terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Mirtáceas abandonadas. Cabeludinha, pitanga e uvaia.



Uvaias do ex-nosso sítio em Fartura
Pelo que tenho observado, as frutíferas da família das mirtáceas estão entre as que mais são abandonadas por aí. Talvez por serem plantas prolíferas, baratas e decorativas quando bem cuidadas. Então, bastou uma ligeira fraqueza, um sinal de cansaço pela falta de espaço ou de água, que são colocadas pra fora de casa sem remorso ou piedade nem direito a esperneio. É mais fácil comprar outra muda. E assim nosso sítio já ganhou algumas árvores desta família.




A guapirijuba (Myrciaria glazioviana), também conhecida como cabeludinha ou jabuticaba amarela, é uma mirtácea do mesmo gênero da jabuticaba, com casca firme como uma jabuticaba, com textura aveludada, e uma semente proporcionalmente grande como a da pitanga, sobrando pouca poupa para comer, o que é uma pena, deliciosa e perfumada que é.   Encontramos o pé abandonado junto a um clube da prefeitura aqui no meu bairro. Minha vizinha Ana foi que primeiro a avistou e nos avisou. Fomos lá com o carro. O vaso estava quebrado, mas conseguimos colocar o torrão seco num saco e replantar em casa até o momento de ir definitivamente para a terra, onde agora produz feliz. Já comi algumas frutinhas dela.





Esta pitangueira, encontramos numa praça, à beira de um colapso, sem nenhum sinal vital a não ser um pulso fraco, um verdejar ainda fresco observado através uma arranhadura  (passar a unha no galho é como faço para ver se a planta ainda está verde e viva).  Estava que era pele e osso, ou galho e raiz. Sem nenhuma folha, mal sabíamos se era uma uvaia, uma jabuticabeira ou uma pitanga. Foi levar para casa e regar e as primeira folhas começaram a surgir. Agora já está firme e forte para florir e frutificar na terra livre. De lambuja ainda veio um guaimbé que também vai para o sítio (havia outro vaso de figueira - que se recuperou e já foi para o sítio também).



Em Piracicaba, neste fim de semana, encontramos este vaso com um pé de uvaia jogado à beira de um córrego, totalmente estorricado, mas ainda com folhas. Trouxemos para casa, regamos e deixamos o vaso junto com a pitangueira para logo irem para o sítio.

Ainda em Piracicaba, descobri uma árvore de jambinho pink (Syzygium paniculatum) carregada de frutos. Não estava abandonada à própria sorte na secura de um vaso, mas encontrava-se num estado de pura negligência. Perguntei para um, para outro e ninguém sabia o nome. Apenas os pássaros cantavam felizes pulando de galho em galho em algazarra. Está certo que esta é uma mirtácea exótica e que o fruto não é aquele jambo rosa todo, mas para que tanto desprezo? Ele é docinho, gostoso, é fácil de separar a semente e dá pra fazer compota e geleia.

A sorte é que as mirtáceas parecem ser mais resistentes à seca que ao excesso de água. Eu tinha uma uvaieira no vaso que produziu muitos frutos durante uns três anos.  Um dia fui viajar, choveu muito, ninguém percebeu que o furo do vaso estava entupido. Quando cheguei, a planta estava imersa num lodaçal, já tinha perdido muitas folhas e logo morreu. Já tinha feito geleia e sucos com seus frutos (uma das mirtáceas de que mais gosto - além das pitangas, da feijoa, da jabuticaba, do jambo e de todas elas). Uma grande perda.
As sementes foram para a Argentina. Se não fui interceptada, devem estar
chegando. 

E é incrível como tem gente apaixonada por mirtáceas e até aquelas que se dedicam a fazer coleção delas, como o argentino Marcos que conheci recentemente por causa desta família. Mandei a ele sementes de grumixama e uvaia e aproveitei para tirar do chão algumas mudas de cereja-de-joinvile para mim.

E quem tiver ou vir mirtáceas em situação de abandono, é só me avisar, que, se eu puder, vou buscar.


11 comentários:

alexandre e alana disse...

Elas são abandonadas pois não tem aquela valorização da sociedade e do mercado. Hoje valoriza-se o que é exótico, estrangeiro.

Aqui no sul existe um consenso em valorizar estas plantas nativas !!

Neide, gostaria muito de algumas sementes destas frutíferas.Podes enviar? Pago a despesa do correio.ok

Anônimo disse...

Neide eu não vejo estas frutas a anos, havia me esquecido delas. hoje se tem o habito de falar muito de frutas que não são nativas. inclusive como se fosse um elixir que faz todos tipos de milagres, pra saúde juventude uma baboseira só.E pior custando caro ainda bem que voçê e outros estão resgatando o que é nosso.(Diulza)

Mila disse...

Meu reino por alguns pés dessas frutas tão diferentes lá no meu quintal. Sou apaixonada por plantas mas ainda conheço muito pouco. Por aqui a unica comum é a pitanga.
Abraço.

Neide Rigo disse...

