebolinha verde, mas sem a picância. Apenas um quê de amargo. Eu gostei muito. Um tanto, plantei no quintal. Outro, usei para o arroz e o confitado no azeite. Agora é esperar a produção e mais pesquisas. Uma sugestão para alunos de nutrição, biologica, química, bioquímica, engenharia de alimentos. Lembrando que muitas dos nossos alimentos são também medicamentos ou alimentos funcionais.

Nhabutitana e chalotas roxas
Nhabutitana no alho e azeite: cozinhei no vapor e passei no alho refogado. Sal e salsinha pra finalizar.
Nhabutitana com arroz: refoguei os bulbos junto com alho, juntei o arroz e cozinhei normalmente com água e sal.