Alexandre e Alana, acho que é isto mesmo. Quanto às sementes, elas estão pelas ruas. As que colhi, já plantei. Acho que agora já não tem mais. O problema de enviar não é exatamente a despesa com o correio, mas são as filas do correio. E como não tenho agência perto de casa, tenho que pegar ônibus de ida, fila na agência e ônibus de volta. Infelizmente aqui em São Paulo tempo é um artigo em extinção. Mas vocês conseguem todas estas mirtáceas e muitas outras no site do Adilson, do Ciprest - ciprest.com.br. A vantagem é que ele tem mudas já grandinhas e tem logística pra mandar pelo correio.

Diulza, é isto aí.

Mila, visite o site do viveiro Ciprest. ciprest.com.br. Tem lá uma coleção enorme de frutas diferentes, nossas e exóticas.

Um abraço,n

Marcos GG disse...

Gracias por la mención: NO PUEDO CREER que se abandonen así esas plantas... no lo puedo creer: ¿sabés todos los esfuerzos que hacen coleccionistas y entusiastas alrededor del mundo para conseguir Cabeludinha (myrciaria glazioviana)? Es una jabuticaba que siempre quise cultivar por el alto contenido de vitamina C y porque es muy bella.

http://www.huertasurbanas.com/2012/08/13/vitamina-c-en-cabeludinha-myrciaria-glomerata-myrciaria-glazoviana/

Una pitanga es más normal, aunque hay que decir que hay gente coleccionando cientos de ellas para dar con las mejores variedades; y la jambos rosada también es muy apreciada en Asia, tengo entendido.

Varios de estos coleccionistas tienen su foco puesto en la restauración del ecosistema. Sin ir más lejos, en Uruguay hay emprendimientos de gente que intenta restaurar el monte indígena, por ejemplo: http://www.guayubira.org.uy/libro1/anexo5.html

¿Esas 3 plantas estaban abandonadas? Es todo parte de la inercia del sistema de consumo que vivimos hace siglos... son frutales que con poco cuidado brindan comida a familias enteras... hay que cultivarlos porque, además de ser fáciles y de excelentes sabores, hacen a la soberanía alimentaria de una Nación.

Cuanto más fácil sea producir comida (y el guayabo serrano-feijoa, pitanga, guabiju, ubajay, uvaia, sete capotes, arazá rojo/amarillo son fáciles de cultivar y sin agrotóxicos), más tiempo libre puede tener una persona para hacer las actividades que más le gustan: arte, ciencia, familia, deportes, etc.

Cultivar árboles es un camino a nuestra libertad, y por lo tanto es un camino de amor a todo. Gracias por tu trabajo y por este blog que es muy visitado desde todas partes del mundo, ayer mismo un australiano lo comentaba, mira esto:

http://tropicalfruitforum.com/index.php?action=search2

Saludos

Patricia Lieko disse...

Olá Neide Rigo, as mirtáceas são valorizadas por poucos colecionadores de frutas. Há um viveirista no RJ especializado nelas.
Esta semana estivemos no Edilson do Ciprest novamente. Foi ótimo, trouxemos mais umas 150 mudinhas diferentes.
Também visitamos o viveiro Saputá, do Helton Josué, colecionador de frutas raras que te recebe no pomar e oferta as frutas para degustação por uma pequena taxa de visitação. A chácara dele fica em Campina do Monte do Alegre e fica como sugestão de passeio para vocês, que estão mais próximos que nós. A esposa dele é sua fã, tal como eu.
Sds,
Patricia Lieko e Waliton, de Goiás.

Emerson Rodrigues disse...

Oi Neide, adorei seu post sobre as mirtáceas, mas procurei no seu blog e não encontrei nada sobre a gabiroba, uma mirtácea que remonta à minha infancia e que era abundante na região de Batatais onde moro, e que, atualmente, não encontro em lugar algum. Lembro-me que os frutos apareciam perto de outubro e novembro e, para nossa alegria, meu pai nos levá-la de kombi aos pastos ao redor da cidade para apanharmos as frutinhas e nos deliciarmos! Adoraria ler um post seu sobre esta frutinha maravilhosa! Um abraço e um feliz 2014 pra voce e familia.

Mazinho, o André Luis disse...

Poxa vida, parece até brincadeira ou história surreal essa tua facilidade em encontrar belas plantas largadas abandonadas por aí...

É muita sorte tua, e delas! Parabéns aí, e boas colheitas!!!

Marcos GG disse...

Hola, disculpá el "fuera de tema" pero no sabía dónde escribir esta pregunta: ¿tenés idea sobre un método mecánico para separar fácilmente la pulpa del guabiju de la cáscara y semillas?

Neide Rigo disse...

Olá, Marcos!
Já experimentou deixar as frutas apodrecerem, lavar e passar por peneira - a polpa apodrecida passará e as sementes ficarão retidas. Eu faço assim com quase todas as frutas com sementes entranhadas.

Um abraço,n

ZEMO disse...

Olá, Neide!
Adoro seu blog!

Por estes dias, os jambinhos rosa da USP estão carregados, e como eu sempre chamei a fruta de jambinho rosa sem saber se era jambo mesmo, muito menos se era comestível, minha esposa andou comendo e dando pras crianças, daí saí correndo atrás de informações e voltei a estes posts "antigos" muito esclarecedores. Tirou um caminhão das minhas costas.
O único detalhe que deixo é que o jambinho rosa ou pink me parece ser outra espécie que não Syzygium myrtifolium, mas sim Syzygium paniculatum com sinonímia Eugenia paniculata ou